quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Javardice, ainda

A coisa tem 1 mês e tal, o Luis Rainha já fez e escreveu o que havia a fazer e a escrever, alguns blogues e jornais abordaram a coisa, mas foda-se, ainda assim não se falou o bastante no assunto e o Sr. José Saramago merece que não o esqueçamos nunca, pois que é uma espécie de vaca sagrada tocada de intangibilidade ética, é seguido e venerado por presuntivos sentido de justiça, clarividência, génio, honradez e lisura; é nosso Nobel, porra. Além de que tenho de ocupar o Corpo de Deus numa merda qualquer, de maneiras que foi assim…

O competentíssimo norte-americano Mike Davis [urbanista marxista, geógrafo marxista, historiador marxista, romancista marxista, divulgador marxista, autodidacta marxista, uf marxista] escreveu no Guardian de 27.Abr.2009 um artigo sobre a gripe A, suína na altura, com o título “The swine flu crisis lays bare the meat industry's monstrous power”, traduzido e publicado por Luís Leiria no esquerda.net em 28.Abr.2009, tradução que o Nuno Ramos de Almeida postou no 5dias.net em 29.Abr.2009, com indicação de fontes e autorias.
Em 28.Abr.2009, o portal do proto e tardocomunista sin permiso [... un proyecto político de crítica de la cultura, material e intelectual, del capitalismo contrarreformado, desregulado, remundializado y reliberalizado del siglo XXI.
Convergemos también en un pronóstico común sobre los peligros del aparente rejuvenecimiento experimentado por el capitalismo contrarreformado en las últimas décadas, que ha multiplicado visiblemente por doquier el poder opresor, destructor y descivilizador de los ricos, esa minoría de eternos insatisfechos, descreadores de la Tierra. Y convergemos finalmente en la común convicción - que nos mantiene a todos en la tradición socialista - de que es urgentemente necesaria una reforma de la civilización que supere a la economía tiránica del capitalismo.
El nombre de sinpermiso es un pequeño homenaje a un cierto Marx, que, precisamente por enlazar conscientemente con lo más viejo - la milenaria tradición revolucionaria republicano-democrática-, nos parece también el más actual
…]
, a cujo conselho editorial o marxista Mike Davis, por coincidência e estranho acaso, pertence, publicara igualmente o artigo, com tradução de Marta Domènech e de María Julia Bertomeu, sob o título “La gripe porcina y el monstruoso poder de la gran industria pecuaria”.
Aqui vai parte dessa tradução castelhana, com o contraste cromático [o Luís Rainha foi o primeio a fazê-lo] que convém ao meu presente propósito - depois, é só comparar [A] com [A] e [B] com [B]:
[A] Hace mucho que los virólogos están convencidos de que el sistema de agricultura intensiva de la China meridional es el principal vector de la mutación gripal: tanto de la "deriva" estacional como del episódico "intercambio" genómico. Pero la industrialización granempresarial de la producción pecuaria ha roto el monopolio natural de China en la evolución de la gripe. El sector pecuario se ha visto transformado en estas últimas décadas en algo que se parece más a la industria petroquímica que a la feliz granja familiar que pintan los libros de texto en la escuela.
En 1965, por ejemplo, había en los EEUU 53 millones de cerdos repartidos entre más de un millón de granjas; hoy, 65 millones de cerdos se concentran en 65.000 instalaciones. Eso ha significado pasar de las anticuadas pocilgas a ciclópeos infiernos fecales en los que, entre estiércol y bajo un calor sofocante, prestos a intercambiar agentes patógenos a la velocidad del rayo, se hacinan decenas de millares de animales con más que debilitados sistemas inmunitarios.
[B] El año pasado, una comisión convocada por el Pew Research Center publicó un informe sobre la "producción animal en granjas industriales", en donde se destacaba el agudo peligro de que "la continua circulación de virus (…) característica de enormes piaras, rebaños o hatos incremente las oportunidades de aparición de nuevos virus por episodios de mutación o de recombinación que podrían generar virus más eficientes en la transmisión entre humanos". La comisión alertó también de que el promiscuo uso de antibióticos en las factorías porcinas - más barato que en ambientes humanos - estaba propiciando el auge de infecciones estafílocóquicas resistentes, mientras que los vertidos residuales generaban brotes de escherichia coli y de pfiesteria (el protozoo que mató a mil millones de peces en los estuarios de Carolina y contagió a docenas de pescadores).
Cualquier mejora en la ecología de este nuevo agente patógeno tendría que enfrentarse con el monstruoso poder de los grandes conglomerados empresariales avícolas y ganaderos, como Smithfield Farms (porcino y vacuno) y Tyson (pollos). La comisión habló de una obstrucción sistemática de sus investigaciones por parte de las grandes empresas, incluidas unas nada recatadas amenazas de suprimir la financiación de los investigadores que cooperaran con la comisión.
Se trata de una industria muy globalizada y con influencias políticas. Así como el gigante avícola Charoen Pokphand, radicado en Bangkok, fue capaz de desbaratar las investigaciones sobre su papel en la propagación de la gripe aviar en el sureste asiático, es lo más probable que la epidemiología forense del brote de gripe porcina se dé de bruces contra la pétrea muralla de la industria del cerdo.
Eso no quiere decir que no vaya a encontrarse nunca una acusadora pistola humeante: ya corre el rumor en la prensa mexicana de un epicentro de la gripe situado en torno a una gigantesca filial de Smithfield en el estado de Veracruz. Pero lo más importante - sobre todo por la persistente amenaza del virus H5N1 - es el bosque, no los árboles: la fracasada estrategia antipandémica de la OMS, el progresivo deterioro de la salud pública mundial, la mordaza aplicada por las grandes transnacionales farmacéuticas a medicamentos vitales y la catástrofe planetaria que es una producción pecuaria industrializada y ecológicamente desquiciada.



Em 29.Abr.2009, José Saramago, marxista português, Nobel da Literatura, assinou, n’ O Caderno de Saramago e no Diário de Notícias, a 1.ª de duas crónicas intituladas “Gripe suína”, sem qualquer menção ao nome de Mike Davis ou uso de aspas que dessem a entender frases, períodos ou parágrafos de urdidura alheia, sem prejuízo da prevenção aos leitores de que a sua compreensão do caso - e, naturalmente, o condensado do seu texto - resultava de observação atenta do que os meios de comunicação social vinham informando sobre o assunto:
«Gripe Suína (1)
Não sei nada do assunto e a experiência directa de haver convivido com porcos na infância e na adolescência não me serve de nada. Aquilo era mais uma família híbrida de humanos e animais que outra coisa. Mas leio com atenção os jornais, ouço e vejo as reportagens da rádio e da televisão, e, graças a alguma leitura providencial que me tem ajudado a compreender melhor os bastidores das causas primeiras da anunciada pandemia, talvez possa trazer aqui algum dado que esclareça por sua vez o leitor.
[A] Há muito tempo que os especialistas em virologia estão convencidos de que o sistema de agricultura intensiva da China meridional foi o principal vector da mutação gripal: tanto da “deriva” estacional como do episódico “intercâmbio” genómico. Há já seis anos que a revista Science publicava um artigo importante em que mostrava que, depois de anos de estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte havia dado um salto evolutivo vertiginoso. A industrialização, por grandes empresas, da produção pecuária rompeu o que até então tinha sido o monopólio natural da China na evolução da gripe. Nas últimas décadas, o sector pecuário transformou-se em algo que se parece mais à indústria petroquímica que à [1] bucólica quinta familiar que os livros de texto na escola se comprazem em descrever…
Em 1966 [1965, enfim...], por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de suínos distribuídos por um milhão de granjas. Actualmente, 65 milhões de porcos concentram-se em 65.000 instalações. Isso significou passar das antigas pocilgas aos ciclópicos infernos fecais de hoje, nos quais, entre o esterco e sob um calor sufocante, prontos para intercambiar agente patogénicos à velocidade do raio, se amontoam dezenas de milhões de animais com mais do que debilitados sistemas imunitários.
Não será, certamente, a única causa, mas não poderá ser ignorada. Voltarei ao assunto.»

Em 30.Abr.2009, n’ O Caderno de Saramago e no Diário de Notícias, a 2.ª crónica, nada de Mike Davis, nada de aspas:
«Gripe suína (2)
Continuemos.
[B] No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um relatório sobre a “produção animal em granjas industriais, onde se chamava a atenção para o grave perigo de que a contínua circulação de vírus, característica das enormes varas ou rebanhos, aumentasse as possibilidades de aparecimento de novos vírus por processos de mutação ou de recombinação que poderiam gerar vírus mais eficientes na transmissão entre humanos”. A comissão alertou também para o facto de que o uso promíscuo de antibióticos nas fábricas porcinas – mais barato que em ambientes humanos – estava proporcionando o auge de infecções estafilocócicas resistentes, ao mesmo tempo que as descargas residuais geravam manifestações de escherichia coli e de pfiesteria (o protozoário que matou milhares de peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou dezenas de pescadores).
Qualquer melhoria na ecologia deste novo agente patogénico teria que enfrentar-se ao monstruoso poder dos grandes conglomerados empresariais avícolas e ganadeiros, como Smithfield Farms (suíno e vacum) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma obstrução sistemática das suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas umas nada recatadas ameaças de suprimir o financiamento dos investigadores que cooperaram com a comissão. Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas. Assim como o gigante avícola Charoen Pokphand, radicado em Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações sobre o seu papel na propagação da gripe aviária no Sudeste asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do surto da gripe suína esbarre contra a pétrea muralha da indústria do porco. Isso não quer dizer que não venha a encontrar-se nunca um dedo acusador: já corre na imprensa mexicana o rumor de um epicentro da gripe situado numa gigantesca filial de Smithfield no estado de Veracruz. Mas o mais importante é o bosque, não as árvores: a fracassada estratégia antipandémica da Organização Mundial de Saúde, o progressivo deterioramento da saúde pública mundial, a mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas a medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma produção pecuária industralizada e ecologicamente sem discernimento.
Como se observa, os contágios são muito mais complicados que entrar um vírus presumivelmente mortal nos pulmões de um cidadão apanhado na teia dos interesses materiais e da falta de escrúpulos das grandes empresas. Tudo está contagiando tudo. A primeira morte, há longo tempo, foi a da honradez. Mas poderá, realmente, pedir-se honradez a uma transnacional? Quem nos acode?»


Em 07.Mai.2009, na Sábado/Blogue de Esquerda, Luís Rainha dá conta, com pertinente e acurada profusão de prova, de que “Algo de estranho se passou no DN”. [Desenvolvimento]

No mesmo 07.Mai.2009 e em sequência, “Gripe suína (1)” d’ O Caderno recebe esta virginal, malcontrita e soberba apostila:
«07/05/09 - Nota: Na semana passada José Saramago escreveu sobre a gripe, então chamada suína. O seu texto, baseado em “alguma leitura providencial” [2], segundo se diz logo ao princípio, deveria ter levado aspas nas transcrições feitas [3] e a citação concreta da fonte donde procediam. Igualmente, a fotografia que acompanhava o texto deveria ter uma legenda que tão-pouco apareceu. Estas faltas, devidas a um problema de conversão [4], em nada atribuíveis a José Saramago [5], tiveram lugar no processo de divisão e reenvío [1] do texto. Fique agora claro que Saramago citava um artigo de Mike Davis (cujo link deveria ter aparecido [3]), publicado na revista digital “Sin permiso” e intitulado “La gripe porcina y el monstruoso poder de la gran industria pecuaria” no qual se informa que a industria pecuária poderia estar criando bases para possíveis pandemias. Mike Davis é autor do livro”El monstruo llama a nuestra puerta” publicado em Espanha por Ediciones El Viejo Topo e traduzido por María Julia Bertomeu, em que se alertava para a gripe aviar [1]. Quanto à fotografia do grupo escultórico com máscara na boca, e publicada pelo portal Yahoo México, mencionava-se que recorda uma cena de “Ensaio sobre a cegueira” quando a mulher do médico entra numa igreja e vê que as imagens têm os olhos tapados. Fernando Meirelles, no seu filme, recolhe essa imagem. Lamentamos que este problema técnico [4] tenha dado lugar a mal-entendidos e, sobretudo, que não tivesse ficado convenientemente reconhecido o trabalho de Mike Davis. Como quer que seja, José Saramago está consciente de que deve desculpas a Mike Davis [6]. Espera que elas lhe sejam aceites [1]

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[1] que se parece à ... reenvío ... gripe aviar ... lhe sejam aceites ... Reitero a suspeita: o Saramago escreve em espanhol e a Pilar traduz para português.
[2]
... seu texto, baseado ..., que descaramento. No conjunto das 2 crónicas, o texto do Saramago ficaria, dando ao Davis o que é do Davis, isto:
«Gripe Suína
Não sei nada do assunto e a experiência directa de haver convivido com porcos na infância e na adolescência não me serve de nada. Aquilo era mais uma família híbrida de humanos e animais que outra coisa. Mas leio com atenção os jornais, ouço e vejo as reportagens da rádio e da televisão, e, graças a alguma leitura providencial que me tem ajudado a compreender melhor os bastidores das causas primeiras da anunciada pandemia, talvez possa trazer aqui algum dado que esclareça por sua vez o leitor. Continuemos. Como se observa, os contágios são muito mais complicados que entrar um vírus presumivelmente mortal nos pulmões de um cidadão apanhado na teia dos interesses materiais e da falta de escrúpulos das grandes empresas. Tudo está contagiando tudo. A primeira morte, há longo tempo, foi a da honradez. Mas poderá, realmente, pedir-se honradez a uma transnacional? Quem nos acode?
»
Denso, eloquente e instrutivo, como se observa.
[3] Ainda estão a tempo das aspas e de fazer aparecer o link, não? Pois, mas a parte de autoria visível do Saramago ia ficar tão mirrada que seria um deslustre para o Nobel.
[4] Que conversão, que problema técnico? Tá bem, abelha.
[5] Nunca por nunca, por quem sois.
[6] E aos leitores, designadamente d’ O Caderno e do DN, não deve nada?