quinta-feira, 30 de Julho de 2009

E dos tachos que o Zé Quitério

tem ó zanos no Expresso ninguém fala? Ah, poizé.

Joana Amaral Dias: toda a verdade sobre o convite

Aqui.

Querem lá ver que o Miguel Portas se passou?

«Decisão da Comissão, de 29 de Julho de 2009, sobre o financiamento de medidas especiais de emergência para proteger a Comunidade da raiva»
- Jornal Oficial da União Europeia, 30.Jul.2009

quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Imaginar a Dra. Manuela Ferreira Leite

numa destas faz-me ter dó; dó da potencial incumbente*.
Acordai**, porra.

PeSaDelo

Ai, Manuela.
____________________________________
* Sicut João Gonçalves.

** A letra é, com o devido respeito***, de um horror risível. Mal acomparando, pede meças ao "parabéns a você", mormente na parte das almas. Entre a dúzia de interpretações disponíveis na net, cada uma mais tenebrosa do que a outra - mal acomparando, o "parabéns a você" não sofre melhor trato -, sinto um fraco irreprimível por esta. Tudo aqui enternece para lá do que atormenta: a música de fundo enquanto, enfileirados, entram em cena os 10 mui garbosos e façanhudos cavalheiros, incluindo o maestro, seguidos do pelotão de 18 maviosas, compenetradas e destemidas damas; até que, num virote, a acústica do museu transita reversivamente de milénio, do quaternário superior para o jurássico de baixo, culminando a coisa num despertador de 5 pontos de reticência e de 4 tonitruantes pontos de exclamação.

*** Que é todo pelos que lutam pela Liberdade e nenhum pelos que, às vezes os mesmos, a cerceiam.

terça-feira, 28 de Julho de 2009

Governação da polis boa

António Costa- Não sou eu que digo, é o quadro que o Tribunal de Contas faz. Comparando a evolução das contas de 2001 a 2005, o resultado é muito claro: na gestão do Dr. Pedro Santana Lopes, as dívidas, o passivo duplicou: passou de 561 milhões para um milhão e as dívidas a fornecedores passaram de 54 milhões para 196 milhões. Ou seja, quadruplicaram. [...] Ou seja, qual é a herança que o Dr. Santana Lopes teve em 2001? Passivo, 561 milhões de euros; dívidas a fornecedores, 54. Qual foi a herança que ele deixou ao professor Carmona Rodrigues? Um milhão de passivo, praticamente o dobro do que tinha recebido; e 196 milhões de dívidas a fornecedores, quatro vezes mais do que tinha recebido. Isto não é uma questão de opinião, quer dizer, é uma questão das contas.*

[...]

António Costa- Eu não quero uma cidade governada pelos carros e para os carros. Eu quero uma cidade governada para as pessoas, pelas pessoas e com as pessoas. E isto significa ter mais espaço público onde as pessoas se possam sentir melhor.
Pedro Santana Lopes- Eu também não quero governar para os carros. Quero governar para as pessoas. Agora, há muitas pessoas, infelizmente, nomeadamente (as de) rendimentos mais baixos que não podem mesmo mover-se, ter a sua mobilidade a não ser de carro, nomeadamente para deixar os seus filhos nas creches, etc. etc. **
___________________________________
* A minha opinião é a de que "561 milhões x 2 = 1 milhão" não passa de uma opinião muito discutível.

** Isto, para não falar das pessoas, infelizmente, nomeadamente de rendimentos mais elevados. Essas não podem mesmo mover-se senão a pé.

Ó Dr. Pedro Santana Lopes, já agora, não é acórdos, como por 6 vezes disse, mas acôrdos. E francamente, doutor, mesmo a um artista pimba como o senhor, à última da hora não assenta bem.

Admirável o que uma pessoa pode dizer de outra

«Alberto Contador nunca admirou Lance Armstrong
Alberto Contador disse ontem que nunca teve admiração por Lance Armstrong, na homenagem que lhe foi dedicada na sede da Comunidade de Madrid.
O espanhol que ganhou o Tour de 2009 e ascendeu ao primeiro lugar do ranking mundial, afirmou: "A minha relação com Lance Armstrong era inexistente. Apesar de ser um grande campeão, nunca tive admiração por ele e nunca terei." […]»*

«[…] Armstrong era o ídolo de Contador. Ou melhor, Armstrong e a sua autobiografia It's Not About the Bike: My Journey Back to Life, onde o norte-americano relata pormenorizadamente a sua luta contra o cancro, foram a inspiração de Contador enquanto estava deitado numa cama de hospital. Estávamos em 2004, na primeira etapa da Volta às Astúrias. […] Contador, então com 21 anos, caiu da bicicleta, em convulsões, depois de vários dias com fortes dores de cabeça, ficando inconsciente na estrada. Depois de uns dias internado, voltou a casa, sem saber o que tinha acontecido. Dez dias depois do primeiro colapso em cima da bicicleta, o susto repetiu-se, sendo-lhe diagnosticado um aneurisma cerebral. "Quando estava no hospital, tive medo de não conseguir viver uma vida normal. O Lance Armstrong foi uma inspiração para mim, li o seu livro no hospital e isso motivou-me", confessou o espanhol na posse do seu primeiro maillot jaune** em Paris, em 2007. "Foi maravilhoso poder voltar a competir" […]»
Público, 27.Jul.2009

«[...] sinceramente, não tenho nada contra a vinda do Lance. Identifico-me com a sua paixão pelo desporto. Ele tem sido um exemplo para mim e tê-lo na equipa só vai motivar-me ainda mais. [...]» - Alberto Contador

Entrevistador- Tiene una biografía similar a la de Armstrong. Los dos vienen de una grave enfermedad. ¿Para ganar un Tour hay que haber vencido a la muerte?
Alberto Contador- No. Muchos lo han hecho si pasar por eso. Aunque, desde luego, tras la enfermedad ves las cosas de modo diferente. Para mí Armstrong es un ejemplo de superación. Su libro me ayudó, me motivó mientras estaba en el hospital. Hay similitudes, pero él ha ganado siete Tours y yo voy camino del primero.
Entrevistador- Lance Armstrong le ha seguido desde el coche del director. ¿Qué le ha dicho?
Alberto Contador- 'Es un honor que me siga'.

«Admiro a Armstrong; su libro me ayudó mucho en el hospital
[...]
Entrevistador- Armstrong y Contador, dos supervivientes.
Alberto Contador- Siempre me he fijado en él. Le admiro una barbaridad. Cuando leí el libro por primera vez no hice mucho caso a los detalles sobre el cáncer. La segunda vez fue en el hospital. Allí sí que lo leí con todo el interés. Me animó mucho. [...]»
Fevereiro de 2006

«Armstrong responde a Contador: “Deixa-te de parvoíces”»
_____________________________________
* O espanhol vírgula.
** Para portugueses menos ilustrados, yellow jersey.

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

«Inigualável

Ah, como fazes bem
a este coração que é pouco
e a esta dor que é sina.
Nada se iguala a ti,
diva dos meus sonhos,
alento da minha vida.
Salvo, talvez, a aspirina.»

- Luís Fernando Veríssimo, Expresso/Actual, 25.Jul.2009

domingo, 26 de Julho de 2009

«[...] para enfrentar o medo não é preciso coragem,

basta dignidade

Repulsa

com pele de cordeiro. [1] [2] [3] [4]

sábado, 25 de Julho de 2009

aspas Jornalismo aspas

«[...]
Magnífico episódio de Os Contemporâneos no passado domingo [19.Jul.2009, RTP]. Por um lado, a rábula com o pato Donaltim entra para a galeria dos momentos antológicos de um humor pedagogicamente empenhado na desmontagem das justiças e injustiças do espaço televisivo. Por outro lado, os vários quadros sobre o jornalismo dos “famosos” tiveram o imenso mérito de lembrar que o imaginário da “fama” não pode ser problematizado a partir de uma visão meramente moralista dos seus protagonistas. Porquê? Porque é fundamental enfrentar a própria questão jornalística. A saber: a abusiva utilização da nobre palavra jornalismo para caracterizar práticas enraizadas num profundo menosprezo pela dimensão humana e que apenas favorecem uma visão pornográfica das pessoas, seus sentimentos e afectos.
[...]»
- João Lopes, Notícias TV, "Justiças e injustiças" / 14.Jul.2009

João Lopes é um contido do caraças. Para mim, todo o programa merece estar num florilégio do humor. Genial, genial.
O que me ri, céus.

Ponto de vista de José Alves Coelho [Expresso/Actual, 25.Jul.2009]

quarta-feira, 22 de Julho de 2009

Em jeito de esclarecimento

«[...] O melhor estava reservado para o final. Ana Paula passa a bola para Ana Rita Clara e "a sua rubrica de higiene íntima". Temi o melhor. Mas não. A jovem apresentadora da SIC, que tem contas para pagar e por isso tem de apresentar estas coisas íntimas, conversava com uma médica sobre assuntos mundanos da intimidade da mulher. O final do esclarecedor diálogo: "Só para terminar, doutora, pedia-lhe uma mensagem, em jeito de esclarecimento." "Bem, em jeito de esclarecimento", respondeu-lhe a médica, "é de dizer que a vulva lava-se de frente para trás". Dormi muito mais descansado.»
- Nuno Azinheira, "Lavagens íntimas", DN /22.Jul.2009

"Operados sem sucesso = 0"

em homenagem ao detective cantor e em louvor da informação inconformada corajosa e contra a evidência do jornal i onde num instante tudo muda o título do poste esteve para ser i muda de mãos mas como sou contra os títulos duplos e também já agora contra a escrita mal pontuada incluindo a despontuada tal como contra a snobeira dos textos em minúsculas e contra o kitsch das composições centradas tive de escolher e optei pelo operados sem sucesso = 0 já o marco paulo aliás mudava vertiginosamente de mão o micro etc

De maneiras que o papa fracturou um pulso. E o consenso fica por aí.
_________________________________________________________
* Em francês, 'poignet droit'.
** Há aqui um manifesto lapso de edição. "... pelo que foi operado também a esse pulso." é o que, obviamente, o jornalista quis dizer.

domingo, 19 de Julho de 2009

Mentirosa como tantos, demagoga como os outros,

feiosa aos meus olhos, a Dra. Manuela Ferreira Leite, que aspira a governar Portugal, é uma calamidade a falar. Oiçamo-la [esta manhã, em Pedras Salgadas], determinada, asseverante, quase soletrando, no seu miserável português:

Se houvesse alguma ponta de vergonha naquilo que os políticos não devem fazer, esta devia ser uma delas
.

esta
quê, qual, quem? delas quais, quem, quê? Mas que vêem o Pacheco Pereira e o Graça Moura na atrabiliária senhora?

PeSaDelo

«Bento XVI irrita e esta sua encíclica, "Caridade na Verdade"

é um texto altamente irritante. É isso mesmo: um manual para o desassossego.»
- José Tolentino Mendonça [padre, poeta e o mais]

Versões integrais em português europeu: aqui [Vaticano]; aqui [Agência Ecclesia].


Respingos dos 79 pontos

«
1 defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e imprescindíveis de caridade.

2 A verdade há-de ser procurada, encontrada e expressa na «economia» da caridade, mas esta, por sua vez, há-de ser compreendida, avaliada e praticada sob a luz da verdade.

3 o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e adulterada chegando a significar o oposto do que é realmente.

4 Um cristianismo de caridade sem verdade pode ser facilmente confundido com uma reserva de bons sentimentos, úteis para a convivência social mas marginais. Deste modo, deixaria de haver verdadeira e propriamente lugar para Deus no mundo.

5 Sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a actividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de globalização que atravessa momentos difíceis como os actuais.

6 A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é «meu»; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é «dele», o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso «dar» ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles.

7 Numa sociedade em vias de globalização, o bem comum e o empenho em seu favor não podem deixar de assumir as dimensões da família humana inteira, ou seja, da comunidade dos povos e das nações, para dar forma de unidade e paz à cidade do homem e torná-la em certa medida antecipação que prefigura a cidade de Deus sem barreiras.

8 É a verdade originária do amor de Deus — graça a nós concedida — que abre ao dom a nossa vida e torna possível esperar num «desenvolvimento do homem todo e de todos os homens» numa passagem «de condições menos humanas a condições mais humanas», que se obtém vencendo as dificuldades que inevitavelmente se encontram ao longo do caminho.

9 O amor na verdade — caritas in veritate — é um grande desafio para a Igreja num mundo em crescente e incisiva globalização. O risco do nosso tempo é que, à real interdependência dos homens e dos povos, não corresponda a interacção ética das consciências e das inteligências, da qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente humano.

10 A releitura da Populorum progressio, mais de quarenta anos depois da sua publicação, incita a permanecer fiéis à sua mensagem de caridade e de verdade, considerando-a no âmbito do magistério específico de Paulo VI e, mais em geral, dentro da tradição da doutrina social da Igreja. Depois há que avaliar os termos diferentes em que hoje, diversamente de então, se coloca o problema do desenvolvimento. Por isso, o ponto de vista correcto é o da Tradição da fé apostólica, património antigo e novo, fora do qual a Populorum progressio seria um documento sem raízes e as questões do desenvolvimento ficariam reduzidas unicamente a dados sociológicos.

11 Sem a perspectiva duma vida eterna, o progresso humano neste mundo fica privado de respiro. Fechado dentro da história, está sujeito ao risco de reduzir-se a simples incremento do ter; deste modo, a humanidade perde a coragem de permanecer disponível para os bens mais altos, para as grandes e altruístas iniciativas solicitadas pela caridade universal. O homem não se desenvolve apenas com as suas próprias forças, nem o desenvolvimento é algo que se lhe possa dar simplesmente de fora.

12 Coerência não significa reclusão num sistema, mas sobretudo fidelidade dinâmica a uma luz recebida.

13 Paulo VI compreendeu claramente como se tinha tornado mundial a questão social e viu a correlação entre o impulso à unificação da humanidade e o ideal cristão de uma única família dos povos, solidária na fraternidade comum.

14 A ideia de um mundo sem desenvolvimento exprime falta de confiança no homem e em Deus. Por conseguinte, é um grave erro desprezar as capacidades humanas de controlar os extravios do desenvolvimento ou mesmo ignorar que o homem está constitutivamente inclinado para «ser mais». Absolutizar ideologicamente o progresso técnico ou então afagar a utopia duma humanidade reconduzida ao estado originário da natureza são dois modos opostos de separar o progresso da sua apreciação moral e, consequentemente, da nossa responsabilidade.

15 A Igreja propõe, com vigor, esta ligação entre ética da vida e ética social, ciente de que não pode «ter sólidas bases uma sociedade que afirma valores como a dignidade da pessoa, a justiça e a paz, mas contradiz-se radicalmente aceitando e tolerando as mais diversas formas de desprezo e violação da vida humana, sobretudo se débil e marginalizada»

16 Dizer que o desenvolvimento é vocação equivale a reconhecer, por um lado, que o mesmo nasce de um apelo transcendente e, por outro, que é incapaz por si mesmo de atribuir-se o próprio significado último.

17 A vocação é um apelo que exige resposta livre e responsável. O desenvolvimento humano integral supõe a liberdade responsável da pessoa e dos povos: nenhuma estrutura pode garantir tal desenvolvimento, prescindindo e sobrepondo-se à responsabilidade humana. Os «messianismos fascinantes, mas construtores de ilusões» fundam sempre as próprias propostas na negação da dimensão transcendente do desenvolvimento, seguros de o terem inteiramente à sua disposição.

18 Escrevia Paulo VI: «O que conta para nós é o homem, cada homem, cada grupo de homens, até se chegar à humanidade inteira»

19 A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos. A razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma convivência cívica entre eles, mas não consegue fundar a fraternidade.

20 A urgência não está inscrita só nas coisas, não deriva apenas da rápida sucessão dos acontecimentos e dos problemas, mas também do que está em jogo: a realização de uma autêntica fraternidade. A relevância deste objectivo é tal que exige a nossa disponibilidade para o compreendermos profundamente e mobilizarmo-nos concretamente, com o «coração», a fim de fazer avançar os actuais processos económicos e sociais para metas plenamente humanas.

21 O lucro é útil se, como meio, for orientado para um fim que lhe indique o sentido e o modo como o produzir e utilizar. O objectivo exclusivo de lucro, quando mal produzido e sem ter como fim último o bem comum, arrisca-se a destruir riqueza e criar pobreza.

22 Também no âmbito das causas imateriais ou culturais do desenvolvimento e do subdesenvolvimento podemos encontrar a mesma articulação de responsabilidades: existem formas excessivas de protecção do conhecimento por parte dos países ricos, através duma utilização demasiado rígida do direito de propriedade intelectual, especialmente no campo da saúde; ao mesmo tempo, em alguns países pobres, persistem modelos culturais e normas sociais de comportamento que retardam o processo de desenvolvimento.

23 há que sublinhar que não é suficiente progredir do ponto de vista económico e tecnológico; é preciso que o desenvolvimento seja, antes de mais nada, verdadeiro e integral. A saída do atraso económico — um dado em si mesmo positivo — não resolve a complexa problemática da promoção do homem

24 Com uma melhor definição do papel dos poderes públicos, é previsível que sejam reforçadas as novas formas de participação na política nacional e internacional que se realizam através da acção das organizações operantes na sociedade civil; nesta linha, é desejável que cresçam uma atenção e uma participação mais sentidas na res publica por parte dos cidadãos.

25 hoje o desemprego provoca aspectos novos de irrelevância económica do indivíduo, e a crise actual pode apenas piorar tal situação. A exclusão do trabalho por muito tempo ou então uma prolongada dependência da assistência pública ou privada corroem a liberdade e a criatividade da pessoa e as suas relações familiares e sociais, causando enormes sofrimentos a nível psicológico e espiritual.

26 não se deve descurar o facto de que esta aumentada transacção de intercâmbios culturais traz consigo, actualmente, um duplo perigo. Em primeiro lugar, nota-se um ecletismo cultural assumido muitas vezes sem discernimento: as culturas são simplesmente postas lado a lado e vistas como substancialmente equivalentes e intercambiáveis umas com as outras. Isto favorece a cedência a um relativismo que não ajuda o verdadeiro diálogo intercultural; no plano social, o relativismo cultural faz com que os grupos culturais se juntem ou convivam, mas separados, sem autêntico diálogo e, consequentemente, sem verdadeira integração. Depois, temos o perigo oposto que é constituído pelo nivelamento cultural e a homogeneização dos comportamentos e estilos de vida. Assim perde-se o significado profundo da cultura das diversas nações, das tradições dos vários povos, no âmbito das quais a pessoa se confronta com as questões fundamentais da existência. Ecletismo e nivelamento cultural convergem no facto de separar a cultura da natureza humana. Assim, as culturas deixam de saber encontrar a sua medida numa natureza que as transcende, acabando por reduzir o homem a simples dado cultural. Quando isto acontece, a humanidade corre novos perigos de servidão e manipulação.

27 Os direitos à alimentação e à água revestem um papel importante para a consecução de outros direitos, a começar pelo direito primário à vida. Por isso, é necessária a maturação duma consciência solidária que considere a alimentação e o acesso à água como direitos universais de todos os seres humanos, sem distinções nem discriminações.

28
há a fundada suspeita de que às vezes as próprias ajudas ao desenvolvimento sejam associadas a determinadas políticas de saúde que realmente implicam a imposição de um forte controle dos nascimentos. Igualmente preocupantes são as legislações que prevêem a eutanásia e as pressões de grupos nacionais e internacionais que reivindicam o seu reconhecimento jurídico.

29 Se o homem fosse fruto apenas do acaso ou da necessidade, se as suas aspirações tivessem de reduzir-se ao horizonte restrito das situações em que vive, se tudo fosse somente história e cultura e o homem não tivesse uma natureza destinada a transcender-se numa vida sobrenatural, então poder-se-ia falar de incremento ou de evolução, mas não de desenvolvimento.

30 O saber nunca é obra apenas da inteligência; pode, sem dúvida, ser reduzido a cálculo e a experiência, mas se quer ser sapiência capaz de orientar o homem à luz dos princípios primeiros e dos seus fins últimos, deve ser «temperado» com o «sal» da caridade. A acção é cega sem o saber, e este é estéril sem o amor.

31 A excessiva fragmentação do saber, o isolamento das ciências humanas relativamente à metafísica, as dificuldades no diálogo entre as ciências e a teologia danificam não só o avanço do saber mas também o desenvolvimento dos povos, porque, quando isso se verifica, fica obstaculizada a visão do bem completo do homem nas várias dimensões que o caracterizam.

32 o nivelamento das culturas à dimensão tecnológica, se a curto prazo pode favorecer a obtenção de lucros, a longo prazo dificulta o enriquecimento recíproco e as dinâmicas de cooperação. É importante distinguir entre considerações económicas ou sociológicas a curto e a longo prazo. A diminuição do nível de tutela dos direitos dos trabalhadores ou a renúncia a mecanismos de redistribuição do rendimento, para fazer o país ganhar maior competitividade internacional, impede a afirmação de um desenvolvimento de longa duração.

33 a caridade e a verdade colocam diante de nós um compromisso inédito e criativo, sem dúvida muito vasto e complexo. Trata-se de dilatar a razão e torná-la capaz de conhecer e orientar estas novas e imponentes dinâmicas, animando-as na perspectiva daquela «civilização do amor»

34 devemos especificar, por um lado, que a lógica do dom não exclui a justiça nem se justapõe a ela num segundo tempo e de fora; e, por outro, que o desenvolvimento económico, social e político precisa, se quiser ser autenticamente humano, de dar espaço ao princípio da gratuidade como expressão de fraternidade.

35 O mercado está sujeito aos princípios da chamada justiça comutativa, que regula precisamente as relações do dar e receber entre sujeitos iguais. Mas a doutrina social nunca deixou de pôr em evidência a importância que tem a justiça distributiva e a justiça social para a própria economia de mercado, não só porque integrada nas malhas de um contexto social e político mais vasto, mas também pela teia das relações em que se realiza. De facto, deixado unicamente ao princípio da equivalência de valor dos bens trocados, o mercado não consegue gerar a coesão social de que necessita para bem funcionar.

36 O grande desafio que temos diante de nós — resultante das problemáticas do desenvolvimento neste tempo de globalização, mas revestindo-se de maior exigência com a crise económico-financeira — é mostrar, a nível tanto de pensamento como de comportamentos, que não só não podem ser transcurados ou atenuados os princípios tradicionais da ética social, como a transparência, a honestidade e a responsabilidade, mas também que, nas relações comerciais, o princípio de gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade podem e devem encontrar lugar dentro da actividade económica normal.

37 é preciso que, no mercado, se abram espaços para actividades económicas realizadas por sujeitos que livremente escolhem configurar o próprio agir segundo princípios diversos do puro lucro, sem por isso renunciar a produzir valor económico.

38 Na época da globalização, a actividade económica não pode prescindir da gratuidade, que difunde e alimenta a solidariedade e a responsabilidade pela justiça e o bem comum em seus diversos sujeitos e actores. Trata-se, em última análise, de uma forma concreta e profunda de democracia económica. A solidariedade consiste primariamente em que todos se sintam responsáveis por todos

39 A vitória sobre o subdesenvolvimento exige que se actue não só sobre a melhoria das transacções fundadas sobre o intercâmbio, nem apenas sobre as transferências das estruturas assistenciais de natureza pública, mas sobretudo sobre a progressiva abertura, em contexto mundial, para formas de actividade económica caracterizadas por quotas de gratuidade e de comunhão.

40 a chamada deslocalização da actividade produtiva pode atenuar no empresário o sentido da responsabilidade para com os interessados, como os trabalhadores, os fornecedores, os consumidores, o ambiente natural e a sociedade circundante mais ampla, em benefício dos accionistas, que não estão ligados a um espaço específico, gozando por isso duma extraordinária mobilidade

41 O espírito empresarial, antes de ter significado profissional, possui um significado humano; está inscrito em cada trabalho, visto como «actus personæ», pelo que é bom oferecer a cada trabalhador a possibilidade de prestar a própria contribuição, de tal modo que ele mesmo «saiba trabalhar ‘‘por conta própria''»

42 Se a globalização for lida de maneira determinista, perdem-se os critérios para a avaliar e orientar. Trata-se de uma realidade humana que pode ter, na sua fonte, várias orientações culturais, sobre as quais é preciso fazer discernimento. A verdade da globalização enquanto processo e o seu critério ético fundamental provêm da unidade da família humana e do seu desenvolvimento no bem. Por isso é preciso empenhar-se sem cessar por favorecer uma orientação cultural personalista e comunitária, aberta à transcendência, do processo de integração mundial.

43 Aparece com frequência assinalada uma relação entre a reivindicação do direito ao supérfluo, se não mesmo à transgressão e ao vício, nas sociedades opulentas e a falta de alimento, água potável, instrução básica, cuidados médicos elementares em certas regiões do mundo do subdesenvolvimento e também nas periferias de grandes metrópoles. A relação está no facto de que os direitos individuais, desvinculados de um quadro de deveres que lhes confira um sentido completo, enlouquecem e alimentam uma espiral de exigências praticamente ilimitada e sem critérios. A exasperação dos direitos desemboca no esquecimento dos deveres. Estes delimitam os direitos porque remetem para o quadro antropológico e ético cuja verdade é o âmbito onde os mesmos se inserem e, deste modo, não descambam no arbítrio.

44 Considerar o aumento da população como a primeira causa do subdesenvolvimento é errado, inclusive do ponto de vista económico: basta pensar, por um lado, na considerável diminuição da mortalidade infantil e no alongamento médio da vida que se regista nos países economicamente desenvolvidos, e, por outro, nos sinais de crise que se observam nas sociedades onde se regista uma preocupante queda da natalidade. Obviamente é forçoso prestar a devida atenção a uma procriação responsável, que constitui, para além do mais, uma real contribuição para o desenvolvimento integral. A Igreja, que tem a peito o verdadeiro desenvolvimento do homem, recomenda-lhe o respeito dos valores humanos também no uso da sexualidade: o mesmo não pode ser reduzido a um mero facto hedonista e lúdico, do mesmo modo que a educação sexual não se pode limitar à instrução técnica, tendo como única preocupação defender os interessados de eventuais contágios ou do «risco» procriador.

45 Hoje fala-se muito de ética em campo económico, financeiro, empresarial. Nascem centros de estudo e percursos formativos de negócios éticos; difunde-se no mundo desenvolvido o sistema das certificações éticas, na esteira do movimento de ideias nascido à volta da responsabilidade social da empresa. Os bancos propõem contas e fundos de investimento chamados «éticos». Desenvolvem-se as «finanças éticas», sobretudo através do microcrédito e, mais em geral, de microfinanciamentos. Tais processos suscitam apreço e merecem amplo apoio. Os seus efeitos positivos fazem-se sentir também nas áreas menos desenvolvidas da terra. Todavia, é bom formar também um válido critério de discernimento, porque se nota um certo abuso do adjectivo «ético», o qual, se usado vagamente, presta-se a designar conteúdos muito diversos, chegando-se a fazer passar à sua sombra decisões e opções contrárias à justiça e ao verdadeiro bem do homem.

46 A própria pluralidade das formas institucionais de empresa gera um mercado mais humano e simultaneamente mais competitivo.

47 As dinâmicas de inclusão não têm nada de mecânico. As soluções hão-de ser calibradas olhando a vida dos povos e das pessoas concretas com base numa ponderada avaliação de cada situação. Ao lado dos macroprojectos servem os microprojectos, e sobretudo serve a mobilização real de todos os sujeitos da sociedade civil, das pessoas tanto jurídicas como físicas.
A cooperação internacional precisa de pessoas que partilhem o processo de desenvolvimento económico e humano, através da solidariedade feita de presença, acompanhamento, formação e respeito.

48 O homem interpreta e modela o ambiente natural através da cultura, a qual, por sua vez, é orientada por meio da liberdade responsável, atenta aos ditames da lei moral. Por isso, os projectos para um desenvolvimento humano integral não podem ignorar os vindouros, mas devem ser animados pela solidariedade e a justiça entre as gerações, tendo em conta os diversos âmbitos: ecológico, jurídico, económico, político, cultural.

49 o açambarcamento dos recursos energéticos não renováveis por parte de alguns Estados, grupos de poder e empresas constitui um grave impedimento para o desenvolvimento dos países pobres. Estes não têm os meios económicos para chegar às fontes energéticas não renováveis que existem, nem para financiar a pesquisa de fontes novas e alternativas. A monopolização dos recursos naturais, que em muitos casos se encontram precisamente nos países pobres, gera exploração e frequentes conflitos entre as nações e dentro das mesmas.

50 Há espaço para todos nesta nossa terra: aqui a família humana inteira deve encontrar os recursos necessários para viver decorosamente, com a ajuda da própria natureza, dom de Deus aos seus filhos, e com o empenho do seu próprio trabalho e inventiva. Devemos, porém, sentir como gravíssimo o dever de entregar a terra às novas gerações num estado tal que também elas possam dignamente habitá-la e continuar a cultivá-la. Isto implica «o empenho de decidir juntos depois de ter ponderado responsavelmente qual a estrada a percorrer, com o objectivo de reforçar aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho»

51 Para preservar a natureza não basta intervir com incentivos ou penalizações económicas, nem é suficiente uma instrução adequada. Trata-se de instrumentos importantes, mas o problema decisivo é a solidez moral da sociedade em geral. Se não é respeitado o direito à vida e à morte natural, se se tornam artificiais a concepção, a gestação e o nascimento do homem, se são sacrificados embriões humanos na pesquisa, a consciência comum acaba por perder o conceito de ecologia humana e, com ele, o de ecologia ambiental. É uma contradição pedir às novas gerações o respeito do ambiente natural, quando a educação e as leis não as ajudam a respeitar-se a si mesmas. O livro da natureza é uno e indivisível, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da sexualidade, do matrimónio, da família, das relações sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral. Os deveres que temos para com o ambiente estão ligados com os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e em relação com os outros; não se podem exigir uns e espezinhar os outros. Esta é uma grave antinomia da mentalidade e do costume actual, que avilta a pessoa, transtorna o ambiente e prejudica a sociedade.

52 A verdade e o amor que a mesma desvenda não se podem produzir, mas apenas acolher. A sua fonte última não é — nem pode ser — o homem, mas Deus, ou seja, Aquele que é Verdade e Amor.

53 Uma das pobrezas mais profundas que o homem pode experimentar é a solidão. Vistas bem as coisas, as outras pobrezas, incluindo a material, também nascem do isolamento, de não ser amado ou da dificuldade de amar.

54 A transparência recíproca entre as Pessoas divinas é plena, e a ligação de uma com a outra total, porque constituem uma unidade e unicidade absoluta. Deus quer-nos associar também a esta realidade de comunhão

55 torna-se necessário, sobretudo para quem exerce o poder político, o discernimento sobre o contributo das culturas e das religiões. Tal discernimento deverá basear-se sobre o critério da caridade e da verdade. Dado que está em jogo o desenvolvimento das pessoas e dos povos, aquele há-de ter em conta a possibilidade de emancipação e de inclusão na perspectiva de uma comunidade humana verdadeiramente universal. O critério «o homem todo e todos os homens» serve para avaliar também as culturas e as religiões. O cristianismo, religião do «Deus de rosto humano», traz em si mesmo tal critério.

56 No laicismo e no fundamentalismo, perde-se a possibilidade de um diálogo fecundo e de uma profícua colaboração entre a razão e a fé religiosa. A razão tem sempre necessidade de ser purificada pela fé; e isto vale também para a razão política, que não se deve crer omnipotente. A religião, por sua vez, precisa sempre de ser purificada pela razão, para mostrar o seu autêntico rosto humano. A ruptura deste diálogo implica um custo muito gravoso para o desenvolvimento da humanidade.

57 A subsidiariedade é, antes de mais nada, uma ajuda à pessoa, na autonomia dos corpos intermédios. Tal ajuda é oferecida quando a pessoa e os sujeitos sociais não conseguem operar por si sós, e implica sempre finalidades emancipativas, porque favorece a liberdade e a participação enquanto assunção de responsabilidades. A subsidiariedade respeita a dignidade da pessoa, na qual vê um sujeito sempre capaz de dar algo aos outros. Ao reconhecer na reciprocidade a constituição íntima do ser humano, a subsidiariedade é o antídoto mais eficaz contra toda a forma de assistencialismo paternalista.

58 a principal ajuda de que têm necessidade os países em vias de desenvolvimento é a de permitir e favorecer a progressiva inserção dos seus produtos nos mercados internacionais, tornando possível assim a sua plena participação na vida económica internacional.

59 As sociedades tecnologicamente avançadas não devem confundir o próprio desenvolvimento tecnológico com uma suposta superioridade cultural, mas hão-de descobrir em si próprias virtudes, por vezes esquecidas, que as fizeram florescer ao longo da história.

60 a ajuda ao desenvolvimento dos países pobres deve ser considerada como verdadeiro instrumento de criação de riqueza para todos.

61 o turismo internacional não raramente é vivido de modo consumista e hedonista, como evasão e com modalidades de organização típicas dos países de proveniência, e assim não se favorece um verdadeiro encontro entre pessoas e culturas. Por isso, é preciso pensar num turismo diverso, capaz de promover verdadeiro conhecimento recíproco, sem tirar espaço ao repouso e ao são divertimento

62 Nenhum país se pode considerar capaz de enfrentar, sozinho, os problemas migratórios do nosso tempo. Todos somos testemunhas da carga de sofrimentos, contrariedades e aspirações que acompanha os fluxos migratórios.

63 Qual é o significado da palavra «decência» aplicada ao trabalho? Significa um trabalho que, em cada sociedade, seja a expressão da dignidade essencial de todo o homem e mulher: um trabalho escolhido livremente

64 Superando as limitações próprias dos sindicatos de categoria, as organizações sindicais são chamadas a responsabilizar-se pelos novos problemas das nossas sociedades: refiro-me, por exemplo, ao conjunto de questões que os peritos de ciências sociais identificam no conflito entre pessoa-trabalhadora e pessoa-consumidora.

65 é necessário que não se contraponha o intuito de fazer o bem ao da efectiva capacidade de produzir bens. Os operadores das finanças devem redescobrir o fundamento ético próprio da sua actividade, para não abusarem de instrumentos sofisticados que possam atraiçoar os aforradores.

66 É bom que as pessoas ganhem consciência de que a acção de comprar é sempre um acto moral, para além de económico.

67 O desenvolvimento integral dos povos e a colaboração internacional exigem que seja instituído um grau superior de ordenamento internacional de tipo subsidiário para o governo da globalização e que se dê finalmente actuação a uma ordem social conforme à ordem moral e àquela ligação entre esfera moral e social, entre política e esfera económica e civil

68 Ninguém plasma arbitrariamente a própria consciência, mas todos formam a própria personalidade sobre a base duma natureza que lhe foi dada. Não são apenas as outras pessoas que são indisponíveis; também nós não podemos dispor arbitrariamente de nós mesmos.

69 A técnica é o aspecto objectivo do agir humano, cuja origem e razão de ser estão no elemento subjectivo: o homem que actua. Por isso, aquela nunca é simplesmente técnica; mas manifesta o homem e as suas aspirações ao desenvolvimento, exprime a tensão do ânimo humano para uma gradual superação de certos condicionamentos materiais.

70 A técnica seduz intensamente o homem, porque o livra das limitações físicas e alarga o seu horizonte. Mas a liberdade humana só o é propriamente quando responde à sedução da técnica com decisões que sejam fruto de responsabilidade moral.

71 O desenvolvimento é impossível sem homens rectos, sem operadores económicos e homens políticos que sintam intensamente em suas consciências o apelo do bem comum.

72 Às vezes, também a paz corre o risco de ser considerada como uma produção técnica, fruto apenas de acordos entre governos ou de iniciativas tendentes a assegurar ajudas económicas eficientes.

73
Os meios de comunicação social não favorecem a liberdade nem globalizam o desenvolvimento e a democracia para todos, simplesmente porque multiplicam as possibilidades de interligação e circulação das ideias; para alcançar tais objectivos, é preciso que estejam centrados na promoção da dignidade das pessoas e dos povos, animados expressamente pela caridade e colocados ao serviço da verdade, do bem e da fraternidade natural e sobrenatural.

74 Não é por acaso que a posição fechada à transcendência se defronta com a dificuldade de pensar como tenha sido possível do nada ter brotado o ser e do acaso ter nascido a inteligência.

75 a lei natural, na qual reluz a Razão criadora, indica a grandeza do homem, mas também a sua miséria quando ele desconhece o apelo da verdade moral.

76 Uma sociedade do bem-estar, materialmente desenvolvida mas oprimente para a alma, de per si não está orientada para o autêntico desenvolvimento.

77 Em cada verdade, há sempre mais do que nós mesmos teríamos esperado; no amor que recebemos, há sempre qualquer coisa que nos surpreende. Não deveremos cessar jamais de maravilhar-nos diante destes prodígios. Em cada conhecimento e em cada acto de amor, a alma do homem experimenta um «extra» que se assemelha muito a um dom recebido, a uma altura para a qual nos sentimos atraídos.

78 O humanismo que exclui Deus é um humanismo desumano. Só um humanismo aberto ao Absoluto pode guiar-nos na promoção e realização de formas de vida social e civil — no âmbito das estruturas, das instituições, da cultura, do ethos — preservando-nos do risco de cairmos prisioneiros das modas do momento.

79 o amor cheio de verdade — caritas in veritate –, do qual procede o desenvolvimento autêntico, não o produzimos nós, mas é-nos dado.
»

quinta-feira, 16 de Julho de 2009

João Lopes:

«[...] a sinopse das longuíssimas duas horas e meia de Harry Potter e o Príncipe Misterioso poderia ser qualquer coisa como: não acontece nada até que, a poucos minutos do fim, há uma personagem que diz "o príncipe sou eu". Pof!»

H1N1, cuidado,

praga de proximidade.

domingo, 12 de Julho de 2009

«O casal de idosos que seguia no carro sofreu ferimentos ligeiros»

«[...] o homem apresentava um traumatismo abdominal grave e a mulher ficou politraumatizada.»

sábado, 11 de Julho de 2009

Tiroteio no Vaticano

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quarta-feira, 8 de Julho de 2009

O Vasco Graça Moura

classifica de “grotesca cena parlamentar” o risível, inócuo e ternurento par de cornichos que o pândego Pinho fez um destes dias ao nortecoreano Bernardino.
Tirando este passageiro excesso, o escritor - é nessa qualidade que assina - traz-nos hoje uma crónica inesperadamente suave, simpática e compreensiva para a governação do país, sem perda do discernimento de sempre; de discretíssimo, contido e elegante platonismo sem, por uma vez, ter usado a palavra Manuela; e até, como é próprio de um humanista sensível e atento ao tempo, não deixando de render seu preito ao RIPper Michael Jackson na parte, carinhosa e comovente, em que diz, cito, tanto o primeiro-ministro como alguns dos seus ministros deviam pintar a cara de negro e deixar de aparecer a dizer disparates na televisão e nos jornais.
Em bom português, chapeau!

PeSaDelo

segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Dia de santo António Pecci Filho, nascido em 6 de Julho de 1946

O Toquinho actuou em Serpa, em 9 de Junho passado, no “VI Encontro de Culturas" [foto da actuação].
Na véspera, gravara para as “Vozes da Lusofonia”, de Edgar Canelas, a edição que a Antena 1 passou ontem, dia 5, em torno do lançamento em Portugal do CD “Toquinho e MPB4 - 40 Anos de Música”, preenchido com 38 temas registados ao vivo, em S. Paulo, entre 25 e 26 de Setembro de 2008.
Temas que o Edgar Canelas escolheu e partes da fala do Toquinho, que toca e fala que se desunha, que me apetece transcrever [vá, phones nisso, vale a pena; são só 48 minutos]:

"Tarde em Itapoã" [Toquinho / Vinicius de Moraes]
"Morena Flor" [Toquinho / Vinicius de Moraes]
"Jesus, alegria dos homens" [J. S. Bach - instrumental]
"Bachianinha n.º 1" [Paulinho Nogueira - instrumental]
"Marina" [Dorival Caymmi]
"Samba da minha terra" [Dorival Caymmi]
"Saudade da Bahia" [Dorival Caymmi]
"A casa" [Vinicius de Moraes]
"Berimbau" [Baden Powell / Vinicius de Moraes]

Eu dei a Vinicius o que ele não tinha mais na vida dele, que era juventude, vigor, vontade de fazer as coisas, uma bagagem enorme de melodias, e ele me deu um know-how técnico de vida, o aval do poeta; então tudo isso nos foi dado assim mutuamente.

Você tem que estudar tedescamente* o instrumento para poder chegar no palco e aquilo fazer parte do teu corpo.

Fiz questão de não colocar [no livro “Toquinho - 40 anos de música”] a minha vida particular, meus envolvimentos amorosos, nada, porque pessoas que eu namorei - eu namorei bastante na minha vida - então eram pessoas que já estavam casadas com filhos, eu não queria comprometê-las, então eu não quis essa coisa íntima […] fala - no livro - só da minha família, da família que eu constituí com Mónica e 2 filhos, e eu me limitei a isso; mas não entrou mais nada muito pessoal .**

Joana é a filha do meio de Francis Hime. Estas coisas emocionam-me, merda. Lá maior.
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* Italo-alemanzada deliciosa. Diríamos, por cá, 'com disciplina prussiana', sei lá.
** Questão interessante - questão? - seria saber se o malandreco do Toquinho continuou a namorar quando a própria Mónica já estava casada com ele, com filhos e isso; vice-versa, reciprocamente e tudo o mais que a vida não estranha.

José Sócrates, Alberto Gonçalves, Manuela Ferreira Leite

Para aquilo que num país usa prestar e é preciso que preste um primeiro-ministro, o José Sócrates tem sido do melhor que há. Quanto a mim, não houve mesmo melhor nos últimos 35 anos e não vejo entre os visíveis pretendentes ao cargo, pelo menos para os tempos mais próximos, quem reúna qualidades mais adequadas. Pena que seja um bocado mentiroso e um bocadinho piroso*; pena, até, que não disponha do lastro histórico-filosófico, como se dizia nos tempos de estudante do meu ortónimo, de um, vá lá, Soares, que detesto; mas, ainda assim, Sócrates é o melhor. Não é tão bom em línguas como o Barroso nem tão inteligente e ladino como o Vitorino, mas é o melhor a primeiro-ministro. Foi um nojo como se comportou na história do Pedroso/Casa Pia; é lastimável que tenha deixado cair o Correia de Campos e que não tenha posto na ordem o Alegre, mas, nem por isso, deixa de ser o melhor. Etc.

O Alberto Gonçalves [AG] escreve - e poucos escrevem tão bem - o que lhe apetece sobre o que lhe apetece, e ainda bem. Despreza, achincalha e execra o Sócrates e o seu governo, lá com ele. Mas venera a Dra. Manuela Ferreira Leite, e isso, sendo igualmente com ele, faz-me espécie; assim como me faz espécie e surpreende, em tão demonstrados, desde há tanto tempo, lucidez, graça e bom gosto*, o toldamento de certos e determinados - ahahahah - considerandos que ultimamente tem expendido.
Ainda nos “Dias contados” de 28 de Junho, escrevia o AG «[...] Por acaso, Manuela Ferreira Leite saiu-se bem da entrevista à Sic. [...]» Saiu-se bem? Por amor de Deus, nem parece seu, Dr. Alberto. Com que olhos e ouvidos assistiu à entrevista? De um apaniguado, tá visto. Eu vi e revi meia dúzia de vezes a prestação da Sra. Dra. Manuela Leite, a ponto de a saber quase de cor, e, garanto, aquilo foi um descalabro. A velha não apresentou uma ideia fresca que se visse de governação; foi trapalhona, mentirosa, esquiva, demagoga e inculta. Depois, a deprimente dirigente não sabe português, não sabe falar. Ainda por cima, Deus me perdoe, é feia, o que ajuda pouco. Velha bonita era, por exemplo, a minha mãe e é, por exemplo, a minha tia Celeste, essas sim. E há-de sê-lo, daqui a uns 70 anos, se Deus quiser, a Ana Lourenço.
Decerto toldado pelo proselitismo, o Alberto Gonçalves não reparou em como, por exemplo, a criatura trocou por 3 vezes formas por fórmulas. Ora oiça: minuto 22:14 [entendiam que havia outras fórmulas de resolver os problemas]; 22:29 [portanto mas havia outros processos, outras fórmulas de poder ter resolvido esse processo]; 42:27 [é necessário criar fórmulas de as empresas se desenvolverem]. Pormenor despiciendo? Para mim, não seria preciso mais nada para desacreditação insanável de uma singela contabilista, quanto mais de uma licenciada pelo ISCEF com 16 valores, antiga péssima ministra, actual candidata à chefia da governação.

Já nos “Dias contados” de ontem, diz AG a abrir: «Segunda-feira, 29 de Junho. O ministro das Finanças encontrou "os sinais de que estaremos, porventura, a chegar ao fim desta crise". Tomada como propaganda rasteira, a frase foi demolida em público pela oposição, por comentadores e por peritos que não vêem motivos para tamanho optimismo. […] ninguém notou a extraordinária modéstia do ministro, que evitou atribuir ao Governo qualquer mérito pelo presuntivo fim da crise. Se acabar, a crise acaba "porventura", ou seja, por acaso, sorte, fortuna. Aliás, não poderia ser de outra forma, visto que o Governo ainda está por lançar os grandes investimentos públicos que iriam resolver a crise. Entretanto, eis que a crise ameaça resolver-se por si, ou porventura, o que em princípio dispensa os investimentos, não é? Não exactamente. [...]»
Não reparei na modéstia do ministro, mas reparo na colocação do advérbio. Vá lá, AG, não seja habilidoso, fica-lhe mal, não precisa. Não se diz na frase do ministro de que modo ou por que razão a crise estará a acabar; sim que talvez - porventura - esteja a acabar. É outra coisa, não, Sr. Dr.?
Finalmente, o AG entende relevar, na semana que nos conta, o recidivo caso da insuportável e desavergonhada prima-dona Dona Maria João Pires, pianista emérita - como se isso a dispensasse de recibo -, para uma injusta, admito que mal informada para não dizer desonesta, arrochada no governo, ao mesmo tempo que poupa a dilecta e inefável Manuela à história da venda da rede fixa à PT, em 2002. Enfim, para semanas compridas em crónicas apertadas mandam o critério da liberdade de escolha e as escolhas do coração...
Mas que raio de propriedades alucinogénias tem o diabo da velha e rançosa social-democrata, que até aos génios alucina?

PeSaDelo
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* E explica-nos cá, ó Plúvio: o bom gosto que gosto é?

sábado, 4 de Julho de 2009

ou de como

Não há pachorra para a pedantice dos títulos que se auto-explicam e explanam com a expressão "ou de como", tipo Cagar no recato ou de como a língua tem os seus quês.

sexta-feira, 3 de Julho de 2009

A superioridade autista, a imunidade ao estertor e outras monstruosidades

ou de como para se compreender tem que se pensar.

No “Jornal das 9” de ontem, na SIC Notícias, o jornalista Mário Crespo [MC] e o professor de Filosofia José Gil [JG] entretiveram-se durante 25 minutos a malhar no Sócrates, com a promoção em fundo do livro “Em busca da identidade – O desnorte” [Relógio d’ Água, 2009].

:20 [JG]- Foi tão chocante [a cena dos cornichos do Pinho ao Bernardino] que para se compreender o que se passou tem que se pensar nesse choque […] quer dizer que aquilo era a manifestação de uma superioridade autista*, quer dizer, um homem que está habituado a falar com outro homem e que o respeita não fala assim.
Por alguma razão, Le Novel Observateur elegeu o filósofo JG, em 2005, entre os 25 maiores pensadores do mundo.

12:54- Ó merda, que me esqueci de pôr esta gaita no silêncio!

14:44 [MC]- e de facto, hoje o discurso do estado da Naç da União tinha tudo disso.
Não é fácil manter-se imune a 7 anos [1991-1997] de correspondente da RTP em Washington.

22:35 [MC]- … em que o governo escuda-se numa posição: Sim, senhora, têm todo o direito a protestar, nós temos o direito a governar, nós temos a missão de governar e pronto, e continuamos a governar, na maior parte por decreto e por diploma, fechados em salas, imunes ao estertor** de, por exemplo, de comunidades inteiras de profissionais.
[JG]- Absolutamente, eu acho que isso é uma monstruosidade democrática, é uma monstruosidade para a democracia.
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Pauzinhos

Que quererá o óptimo do Bandeira dizer com isto?

quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Directiva 2009/77/CE, da Comissão, de 1 de Julho de 2009


Depois digam que não avisei.

quarta-feira, 1 de Julho de 2009

«[...] a prioridade

deveria ir para a recuperação urbana, para os transportes públicos de proximidade e para as indústrias criativas e culturais. [...]»

Então, não?