domingo, 30 de abril de 2023

Quatro mortes no Bairro da Boavista

Decorridas cinco horas sobre os factos, a jornalista/repórter Sofia Garcia veio relatar, no sítio, em directo e sem teleponto, o que se passara. Em três minutos fez prova de que, afinal, é possível saber contar, ser-se claro e pormenorizado acerca de uma tragédia complexa, exprimindo-se num português fluido de boa qualidade sem bengaladas de «então».

Parabéns, Sofia!
Aprendam, miudagem.

Para que não digam que o Plúvio só diz mal das pessoas.

terça-feira, 11 de abril de 2023

Rol de fatalidades

Experimente preencher o que falta nos seguintes ditos.

A manobra não surtiu ______.

Envidámos todos os ______.

Para o apanhar tive de estugar o ______.

Fizemos tudo o que estava ao nosso ______.

Cadáver encontrado em ______ estado de decomposição.

O fogo não deu ______ aos bombeiros.

Morreu de cancro no pulmão, era um ______ inveterado.

Foi apanhado em ______ delito.

Magríssimo, parecia uma ______  paralítica.

Não ganhou, apesar da enorme falange de ______.

Tive um rebate de ______.

Passo o tempo a ler, sou um leitor ______.

Luís Filipe Vieira foi ______ arguido.

Vou já, dá-me só um compasso de ______.

No cômputo ______, pode dizer-se que esteve bem.

Falhou uma oportunidade ______ de golo.

Sabes que nutro ______ admiração por ti.

Morreram no mesmo dia, ironia do ______.

Fui acusado mas durmo de ______ tranquila.

Deixa-te de ______ esfarrapadas.

Aproximou-se do elefante com a ______ cautela.

Todos erraram, com a ______ excepção do Eduardo.

Veio a Portugal para ______ saudades da família.

Aposto em como adivinho pelo menos 100% das respostas que você deu.
Isto raramente falha; fatal como o destino, ... cá está!  
Vai para 25 anos que colijo, de ouvido e por diversão, este género de fatalidades.
Merecem-me apreço crescente os profissionais da comunicação — raros como trufa branca — que se exprimem, na fala e na escrita, evitando-as.
A preguiça vocabular decepciona-me, que posso fazer? Mau feitio, bem sei.

Escrutínio acuradíssimo permite-me eleger, neste momento civilizacional, as três fatalidades mais fatais, tão fatalmente fatais que, não fossem os 'esforços', o 'passo' e o 'efeito', os verbos 'envidar', 'estugar' e 'surtir' estariam banidos há muito do Português europeu.  

Noto que o inventário atingiu um tamanho jeitoso. Não sei mesmo se não será o melhor e mais exaustivo "Rol de fatalidades1) algum dia elaborado na Bobadela.
Hoje sinto-me pródigo, não é tarde nem cedo: aqui o tem! Para uso e proveito irrestrito, incluindo o de limpar o cu com ele quando voltar a pandemia e o papel higiénico escassear.

1) Em actualização constante. Sugestões e reparos serão bem-vindos, o que não significa que os acolha — o Chove não é propriamente um foro de democracia.

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«[…]
Glossário de lugares-comuns
Bardadrac organiza-se de A a Z como um dicionário, ao longo de 463 páginas. A meio do volume, na letra M, surge o pequeno glossário intitulado "Medialecto", que preenche 54 páginas, entendendo-se por este neologismo o dialecto próprio dos meios de comunicação social em sentido alargado (jornais, rádio, televisão, Internet...). Estão em causa frases feitas, "bordões" ou lapsos que decorrem de tentativas de substituir palavras ou enunciados correntes por outros que soam moderno, fino e, porventura, tecnocrático aos ouvidos do profissional (apresentador ou jornalista) ou de diversos "actores" do palco da comunicação : políticos, escritores, juristas, entre outros.
O 'medialecto' impõe-se, de certa maneira, como espelho e modelo da nossa subcultura dominante. "Amnistia. Sempre ampla"; "Banalidade. Sempre aflitiva"; "Carreira. Dizer sempre "Eu não gosto desta palavra" (...)"; "Calor. Sempre comunicativo"; "Carismático. Equivalente mediático de fotogénico"; "Despotismo. Sempre esclarecido (no início)"; "Figura. Sempre emblemática"; "Geometria. Sempre variável"; "Imagem. Sempre de marca"; "Isolamento. Sempre esplêndido"; "Jovens. São de dois tipos: os jovens propriamente ditos, e os "menos jovens", que antigamente eram velhos": "Lapso. Sempre revelador; sublinhá-lo com tanto mais força quanto se desconhece o que revela"; "Necessidade. Sempre imperiosa"; "Oposição. Sempre estéril"; "Perdão. Equivalente mediático do "acto de pedir perdão": "O perdão do Papa às vítimas da Inquisição" (...). Essas vítimas já não estão infelizmente em estado de lhe conceder o perdão"; "Pragmático. Equivalente mediático de oportunista"; "Sedutor. Antigamente era sempre vil, hoje é sempre grande"; "Tema. Sempre recorrente"; "Vindicta. Sempre popular"...
Esta pequena perspectiva do glossário dos lugares-comuns da comunicação social, identificados por Genette, destina-se apenas a interessar o leitor. Com uma pequena ressalva: não tentem aplicá-lo aos meus próprios artigos. Corro o risco de encontrarem exemplos válidos para corroborá-lo. Afinal, quem escapa à tal "subcultura dominante", em que, a gosto ou contragosto, participamos?
[…]»

//
«[...]
Se chove muito, chove torrencialmente*. Se aconselhamos ou recomendamos com ênfase, aconselhamos e recomendamos vivamente. Se rejeitamos ou recusamos, rejeitamos e recusamos liminarmente. Mas se afirmamos, afirmamos categoricamente ou peremptoriamente. Quando acreditamos, acreditamos piamente; mas quando confiamos, já confiamos cegamente. Se nos enganamos, enganamo-nos redondamente; mas se falhamos, já falhamos rotundamente. E quando alguém mente, não raro, há uma rima: mente descaradamente. Sendo preciso reduzir algo, é preciso reduzi-lo drasticamente e trabalhar arduamente ou afincadamente para o conseguir. Aquilo que lamentamos… lamentamos profundamente… a ponto de, em algumas circunstâncias, chorarmos convulsivamente. Com fome e sede, comemos avidamente e sofregamente. E quando alguém pede… pede encarecidamente.
[...]»

* Então não chove!?...

domingo, 2 de abril de 2023

Todos e os outros, independentemente


A Assembleia da República decreta, nos termos da alínea c) do artigo 161.º da Constituição, o seguinte:
Capítulo I - Objecto, âmbito e princípios gerais
Artigo 1.º - Objecto
A presente lei estabelece as bases do direito à habitação e as incumbências e tarefas fundamentais do Estado na efetiva garantia desse direito a todos os cidadãos, nos termos da Constituição.

Artigo 2.º - Âmbito
1- Todos têm direito à habitação, para si e para a sua família, independentemente da ascendência ou origem étnica, sexo, língua, território de origem, nacionalidade, religião, crença, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, género, orientação sexual, idade, deficiência ou condição de saúde. *
2- A presente lei aplica-se a todo o território nacional.

Artigo 3.º - Princípios gerais
[...]»
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* Caracterizemos, pela mesma ordem tipológica, um exemplo de indivíduo abrangido inequivocamente por tal formulação:
ascendência e etnia berbere, dotado de próstata, pila e testículos, esperantofalante originário da Transnístria, de nacionalidade portuguesa e de credo copta, seguidor de dona Dolores Aveiro e crente nos benefícios dos banhos de luar no aumento da longevidade, anarco-iluminista doutorado em exobiologia, economicamente solvente, multigénero orientado sexualmente para anões, 48 anos, diabético manco. 

Mas, e os outros, que impediu de indiscriminá-los explicitamente? Porque não também independentemente do clube, das preferências musicais, da cor dos olhos, do regime alimentar, das convicções animalistas, competências profissionais ou do tamanho que calce?
Caso para recear que a um sportinguista, fanático de "hip hop", olhos verdes, vegetariano, amante de tourada, sem carta de condução, que calça 53, se depare alguma restrição no direito à habitação, nos termos e ao abrigo do artigo 2.º supra...

Enfim, «1- Todos têm direito à habitação.» não bastava?

Já agora e complementarmente, muito estranho que numa lei destas, confeccionada em legislatura geringôncica, não se tenha desdobrado o quantificador universal «todos», como manda Isabel Moreira e exige o código inclusivo.
Não espantará, pois, que em revisão próxima fique «Todos, todas, todes, todxs e tod@s têm direito à habitação [...]»