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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Coprolalíadas

Desde que, Primavera de 1981, li "Ler na retrete", de Henry Miller*, numa retrete de Campolide, em Lisboa, não mais deixei de ler nelas.
E o que tenho aprendido, meus amigos!

_______________________________________________

«[...] Na minha opinião hoje lemos para nos livrarmos, primeiro, de nós próprios; segundo, para arranjarmos defesa contra perigos reais ou imaginários; terceiro, para nos mantermos a par dos outros ou impressioná-los, o que é o mesmo; quarto, para sabermos o que se passa no mundo; quinto, para nosso prazer, ou seja, estimular e elevar as nossas actividades, para nos enriquecermos. [...]»

sábado, 3 de novembro de 2018

Contraponto

«[...]
Agosto de 2018, pico da silly season. Numa daquelas entrevistas curtas e superficiais, questionários de Proust com farinha Maizena para encorpar, e sem que se esperasse, eis uma nova coroação, desta feita não às mãos de um outro editor, veterano medalhado e ferido de perdidas batalhas, mas da própria jornalista que orientava a entrevista. Por esta ficámos a saber que o novo imperador a ostentar a incómoda coroa da linhagem de quase falidos editores nacionais é um jovem “coordenador cultural da Porto Editora”, que, além do atributo real, herdou também a casa-mãe da dinastia: a Contraponto, essa mesma fundada por Luiz Pacheco, de que ele é agora apresentado como “relançador”, e na qual lançará, porventura à laia de justificar a unção da sua jovem cabeça, umas biografias de gente que conheceu o fundador da Contraponto e nela foi publicada (Natália, Herberto). Num mesmo corpo, um novo imperador e uma reencarnação. Em suma, um acto messiânico, um verdadeiro milagre oferecido ao distraído leitor comum, entre um mergulho e outro.
[...]»

Quem será a «própria jornalista»? Quem é o «novo imperador»? Onde foi publicada a «entrevista»?
Gostei da peça, nutro admiração antiga pelos galimares em apreço, concordo muito com o autor, mas ponho-me no lugar do desprevenido e indocumentado freguês do Público e pergunto: que razões estranhas impedem o excelente Pedro Piedade Marques de "chamar os bois pelos nomes" [Inês Maria Meneses, Rui Couceiro]?; era preciso envolver esta página do Expresso de 11 de Agosto de 2018 em tão críptica névoa?
Coisas que me encanitam.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Vitor Silva Tavares, ainda

Em 14 de Julho último, Rebeca Hernández Alonso, professora na Faculdade de Filologia da Universidade de Salamanca, conversou durante quase duas horas com Vitor Silva Tavares, em Lisboa, para um trabalho que está a escrever sobre Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, Ulisseia, 1961. A Ulisseia era, na altura, dirigida por VST.
- x -
«[…]
Fui pintor de bandeiras da libertação dos contratados.
[…]
Eu vinha da África com a convicção de que nunca mais na vida teria patrão, nunca mais iria fazer o que não partisse de mim, o que não quisesse, ainda que fosse preciso pagar a pior das moedas, não me importava nada de morrer, eu vi a morte, estive lá, na guerra…
[…]
enviámos a edição ao sr. Chaplin que nos mandou uma carta a dizer que era a mais bela edição de todas que conhecia.*
[…]
Venho de família muito pobre, de gente muito pobre, e portanto nunca tive acesso às grandes culturas, ir ali a Paris ou a Londres embebedar-me de cultura, não. A minha opção foi o trópico. Fui às Europas porque vivia numa ditadura e era lá que podia ter acesso a filmes, a teatros, a edições, a jornais, e coisas assim que aqui não tinha. Mas aquele tipo de vida nunca me fascinou.
[…]
A ênfase dada a cada livro tanto assenta na literatura como no seu enquadramento visual. Não há hierarquia entre o gráfico e o escritor.**
[…]»
Extractos de parte do depoimento de Vitor Silva Tavares a Rebeca Hernández
JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, 30.Set.2015
________________________________________________
* "Charles Chaplin, Autobiografia" - 1.ª edição, Ulisseia, 1965.

** & etc

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Se António Guerreiro não é o melhor, quem é o melhor?


Todos os artigos, inteiros, de António Guerreiro, no Público/Ípsilon
de 08.Ago.2014 a 03.Abr.2015
08.Ago.2014
. O banco secularizado | BES/Novo Banco. «Estávamos nós cheios de fé na História, que é a última religião dos doutos, a assistir, pela televisão e em directo, ao processo de secularização do Banco Espírito Santo, quando começámos a perceber que a boa nova a anunciar um banco bom e novo (termos muito simples e claros, como podemos ver, pois a linguagem secularizada renuncia a toda a obscuridade) era ainda demasiado permeável a um ordenamento divino do mundo — na sua versão maniqueísta, que opera uma nítida separação entre bons e maus — e a uma concepção cultual do capitalismo financeiro.»
. Versos de puro nada | Recensão de "", livro de poesia de Daniel Jonas. «podemos dizer que estes sonetos de Daniel Jonas nos libertam e nos deslocam para paragens bem distantes daquelas em que grande parte da poesia portuguesa contemporânea nos instala.»

15.Ago.2014
. Turistas, mas relutantes | O turista de Lisboa. «cada turista é, para o seu semelhante, um espelho onde este vê reflectida a sua imagem de pessoa caricata, infantil, gregária, rendida a uma alegria imbecil, parodiante de uma mobilização geral.»

22.Ago.2014
. O povo da televisão | «aqueles programas, reportagens e concursos frequentados por pessoas que são submetidas à deformação pelos próprios apresentadores, repórteres e 'entertainers' para satisfazer os ditames televisivos do expressionismo grotesco.»

29.Ago.2014
. Treblinka é já ali | Maus tratos a animais de companhia [Lei n.º 69/2014, de 29 de Agosto] e a invocação do humanismo como legitimação da lei.

05.Set.2014
. E agora? Lembra-me. | O filme de Joaquim Pinto: poesia, mística da imanência, quotidiano.

12.Set.2014
. Sua Majestade, o Cinema | "Os Maias", filme de João Botelho.
. Os novos teólogos | O liberal João Carlos Espada e «as exigências medíocres de uma pequena burguesia intelectual.»

19.Set.2014
. Pedofilia e pedofobia | «será possível falar da pedofilia, como uma questão de enorme complexidade, sem nos limitarmos a proferir interjeições de horror? Tentemos.»

26.Set.2014
. A cidade e o campo | Sobre "Ouro e cinza", de Paulo Varela Gomes. «o campo é hoje, em larga medida, uma produção da Mota-Engil para a RTP, SIC e TVI.»

03.Out.2014
. O Pedro Manuel | Pedro Passos Coelho, «o triste produto do tempo do homem-massa e o engendramento catastrófico do fim de todos os encantamentos políticos, ideológicos e sociais.»
. Ler o que nunca foi escrito | Recensão de "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas", obra póstuma, inacabada, de José Saramago. Manuel Alberto Valente, o editor [o mesmo do último Herberto Helder], apanhado em falso.

10.Out.2014
. O ruído que vem dos livros | Ainda "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas". Porrada no editor. Veremos que chico-espertices industriais vai a Porto Editora perpetrar com o autor morto depois da patifaria que lhe fez com os últimos livros em vida.
. Retrato do cineasta enquanto escritor | Recensão de "Obra escrita", de João César Monteiro, editada por Vitor Silva Tavares.
«— Beijou os rotundos amareliflões melões melicheirões do seu rabicundo, cada um dos rotundos e melonosos hemisférios, no seu rego amareliflão, com uma obscura prolongada provocante melomelidorante osculação.
— Sinais visíveis de post-satisfação?
— Uma contemplação silenciosa; uma ocultação errática; uma degradação gradual; uma repulsão atenta; uma erecção próxima”.
[…]
Ao sr Vasconcelos [António-Pedro Vasconcelos] foram deixadas todas as indicações julgadas úteis para a boa execução do plano, tarefa de que ele se encarregou escrupulosamente, segundo creio, e pela qual lhe estou muito grato. Bem feia acção seria, pois, eu vir agora queixar-me do trabalho generosamente despendido por um colega em proveito de um filme meu, mas lá que o enquadramento é uma boa merda, isso é.»

17.Out.2014
. Homens e animais | Diferendo e litígio, a propósito do abate em Espanha de um cão chamado Excalibur.

24.Out.2014
. A pilhagem fiscal | «um Estado que perdeu a vergonha de se apresentar como agente supremo de uma pilhagem legal.»

31.Out.2014
. As metamorfoses do poder | Recensão de "Massa e Poder", de Elias Canetti, «um dos mais grandiosos ensaios do século XX. […] todas as distâncias e protecções que os homens criaram por se sentirem ameaçados pelos outros e pelo desconhecido são ditadas pelo medo de serem tocados.»
. A ecologia literária | Os 100 000 euros do Prémio Leya e a nova literatura mundial.

07.Nov.2014
. O destino do partido | A natureza dos partidos políticos.

14.Nov.2014
. O escritor e o seu duplo | A paródia e a manha de António Lobo Antunes nas entrevistas, designadamente na que deu a Isabel Lucas no Público/Ípsilon de 07.Nov.2014.

21.Nov.2014
. Letrados e reaccionários | «O reaccionário letrado (do tipo Paulo Varela Gomes) e o letrado reaccionário (do tipo José Pacheco Pereira) […] podem respeitar-se mutuamente mas não pertencem à mesma confraria.»

28.Nov.2014
. Sade, esse sublime energúmeno | «Duzentos anos após a sua morte, Sade continua a visitar-nos como um fantasma que não se extingue, desafiando o nosso tempo com os seus textos, tão difíceis de olhar de frente, em que se faz a apologia do prazer e do vício contra a lei e a ordem.»
. Virar as costas ao presente | «interessante questão formulada por José Pacheco Pereira: uma vez que durante a nossa vida não temos tempo para ler as grandes obras do passado, valerá então a pena ler livros novos?»

05.Dez.2014
. Uma história de fantasmas | sobre o filme "Cavalo Dinheiro", de Pedro Costa. Rememorar.
. A alta tensão timótica | «Muitas vezes, apetece reclamar que se faça tábua rasa, que venha um esquecimento libertador que permita começar tudo de novo. Por exemplo: que nos seja concedida a felicidade suprema de uma profunda amnésia apagar o nome de José Sócrates da cabeça dos seus amigos e dos seus inimigos e passar a residir apenas nos arquivos.»

12.Dez.2014
. Uma paisagem desencantada | Balanço de 2014. «É no ensaísmo e no vasto campo das ciências humanas e sociais que a actual lógica editorial mais danos provocou, limitando assim o debate e a livre circulação de ideias. […] A apresentação desta lista exige um preâmbulo: ela abrange não apenas o ensaio propriamente dito (que, como sabemos sempre se interrogou a si mesmo enquanto género e forma), mas o campo mais vasto dos livros de ciências humanas e sociais, incluindo a filosofia, a estética, a crítica literária e artística. [...]
Por isso, só poderia resultar num conjunto muito ecléctico, à medida das diferentes proveniências disciplinares das pessoas que para ele contribuíram. Se o saber é sempre polémico, um balanço anual que pretende totalizar um tão vasto campo de saberes é, inevitavelmente, um campo de batalha.
»
[Inclui escolhas – ensaio, poesia, ficção – de António Araújo, António Guerreiro, Diogo Ramada Curto, Gustavo Rubim, Hugo Pinto Santos, Helena Vasconcelos, Isabel Coutinho, Isabel Lucas, José Riço Direitinho, Luís Miguel Queirós, Maria Conceição Caleiro, Nuno Crespo e Rui Lagartinho.]
. Palavras que libertam e atraiçoam | Sexo, género, feminino, masculino. «outro termo que tem sido sujeito a um uso inflacionado, e por isso nefasto, é “homofobia”. A palavra “fobia” tem um sentido preciso, muito forte, e convinha não a banalizar.»

19.Dez.2014
. Os nossos queridos Bouvard e Pécuchet | Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi na comissão de inquérito ao BES. «Queríamos escutar as narrações e os argumentos dos dois homens ricos, sumptuosamente ricos, e o que ouvimos foi uns pobres homens: um podia chamar-se Bouvard e o outro Pécuchet. E, tal como os dois homenzinhos de Flaubert, estes também foram vítimas de um espírito enciclopédico e coleccionador, mas de um novo tipo: coleccionaram palavras do jargão financeiro, construíram com elas um sistema que ruiu por todos os lados, mas continuam a debitá-las de maneira incontinente, a mostrar que não conhecem outras.»

26.Dez.2014
. Miguel, porque escreves? | Escritor, escrevente. «Por uma entrevista a Miguel Sousa Tavares, na SIC, feita por Raquel Marinho (e publicada também no site do Expresso com o título: “Porque escreves, Miguel?”), fiquei a saber que o seu último livro começava com uma resposta a esta questão. […] o Miguel, que nestas coisas da literatura é tão ingénuo, nunca perceberá porque é que quanto mais se reivindica como escritor (oportunidades não lhe faltam) mais se enterra como um banal escrevente.»

02.Jan.2015
. O corsário, o profeta, o apocalíptico | Sobre "Pasolini", filme de Abel Ferrara.
. Muito orgulho gay e algum preconceito | «um banqueiro que assume a sua homossexualidade ao mais alto nível é visto como um exemplo. Mas exemplo de quê e para quem? Para quem aspira chegar a banqueiro, para quem deseja mas não ousou assumir a sua homossexualidade, ou para quem acha que não se importaria nada de dizer ao mundo que é homossexual se um dia chegasse a banqueiro, em Londres? Um operário da construção civil que fizesse, na sua aldeia, perante os seus conterrâneos, exactamente o mesmo que fez o banqueiro António Simões, seria sempre um exemplo de muito maior coragem e aquele que importaria de facto mostrar.»

09.Jan.2015
. Sexualidade e política | Ainda a distinção ao banqueiro larilas. «Seja-me permitido retomar e desenvolver o assunto. […] As cerimónias e opções em que a maior parte do activismo gay e lésbico se compraz estão fixadas nas convenções da identidade e do reconhecimento. Daí a glorificação do coming out, como se a liberdade de não declarar publicamente não fosse tão legítima e eventualmente tão portadora de um potencial crítico como a de declarar. […] o discurso e as escolhas de instituições como a ILGA não só nada produzem de relevante no plano político e cultural como se conformaram a um kitsch ideológico cujo brilho resplandece com mais força nos momento de gala.»

16.Jan.2015
. As imposturas da avaliação | «A grande impostura da avaliação enquanto prática e doutrina não está apenas instalada na universidade e na investigação, estendeu-se nos últimos anos a todos os domínios de actividade profissional e a todos os sectores da sociedade. […] A avaliação tem uma natureza e uma função essencialmente estratégicas: nas empresas, está ao serviço da gestão e da disciplina dos “recursos humanos”; na universidade e na investigação, é o “dispositivo” de uma máquina de governo.»

23.Jan.2015
. Se isto é Celan… | Recensão de "Não Sabemos mesmo O Que Importa — Cem Poemas", de Paul Celan. «era com regozijo e expectativa que se esperava a tradução de cem poemas de Celan por Gilda Lopes Encarnação, que tinha feito, entre outras, uma excelente tradução de "A Montanha Mágica" (D. Quixote). Mas o resultado que nos oferece "Não Sabemos Mesmo O Que Importa" (assim se chama a antologia) não é nada satisfatório.»
. Civilização e barbárie | «Tal oposição, hoje tão proclamada, corresponde a uma visão idealista e cumulativa da “história do espírito”, à maneira de Hegel. Mesmo quem, noutras circunstâncias, não quer ouvir falar de dialéctica, surge agora completamente rendido ao processo dialéctico e ao evolucionismo na história das ideias: é isto que significa a afirmação muito comum de que a barbárie — aquela com que fomos recentemente confrontadosé o resultado de duas faltas: a da secularização e a dos valores do Iluminismo (a crítica, a razão, o progresso, a universalidade, o cosmopolitismo). Ora, o que esta maneira de pensar desconhece é precisamente aquilo que o historiador da arte e da cultura Aby Warburg (1866-1929) designou como uma fundamental esquizofrenia: a civilização está continuamente em luta contra o seu pólo demónico (traduza-se assim, e não como “demoníaco”, o dämonisch), num conflito trans-histórico, tipológico.»

30.Jan.2015
. Populismo e demofobia | «Quem, no domingo passado, à noite, seguiu a contagem dos votos, na Grécia, através dos vários canais portugueses de televisão, terá sentido uma enorme impaciência perante as milícias civis de comentadores e “politólogos”, que parecem personagens decalcadas dos aforismos satíricos de Karl Kraus contra os jornalistas do seu tempo: dizem e “comentam” porque não têm nada a dizer, e têm algo a dizer porque a sua tarefa é comentar. No meio de tanta indigência, lá apareceu, brandido por alguns, o fantasma do populismo, seja ele efectivamente encarnado ou tenha a condição de espectro. Estas almas penadas - para continuarmos no mesmo plano semântico - parecem não ter ainda percebido que não têm ao seu dispor nenhuma figura do povo para poderem agitar a bandeira do populismo, que o povo como sujeito político, tal como o conhecemos a partir da modernidade, desapareceu; […] Os actuais denunciadores do populismo, incapazes de entender a política como algo mais do que gestão e método, táctica e estratégia, vêem outra coisa: vêem um papão, sob a forma do povo que já não existe. Lutam contra fantasmas. Eles próprios são mortos-vivos, zombies do comentário e da “politologia” do pequeno ecrã.»

06.Fev.2015
. Eduardo Lourenço, cena primitiva | Recensão de "Obras Completas II – Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista e Outros Ensaios". «Este volume é uma peça importantíssima na bibliografia sobre o neo-realismo, mas também importante para acedermos a um momento fundamental do percurso intelectual de Eduardo Lourenço, para chegarmos, digamos assim, à sua “cena primitiva”.»
. O examinador foi ao exame | Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC). «a crueldade provoca, mas a estupidez desmoraliza. […] O que vemos neste tipo de provas é, mais uma vez, a falácia da máquina da avaliação: ela presume uma cientificidade que de modo nenhum consegue demonstrar que possui.»

13.Fev.2015
. A Grécia como paradigma | «A Grécia é hoje um caso limite de experimentação biopolítica, um país inteiro tornou-se uma forma derivada dos campos, um lugar habitado não já por um povo ou por uma sociedade histórica, mas por uma mera população supérflua. Desapossados de toda a soberania e coagidos a erradicar a política como instância de mediação entre a economia e o social, os gregos estão reduzidos a um projecto de experimentação dos princípios económicos de um biopoder que delimita e designa populações – e segmentos de populações – suspeitas, inúteis e supérfluas.»

20.Fev.2015
. A eloquência patética do presidente | Cavaco Silva. «Quando o Presidente da República, interpelado pelos jornalistas, fala para os microfones e para as câmaras de televisão, é difícil tomar atenção às suas palavras – seja para louvá-las, seja para criticá-las – porque a elas se sobrepõe de maneira enfática o medium corpóreo não verbal: os traços móveis do rosto, o movimento da boca, os lábios encrespados, a disposição do corpo. O significado das suas palavras dissolve-se na mímica facial intensificada e nos aspectos prosódicos do seu discurso (a entoação, o ritmo, os picos de intensidade, etc.) Mas não se trata da gestualidade retórica dos políticos, um dos elementos que lhes conferem aquele quid a que Max Weber chamou carisma. Não, não é gestualidade retórica: é eloquência patética. […] patética porque se manifesta como um espasmo de exteriorização de uma causa interior. Dir-se-ia, na sua mímica intensificada, que ele não é patrão dos seus gestos, do seu olhar, da sua expressão. E, por isso, torna-se transparente, não consegue travar o mau-humor nem controlar os arrebatamentos de homem severo, não consegue mascarar as suas paixões nem desmentir o coração. […] ele fala, mas nós já só conseguimos vê-lo.»

27.Fev.2015
. Só, como Franz Kafka | «A edição dos Diários de Kafka, pela Relógio D’Água, traduzidos com enorme competência por Isabel Castro Silva, é um acontecimento editorial que tem de ser salientado. […] O mistério chamado Kafka está coberto pela película espessa de uma vida banal. […] uma existência marcada por um grandioso falhanço em todos os combates a que se viu obrigado: com o pai (cuja autoridade o assustava tanto que nem sequer era capaz de permanecer em pé diante dele), com a literatura (não acabou nenhum dos seus romances), com o mundo das mulheres.»
. O bom aluno | «O bom aluno é aquele que interiorizou plenamente a moral da culpa e sabe que deve comportar-se como um ser em débito. Haverá algum momento em que a culpa vai ser expiada, isto é, em que o débito vai ser saldado? Evidentemente que não. Por isso é que se criou a figura da “dívida eterna” ou infinita. […] Para se tornar um bom aluno, como lhe é exigido para continuar a dar-lhe crédito, a Grécia não precisa de pagar a sua dívida — que é infinita e eterna. Tem é de dar como garantia do fictício e sempre diferido reembolso um conjunto de virtudes sociais e políticas que são a carne e o sangue da moralidade a que está obrigada. Tem de sujeitar-se eternamente ao performativo da promessa. Não é que as promessas paguem dívidas, mas são um reconhecimentos e uma ritualização da culpa.»

06.Mar.2015
. O poeta sem biografia | «Fernando Echevarría, na semana passada distinguido com o prémio Casino da Póvoa, anunciado e entregue na 16ª edição do festival Correntes d’Escritas, é o autor de uma obra poética grandiosa, que sempre permaneceu impermeável às determinações prosaicas da chamada “vida literária”. […] A obra de Fernando Echevarría, construída de maneira silenciosa, parece um objecto arquitectónico de grande envergadura, em que nada escapa a uma geometria rigorosa e ao primado da dimensão intelectual. […] Pertence nitidamente a uma categoria de poetas que tudo fazem para expulsar a dimensão biográfica, de maneira a que na obra sobressaia uma aguda consciência do acto de escrever e não aquilo que é anterior e exterior a ele.»
. A elite consensual | «Parece um título anódino, mas quando analisado pelo lado de uma psicologia racional e de um realismo político, ambos respeitosos dos grandes equilíbrios, verificamos que é de uma grande envergadura. "Nem mais alemães que os alemães, nem mais gregos que os gregos": eis o título da crónica da semana passada de Francisco Assis, eurodeputado do PS que escreve neste jornal todas as quintas-feiras. […] A encenação de debate cria a aparência de que uns e outros pensam de maneira diferente, mas toda a diferença se anula na mesmidade que brota da linguagem comum do “Nem-Nem”. Como se todos eles, festivos como os saltimbancos e nómadas como os cibernautas, se preparassem diante de um espelho deformador, antes de debitar opinião e analisar a temperatura exterior do ambiente: “Diz-me, espelho meu! Estou em forma? Estou conforme?” […] Empossados como fabricantes de opinião para consumo da população genérica, quanto mais “Nem-Nem” são, mais hipóteses têm de ser aclamados como objectivos e responsáveis. […] Esta elite consensual, resultante de um agregado onde se instalou a maquinaria infernal de produção do “homem médio” ou homo mediocris, reivindica-se como uma maioria moral, na medida em que exerce uma hegemonia da opinião. […] a regra mais importante da elite consensual: nunca oferecer qualquer resistência ao presente.»

13.Mar.2015
. O otium e o lazer | «O tempo do lazer é aquele que resta depois do trabalho, vulgarmente chamado “tempo livre”, o que indica que ele se define não em si mesmo, mas em relação ao tempo de trabalho. Diferente do lazer é o ócio (no sentido do otium latino, não no sentido pejorativo que a palavra adquiriu). É do otium que nascem as artes, as letras e as ciências. O lazer é um tempo de recuperação e de preparação para o trabalho; o otium é o tempo da liberdade e não se deixa apropriar pela lógica mercantil dos tempos livres […] O sobressalário não está dependente da lei do mercado, da oferta e da procura. Trata-se de um salário arbitrário, isto é, dependente de uma arbitragem e de um preço políticos, e não do mercado. Um exemplo: o Lloyds Bank paga mais de uma dezena de milhões de libras, só em prémios e suplementos, ao seu CEO Horta Osório, como ficámos há dias a saber, não porque ele seja o único no mundo a conseguir a performance desejada (que, aliás, depende de uma equipa numerosíssima e não de uma só pessoa), mas porque convém ao Lloyds a operação publicitária que consiste em dizer ao mundo que tem a chefiá-lo um homem superpoderoso, e a medida do seu superpoder é evidentemente aferida pelo dinheiro que ganha. Esta burguesia do sobressalário raramente tem a possibilidade de converter o seu dinheiro em tempo. […] só o otium concede tempo e disposição para ler Guerra e Paz. O lazer, na melhor das hipóteses, satisfaz-se com um item do top Fnac ou com os roteiros da “cultura para o fim-de-semana”.»
Como diria Ana Lourenço: «Vamos fazer agora uma pequena pausa para intervaloEu espero por si.»

20.Mar.2015
. A política virtuosa | «Com a solicitude esclarecida do bom pastor que sabe por onde deve conduzir o rebanho, Francisco Assis, na sua crónica da passada semana ["A difícil moderação", Público, 12.Mar.2015], pôs-me à distância da sua “difícil moderação” e empurrou-me para o lado dos extremismos. […] Eu tinha cometido a indelicadeza de o classificar como representante de uma elite consensual que exibe as virtudes da moderação centrista, mas o centro a que me referia podia não coincidir com o centro ideológico. […] este editorialismo ideológico e generalizado intoxica o ambiente, corrompe a linguagem, asfixia o pensamento e arruína o espaço público. É este contexto que permite a Francisco Assis reclamar como um gesto de coragem e de grande ousadia a sua “difícil moderação”. […] Celebremos a prova de resistência e de luta esforçada pela moderação salvífica, na batalha de Assis da penúltima quinta-feira, em nome de uma coisa que nos esmaga, de tal modo representa o todo da política virtuosa: a “civilização democrática e liberal”. Assim lhe chama Francisco Assis, funcionário político, obreiro intelectual e seu guarda avançado. Esta densa e eloquente elaboração do pensamento político, a que Karl Kraus chamaria “fraseologia”, é uma manifestação gritante do idioma mediático-político, irredutivelmente “nem-nem”. Nem isto nem aquilo, ele é pura tagarelice, uma palavra vazia, insignificante.»

27.Mar.2015
. Ah, a poesia! | «A ampliação, de ano para ano, das manifestações públicas para festejar o Dia Mundial da Poesia é um sintoma (atenção: um sintoma, não uma causa) de que se chegou a um ponto crítico da delapidação da poesia, não sob a forma da violência exercida por um inimigo exterior, bem identificado, mas sob a forma do desastre sereno vindo de tantos lados e impossível de localizar com precisão: é como o tempo que faz, o tempo meteorológico. Estas bem-intencionadas manifestações em sua honra são de facto um sintoma de que a poesia caminha para a museificação, mas perdeu efectualidade social e já nada conta na economia do livro. A esta contingência respondem alguns poetas mais foliões fazendo de jograis intermitentes no palácio quando chega a Primavera.»

03.Abr.2015
. A grande fadiga europeia | Recensão de "Submissão", romance de Michel Houellebecq. França, ano de 2022. «O presidente muçulmano chega serenamente ao topo do poder político em França, à margem das lutas entre o “movimento identitário” e os islamitas radicais. […] por todo o lado são bem visíveis os signos da conversão a uma nova ordem. Por exemplo, as mulheres, antes tão emancipadas e até libertinas, começam a cobrir a cabeça com um véu. Fazem-no porque o novo regime as obriga? Não, fazem-no voluntariamente, escolhendo alegremente a submissão em vez da crítica e da resistência. São os mecanismos da submissão generalizada que Houellebecq transforma em fábula política.»
. A desfiguração do rosto | «Ainda o coro ia no adro e já estava a ser exibida na última edição da revista do Expresso uma iconografia do escritor [Herberto Helder] que sempre tinha dito “não” a álbuns de família e outros bibelots, e que um dia escreveu: “Não me vou deixar apanhar por tentações biográficas.” […] o tempo e a força da sua obra irão novamente fazer desaparecer o rosto, mas por agora o efeito é o de uma desfiguração. […] Porque Herberto sempre esteve do lado da neutralidade da imagem do escritor perante a sua obra, reduzindo-o ao anonimato, o álbum de fotografias de Alfredo Cunha tem o efeito terrível de o fazer aparecer na condição de apóstata. Um fotógrafo à altura da difícil missão poderia ter feito o seu trabalho sem que se quebrasse o pacto que o poeta tinha estabelecido com a esfera pública. Mas as fotos não passam da mais banal reportagem, iconografia lisa e estereotipada de escritor com estantes de livros atrás. Nelas, não se adivinha nenhuma espessura, nada que indicie a presença de Herberto Helder, por mais que nos digam que é dele a figura que elas representam. […] é sempre obsceno, e ninguém deveria ser autorizado a tal, abrir as portas da intimidade num jornal. Tratando-se de Herberto Helder, que levou a vida inteira a fechar todas as portas, não é apenas obsceno, é uma violência.»

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Vitor Silva Tavares

«[...]
Para que é que eu hei-de ir agora ler o [António] Lobo Antunes  se já li o Faulkner?
[...]»
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Vitor Silva Tavares, avive-se«uma das melhores pessoas que existem em Portugal.» - Hélder Macedo.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Vitor Silva Tavares,

«uma das melhores pessoas que existem em Portugal.» - Hélder Macedo, poeta.

«Quando publiquei A Cona de Irene, de Louis Aragon, pedi a um rapaz que colaborava aqui comigo que fosse ali à livraria Bertrand ver se queriam alguns exemplares para pôr à venda. Resposta do director da loja: ‘Pensa que isto aqui é uma casa de putas?' Indignada, a minha boa amiga Luísa* Neto Jorge pegou ao colo o seu filho ainda bebé e voltou lá. Pediu para falar com o director da loja e, enquanto embalava a criança, disse-lhe com voz cândida: 'Queria o livro A Cona de Irene, têm?' 'Não, não temos mas vou já encomendar', respondeu logo ele todo solícito...
[…]
O formato dos nossos livros [& etcé uma insubmissão. É um luxo táctil. Têm um não sei quê que dá vontade de apalpar, porque a mão que pega no livro é a mesma que pega nas coisas que ama.»
Vítor Silva Tavares | DN, 29.Out.2011

«Não fosse a espessura trágica que se intui sob as histórias cheias de ironia e sarcasmo que conta em catadupa, num tom de tal forma impressivo que deixa os seus ouvintes hipnotizados, poder-se-ia afirmar que Silva Tavares não existe.»

Bom trabalho, Joana, parabéns e muito obrigado.