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sábado, 14 de maio de 2022

Exaltação do dinheiro na missa do enforcado

«O Banco Privado Português só trata de dinheiro.» 

Deixem-me imaginar.
Cumpridas as formalidades legais e consulares, incluindo a autópsia, traz-se o corpo para inumação na terra que o viu nascer, faz dentro de dias 70 anos
A viagem de trasladação terá um pequeno desvio por Bilbau para celebração da missa de corpo presente, presidida por Vítor Melícias, na sala do museu do Solomon entretanto reservada.    
Da liturgia fúnebre constará a leitura solene de algumas peças literárias de exaltação do dinheiro, seleccionadas entre várias dezenas que o enforcado encomendou a agência especializada e que renderam aos autores, no primeiro decénio do século XXI, 1500 euros por texto, pela seguinte ordem de autoria:
Incumbir-se-ão da leitura, alternadamente, Leonor Silveira e Pedro Abrunhosa, designados por conta da dicção esmerada que lhes é unanimemente reconhecida e por integrarem a lista de autores escolhidos. Assim, a encerrar o referido momento litúrgico, Leonor Silveira lerá o texto de Pedro Abrunhosa e este lerá o de Leonor Silveira.
Não sei se aguento sem chorar.     

Na altura em que rabisco esta fantasia não é possível confirmar se o presidente-arlequim, que é muito devoto e homenageador, comparecerá.


Convenhamos por fim que será difícil congeminar ironia mais cáustica do que a de eu ter sabido do banqueiro morto pelas 9h00 de ontem através de uma notícia no ... Dinheiro Vivo.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Doutor Manuel Alegre

«A ficha curricular de Manuel Alegre, guardada no Arquivo do Departamento Académico da Universidade de Coimbra, indica que o poeta concluiu o 1.º e o 2.º ano de Direito, mas quanto ao 3.º ano apenas regista aproveitamento na disciplina semestral de Direito Fiscal. Esteve inscrito também em Economia Política, a cujo exame faltou, e nas cadeiras anuais de Administração e Direito Colonial, Finanças e Direito Civil – mas não as concluiu.»

Manuel Alegre, que nem bacharel logrou ser*, não corrige quem o trata por doutor. Já aqui falara disso a propósito de um serão eleitoral de 2016

José Gonçalez- O Manuel licenciou-se em Direito em Coimbra, não é?
Manuel Alegre- Em Coimbra, em Coimbra.

Que consideração pode merecer um senador da "ética republicana" que municia o seu pedigree escolar numa impostura perpétua?

Conto que a eventual justeza destas observações não fique diminuída pela simpatia escassa que dedico ao consagrado cagão de Águeda... 
________________________________________
* «[...]
2. O grau de bacharel em Direito é inerente à aprovação em todas as disciplinas dos três primeiros anos do curso.
3. O grau de licenciado em Direito é inerente à aprovação em todas as disciplinas dos cinco anos do curso.
[...]»

quarta-feira, 25 de março de 2020

Relatório da virose

Quarta, 18 de Março
Com um bom discurso de João Oliveira, o Partido Comunista Português abstém-se no estado de emergência; a "Festa do Avante!" (ainda) não foi cancelada. Faz sentido.

1.ª Descontaminação das ruas de Bobadela, por José operário.

Quinta, 19
Dia do pai
A minha filha mais velha deu-me "A Sociedade do Cansaço", de Byung-Chul Han, de 2010, editado em Portugal em 2014, que começa deste modo, negrito meu:
«Cada época tem as a suas doenças paradigmáticas. Podemos, assim, dizer que existe uma época bacteriana que só durou, porém, quando muito, até à descoberta dos antibióticos. Apesar do medo descomunal de uma pandemia gripal, não vivemos presentemente na época viral. Graças ao desenvolvimento da técnica imunológica, já a conseguimos ultrapassar. [...]» - Página 9 
Se calhar piou cedo demais. *

«Quando se tratam de casos isolados, obviamente tudo se torna mais complicado. Até agora já assegurámos o repatriamento de cerca de 408 portugueses vindos de mais de quatro continentes.» -António Costa
Nada como um primeiro-ministro rigoroso e exacto. Ficamos mais descansados.
Já agora, «se trata de casos isolados», s.f.f.

Sábado, 21
Dia Mundial da Poesia
Não me atrevo a dizer que José Jorge Letria é melhor poeta do que Manuel Alegre. Não nutrindo especial estima por qualquer deles — tenho-lhes a poesia por igualmente sofrível e a eles por diversamente videirinhos —, acho que os versos de JJL, "A vida triunfa em casa", dão uma cabazada de qualidade e de carpintaria aos do impante cagão de Águeda, "Lisboa ainda". Do poema do Letria ninguém falou; as redes emprenharam com o do Alegre. É do share.

«[...] Vivemos a céu aberto como garimpeiros depois dos aluviões [...]»
Alguém avise sua eminência reverendíssima de que aluvião é um substantivo feminino. 

Assisti na RTP 2 a "Linhas Tortas", financiado pelo ICA, produzido por Paulo Branco, escrito por Carmo Afonso, realizado por Rita Nunes, com cameo da guionista acompanhada de Fernanda Câncio na plateia, felizes. 
A advogada Carmo Afonso, autora da história, que até nem escreve mal, veste António Almeida, protagonista, de escritor e jornalista. É em tal conformidade e tendo em conta a porrada de gente culta envolvida na urdidura da fita que se torna indesculpável aquele «Tenho de ir Luísa» sem a obrigatória vírgula na Luísa. Cambada de disléxicos!
Nunca falha. O putedo é coeso e solidário, raramente deslassa. Comem e dançam nos mesmos sítios.**

Domingo, 22
«nossas desculpas», o caralho!

Terça, 24
«Sei que isto não é apenas geracional, é também “de grupo”, mas a mim, quando estou distraído e oiço “segundo a DGS”, toca-me ainda uma certa “campaínha” histórica.»
Com tantos e lustrosos leitores, espanta que ainda ninguém tenha alertado o doutor Francisco Seixas da Costa para o acento espúrio com que de há muito faz tinir as campainhas.

Entre as 15h11 e as 15h15, durante exactamente 3 minutos e 54 segundos, a CMTV, a propósito da Covid-19, manteve em oráculo «2362 mortos em Portugal».
Tratava-se, claro, do número de infectados - mortos eram 33, mas insistiram sem corrigir. Distracção e incompetência intoleráveis. Mesmo sem querer, a CMTV não engana: sangue e morte pecarão sempre por defeito.

Quarta, 25
2.ª Descontaminação das ruas de Bobadela, pela Senhora da limpeza.

Entretanto, o doutor André Gonçalves Pereira, falecido em 09.Set.2019, continua a pontificar no Conselho Consultivo do Público e o doutor Miguel Esteves Cardoso, casado com Maria João Pinheiro há 20 anos, continua a viver com a Maria João «há quase 13 anos».

É do corona.
___________________________________________
* Acompanhemos Byung-Chul Han:
«[...]
Na China e noutros Estados asiáticos como a Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura, Taiwan e Japão, não existe uma consciência crítica diante da vigilância digital e do big data. A digitalização embriaga-os directamente. Isso obedece também a um motivo cultural. Na Ásia impera o colectivismo. Não há um individualismo acentuado. O individualismo não é a mesma coisa que o egoísmo, que evidentemente também está muito propagado na Ásia.
Ao que parece o big data é mais eficaz para combater o vírus do que os absurdos fechamentos de fronteiras que hoje estão a ser feitos na Europa. Graças à protecção de dados, entretanto, não é possível na Europa um combate digital do vírus comparável ao asiático. Os fornecedores chineses de telemóveis e de Internet compartilham os dados sensíveis de seus clientes com os serviços de segurança e com os ministérios de saúde. O Estado sabe, portanto, onde estou, com quem me encontro, o que faço, o que procuro, em que penso, o que como, o que compro, aonde me dirijo. É possível que no futuro o Estado controle também a temperatura corporal, o peso, o nível de açúcar no sangue, etc. Uma biopolítica digital que acompanha a psicopolítica digital que controla activamente as pessoas. [...]
Na verdade, vivemos durante muito tempo sem inimigos. A Guerra Fria terminou há muito tempo. Ultimamente até o terrorismo islâmico parecia ter-se deslocado para áreas distantes. Há exactamente dez anos sustentei no meu ensaio "Sociedade do Cansaço" a tese de que vivemos numa época em que o paradigma imunológico perdeu a sua vigência, baseada na negatividade do inimigo. Como nos tempos da Guerra Fria, a sociedade organizada imunologicamente caracteriza-se por viver cercada de fronteiras e de vedações que impedem a circulação acelerada de mercadorias e de capital. A globalização suprime todos esses limites imunitários para dar caminho livre ao capital. Até mesmo a promiscuidade e a permissividade generalizadas, que hoje se propagam por todos os âmbitos vitais, eliminam a negatividade do desconhecido e do inimigo. Os perigos não espreitam hoje da negatividade do inimigo, e sim do excesso de positividade, que se expressa como excesso de rendimento, excesso de produção e excesso de comunicação. A negatividade do inimigo não tem lugar na nossa sociedade ilimitadamente permissiva. A repressão a cargo de outros abre espaço à depressão, a exploração por outros abre espaço à auto-exploração voluntária e à auto-optimização. Na sociedade do rendimento guerreia-se sobretudo contra si mesmo. [...]
O vírus não vencerá o capitalismo. A revolução viral não chegará a ocorrer. Nenhum vírus é capaz de fazer a revolução. O vírus isola-nos e individualiza-nos. Não gera nenhum sentimento colectivo forte. De alguma maneira, cada um preocupa-se somente com a sua própria sobrevivência. A solidariedade que consiste em guardar distâncias mútuas não é uma solidariedade que permita sonhar com uma sociedade diferente, mais pacífica, mais justa. Não podemos deixar a revolução nas mãos do vírus. Precisamos de acreditar que após o vírus virá uma revolução humana. Somos NÓS, PESSOAS dotadas de RAZÃO, que precisamos de repensar e de restringir radicalmente o capitalismo destrutivo, e também a nossa ilimitada e destrutiva mobilidade, para nos salvarmos, para salvar o clima e o nosso belo planeta.»
"A emergência viral e o mundo de amanhã" | El País, 22.Mar.2020

** A propósito e a despropósito, faz hoje dois anos...
Aqui se repristina o memorial.

domingo, 11 de junho de 2017

Superlativo absoluto simples* de Manuel Alegre: 100 000,00 €

Em três edições do Expresso do ano de 2005, o socialista emérito Manuel Alegre, deputado na altura, escrevia e assinava "Um par de Purdeys", pregão pornográfico ao Banco Privado Português, de nefanda memória:
«Fui às compras com o Dinheiro, porque esse, ao menos, sabe fazer contas. Passei por uma espingardaria, vi um par de Purdeys muito bonitas, essas armas que há muito são o meu sonho. Outros querem carros e jipes de grandes marcas, casas de campo e de praia, mais isto e mais aquilo, eu só queria um par de espingardas Purdey. Olhámos o preço, o Dinheiro torceu o nariz.
- O vencimento de deputado é uma pelintrice, se não dava para os charutos do outro, como é que queres que dê para as Purdeys?
E fazendo contas de cabeça, acrescentou: Nem sequer com os direitos de autor.
[…]
fiquei na dúvida se o Dinheiro não estaria ele próprio contaminado, quer pela doutrina social da Igreja, quer por algumas reminiscências de Marx, se não do "Capital", que só o Louçã deve ter lido até ao fim, talvez, quem sabe, dos "Manuscritos de 1844", que falam também da alienação do capitalista.
Tretas. O velho enganou-se. Qual alienação qual carapuça. Abre os olhos, rapaz, olha para o mundo à tua volta, o capitalismo ganhou, quem é e quem pode é quem tem.
[…]
- … a poesia não dá para o que tu sabes.
E apontou, o filho da mãe, as duas Purdeys, que mais uma vez ficaram no tinteiro.
Manuel Alegre»


Informação circunstanciada. - Público online, 07.Jan.2011.

Com voto favorável dos quatro jurados não portugueses do "Prémio Camões 2017", Paula Morão, presidente do júri, e Maria João Reynaud atribuíram a Manuel Alegre os 50 mil euros correspondentes à contribuição de Portugal.

Entre os 29 ungidos, desde 1989, não consigo lobrigar nenhum, incluindo Hélia Correia, tão fraco e desmerecedor como o tonitruante poeta sofrível e intratável cagão de Águeda que, a despeito de não ter mais do que 11 anos oficiais de escolaridade — nenhuma desonra ou menoscabo nisso, porém! —, a doutora Clara Ferreira Alves, reverencial e embevecida, tratava por doutor Manuel Alegre no Falatório da RTP 2, em 1996. Não era nem é a única; e ele não desgosta nem corrige.

Não gosto de Manuel Alegre. Conheço-lhe os escritos quase todos; acompanho-lhe desde 1974 o trajecto público, caprichoso, errático, truculento, mas permanentemente amesendado, com a família**, à República. Não sei de que coisa assim tão extraordinária cultural e civicamente Portugal lhe deva, mas consigo especular sem vesânia nem má-fé sobre quanto, no seu rol doméstico privado, ele "deve" aos contribuintes portugueses. Desde quinta-feira passada, mais 50 000,00 €.

«É natural que me atribuam este prémio. Até podia ter sido mais cedo.» – Manuel Alegre, DN, 09.Jun.2017.

Pode, finalmente, tirar as Purdeys do tinteiro. 

Professora Paula Morão: vitória justíssima.*
Presidente-arlequim: homenagem justíssima.*

Siga o baile.
___________________________________________________
** Manuel Alegre de Melo Duarte,
- casado com Mafalda Maria de Campos Durão Ferreira, antiga subdirectora dos Assuntos Consulares;
- pai de Francisco Durão Ferreira Alegre Duarte, diplomata, e de Joana Durão Ferreira Alegre Duarte, assessora da vereação PS no município de Lisboa;
- irmão de Maria Teresa Alegre de Melo Duarte Portugal, ex-deputada do PS, viúva do célebre guitarrista e antigo deputado do PS António Jorge Moreira Portugal [1931–1994], mãe de Manuel Alegre Portugal, jornalista da RTP, e de João Raul Henriques Sousa Moura Portugal, recente ex-deputado do PS e actual vereador pelo PS na Câmara Municipal da Figueira da Foz, o que me remeteria inevitavelmente para "Tavares & Tavares e o incenso dos Joões", pois, como avisa Ana Cristina Leonardo, «Isto anda tudo ligado», mas estou sem tempo e sem pachorra e ai de mim se quero sugerir seja o que for.
Etc.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Tavares & Tavares e o incenso dos Joões

"O coro dos defuntos", publicado em Novembro de 2015, valera a António Tavares, no mesmo ano de 2015, o "Prémio Leya" — 100.000 euros —, de cujo júri Manuel Alegre aparenta ser presidente perene.
Na edição de 2013, António Tavares fora finalista vencido com "As Palavras que me deverão guiar um dia", publicado em Agosto de 2014. 
O escritor António Tavares, advogado, jornalista e professor, foi eleito em 2009 e reeleito em 2013, pelo Partido Socialista, para a Câmara Municipal da Figueira da Foz de que é hoje vice-presidente, mas não é isso que vem ao caso.
O que me traz é o livro "Todos os dias morrem deuses", que não li nem conto ler, o mais recente do autor, que teve lançamento oficial em 21.Abr.2017, faz hoje três semanas, e que mereceu no DN definhante de Pedro Marques Lopes, de Proença de Carvalho, do genro de Cavaco Silva e de José Sócrates imediata recensão abonatória de João Céu e Silva em 29.Abr.2017 e, dois dias depois, apreciação não menos encomiástica de João Gobern.
"O coro dos Joões", isso.*

Em 2008, os primeiros 100 000 euros do Leya ganhou-os o brasileiro Murilo Carvalho, com "O rastro do jaguar", não se lhe conhecendo títulos ulteriores.
Em 2009, com "O Olho de Hertzog", venceu o moçambicano João Paulo Borges Coelho que publicaria em 2010 "As visitas do Dr. Valdez", em 2011 "Cidade dos espelhos", em 2013 "Rainhas da noite" e em 2016 "Água - Uma novela rural".
Em 2010, o prémio não foi atribuído.
Em 2011, com "O teu rosto será o último", ganhou João Ricardo Pedro que publicaria "Um postal de Detroit" em 2016.
Em 2012, com "Debaixo de algum céu", Nuno Camarneiro que veio a publicar em 2015 "Não acordem os pardais" e "Se eu fosse chão".
Em 2013, com "Uma outra voz", Gabriela Ruivo Trindade que voltou a publicar em 2016: "A vaca leitora".
Em 2014, com "O meu irmão", ganhou um miúdo nascido em 1990, Afonso Reis Cabral, que nada publicou entretanto.
Em 2015, o dito Tavares.
Em 2016, Manuel Alegre voltou a não premiar ninguém.
O vencedor de 2017, havendo, será anunciado lá para Novembro próximo.

Todo este aranzel porque João Céu e Silva, jornalista que muito prezo, escreve a propósito de António Tavares o seguinte despautério, destaques meus:
«[...] Diga-se que é o único dos premiados com o "ambicionado" Prémio Leya que anualmente corresponde com um livro ao interesse dos leitores pelos finalistas vencedores deste galardão. Dos restantes, ou não se ouve falar ou entregam projectos demasiado bissextos à editora. [...]»
Leviano, para não dizer ridículo. E injusto para alguns premiados. De resto, nem é verdade que o incensado Tavares tenha escrito todos os anos depois de 2015, já que em 2016 não publicou nada. Ao contrário, por exemplo, do Plúvio que escreve anualmente, sem falhas, no seu T3 na Bobadela, as actas do condomínio: a de 2016 e a de 2017. 
Mas gostei de ver em 14.Abr.2017 o Céu a falar da sua Fátima no Inferno do Canal Q.


O que conheço da escrita de António Tavares não me arrebata: algo pretensiosa, incapaz de uma boa metáfora, a puxar para o críptico e vocabularmente esotérico. Afinal, não é Aquilino quem quer.
Uma amostra:
«[…]
FEVEREIRO, 2015
[…]
Embrulhava-me num cobertor, madrugada a abrir-se aos machacazes que aricam as alvercas e os barrosais, para delas tirarem sustento. Vou mudando de espaço e de tempo e era** muitos, como um coro.
[…]
E tinha Aquilino diante de mim. Aquilino rima com Luandino.
[…]
OUTUBRO, 2015
[…]
E tocava o telefone. E tocou: "Vou passar ao Manuel Alegre", disse-me uma voz. Alegria, pois.***
[…]»
António Tavares, "Diário de um prémio" | JL 1176, 28.Out.2015

E vós, Plúvio, se vos enxergásseis?
____________________________________
* Não estou certo é de que tenham lido o mesmo livro:
o do João Céu e Silva tem 172 páginas e custa 12,90 €; 
o do João Gobern é maior e custa menos: 176 páginas, 11,61 €.

** Vou ... e era ... [?!]


*** Então não? Pudera! Para quantas doses de amêijoa à Bulhão Pato dão 100 mil euros?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Rescaldo dum serão — Todos, todas, tudo e o mais

Fervorosas e extraordinárias coisas se disseram e gritaram.
O Bloco de Esquerda anda alucinado e tentou atirar-nos poeira aos olhos.
Marcelo cantou.
António Costa, feliz, proferiu um dislate afrontoso.
Maria de Belém sem lepra nem lepro. 

20h06 [José Gusmão, direcção da campanha de Marisa Matias, inebriado]— Um resultado que será de longe certamente o maior resultado alguma vez obtido em eleições presidenciais de uma candidatura desta área política.* […] A candidatura da Marisa foi a candidatura que mais espaço político conquistou durante este processo eleitoral. Foi uma candidatura que conquistou dezenas de milhares de eleitores à abstenção.

20h13 [Correia de Campos, mandatário nacional de Sampaio da Nóvoa]— Os primeiros resultados que foram divulgados com base em sondagens à boca da urna manifestam que existe ainda uma grande incerteza sobre o resultado final.
Homem de fé.

20h41 [Maria de Belém, candidata vencida]— Boa noite a todos. […] Saúdo todos os portugueses, designadamente os cidadãos eleitores.
Felicite-se, desta vez, a candidata libelinha videirinha que poupou o auditório à lepra do gargarejo "politicamente correcto".

- Doutor Manuel Alegre, ficou desiludido?
- Doutor Manuel Alegre, como é que fica o Partido Socialista?
- Esperava uma vitória à primeira volta do professor Marcelo Rebelo de Sousa, senhor doutor?
- Quem é que fez essa campanha [Manuel Alegre acusara indeterminados de "uma campanha ignóbil" contra Maria de Belém], senhor doutor?
Esperar-se-ia que o barítono de Águeda, cuja habilitação escolar completa é o antigo 3.º ciclo liceal, pedisse ao repórter da SIC qualquer coisa como Por favor, não me trate por doutor!, mas o mais perto que andou disso foi Não me empurrem, por favor! - 00:12

21h16 [Marisa Matias, candidata vencida, levitante] Em democracia, o mais precioso que temos é mesmo a decisão dos portugueses e das portuguesas

21h31 [Edgar Silva, candidato vencido]— É meu dever agradecer a cada um dos portugueses e a cada uma das portuguesas […] Saúdo cada um dos portugueses e cada uma das portuguesas.

21h46 [Sampaio da Nóvoa, candidato vencido]— Boa noite e obrigado a todos e a todas. [...] Nesta noite, tenho apenas duas mensagens para os portugueses e para as portuguesas. [...] A segunda palavra é para me dirigir a todos e a todas que fizeram esta campanha extraordinária. [...] Peço a todos e a todas que apoiaram esta candidatura [...] A todos e a todas, muito e muito obrigado.

21h53 [Catarina Martins, porta-voz do BE, em evidente estado de alucinação]— É o maior resultado numas presidenciais à esquerda*. O maior de sempre da área política do Bloco de Esquerda*. A Marisa Matias mobilizou da esquerda à direita, mobilizou na abstenção, mobilizou todas as pessoas que mesmo sofrendo tanto não desistem do país. Mobilizou quem nunca soube o que era um contrato de trabalho mas luta por um futuro com dignidade no nosso país.
Se o ridículo matasse... [...] Parabéns, Marisa Matias, que grande campanha!
Se a pastorinha do venerando Boaventura mobilizou tanto e em tanto lado, como conseguiu perder mais de 80 000 votos dos que o Bloco de Esquerda obtivera em 04.Out.2015? Nas 10 presidenciais desde 1976, só numa 2011, reeleição de Cavaco Silva , a abstenção, 53.48%, foi superior à desta eleição, 51.16%. Isto é que foi mobilizar, doutora Marisa!

22h11 [Marcelo Rebelo de Sousa, candidato vencedor, presidente eleito, num discurso razoavelzinho], a abrir— Portuguesas e portugueses […] Não há portugueses vencedores ou vencidos. Não há vencidos nestas eleições. [...]portuguesas e portugueses sem excepções nem discriminações.
Lérias, conversa de sempre; claro que há vencedores e vencidos. Neste caso, uma candidatura e os seus eleitores venceram, nove foram vencidas.
[...] Serei a partir de agora o presidente de todas as portuguesas e de todos os portugueses. [...] Saúdo igualmente os meus oponentes** nesta eleição, que nunca foram meus adversários.
Foram adversários, ai isso é que foram! 
[...] Portuguesas e portugueses, [...] não deixarei de ser em termos sociais empenhado e actuante olhando preferencialmente para […] os que vivem nas periferias da sociedade, de que fala o Papa Francisco.
Gritou-se na Faculdade de Direito de Lisboa «Viva o Papa!». Receei que o professor puxasse do terço. O doutor Mário Soares há-de ter gostado.
[...] Confio nas portuguesas e nos portugueses.


22h34 [António Costa, primeiro-ministro, não disfarçando o regozijo pela eleição de Marcelo]— Quero formular votos sinceros — Nunca António Costa terá sido tão sincero. — dos maiores sucessos no exercício do mandato que hoje lhe foi conferido pelas portuguesas e pelos portugueses. [...] Ao Presidente da República ora eleito quero reafirmar o compromisso da máxima lealdade e plena cooperação inchtucional.
22h35 [O doutor António Costa, num desconchavo grave e insultuoso]— Quero congratular-me muito em especial pelo facto de, ao contrário do que vem acontecendo em outros países europeus, os portugueses terem rejeitado claramente as candidaturas populistas e que se apresentavam como sendo anti-sistema, o que revela uma saudável confiança de que é no quadro democrático e só no quadro democrático que encontramos respostas para as ansiedades, os desgostos e os problemas que temos pela frente [...]
'candidaturas populistas' ainda é o menos; no fundo, todas têm disso. Agora, 'anti-sistema', fora do quadro democrático?! A quais, destas 10 pessoas, se referia? Que candidaturas, das 10, se «apresentavam» em tais preparos? A República Portuguesa deverá exigir à presuntiva limpidez e frontalidade democráticas deste primeiro-ministro que diga de quem falava.  
______________________________________
* Mentira, mentira. É consultar a história. Desde o bambúrrio de 4 de Outubro, que fica a dever a Ricardo Salgado [deixem-me imaginar como estaria hoje o BE, não fosse a tranquibérnia do BES], o Bloco de Esquerda anda numa BEbedeira pegada. Nem para administrar um pequeno condomínio confiaria nesta BEatífica, arrogante e alucinada gente. 

** «[...]
Tal como Marisa Matias, (Marcelo Rebelo de Sousa) elogiou a democracia e os “oponentes” (substantivo deselegante) que o elegeram.
[...]»
_______________________________________
Insisto: o resultado destas presidenciais só poderá ser tomado por correcto e definitivo depois de dilucidado o escrutínio da mirabolante secção de voto n.º 27 da União das Freguesias de Santa Iria de Azóia, São João da Talha e Bobadela.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Masturbação colectiva de três beatos

- José Manuel Pureza [JMP], diácono de Coimbra, o mais BEato dos três
- Octávio Teixeira [OT], estalinista-fandango

JMP [diz acòrdos, mal]- Sou daqueles que pensa que o acordo*

OT [diz acôrdos, bem]- Como diz a Helena, se for preciso será.

HR [diz acòrdos, mal]- Estou absolutamente de acordo com o que estão a dizer. Concordo em absoluto.

OT- Uma das questões fundamentais destes acordos, do meu ponto de vista, foi a clareza com que eles foram assinados.
HR- Claro!
OT- … e a clareza daquilo que eles contêm.

JMP- Eu creio que todas e todos** temos a consciência de que estes quatro anos que percorremos foram anos de radicalização.

HR- Oiça!, eu cito aqui o Manuel Alegre. Ele costuma dizer uma frase que eu muitas vezes penso.

Tanta clareza, tanta transparência, tanta certeza absolutamente inequívoca extenuam-me.
___________________________________
* Sou daqueles que pensam, s.f.f.
** Se o ridículo matasse

Nota
Nada contra a masturbação, bem pelo contrário. O resultado é sempre, no mínimo, de 5 a 1.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Maria de Belém

Por estes dias li e ouvi encómios ao discurso; parece que fora coisa densa e poética. «O discurso dela é um discurso muito forte.», exarou o doutor Alberto Martins
Fui ver. Transcrevo:
«[...]
Sinto que o meu primeiro dever é o de enunciar de forma sucinta e clara as razões políticas da minha candidatura à Presidência da pública, dando assim resposta à pergunta legítima que todas e todos* têm o direito de fazer. Porque é que decidi candidatar-me à Presidência da pública?
[...] 
Candidato-me à Presidência da pública porque estou convicta que posso ** dar um contributo pessoal e político para a melhoria das condições de vida dos meus concidadãos… 
[...]
Candidato-me à Presidência da pública porque pretendo dar um sentido de unidade e de pertença, assente na dignidade da pátria e no orgulho de ser português, a todas as portuguesas e portugueses* espalhados pelo mundo.
[...]
Caras amigas, caros amigos, caros concidadãos*, numa pública democrática não há coroação nem nomeação para a presidência.
[…]
Olho para o meu país e vejo o talento das portuguesas e dos portugueses*, uma nação valente que não se vêrga às adversidades.***
[…]
Caras amigas, caros amigos, caros concidadãos*,O meu compromisso éo de realizar uma presidência das pessoas, uma presidência para as pessoas, uma presidência pelas pessoas, uma presidência com as pessoas.
[…]
É minha convicção que Portugal deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para manter, completar e aprofundar o proto de integração europeia. Este proto de realizar uma união política europeia é absolutamente vital... 
[...]
Portugal que todas e todos* queremos e que só com as palavras de um poeta podemos atrever-nos a descrever: 'O teu destino é nunca haver chegada / o teu destino é outra Índia e outro mar / e a nova nau lusíada apontada / a um país que só há no verbo achar.

Maria de Belém citou explicitamente Amayrta Sen e — podia lá faltar!?,  ainda por cima com dois padres a bordo... — o Papa Francisco. Não se entende porque não identificou Montesquieu [«nas palavras de um grande pensador da liberdade e da democracia, 'desse amor à igualdade que é o amor à pátria'».], mas entendo que nomear o bardo de Águeda, ali presente e abençoador, pudesse soar a demasiado putedo ou a concubinato poético ["Portugal"].

- Candidato-me à Presidência da pública... 
Caras amigas, caros amigos, caros concidadãos...*
- Olho para o meu país e vejo... 
Nos 20 minutos e 35 segundos que a arenga redonda durou, deram-se 16 efusões de aplauso. Na sala Sophia de Mello Breyner do CCB, em 13 de Outubro de 2015 repleta como nunca de gente moça, ninguém contudo superou o estrídulo empolgamento do jovem sentado na ponta direita desta fotografia

Admito que foi discurso para valer mais do que um peido furado; mas não mais do que uma unha roída.

Uma coquetezinha, betinha, videirinha, catolicazinha, tagarelazinha na Presidência?
*** Força na verga e viva a Nação!
______________________________________

Discurso integral [vídeo amador].
Outros vídeos com partes da apresentação da candidatura:
Este - este - este - este

** Já agora, «estou convicta de que posso»; diz ela de que.
demarco, Masculino de Portugal:
- república
- não se verga
- projecto

domingo, 7 de junho de 2015

A convenção do Capucho*

Estive ontem no Coliseu.
17:37, António Costa- Minha cara Maria do Rosário Gama, muito obrigado pelo teu voto contra.
Reles, insultante.
17:38, António Costa- ... caras de sempre que são a marca identitária do PS da liberdade, como o Manuel Alegre, ou do PS da solidariedade, como o Ferro Rodrigues. Esse é o PS de sempre, esse é o PS que aqui esteve hoje.
17:44- Aplauso longo da convenção aos cafés do comendador Nabeiro. Também prefiro Delta.
17:53, António Costa- Vamos generalizar a construção de creches.
18:23- Aplauso emocionado e extenso do coliseu, de pé, à memória de José Mariano Gago.
18:23, António Costa- Valeu a pena termos estado cá há 20 anos [estados gerais do PS, "por uma nova maioria", com António Guterres — Coliseu dos Recreios, 11.Mar.1995] e vale a pena estarmos cá hoje outra vez. E vale a pena porque nós saímos daqui com uma visão estratégica, que é a agenda década.

Tamos conversados. Venham as creches.
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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Economia que mata e socialistas que pela pena vivem

"Bairro Ocidental", de Manuel Alegre, foi apresentado ontem à tarde em Lisboa, na livraria LeYa/Buchholz. Já o tinha lido e relido, por 9.90 €. Ida e volta, 45 minutos no máximo. Não sendo inteiramente mau, está muito longe de ser grande espingarda — nada que se compare, por exemplo, às "Purdeys", tão caras ao barítono de Águeda... Mas se outro mérito não tiverem, estes poemas têm pelo menos o de estar em português antigo, língua em que, usando um exemplo do livro"Variações sobre o desconcerto do Mundo", na página 25, aquilo donde pendem os lustres se chama tecto e não teto. Valha-nos isso.
Diz o DN de hoje que o autor «relembrou as palavras do Papa Francisco sobre a “economia que mata” * perante uma plateia onde estavam vários socialistas, entre os quais o ex-presidente Mário Soares, poetas e amigos.»
Por mim, acho que o poeta, ao convocar o Papa, não terá querido senão fazer charme ao correspondente de "L' Osservatore Romano", ali presente, que se vem encarregando de, religiosamente todas a terças-feiras, chamar a atenção dos tugas, na língua moderna a que o Diário de Notícias se subordinou, para a voz sábia do Papa Francisco ** e da sua influência no Mundo, no Tempo, no Universo e na aquisição de dois sinos para a igreja nova da Bobadela.
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* Não sei se pela economia se pelo mata, a verdade é que não me saem da lembrança as "Purdeys" do poeta, espingardas obscenas de caras, e o Banco Privado Português a que o emérito socialista fez publicidade em três edições do Expresso de 2005, por mais ingénuo que Alegre se confesse ou por muito que agora se lave no despojado Papa Francisco.  

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. «[…] o Papa Francisco é um Papa excecional e aberto, que diz o que pensa, e procura, sem problemas, estabelecer a paz com as outras religiões. […] Raul Castro foi ao Vaticano falar com o Papa Francisco, pondo-o ao corrente do que se passava, que lhe prometeu ir a Cuba. Num mundo em que há tantas guerras, são exemplos preciosos que não se devem esquecer... […] No Vaticano, perante 7000 pessoas de associações de trabalhadores católicos, o Papa Francisco disse que o capitalismo centra tudo no dinheiro e que as crianças, os idosos e os desempregados ficam à margem. Disse ainda que no atual mundo global não são apenas os problemas que contam, mas também a sua dimensão e a sua urgência, e que é inédita a velocidade da evolução das desigualdades. E que cito: "É necessária uma resposta vigorosa contra este sistema económico mundial, em que no seu centro não se encontram o homem e a mulher, mas um deus chamado dinheiro. É ele que comanda.A austeridade, que o Papa Francisco sempre disse que mata, continua a estar presente em Portugal.» - Mário Soares, DN, 26.Mai.2015
. «[…] Recordo que o Papa Francisco recebeu no passado dia 16 de maio o presidente da Palestina, Mahmoud Abbas, a quem chamou "anjo da paz". […]» - Mário Soares, DN, 19.Mai.2015
. «CUBA FOI AO PAPA - O presidente de Cuba, Raul Castro, foi visitar o Papa Francisco ao Vaticano, para lhe agradecer pessoalmente o contributo que deu à aproximação entre os Estados Unidos e Cuba. O encontro foi de tal maneira impressionante que Raul Castro, no final, com fina ironia, declarou que, se o Papa Francisco continuasse como é, ele voltaria a ser católico. Como sempre tenho dito e escrito, sem ser religioso, este Papa é um Papa absolutamente excecional e vai continuar como é. Raul Castro, que foi católico como o seu irmão Fidel, vai defrontar-se com o dilema de voltar a ser católico de novo... […]» - Mário Soares, DN, 12.Mai.2015
. «[…] Felizmente que há duas grandes figuras moderadas e extremamente inteligentes, que têm uma visão do futuro que marca os seus e outros Estados. Refiro-me, como os meus leitores já perceberam, ao presidente norte-americano Barack Obama e ao Papa Francisco. […] Quanto ao Papa Francisco, todos os dias nos fala invocando as dificuldades das boas causas e promovendo o diálogo e o entendimento entre as pessoas e as diferentes religiões.» - Mário Soares, DN, 05.Mai.2015

E assim terça após terça, apostólica e retroactivamente.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Evocação de Sophia de Mello Breyner Andresen,
por José Manuel dos Santos

«Minhas senhoras e meus senhores,
Estamos aqui para dar à memória de Sophia de Mello Breyner Andresen altura que ela deu à vida e à poesia que dela foi o centro e o sentido. Estamos aqui porque reconhecemos na sua voz a voz que continua a dizer o que é preciso ser dito. Estamos aqui porque ouvimos essa voz dizer: O poeta escreve para salvar a vida. Acredito que a poesia se opõe por sua própria natureza à degradação. Estamos aqui para lembrar o que Sophia lembrou num tempo subjugado e entregue à ameaça como também é o nosso. Não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas somos por direito natural herdeiros da liberdade e da dignidade do ser. Aqui olhamos o rosto da sua ausência e dizemos o nome lhe foi dado como uma predestinação: Sophia, Sabedoria. Afirmo de novo: não são os poetas que precisam de nós; somos nós que precisamos deles e das suas palavras de vida e de morte. Não é Sophia que precisa de nós; somos nós que precisamos dela como se nesta hora ela fosse o nosso Orfeu e nós dela a Eurídice.
A concessão das honras de Panteão Nacional a Sophia de Mello Breyner Andresen por decisão unânime da Assembleia da República faz da sua memória um símbolo colectivo mas não faz, nunca fará, de Sophia um escritor oficial ou um poeta de regime, mesmo daquele, o nosso, que a reconheceu e que ela reconheceu. Assim é e assim será sempre, porque a poesia de Sophia torna impossível a sua apropriação, a sua expropriação. Há nela a liberdade livre, a vida viva, a grandeza nua, o fogo firme que a não deixa ser senão de quem nela encontra o que ela é. Como se avisasse, Sophia disse: Os centenários, as homenagens, as comemorações não me parecem muito importantes. A poesia, porque é real, não precisa de ser oficial; porque é sagrada, não precisa de ser consagrada; porque é uma necessidade quotidiana, não precisa de dia de anos. É por isso que a entrada de Sophia neste templo em que os altares dos deuses deram lugar aos túmulos dos homens, é rito, símbolo e sinal. Tem aquela solenidade, irmã do silêncio e da solidão, que é o contrário da pompa e da propaganda. Por isso, este acto que celebramos aqui reconhece o que, com Hölderlin, Sophia afirmava: Aquilo que permanece os poetas o fundam. Sophia falou da sua poesia como se marcasse as idades da sua vida. Disse ela: Na minha infância nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao Universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio. (...) Sempre a poesia foi para mim a perseguição do real. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. (...) A poesia pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura A poesia de Sophia, que deu à língua portuguesa a soberania da sua exactidão, é uma arte do ser, uma mnemónica do mundo, um vértice da vida. O fio que a percorre, feito de claridade e de assombro, tem três nós de escuridão: o nó da noite, o nó do nada, o nó do não. Podemos dizer dela o que ela disse de Cesário Verde: Às vezes, algo de rouco, de alucinado e de visionário atravessa a lucidez dos seus poemas. Na vida de Sofia, os livros sucederam-se como as sílabas da primeira palavra dita no mundo. Foi dessa palavra que ela fez nascer todas as palavras da sua poesia. Com Homero, Sophia aprendeu a ver, com Dante, a imaginar, com Shakespeare, a perscrutar, com Hölderlin, a sagrar; com eles aprendeu a ser ela. Esta poesia acredita nos poderes da poesia. É medida e fúria, ânsia e serenidade, evidência e decifração. Procura a unidade e a inteireza, afronta a excomunhão e a divisão, a fractura e a falha. Liga, religa e comunga. Alia o caos e o cosmos, o mundo antigo e o mundo moderno, Ulisses e Cristo, o mito e a realidade, a gravidade e a graça, a claridade e o mistério, a felicidade e o terror.
No canto de Sophia, há o grandioso encontro de uma grande cultura com as suas origens e os seus ocasos, com as suas restituições e as suas rasuras, com os seus crimes e os seus cumes. Neste canto, o passado é a grande pergunta do futuro. No século XX português, Sophia e Fernando Pessoa são o verso e o reverso da moeda com que os deuses vendem o que dão. Com Pessoa ela travou um magnífico duelo que é um dos mais violentos diálogos da nossa cultura. Os poemas, os ensaios, o conto inacabado que tem Pessoa como centro, são o grande frente-a-frente de Sophia com esse Édipo que decifra os enigmas fazendo deles o espelho que nos rouba o rosto. Ela invectiva Pessoa: Pudesse o instante da festa romper o teu luto, ó viúvo de ti mesmo!, mas num texto que está entre os seus papéis figura-o. Pessoa surgediz ela, discreto, tímido, solitário, embiocado, meticulosamente delicado, racional e visionário, escondendo um duplo pudor, a lúcida consciência do seu próprio génio e a sua humanidade desmantelada pelas fúrias.

Minhas senhoras e meus senhores,
Sophia contou assim:  Em 25 de Abril de 1974, às quatro e meia da manhã, um amigo telefonou-me dizendo que abríssemos o rádio, pois havia uma revolução. O quarto em que ouvíamos o rádio tinha uma porta de vidro que dava para o jardim e à medida que víamos a revolução avançar, e construir-se, víamos crescer a claridade do dia e sentíamo-nos emergir das trevas e do opaco. Foi para nós  mais do que uma revolução; foi uma ressurreição. Era Páscoa, vi um povo inteiro habitar a transparência, vi multidões dançar de liberdade. Às vezes, olhávamo-nos uns aos outros e perguntávamos uns aos outros "Será que estamos a sonhar?" E um amigo disse "Mesmo que esta revolução falhe, mesmo que tudo acabe em desastre, nós vivemos isto". Pois o 25 de Abril era para nós mais do que uma libertação política; era a libertação da vida, a renovação do mundo. Por isso escrevi
Há nestas palavras a veemência de um começo, a vontade de um recomeço. Sophia, a Antígona portuguesa, cita a Antígona grega fazendo dessa citação um selo com o mundo: "Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres". Por isso, no país do medo, os seus poemas não tinham medo e, no tempo da cobardia, a sua coragem não aceitou o inaceitável. Por isso, na Assembleia Constituinte a sua voz ergueu-se e falou do que permanece. Por isso, ela disse um dia: Aos pobres de Portugal é costume dizer "Tenham paciência.", mas na verdade devemos dizer-lhes "Não tenham paciência!".
Agora lembro, oiço, vejo. Olho-a desenhada pelos seus próprios gestos e pela elegância deles. Oiço-a a falar de Pascoaes, de Torga, de Eugénio de Andrade, de Vieira da Silva, de Menez, de João Cabral de Melo Neto, de Manuel Alegre. Vejo-a na casa da Travessa das Mónicas, aqui bem perto, a mostrar-me os azulejos do filho Xavier com uma alegria sem recuo. Oiço-a citar Maria Velho da Costa quando ela falava dos "visionários do visível", e Eduardo Lourenço aqui presente, que saúdo —, citando também: "em sentido radical, não há nada a dizer de um poema, pois é ele mesmo dizer supremo". Lembro os passos da sua dança sobre o mundo e por isso esta cerimónia vai ser atravessada pelo voo dos bailarinos que a deslumbrava. Há uma carta dela à mãe a falar do "Lago dos Cisnes", que veremos a seguir, como de uma felicidade. Recordo a sua arte de contar histórias e a malícia com que as contava. Oiço-a dizer com magnífica ironia: Não fazer nada exige muito tempo, pois fazer nada é uma coisa que não se pode fazer depressa. Lembro a sua distracção de tudo menos do que valia a pena. Oiço  Agustina falar dela com um louvor tão raro que era quase uma rendição. Vejo Cesariny a visitá-la, quando o fim se aproximava, e a falar-lhe com um silêncio tão puro que se podia respirar. Lembro Ruy Cinatti a contá-la como quem conta um segredo. Vejo-a iluminada pela amizade e pelos relâmpagos da raiva de Jorge de Sena. Evoco Francisco Sousa Tavares, aquele que lhe ensinou "a coragem e a alegria do combate desigual". Lembro-a, lembro-os, e digo com ela, e digo por ela:
Assim pudesse o tempo regressar
Recomeçarmos sempre como o mar.

Minhas senhoras e meus senhores,
A entrada de Sophia no Panteão Nacional, nos dez anos da sua morte e nos quarenta anos do 25 de Abril, confirma as palavras que dizem a sua vida — poesia, liberdade, justiça — como três razões para que os homens se possam olhar nos olhos. Para Sophia, os poemas, mais do que para ser lidos, são para ser ditos. Assim, penso que não diminuo a solenidade e o sentido desta cerimónia, antes os acrescento e reforço, se vos convidar a que digam comigo o poema "Coral", que é uma das insígnias da sua arte poética:
Ia e vinha
E a cada coisa perguntava
Que nome tinha.

Sophia, sempre.
Muito obrigado.»
José Manuel dos Santos, 02.Jul.2014