Mostrar mensagens com a etiqueta Acordo Ortográfico. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Acordo Ortográfico. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Da língua e do pensamento

Na sua primeira arenga como Presidente da Assembleia da República [PAR], Augusto Santos Silva discorreu acerca da peçonha nacionalista em contraponto da virtude patriótica, alongando-se depois na glorificação da língua portuguesa e no zelo do seu uso:
«Gostaria que a liberdade de quem fica assim investido do poder da palavra fosse adornada com o cuidado pela língua em que a palavra se exprime».
Bonito e louvável. Dói é que este amor [hoje soa-me a hipocrisia] ao Português venha de um protagonista na governação — PS/Sócrates — que mais lhe maltratou a escrita através do desnecessário e nefando Acordo Ortográfico de 1990.      

«O sinal de pontuação de que a democracia mais precisa é o ponto de interrogação. O sinal que mais dispensa é o ponto de exclamação que, ao contrário do que acontece com os fanatismos de toda a sorte, como bem mostrou Amós Oz, a democracia deve usar com grande parcimónia. Deixemos as certezas aos néscios. E cultivemos sem temor a nossa capacidade de questionar e inquirir. A interrogação sacode os preconceitos, abre caminhos, convida a ouvir várias respostas, trava o passo ao dogmatismo e à intolerância.»
Revejo-me nisto.

Lá pelo meio, Augusto Santos Silva sacou de Ludwig Wittgenstein:
«Os limites da linguagem são os limites do pensamentocomo é geralmente sabido
Ora aqui é que a porca torce o rabo!
Tenha o novo PAR paciência — ao filósofo austríaco já não adianta, desde Abril de 1951, tê-la —, mas não me conformo.
Defendo e quero veemente crer em que o pensamento não é limitável pela porra de linguagem nenhuma, muito menos por qualquer língua.
- Podes argumentar e desenvolver a ideia, Plúvio?
- Epá, não sei, não consigo. É uma intuição para que não tenho palavras.

domingo, 30 de janeiro de 2022

sábado, 29 de janeiro de 2022

Acordo Ortográfico - Catarina Martins inventa e aldraba

Para que conste.

A fechar o "Debate da Rádio", de 20.Jan.2022, Judith Menezes e Sousa, da TSF, inquiriu os sete líderes partidários intervenientes — PSD e CHEGA não compareceram — acerca do AO1990, para uma resposta simples, "sim" ou "não" [protesto e acho mal que havendo simples não haja nãoples]. 

Judith- Revisão do Acordo Ortográfico, sim ou não?

Inês Sousa Real, PAN- Sim. Ou seja, acho que tem havido um grande desacordo em relação ao Acordo. E portanto, sim, acho que esse debate deve ser reaberto.

Francisco Rodrigues dos Santos, CDS-PP- Sim, está no nosso compromisso eleitoral rever o Acordo, claro.
Verdade.
«Compromisso Eleitoral do CDS-PP - Legislativas/2022
[...]
COMPROMISSO CULTURA E PATRIMÓNIO
[...]
MEDIDAS:
Reverter o Acordo Ortográfico de 1990;
[...]»

João Cotrim Figueiredo, Iniciativa Liberal- Sim, rever o Acordo.

Rui Tavares, LIVRE- Bem, é um tratado internacional. Pode sempre ser revisto, pode ser melhorado, mas acho que Portugal e o Brasil, e os outros países de língua portuguesa devem preocupar-se com a promoção da nossa língua no estrangeiro e o facto de por exemplo nos leitorados poder haver..., não haver professores que ensinem uma ortografia e outra ortografia é importante para a divulgação da língua portuguesa no exterior.
Rui Tavares raramente desperdiça uma oportunidade de pesporrência. Apreciem-se os quilómetros de lixo que usou para dizer «Não». 

João Oliveira, PCP: Por nós, há 16 anos que estava revisto, não só o tratado mas o conteúdo do Acordo que é sobretudo isso que interessa.

Catarina Martins, BE- Há questões de sim ou não que na verdade…, a resposta de sim ou não pode enganar. O Acordo prevê ele próprio que haja estudos e revisões ao longo do tempo e, portanto, se algum de nós estiver a dizer que não quer essa revisão está a dizer que não quer o próprio Acordo [!?!?!?]. Ou seja, se calhar estamos a enganar-nos uns aos outros. O Acordo prevê que se perceba como é que ele foi implementado, que seja estudado e que seja melhorado.
O caso da BEata Catarina é mais sério. A coordenadora do Bloco de Esquerda não sabe o que diz. Inventa e aldraba.
Explique-nos por favor em que passagem do mostrengo se prevêem estudos e revisões; explique-nos sobretudo em que ponto da aberração criminosa se prevê que se perceba como foi implementada, que se estude ou que se melhore.
Fico à espera.
Não se admire se Deus — sim, esse, o do Papa Francisco — lhe der amanhã uma valente coça...  

António Costa, PS: Acho que o Acordo deve fazer o seu caminho.
Judith- Portanto, quando for altura de o rever, deve ser revisto…
António Costa: Como todos os acòrdos.
Pronúncia correcta de «acordos».
Mimetizando o narcisista messiânico do LIVRE, o Primeiro-Ministro aproveita todos os ensejos de falar ao país para reforçar o prestígio, aliás robustamente consolidado, de torcionário da língua portuguesa. António Costa não desilude.
__________________________________________________
Já que estou com a mão na massa,
«Programa Eleitoral do PSD - Legislativas/2022 [redigido em acordês] 
[...]
A língua
O Português é a expressão da nossa identidade coletiva e da presença de Portugal à escala global, sendo que as diferenças no uso da língua portuguesa não a empobrecem, mas antes revelam as diferentes dinâmicas culturais de cada país na sua apropriação. A tentativa da uniformização ortográfica não constituiu qualquer vantagem face ao mundo globalizado, pelo que o PSD defende a avaliação do real impacto do novo Acordo Ortográfico.
[...]»

Nos outros programas eleitorais, incluindo o de João Cotrim Figueiredo [redigido em acordês], nem uma linha acerca de ortografia.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Miau béu-béu, pozinhos de Inês, declaração de voto

Tenho igual respeito bíblico e o mesmo olhar de maravilhamento, (in)compreensão e espanto por todos os bichos, dos que mato para comer aos de que fujo para não me matarem, dos que me divertem ou com que me divirto, dos que me proporcionam sensação de bem-estar aos que aspirjo diligentemente

Dito o que, me encanita — olha o étimo, Plúvio... — o uso de repertório antroponímico para o chamamento de animais e sou preconceituoso o bastante para não votar num candidato pela razão singela de chamar Camões ao gato. 
É o caso de Rui Tavares. Cumpre acrescentar que, para piorar o apreço pela humanidade, RT tem ainda um Leôncio e um Emílio e que um vate felídeo está longe de ser o único motivo da minha embirração pelo pai do LIVRE, esquerda verde europeia, cruzes canhoto. 
Mas Camões tira-me do sério. Acho um insulto de lesa-pátria.
Sabendo nós que o mais próximo que Camões está de miar n' Os Lusíadas é na estrofe n.º 153 do canto X,  
«[...]
De Formião, filósofo elegante,
Vereis como Aníbal escarnecia,
[...]», 
apetece-me dizer a Rui Tavares: Vá chatear o Cam..., perdão, o camandro!

Recapitulando,
Rui Rio tem um Zé Albino
André Ventura, uma Acácia,
Luís Pedro Nunes, um Rufino, além de uma Melancolie, belo nome, 
Daniel Oliveira, um Tobias e um Simão, além de uma Bica, nome aceitável para cadela, 
Ricardo Araújo Pereira, uma dona Custódia, entre outras humanizadas criaturas,  não constando que, ao baptizar de Custódia a cadela, RAP pretendesse homenagear a mãe, alguma avó ou parente próxima. 
De resto, não conheço ninguém que ponha nomes da sua família ou de amigos a bichos seus e que dando aos animais nomes de gente queira com isso homenagear pessoas que estima. Porque será?...
Assim, hei-de reconhecer critério asseado a António Costa, que tem uma Naná e um Docas, ou a João Cotrim Figueiredo que tem uma Bala.

No entanto, o que me encanita — olha o étimo, Plúvio... — ainda mais, muito mais, é, no seguimento dos nomes próprios, a alucinante antropomorfização da bicheza pela aplicação à dita cuja, nos usos e costumes dos "amigos dos animais", do preceituário consignado na Subsecção V ("Lei reguladora das relações de família", artigos 49.º-61.º) da Secção II do Capítulo III do Título I do Livro I do Código Civil português.

Observo na rua uma exemplar de "homo sapiens" falando com o cão: Venha cá à mãe!  
Estremeço.

Estupefacto, acompanho numa rede social planetária a conversa pública de uma das mais graduadas jornalistas portuguesas em actividade com uma deputada municipal do Bloco de Esquerda [ex-militante do CDS-PP] de que a jornalista se intitula chocarreiramente «mãe», falando dos dois gatos da «filha» bloquista:
Que lindos os meus netinhos ... Quem é que lhes explica que não sou mãe deles? ... Ai estão tão lindos os meus netinhos. Que pena ir deserdar a mãe deles ... Gosto que lhes preserves as carinhas do olhar do público. Privacidade para as crianças, sempre. ... Não quero expor os meus filhos tão novos. Quando crescerem, logo decidem. ... As crianças estão saudáveis, a crescer bem ... É a menina ou o menino? ... O menino.
Sei que brincam. Mas se não há por ali evidência de degradação civilizacional, digam-me o que há.

Enquanto isso, Marco Paulo foi avô. Com muito orgulho.

//

Agora, Inês, metralhadora daquilo que é, a quem, se pudesse, atribuiria desde já o óscar da melhor máscara do mundo no sub-ramo "Prosa ensaística".   

Na existência longa que levo de espectador de congressos, não me lembro de nenhum com tantas interrupções para aplausos. Como se a cada 30 segundos ISR emitisse uma ideia nobelizável. 
Ouvi bem; leu bem, caro(a) leitor(a) - Inês disse «dignidade». 

«protecção de todos os animais* e não apenas de alguns»
* Confio em que Inês não se estava a esquecer da vespa asiática.

«pelo menos uma pequena vila canadense foi inteiramente consumida pelas chamas»
No que dá um copipeiste de notícia brasileira...

Enfim, admirável mundo novo...

//

Razões estritas de educação impedem-me, nesta altura, de votar no PS ou no CHEGA.
Ciente do arcaísmo político que representa o Partido Comunista Português que, em indetível declínio de representatividade deixou definitivamente de poder integrar qualquer comité governativo do país ou de influir nos destinos do mundo — e daí nenhum mal advirá —, votarei depois de amanhã, 30, na CDU | PCP-PEV.  Há causas pontuais avulsas em que me revejo no entendimento do PCP, designadamente na prudência com que encara a biosfera ou na perseverança com que defende — é a única organização partidária parlamentar a fazê-lo coesa e consistentemente desde o início — a sanidade da língua, contra o Acordo Ortográfico de 1990 - PCP!, PCP!, PCP! Além de que, detestando João Ferreira, simpatizo há muito com a pessoa de João Oliveira.
Voto hormonal, pois.

sábado, 14 de novembro de 2020

Bem-vindos ao país cristino [5] *

Missa pelas vítimas da pandemia na Basílica da Santíssima Trindade.
 
Envolvido no esplendor do cantochãosenti qualquer coisa de irónico, paradoxal e burlesco em ir lendo que Cristina Ferreira** dirige o entertenimento e a ficção num grande canal televisivo português, no meio de uma calamidade ortográfica.
Pobre país de pão e circo de rebotalho...


«Abençoe-vos, ilumine-vos e conduza-vos sempre o Deus todo-poderoso e cheio de misericórdia*** ...
Vamos em paz e que o Senhor nos acompanhe...»

Convenhamos que o preto, incluindo o da máscara, assenta lindamente na doutora Fernanda.
______________________________________

** Protegido pelo adiantado da hora, um naco de pornografia pesada.
Dúvida metafísica: putéfia é para baixo ou pra cima de puta?

*** Nota-se.

domingo, 17 de maio de 2020

José Cutileiro [Évora, 20.Nov.1934 - Bruxelas, 17.Mai.2020]

De luto por mais um dos bons que se desprenderam do hífen maldito, remeto para o verbete de 03.Mai.2020.

Conversas recentes de José Cutileiro:
No Sol, Nov.2017   //   No Observador, Nov.2017   //   No DN/TSF, Mar.2020

Último "In Memoriam" no Expresso, 16.Mai.2020:
____________________________________________
«[...] uma experiência universitária breve, cumulada ao seu sempre inteligente comentário sobre os rumos do mundo, para as nótulas sobre o quotidiano e as suas histórias com os outros que deliciam no seu “Inventário” bloguista, bem como os ricos obituários de figuras, algumas ignotas para quantos não faziam parte do mundo anglo-saxónico que era a sua nunca desmentida “praia”, escritas semanalmente no “Expresso”, num estilo que se distinguia por não usar pontos finais a sincopar o texto, o que, em jeito de homenagem, arremedo neste que aqui lhe dedico, na hora da sua morte, que hoje foi anunciada, com um beijo de pesar à Myriam.»

Uma vez sem exemplo, acho pertinência e graça a FSC — salvo quanto à prática do Acordo Ortográfico lesa-pátria que defende desde o primeiro momento, alinhado com José Sócrates que o mandou insanemente aplicar — no excelente arremedo que hoje faz do estilo de José Cutileiro que, já agora, sempre repudiou e nunca se rendeu à ominosa reforma ortográfica de 1990.
Seixas da Costa refere, com alguma imprecisão, os pontos finais sincopantes que JC não usava no texto dos seus obituários. Convém esclarecer que a abstinência apneica de ponto final se cingia ao extra-longo primeiro parágrafo e consistia em algo mais: era evidente o gozo, sei lá se sádico, com que Cutileiro plantava o predicado da oração principal quase sempre a anos-luz do sujeito, deixando não raro o leitor às aranhas. Como aqui dei conta.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

José Sócrates

«[...] Quem vive à custa de outras pessoas é suposto fazer uma vida modesta, sem luxos, para não sobrecarregar quem o ajuda — não vive à grande e à francesa, não vai várias vezes de férias durante o ano, não viaja em executiva, não frequenta restaurantes caros.
Repito: moralmente, a sua conduta era menos condenável se o dinheiro fosse mesmo dele, ainda que vindo da corrupção.»

Pobre e tonto de mim, ingénuo e crédulo quando, entretido a exorcizar o pesadelo cavaquista e a piniculagem, me deixava ir no engodo do lausperene a José Sócrates no pagode do Miguel Abrantes e no «pardieiro» do Valupi  — e noutras capelas —, e nas prosas encomiásticas de Ferreira Fernandes e de Fernanda Câncio [DN e jugular] da governação do namorado desta, sem me sobrar discernimento para vislumbrar o ogre.

A propósito, mantém-se para mim mistério dos maiores, a par da partenogénese da Virgem e da genialidade de Pedro Cabrita Reis, a dedicação persistente e fervorosa de Valupi a José Sócrates, ano após ano, diariamente, sem a mínima quebra, contra a infestação, generalizada em toda a comunicação social menos no condomínio honrado de Daniel Proença de Carvalho, Afonso Camões, ... Ferreira Fernandes, Fernanda Câncio e Pedro Marques Lopes, dos pulhas e dos canalhas, da indústria da calúnia, do esgoto a céu aberto, da desonestidade intelectual, do assassinato de carácter — sim, Valupi diz assassinato mas ninguém é perfeito.
Não é de crime que falo mas de asseio puro e simples, de carácter.* Como consegue Valupi, um dos blogadores que melhor gramática praticam no burgo, estrénuo defensor da virtude e da nobreza da cidade, espadeirar com tais energia, perseverança e sanha em prol de um profuso trafulha como José Sócrates?

Por falar em crime, lidas as 3908 páginas do despacho de acusação no processo da "Operação Marquês", em que José Sócrates é o primeiro arguido, estranhei e decepcionou-me a omissão do, a meu ver, mais grave de quantos delitos ele possa ter cometido: o crime contra a Língua Portuguesa consumado na Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, em co-autoria com a trupe de delinquentes que o assistiam e convalidando a delinquência impune dos estarolas que o precederam, e esse, sim — não é difamação de pulhas avençados na indústria da calúnia —, cabal e publicamente admitido por extenso, José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, aos 9 de Dezembro de 2010. Crime de lesa-pátria.
_________________________________________
* No Aspirina B sabe-se pouco e não se aprende nada sobre lei penal. Já do Porta da Loja, um dos blogues de melhor serviço público em Portugal [arquivo, recortes de imprensa, audiofilia, música, justiça...] não digo o mesmo. Por exemplo, "A prova indirecta no processo Marquês". 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A comissão dos arquitetos e o clarinete

Entre os 1060 comissários de honra de Medina2017, de que conheço 360, avultam com maior representação por mester
72 arquitetos, nenhum arquitecto,
55 empresários,
45 advogados,
33 jornalistas,
28 atrizes, nenhuma actriz,
26 actores e um ator [Hélder Gamboa],
26 músicos, dos propriamente ditos,
19 fadistas,
18 deputados e ex-deputados, nenhum ministro,
12 cozinheiros.

Ademais,
nenhum padre ou bispo, mas dois abades [Agostinho e Tiago],
um enrabador notório, no T,   
um ladrão rasca, sim, rasca, no T,
nenhum jovem da Cova da Moura, talvez para desgosto de Joana Gorjão Henriques, Valentina Marcelino e Fernanda Câncio [tenho quase aprontado um exaustivo e explosivo estudo, ahahah, que logo publicarei].

Vai para 40 anos que me entretenho a perscrutar listas de "comissões de honra" nos processos eleitorais.
Por exemplo, é todo um tratado de hermenêutica antropológica adivinhar e distinguir os que apoiam Fernando Medina para que ganhe dos que apoiam Fernando Medina porque vai ganhar. Alguns destes, parasitas e oportunistas de turno, fedem que tresandam.

Exercício divertido, salutar e edificante é igualmente o de, mais um exemplo, reconhecer os comissários de honra comuns à presente campanha de Medina e, seis anos atrás, à campanha de recandidatura de Cavaco Silva, a começar, significativamente, pelo primeiro nome da ordem alfabética...

Por exemplo ainda, sendo óbvio que não causa nem poderá causar a menor estranheza a não comparência de Alberto Gonçalves entre os apoiantes de Medina, confesso que ainda hoje me desconcerta revisitar o seu nome na Comissão de Honra de um bronco de Boliqueime.

Nenhum dos candidatos a Lisboa me suscita a menor simpatia e detesto especialmente o esfíngico e videirinho alMedina.
É também por isso que no próximo domingo vou votar com redobrado gosto na projecção do concelho em que resido «como Capital do Clarinete». Na CDU, pois então.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Rebranding* do incêndio

Patrícia Gaspar, da Autoridade Nacional de Protecção Civil [ANPC], é incapaz de abandalhar a conversa. Conforme anotei, esmera-se no rigor neurocirúrgico das quantidades. Assim, não espanta que, seguidora das melhores doutrinas, também contabilize feridos em vez de simplesmente os contar. Ainda ontem de manhã, dada a «dimensão mais expressiva das ocorrências, a contabilidade estava a ser feita».
Não se bastando na alta precisão aritmética, a façanhuda Adjunta de Operações Nacional da ANPC emprega tal sofisticação na linguagem que, de um tiro, pôs o país de António Costa, que não quer bombeiros a confundir o povo, nos píncaros do progresso comunicacional. Cada ponto da situação — briefing, diria Sá de Miranda — costurado pela doutora Patrícia é um banho de elegância estilística. Por exemplo, e é só um exemplo, atente-se no lavrador de Louriçal do Campo que «ao final da tarde ganhou contornos de maior complexidade» e «onde temos não só combate mas também as defesas perimétricas dos aglomerados populacionais».
Eia! Que vai ser de nós quando os lavradores chegarem à vizinhança das casas?

Confesso, no entanto, um estranho fenómeno psicossensorial, um aflitivo receio recorrente sempre que, duas vezes ao dia, Patrícia Gaspar vem brifar os fogos: a qualquer momento vão irromper detrás dos estandartes, dos logótipos, das siglas e de todo aquele intimidante aparato heráldico o bigode de Pinochet num canto, o bigode de Estaline noutro, o bigode de Kadhafi noutro e o bigode de Maduro noutro. O que, convenhamos, com crianças ou humanos mais sensíveis na sala assumiria proporção suficientemente avassaladora para, sei lá, obrigar o presidente-arlequim a montar-se de novo no falcão.

Patrícia Gaspar, ontem, no justo instante em que um acto terrorista na SIC lhe dava cabo da protecção.
________________________________

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Com que cara | Canavilhas

«Já viram a triste situação em que eu estaria se fosse líder do PSD e estivesse no concelho de Loures a apoiar um candidato que desonra qualquer partido democrático que o possa apresentar às eleições? Com que cara é que eu estava aqui a apoiar um candidato em Cascais com a mesma cara com que tinha tado ontem a apoiar um candidato como aquele candidato que têm em Loures?»

António Costa anatematizava a candidatura pelo PSD de um alienado do Benfica [como ele, AC, de resto] — demagogo e populista, como tantos — que na véspera, em entrevista a Sebastião Bugalho*, no i em papel e no Sol em linha, proferira umas quantas frases pertinentes e incómodas acerca de determinada etnia.

Com que cara, doutor António Costa?
Ora, com a mesma com que estava a animar a candidatura de uma tontinha por José Sócrates [à CMtv em 21.Fev.2015: «Acredito piamente na inocência de José Sócrates.»], a tal que sugeriu há um ano o despedimento da jornalista Clara Viana. **
Com que cara, doutor António Costa? 
Ora, com a mesma com que apoia para Loures uma jeitosa e fraca Paixão. Espremida, ver-se-á quão medíocre é esta Sónia do PS.

- Grandessíssimo cigano me tem saído este secretário-geral do PS...
- Mas ó pai, ele não é monhé?
- Não, filha. Isso é racismo xenófobo.

Em Loures, já decidi: votarei na CDU. Sem hesitar; ninguém os bate nas arrumações.

A propósito de racismo:
Clara Ferreira Alves, sobranceira como sempre, preocupada- Eu devo dizer que o racismo está presente até no humor português. As anedotas que circulam desde a revolução, e já antes da revolução, são anedotas típicas de sociedades não pós-coloniais mas coloniais. Não há casamentos inter-raciais em Portugal
Daniel Oliveira- Começa a haver, começa a haver.
Clara Ferreira Alves- … cada um sabe onde está o seu lugar.

Nada que não se resolva com o REPANUI – Regime da Paridade Núbil Interétnica, a propor, com carácter de emergência social, pelas BEatas.
Assim, o Governo deverá promover e assegurar a realização em território português de casamentos entre indivíduos em idade núbil aqui residentes, nas seguintes exactas quantidades mínimas em cada ano civil:
- cabo-verdianos com ciganos calé, cerca de 103;
- lusocaucasianos com ameríndios, cerca de 37;
- afrodescendentes pretos com chineses amarelos, cerca de 62;
- islamoárabes com judeus de qualquer proveniência, cerca de 211;
- louros nórdicos com toureiros bengalis, cerca de 96;
- indianos com algarvios, cerca de 23;
- esquimós com maoris, cerca de 8.
E assim sucessivamente, mantendo presente que amor é coisa que ocorre não por acaso uma única vez na Constituição da República Portuguesa: na alínea b) do n.º 1 do artigo 293.º.
A título absolutamente excepcional e transitório, admitem-se Casamentos de Santo António.

Henrique Raposo, "Loures" | Expresso, 22.Jul.2017

Quanto a Louçã — "Eu já tive namoradas de todas as cores" | Público, 26.Jul.2017  —, ele que zele por que em casa toda a gente respeite o ordenamento jurídico português e os preceitos consuetudinários locais. De resto, pergunto-me quantas voltas à chave dará o arcediago BEato na porta de entrada quando vai dormir e quando sai…
__________________________________________
** Gabriela Canavilhas — não falo da pianista — merece rodapé.
Falo da inefável e levitante socialista no seu desvelado afã em torno da língua portuguesa
Defensora ultramontana do AO1990, ei-la, em 07.Fev.2017, Palácio de São Bento, na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, presidida por Edite Estrela, inenarrável e histórica videirinha do PS, na audição do Presidente da Academia das Ciências de Lisboa sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa:
A partir do minuto 01:30:57. Que bem fala, senhores! Como persuade a inteligência dos calhaus antiacordistas! Como nos hipnotiza de clarividência! A razão esvoaça!   

Finalmente, pequenina amostra de como escreve Canavilhas.
Nunca deverá ter ouvido falar no vocativo nem faz ideia do uso da vírgula. Escapa-lhe redigir bem coisas como "Obrigada, Mário Soares", "Parabéns, António", "Um abraço, José Lello". 
Do famigerado Acordo Ortográfico, de que é prosélita zonza, nem as regras elementares domina: ainda escreve «acção» e «retractação».
Não consegue escrever sem erro «distinto», «com certeza», «voo», «juízes».
Aprecie-se o chorrilho
Até dói saber que esta senhora pôde ter sido ministra da Cultura [2005-2009, governo de José Sócrates].
Olhem-m' ela no Paradoxo...

domingo, 11 de junho de 2017

«dominar perfeitamente o português»

Sob o título alternativo "Queres trabalhar no i e no Sol?" / "Queres trabalhar no Sol e no i?", o i "online" e em papel de 09.Jun.2017 e a edição em papel do Sol de 10.Jun.2017 trazem o seguinte convite a licenciados com entre 21 e 30 anos: 
«O i e o Sol vão abrir um concurso de estagiários. Ponto prévio: quem não ler jornais e não for uma pessoa profundamente informada sobre o que se passa no país e no mundo, não vale a pena candidatar-se. Segundo ponto prévio: quem não dominar perfeitamente o português – falado e escrito – também não deve continuar a ler isto.»
[...]
E acaba:
«Se pensas que podes ser candidato a estagiário no i e no Sol, envia um texto de 3000 caracteres sobre as eleições no Reino Unido, que decorreram na quinta-feira; uma notícia de 2500 caracteres sobre o discurso do Presidente da República que vai acontecer amanhã, no 10 de junho, e ainda uma carta com as razões porque queres ser jornalista. Além do CV, claro.
Os candidatos devem enviar os textos até terça-feira, dia 13 de junho para o mail opinião@newsplex.pt. Quem for selecionado será depois convidado a prestar provas já no jornal. O estágio será, obviamente, remunerado.»

Em tão pouca prosa e não desconsiderando a redacção acordistada do convite,
- vírgula indevida a seguir a «no mundo»;
- incumprimento da alínea e) do n.º 2 da Base XIX do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 [Plúvio a fazer de advogado do diabo] em «no 10 de junho». Bem, «no 10 de Junho»;
- erro grosso «em as razões porque». Bem, «as razões por que»;
- vírgula em falta a seguir a «13 de junho». 

Ante isto veio-me inevitavelmente à lembrança o requerimento de estágio de uma moça licenciada em "Gestão de Recursos Humanos" — designação que, se me concentro nela mais do que os dois segundos de um hausto, me causa necessidade urgente de um anti-histamínico — que me passou pelas mãos em finais dos anos '90 do século passado, trabalhava eu na melhor companhia aérea do mundoNo item "Conhecimento de línguas", a jovem cursada em tretas afirmava deter «domíneo oral e escrito da lingua portuguêsa». Três erros, uma mentira. 

Quem acode?

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Menina Elsa e menina Ângela*, não se faz isso ao senhor Ferreira Fernandes!

«[...]
Ao mesmo tempo, o czar tirava as medidas à suntuosidade do edifício e à harmonia dos jardins para os reproduzir em São Petersburgo.
[...]»

Lá que por obediência ao patrão obediente à estupidez tenham de mudar o esmerado peremptório para o medonho perentório, vá que não vá. Agora, suntuoso por sumptuoso não é só medonho; é, em Portugal, erro medonho.
________________________________________
...
Copy desk**: Elsa Rocha (coord.), Ângela Pereira
...

** «Copy desk» era, se bem me recordo, como em português antigo se denominava o copista-revisor, aquele que conferia e corrigia a cópia efectuada pelo copista revisável,  e assim sucessivamente.

sábado, 13 de maio de 2017

Três ou quatro dias na vida alucinante e devotada de um presidente-arlequim

17 de Abril, segunda-feira
Órfão e devoto de Camarate-atentado, Marcelo chega a Tires antes de quase todos; ainda assim com ligeiríssimo atraso: a avioneta já se tinha despenhado.
Ia decerto para se certificar das provas de sabotagem. Receio é que sem a assessoria iluminada de Helena Roseta, especialista em aviões que marram no chão, não vá longe no desenvolvimento e sustentação da tese conspiratória.

18 de Abril, terça-feira
Devoto de Cristina Ferreira, Marcelo reúne com os bruxos em casa de Leonor Beleza. «[…] fez várias incursões bem humoradas pela política interna, em ritmo rápido e cuidando não ter jornalistas na sala, deu um exemplo concreto: a queda da avioneta em Tires. "O poder político tem de estar pronto a responder a situações como esta." […]» - Público, 18.Abr.2017

12/13 de Maio, sexta/sábado
Devoto de Fátima, com uma estranha e fechada anomalia no primeiro ó:

Entretanto, meteu no saco o bandolim do Acordo Ortográfico.
___________________________________
* Plúvio, devoto.

terça-feira, 21 de março de 2017

Astranomalias de Miguel Esteves Cardoso

«Até os automóveis estão cheios de pólen. As plantas estão com o cio. Ao canto do olho um louva-deus* está a comer outro como um guindaste canibal especado diante do televisor da primavera.
A primavera propriamente dita só chega hoje** mas os insectos e os passarinhos e as nespereiras já há semanas que estão em festa. Que é que se passou? Não receberam o lembrete para dia 21 de Março** pedindo que guardassem a data nas agendas? Pelos vistos, não.
O termo técnico para o estado do tempo é "reles". Está frio e está vento. A diferença é que já nos podemos queixar: "já não estamos no inverno!" Estas temperaturas já não se "justificam". Onde se viu, num país dito temperado, uma primavera tão casaqueira e de golas tão levantadas?
No domingo obrigar-nos-ão a adiantar os relógios e a oferecer uma hora inteira da nossa existência, que só Deus sabe a falta que nos faz. Nesse dia o sol deitar-se-á, por pura batota, uma hora mais tarde do que na véspera. Mas todos nós sabemos que o sol não recebe ordens de ninguém.***
Há novas libelinhas no ar. O tráfego aéreo começa a complicar-se, sendo cada vez mais difícil distinguir as naves inimigas das amigas. Os besouros andam aluados, batendo contra as nossas orelhas, fazendo directas. Há melgas do tamanho de girafas que não picam mas assustam.
Como será a primavera de 2017? Como impedi-la de tornar-se, mais uma vez, na mera ante-estação do verão de 2017? Dando-lhe valor, mantendo as narinas, os olhos, os dedos, os lábios e os ouvidos bem abertos.»

Sabemos que o Público não segue o Acordo Ortográfico de 1990, sabemos que Miguel Esteves Cardoso o repudia. Veja-se Março, vejam-se os insectos e as directas. Assim, pergunto-me: com que atarantado desleixo, se não parvoíce encartada, a malta do "online" correu a minúsculas a Primavera e o Verão de Miguel Esteves Cardoso? Falo do "online" pois verifico que na edição em papel as estações vêm tratadas com decência.
______________________________________________
** A Primavera chegou a Portugal continental às 10h29 de ontem, 20 de Março.
*** Ao astro que não acata ordens não sei se o não trataria, sobretudo na 2.ª ocorrência, por Sol; não sei, não... 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Uísque nos remos

«A vida de Gavan Hennigan começou cedo a ser um desafio extremo. O irlandês, filho de um pai alcoólatra, tornou-se também ele um adicto ao álcool e a drogas ainda na adolescência, caiu mesmo na indulgência*, vagabundeou por Amesterdão e Londres e foi internado com uma overdose de ecstasy aos 20 anos.
[…]
Para trás na vida de Hennigan ficaram já esses tempos de uma dura adolescência, na qual as drogas e o álcool foram refúgio para depressões, problemas de auto-estima e dificuldades em lidar com a sua própria homossexualidade... […]»
[Negritos do Plúvio]


Depois de se ter caído na indulgência* nada espantará na vida de um homem.   
______________________________________
* No que dá a troca de revisores humanos por robotizados corretores. Indigência — ei-la! — nos jornais.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Acordo Ortográfico [119]

"Admirável Língua Nova (Parte I)"

"Admirável Língua Nova (Parte II)"

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Acordo Ortográfico [117]

«[...]
Nuno Pacheco- E quanto ao chamado acordo ortográfico?
Artur Anselmo- É um problema científico. Por mais que nós possamos negociar com forças políticas, sociais, sindicais, na base está a ciência. Isto é uma Academia das Ciências! No dia em que aceitarmos de olhos fechados situações que ferem a nossa inteligência, o senso comum e a tradição científica, não estamos a cumprir as nossas obrigações.
Vemos que cada vez mais textos oficiais e oficiosos, como por exemplo os dos museus, estão escritos numa ortografia mista, num absoluto caos…
Eu acrescento os boletins camarários e as legendas dos cinemas. O último boletim da Câmara de Viana fala em concessão de uma estrada mas escreve com ç cedilhado. É uma trapalhada. E o corrector não marca erro porque não faz interpretação semântica!
[...]
Nuno Pacheco- Em termos concretos, o que é que está a ser feito neste momento na Academia?
Artur Anselmo- Nós vamos agora publicar em Janeiro os Subsídios para o Aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico. Estão prontos, foram feitos por uma equipa dirigida pela Ana Salgado, na última reunião já tiveram um acordo de princípio, agora vão ao plenário de efectivos. É uma contribuição, neste momento a Academia não pode fazer mais do que isto. Temos de agir com prudência, mas sem abandonar o critério científico.
[...]»

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Acordo Ortográfico [116]

«[...]
Na verdade, a regra da fonética é pura tolice, como facilmente se comprovará.
[...]
vão para o diabo mais as normas de um acordo que não unifica (há mais palavras diferentes agora do que havia antes), não padroniza, não simplifica, não melhora nem torna mais “internacionalizável” a língua portuguesa. Alguns já perceberam a fraude há muito tempo, outros têm vindo a percebê-la com o passar dos meses e dos anos. Falta apenas uma coisa: coragem para acabar com isto.»

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Acordo Ortográfico [115]

«[…]
É tempo de acabarmos com o amontoado de arbitrariedades a que se convencionou chamar “Acordo Ortográfico”, poço sem fundo de facultatividades que desmontam a própria noção de ortografia.
[…]»

- x - 
«[…]
A questão da língua deveria, essa sim, ser considerada um “assunto de superior interesse nacional”, palavrosidade que tanto enche a boca de políticos e doutores, mas pela qual políticos e doutores tão pouco têm zelado. Não é por teimosia ou conservadorismo que há, felizmente, quem insista na insalubridade do “acordo” e na urgência de revertê-lo enquanto ainda é possível erradicar a moléstia. Porque ele é cientificamente mau, socialmente inútil e culturalmente nefasto. Não se trata de uma opinião, mas de factos, evidenciados pelos numerosos escritos e pareceres de reputados cientistas da língua, em Portugal e no Brasil. E não é coisa que passe com o tempo, como uma vulgar dor de cabeça. O que ficar disto será para sempre. Os efeitos, aliás, já se estão a sentir um pouco por toda a parte: nas escolas, nas empresas, nas instituições ou nos jornais, multiplicam-se as evidências de que o AO falhou em tudo e só complicou ainda mais aquilo que se propunha simplificar.
[...]
Os agentes políticos* de que falo são, na realidade, quase todos, independentemente do lugar que ocupam, quer sejam ou tenham sido ou queiram vir a ser governo ou oposição. A leviandade com que a grande maioria deles olhou para este assunto é, aliás, reveladora da incultura geral que se espalhou pelos aparelhos partidários.
[…]»

Reflicta-se, a propósito, neste recente despautério esquizofrénico-laticínio-lacticínico ou lá que é:

Por estas e outras, continuo a preferir Matinal. Seleccionado como convém. Longa vida aos úberes de que jorra!
___________________________________________
* Filhos de uma grandíssima e alternadíssima [preencher a gosto].