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domingo, 30 de abril de 2023

Quatro mortes no Bairro da Boavista

Decorridas cinco horas sobre os factos, a jornalista/repórter Sofia Garcia veio relatar, no sítio, em directo e sem teleponto, o que se passara. Em três minutos fez prova de que, afinal, é possível saber contar, ser-se claro e pormenorizado acerca de uma tragédia complexa, exprimindo-se num português fluido de boa qualidade sem bengaladas de «então».

Parabéns, Sofia!
Aprendam, miudagem.

Para que não digam que o Plúvio só diz mal das pessoas.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Foi então que o camião perdeu os sentidos


José Carlos Castro- «Francisca, consegues explicar o que é que realmente aconteceu?»

Francisca Laranjo, verbatim- «Boa tarde. É aqui, junto à EB 2-3 Paulo da Gama que tudo aconteceu. Falamos ENTÃO de um camião que acabou por perder os sentidos. Foi exactamente nêsta passadeira que este camião perde os sentidos e acaba por se despistar primeiramente contra um veículo ligeiro. Acaba depois ENTÃO por a-a-a-balroar cerca de sete veículos. São pelo menos sete a) veículos ligeiros e também carrinhas que ficaram ENTÃO afectados. Os moradores contam um cenário de muito barulho. Foi por volta das duas da manhã deste sábado que se deu este estrondo e o barulho nêsta rua nesta zona foi realmente muito. São muitos os vidros ainda no chão. Há pouco tempo foi ENTÃO retirado um dos carros mas conseguimos ver ainda pelo menos quatro destes carros, conseguimos ver pelo menos destes quatro carros ainda estão no local. A verdade é que as autoridades já estiveram aqui, a PSP e também os bombeiros, e foram transportados dois feridos ligeiros.»

José Carlos Castro- «A reportagem em directo neste local onde houve um acidente esta manhã. Sete carros foram abalroados. Eles estavam estacionados. Um motorista desmaiou e perdeu o controlo do seu veículo.»


Saudades de Ana Barros.
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a) Se são pelo menos sete, eu diria «cerca de oito, oito e meio.»
Oh rigor!

terça-feira, 19 de abril de 2022

Competência e rigor foram de vela?

Na edição de 14 de Abril corrente o semanário "Nascer do Sol", por que paguei 4 euros, noticiava na página de desportos a morte, aos 17 anos, num acidente náutico na Tunísia, da que fora a velejadora olímpica mais jovem nos jogos TOKYO 2020, ocorridos em 2021, «que tinha já sido campeã olímpica no Rio '2016».
«O barco onde seguia com a irmã acabou por virar devido a ventos fortes.»

Os leitores que fizessem o resto:
- investigar acerca do nome/nacionalidade da rapariga e data da tragédia;
- descobrir o disparate dentro da notícia.

Eu fiz. E confirmei que o noticiário da BBC é melhor, muito melhor do que o de cá.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Doutor Manuel Alegre

«A ficha curricular de Manuel Alegre, guardada no Arquivo do Departamento Académico da Universidade de Coimbra, indica que o poeta concluiu o 1.º e o 2.º ano de Direito, mas quanto ao 3.º ano apenas regista aproveitamento na disciplina semestral de Direito Fiscal. Esteve inscrito também em Economia Política, a cujo exame faltou, e nas cadeiras anuais de Administração e Direito Colonial, Finanças e Direito Civil – mas não as concluiu.»

Manuel Alegre, que nem bacharel logrou ser*, não corrige quem o trata por doutor. Já aqui falara disso a propósito de um serão eleitoral de 2016

José Gonçalez- O Manuel licenciou-se em Direito em Coimbra, não é?
Manuel Alegre- Em Coimbra, em Coimbra.

Que consideração pode merecer um senador da "ética republicana" que municia o seu pedigree escolar numa impostura perpétua?

Conto que a eventual justeza destas observações não fique diminuída pela simpatia escassa que dedico ao consagrado cagão de Águeda... 
________________________________________
* «[...]
2. O grau de bacharel em Direito é inerente à aprovação em todas as disciplinas dos três primeiros anos do curso.
3. O grau de licenciado em Direito é inerente à aprovação em todas as disciplinas dos cinco anos do curso.
[...]»

quarta-feira, 2 de março de 2022

Sérgio Sousa Pinto

Tenho Sérgio Sousa Pinto — colono permanente da placenta socialista, versão soarólatra*, desde os 23 anos**, um dos deputados mais cultos e bem articulados no parlamento português, autor de livros, colunista do Expresso, comentador residente na TVI/CNN Portugal, que acompanho com admiração e reserva em proporção homeopática; no Expresso é onde mais o aprecio — por mais credível quando explana a partir de lucubração própria do que quando cita Churchill.

Por exemplo, gostei de SSP, e achei-lhe graça, no confronto com Maria de Lurdes Rodrigues, a falar das virtudes e desvarios da época geringôncica.

Ou no confronto de há dias com o comunista António Filipe, em que gostei ainda mais:
«Não estou habituado a que me chamem mentiroso. [...] O Partido Comunista Português, durante a Guerra Fria, era vassalo, era um abjecto vassalo da União Soviética e hoje é um vassalo do senhor Putin, esta é que é a verdade! [...] o Partido Comunista Português converteu-se num vassalo do senhor Putin.»

Mau é quando SSP cita:
«O Churchill dizia com muita graça que leis e salsichas é melhor que não saibamos como são feitas.»

Sucede que, azar de SSP, Winston Churchill [1874-1965] nunca disse tal coisa. Se SSP atribuísse o gracejo a Otto von Bismarck [1815-1898] ainda vá que não vá, já que a creditação ao prussiano vigorou, e vigora, com populoso consenso, até à investigação de Fred Shapiro, publicada no New York Times em Março de 2009, que deslindou o pai do dito [bela ambiguidade, Plúvio]: John Godfrey Saxe [1816-1887], poeta-jurista norte-americano.     

É sempre a mesma merda. 
______________________________
* A propósito..., não me diga, dona Teresa, que não cumpriu hoje?! E não me venha cá com a desculpa da quarta-feira de cinzas... Mire-se no Amílcar, nunca falha.  

** Lisboeta de berço [19.Jul.1972] e circunscrição, eleito deputado pelo Porto para na VII legislatura [1995>1999]; eurodeputado [1999>2009]; deputado por Aveiro nas XI e XII legislaturas [2009>2015]; eleito por Lisboa para as XIII, XIV e XV [2015>2026?].
Faz-se pela vida, nada contra.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Edite Estrela? Oh, não! [1/2]

«Esta perseguição à Edite, feita por João Miguel Tavares, é das coisas mais absolutamente repugnantes que já vi. Não quererá pô-la a ela e à família toda na roda?»

Quero entrar na roda.
Mas, antes de mais, um discleima para que se não julgue que venho movido por ímpeto malsão ad feminam: detesto Edite Estrela, desde que, finais do decénio de '80 do século XX, lhe acompanho o protagonismo público. Voz desagradável, dicção horrível, gramática coxa, pese a fama granjeada na matéria. Jamais lhe perdoarei a mancebia oportunista e irresponsável com o nefando Acordo Ortográfico de 1990. 

Nasceu em Carrazeda de Ansiães há 72 anos, vive no Partido Socialista há 40.
De 1973 a 1986- Professora de Português
De 1987 a 1995- Deputada nas V e VI Legislaturas
De 1993 a 2001- Presidente da Câmara Municipal de Sintra
De 2002 a 2005- Deputada na IX Legislatura
De 2004 a 2014- Deputada no Parlamento Europeu
De 2015 a 2022- Deputada nas XIII e XIV Legislaturas
De 2022 [a 2026?]- Deputada na XV Legislatura 

Acho divertido quando na Wikipédia de pessoas com a densidade biográfica de Edite Estrela não consta qualquer apontamento de família. Parecem ectoplasmas. Faz-me lembrar Assunção Esteves, antiga Presidente da Assembleia da República: «[...] colocou um membro do gabinete a alterar constantemente a sua página na Wikipédia de modo a eliminar dados que ela não gosta que sejam públicos [...]»
Lá com elas, estão no seu direito.

10.Dez.2003- «Ministério Público pede apenas multa para Edite Estrela»

12.Fev.2005- «Ministério Público aceita reduzir pena a Edite Estrela»

2007- Edite Estrela, eurodeputada, contrata enteada e genro. 

25.Set.2009- «[...]  No almoço do PS, Sócrates voltou a ter o apoio da família socialista. Ao seu lado, na mesa de honra, estiveram ... Edite Estrela, António Costa e Luís Filipe Vieira, presidente do Sport Lisboa e Benfica, que quis ir dar o seu apoio a “um amigo”. [...]»

14.Nov.2010- Não sabendo que estava a ser escutada, Edite Estrela, em conversa telefónica com o seu dilecto Armando Vara, insulta camaradas socialistas: Ana Gomes, Elisa Ferreira, Vital Moreira... 

03.Jan.2013- Edite Estrela arrepende-se e apaga o 'tuíte' em que anunciava um almoço e convidava pessoas, sob sugestão e aval do afilhado, para mais um ágape socratólatra.

06.Jan.2015- Na companhia de Mário Lino, ex-ministro de José Sócrates, e de Carlos Martins, vice-presidente da Câmara da Covilhã, Edite Estrela cumpre a sua jornada na romaria a Évora. Mário Soares cumpriu por sete vezes... *

05.Mai.2018- «Edite Estrela» ocorre por oito vezes nesta história de dominação contada por duas Ritas.

20.Jul.2021-  Como conseguiu uma abécula destas chegar onde chegou? Edite Estrela não presta.
Parabéns, Ascenso Simões; parabéns, Jorge Lacão; parabéns, Sérgio Sousa Pinto; parabéns, Marcos Perestrello. 

18.Dez.2021 - «[...] Edite Estrela não tem quaisquer condições para ser eleita segunda figura do Estado português. [...]»
- João Miguel Tavares.
Concordo.

16.Jan.2022- Nem por não achar ponta de graça a este saloio deixo de comungar da sua rejeição de Edite Estrela.  

07.Fev.2022- «O problema é Edite Estrela»

08.Fev.2022- «[...] Edite Estrela foi madrinha de Sócrates no PS e na vida real. O seu marido fundou empresas com Sócrates nos anos 80. Passaram férias juntos. Foram unha com carne ao longo de 30 anos. Edite Estrela conhecia a sua vida política e pessoal de trás para a frente. Foi uma das vozes mais activas do PS a defender Sócrates após a sua detenção. E certo dia, quando as suspeitas e os indícios começaram a acumular-se muito para lá do razoável, calou-se sobre o tema Sócrates, como todos se calaram. [...]
Sócrates é hoje tratado como um ET caído das estrelas que assaltou o país de forma solitária e com um plano unipessoal. Espantoso, de facto. Só que esse silenciamento, essa suspensão da capacidade crítica, essa denegação das responsabilidades políticas, foi terrível para o país, e continua a ser terrível – como se vê pela ideia abstrusa de ter Edite Estrela como segunda figura do Estado, ou Pedro Silva Pereira, cuja esposa andou a receber dinheiro do universo de Carlos Santos Silva, como vice-presidente do Parlamento Europeu. [...]»
- João Miguel Tavares

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14.Mar.2021Rui do Nascimento Rabaça Vieira, marido de Edite Estrela.

Brasil, Dez.2006- Rui Vieira, o primeiro a contar da esquerda. Já agora e a despropósito, o segundo a contar da direita, entre Carlos Santos Silva e José Sócrates, Jaime Silva, sogro de Fernando Medina. Mundo, um penico.

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Manifestações públicas de ternura e cumplicidade derretem-me sempre a obtusidade córnea.
Vamos a elas:

02.Mai.2012
    - Depois da boa análise da Fernanda Câncio, desejo-lhes uma boa noite 😊
    - Beijos, Edite. Obrigada.
27.Mai.2012
    - Bom dia, Edite, está boa?
02.Jun.2012
    - Beijos, Edite. Aqui já se trabalha (eheh)
13.Jun.2012
    - Estou um bocadinho derreada pela noite de Sto. António. E a Edite?
24.Ago.2012
    - Boa noite, vou dormir. A temperatura baixou e a lua cresceu.
    - Boa noite, Edite, beijos.
26.Nov.2012
    - Estou óptima. E a Edite, muito trabalho?
11.Dez.2012
    - Olá, Edite. Gostava de saber a sua opinião sobre uma coisa. Pode ser?
    - Claro que sim. Quer tratar por email?
24.Dez.2012
    - Um feliz Natal para todos.
    - E para si, Edite. Beijos.
02.Jan.2013
    - Já jantaram?
    - Ahahahahahah. Muito bem, Edite.
22.Jan.2013
    - Que bom, Edite. Parabéns.
13.Fev.2013
    - Boa noite, Edite. Beijos e boa viagem.
09.Abr.2013
    - Edite, é ‘lembro-me que’ ou ‘lembro-me de que’? (Acabei de ver o anúncio de uma reportagem, ‘lembro-me que morri’) e fiquei na dúvida.
    - Lembro-me de que... Lembro-me de alguém ou de alguma coisa.
    - Bem me parecia que aquilo não estava bem. Obrigada.
10.Jul.2013
    - Vou dormir. Hoje já não há mais desenvolvimentos. Boa noite.
    - Beijos, Edite. Bons sonhos.
08.Set.2013
    - Muito bom, Fernanda.
    - Obrigada, querida Edite.
30.Set.2013
    - Boa noite, vou dormir e ter bons sonhos. Eheheh.
    - Boa noite, querida Edite. O Rui foi eleito?
    - Olá, Fernanda. Não ganhámos Foz Côa, mas ganhámos a junta de Cedovim, com uma mulher. Pela primeira vez.
    - Ah, que pena.
12.Out.2013
    - Obrigada, Edite, Beijo.
20.Abr.2014
    - Quem és tu e que fizeste com a Edite? Campeões. Campeões. Campeões. Somos campeões. Benfica!!!!!!!
15.Mai.2015
    - Ora, não tem de quê, Edite. Beijos.
    - É a perspectiva de muita gente. Mas muito bem escrito. O inigualável estilo da “Câncio” :)
20.Mar.2020
    - Durma bem, querida Edite.
05.Abr.2021
    - Obrigada, Edite. Beijo.
    - Outro, Fernanda.
19.Jun.2021
    - Muito obrigada, Edite. Mas ainda falta muito para acabar, certo?
06.Ago.2021
    - Que bom, Edite querida. saudades.💗
    - Imensas, Fernanda.

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Dos 14 Presidentes da Assembleia da República, desde 1976, começando por Vasco da Gama Fernandes — ambos assinávamos A Batalha —,  Eduardo Ferro Rodrigues foi o pior.

10.Fev.2022- «Ferro, solidário com Edite Estrela»
Um pesadelo caucionado por outro.
Qualquer coisa me diz, perdão, muitas coisas me dizem que a eventual indigitação de Edite Estrela para PAR comprometerá seriamente a posição de FR na minha tabela.

Agora, que tem Augusto Santos Silva confirmado no parlamento, menos ainda se perdoará a António Costa a afronta ao asseio da República se escolher para segunda figura dela uma videirinha rasca que parafraseia com o maior desplante um Fernando Pessoa inventado na candonga fajuta das citações apócrifas.**
Haja decoro, caralho!
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* A propósito de «Mário Soares cumpriu»,
- Não me digas, Amílcar..., não me diga, dona Teresa, que ainda não cumpriu hoje... Olhem que chamo o doutor Costa!
 
** Tudo o que é bom dura o tempo necessário para ser inesquecível - Fernando Pessoa, céus?! 
Faça-nos, doutora Edite, a bondade de informar  quando e em que página escreveu Fernando Pessoa tão merdíflua coisa. Se não encontrar no arquivo, peça ajuda à «querida Fernanda», graduada em afectos e em repugnâncias [absolutamente repugnantes, proclama a jornalista isenta...], sumidade em citações fidedignas de Pessoa: Rodeia-te de rosas, ama, bebe, dança e cala...  E de Lenine.
A obtusidade córnea lá atrás aprendi-a aos 17 anos, tenho a certeza, com Eça de Queiroz, aqui.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Francisco David Ferreira

No formigueiro das redes partilha-se o embaraço vivido pelo jornalista Francisco David Ferreira quando, às 14h46 de ontem,  prestando-se a conversar em directo acerca da pobreza energética em Portugal com João Fernandes, jurista da DECO*, se lhe depara no outro lado da mesa um investigador em Ciência Política na Universidade do Minho, atónito.
O momento teve graça. Também eu o trago aqui, no tamanho com que entendi filmá-lo, por não ter visto enfatizar o seguinte:
- Francisco David Ferreira, com inteligência rápida, calma e profissionalismo apreciáveis, dominou a situação, cotejando-a, num rasgo de felina oportunidade, com a antológica rábula protagonizada por Lídia Franco e Herman José, no papel de José Manuel Garcia Marques Severino, pasteleiro — Eu é mais bolos... — , no programa da RTP "Hermanias Especial", de 31.Dez.1991, na passagem de ano para 1992, numa altura em que FDF andaria de bibe;
- acompanhei toda a entrevista e em nenhum momento a realização identificou o verdadeiro entrevistado, fazendo-o constar, por exemplo, em rodapé ou num oráculo. Nem sequer o terá soprado pelo auricular ao pivô desamparado para que ele próprio pudesse interpelar Miguel Ângelo Rodrigues pelo seu nome.
Mal, CNN.

E pronto, era isto: omissão, preguiça e falta de brio, recorrentes nas aceleradas e impiedosas redes sociais salivantes, no que respeita a contextos e a nomes.

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* DECO - Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor, cujo embrião integrei com empenho e entusiasmo juvenil, em 1974. Desvinculei-me de associado e de subscritor da revista Proteste em 2008 por objecção de consciência
A DECO, lastimo dizê-lo, não tem nada, hoje em dia e desde que se congregou num colosso editorial belga de consumerismo, do espírito e dos valores que lhe nortearam o início. Transformou-se numa lubrificadíssima organização de escopo mercantil. A revista Proteste pede meças à Reader's Digest..., e não digo mais por falta de tempo. Oiça-se Mário Frota:
«[...]
como eternos impostores
perdidos na intelecção
de preceitos clareadores,
os egrégios defensores
dos dinheiros da nação
preterem os consumidores
de negação em negação

e ao denegarem os meios
às associações de valia
adensam-se os receios
de afronta à cidadania

associações de consumidores
autênticas, autónomas e genuínas
contam-se pelos dedos de uma só mão,
escassíssimas as com o símbolo das quinas, 
à cata do milhão

e sem quaisquer omissões
em ano não recuado
facturou 47 milhões
neste rincão do oeste
por grosso e atacado
a famigerada Proteste

e os tempos são de protesto
isso sim,
quando a inefável Proteste
nos invade a privacidade
'inda que por mal conteste
não se exime à indignidade

pelos dados pessoais
que usa a seu belo talante
mas também pelos tribunais,
e de modo acutilante
deixa claro dos propósitos
como empresa mercantil
soma lucros e depósitos
de modo nada subtil

conquanto se arvore em lenda 
com requebros impostores
exime-se à contenda
defrauda os consumidores

e quem se propõe intervir
em nome da dignidade
tem de todo de esgrimir
o gládio da probidade
e assim de modo impante
mas com laivos de orfandade
em pugna tão exaltante
[...]»

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Legislativas de 30.Jan.2022 - Resultado

Aviso
42 links.
Favor clicar sem luvas.

Portugal, domingo, 30.Jan.2022
11h00
Hábitos apalhaçados e cidadãmente pouco recomendáveis do arlequim.
Por falar nele, ou me engano muito ou, na nova conjuntura, Marcelo Rebelo de Sousa tenderá nos próximos quatro anos para uma espécie de corta-fitas, diferenciando-se do Cabeça de Abóbora em pouco mais do que no talento e no frenesim. Não acrescentei na natação por me lembrar de que o outro era almirante. Mas vendo bem, Marcelo é seguramente melhor nadador já que o outro, homem da Marinha, nem precisava de saber nadar. Afinal, para que servem os barcos?

19h54
Fico a saber que o biólogo sportinguista Vasco M. Barreto, por quem nutro antiga admiração e com quem tenho afinidades avulsas, desde logo na música, possui uma presumível cadela Olívia. Confessando certo e inesperado desapontamento, aposto em que nenhuma sua amiga próxima, parente até ao 4.º grau da linha recta ou 3.º da colateral, ou nenhuma pessoa que ele verdadeiramente estime, se chama Olívia. Olívia na minha terra é nome de mulher, por sinal, bem bonito.
Amigo dos animais tem as suas lérias...
Bem sei, sou um humanista radical. Vá, ria.   

20h00

//
Resultado
22h10
Jerónimo de Sousa, titubeante, lendo: «O resultado obtido nas eleições de 30 de Janeiro de 2022 traduz uma queda eleitoral com significativa perda de deputados, incluindo a representação institucional do PEV. Um resultado que, ficando aquém do trabalho realizado e do notável contributo ..., representa um elemento negativo no plano da vida nacional.»
Caras trágicas do serão: Jerónimo e José, não eleito, inquilino de S. Bento desde a idade média.

22h30
Catarina Martins, sob jubiloso aplauso: «O resultado do Bloco de Esquerda é um mau resultado, é uma derrota, e neste partido encaramos as dificuldades tal como elas são. ... É por isso um dia difícil e um mau resultado com que saberemos viver ... Este é também um mau resultado por causa do resultado que teve a extrema-direita e o Chega, e devemos abordar isso também com clareza. É verdade que o Chega fica aquém do que teve André Ventura nas eleições presidenciais.*»
Catarina não aprendeu nada com o resultado radiante de Marisa Matias em 24.Jan.2021.
Na configuração anterior no hemiciclo, duas Mortáguas entre 19 BEatos ainda vá que não vá; a sororidade passava diluída. Doravante, com duas gémeas entre cinco BEatos, 40% da bancada, convenhamos que aquilo fica um bocado deprimente, consaguinidade excessiva. 
* Que desplante, que desonestidade, doutora Catarina Martins! Avalie bem as suas e as perdas de AV e, por favor, não compare o incomparável. Ou quer que volte às presidenciais de Marisa? Fixe-se nas legislativas, seja asseada.

23h15
Rui Rio: «Toda a gente que me conhece sabe que é importante isto que eu vou dizer. Nós ficámos com um resultado eleitoral substancialmente abaixo daquilo que pensávamos que íamos ter.»

Rente à meia noite
Rui Tavares, 'esquerda verde europeia no parlamento português', em abaritonado Lá bemol maior: «Bem unidos façamos esta luta final, uma terra sem amos, A Internacional!»
RT, insisto, não engana. Mais bem dito, engana e não é pouco. Vejamos:
Que credibilidade pode inspirar este doutor bem-falante, sabedor e muito articulado — como os devotos urbanos usam referir-se-lhe — se, até no próprio hino em que se lhe subsume a alma, troca o correcto «nesta» pelo disparatado e sem  sentido «esta»?...

00h35, 31.Jan.2022
Francisco Rodrigues dos Santos: «Sobre o resultado eleitoral desta noite, ele é mau em dois sentidos, é mau porque confirma o caminho do socialismo para Portugal»

01h00, 31.Jan.2022
Inês Sousa Real, metralhadora daquilo que é, sob aplauso estentóreo de 20 segundos: «Este resultado, que é um mau resultado não só para o PAN mas para a democracia ... a direcção terá que fazer a sua reflexão interna em relação àquilo que é a estratégia ... É um mau resultado que assumimos ... mas também é um resultado mau para a democracia.»

Conclusão do resultado
Pelo que se ouviu, ninguém teve pior do que um mau resultado.
Só posso admitir que os dicionários de Catarina Martins, Francisco Rodrigues dos Santos, Inês Sousa Real, Rui Rio e Jerónimo de Sousa foram adquiridos na mesma livraria. Em todos falta este superlativo absoluto sintético que, em o havendo e se o empregassem, com maior verdade teriam falado aos portugueses daquilo que todos os portugueses viram. E se calhar falta este substantivo e também falta este
Dêem-se ao respeito, bolas! As palavras contam.

//

Não gosto da Iniciativa Liberal.
- ... do Iniciativa Liberal,  Plúvio.
Ai é? Não gosto na mesma. E decidam-se, foda-se: o ou a?

//
Subvenção
Vá lá saber-se porquê, fala-se pouco dela. Por exemplo, e é só um exemplo que não traduz qualquer obsessão pessoal pelo sujeito — ai de mim! :) —, alguém acredita que o fervor de Rui Tavares em campanha fosse o mesmo sem o apetecível comburente da subvenção?
Sem prejuízo da comparticipação específica legal nas despesas de campanha, e de outros financiamentos, o partido que no conjunto dos círculos eleitorais tiver obtido um mínimo de 50.000 votos receberá anualmente uma subvenção de 2,95€ por cada voto, independentemente de eleger deputados, neste caso desde que a requeira ao Presidente da Assembleia da República. Assim, no total dos 4 anos da XV legislatura [2022-2026] a organização partidária contemplada sacará do Orçamento do Estado 11,80€ por cada voto
Ante os resultados nesta altura sabidos [magnífico 'site', diga-se, que o Plúvio não chove só vitupérios...], os mealheiros ficarão arredondada e aproximadamente assim:

PS- 26.550.000€
PPD-PSD- 17.700.000€
CHEGA- 4.555.000€
IL- 3.174.000€
BE- 2.832.000€
PCP- 2.797.000€
CDS-PP- 1.030.000€ 
PAN- 968.000€
LIVRE- 814.000€
É cacau e viva o pluralismo democrático! Muito mais caro nos ficaria se não vivêssemos nele.

//

Meus pequenos desgostos
- não eleição de João Oliveira. Faz falta. Excelente operário parlamentar;
- eleição de Inês Sousa Real. Medíocre e medonha.

Meus pequenos contentamentos
- lição do país ao BE, seita de 'meninos de família', arrogantes, trotskistas disfarçados, perigosos. Discípulos de Boaventura Sousa Santos, o bonzo de Coimbra. Sempre prestaram para pouco. Nem uma aldeia de Portugal se lhes confia para a governar. O povo às vezes tem intuições acertadas;
- derrota de Rui Rio, um tiranete vingativo, pouco culto e mal educado, que estava a deixar os habituais inimigos do Ministério Público, com Pedro Marques Lopes a timoneiro, salivantes de esperança em que RR, uma vez primeiro-ministro, haveria de frenar de vez a sanha justiceira dos senhores procuradores da República; derrota deste PSD, uma confraria de lambe-botas de RR, toscos em geral;
- PCP ter ficado com um grupo parlamentar maior do que o do BE. Por mim, contribuí para que na minha freguesia ficasse em 3.º lugar, à frente do CHEGA, da IL e do BE;
- maioria absoluta do PS, por tornar dispensável o PAN e por reduzir o LIVRE a uma inutilidade redundante e balofa. Faço de Rui Tavares — e eu chame-me Deniz Costa se me anima alguma embirração particular por RT :) —, outro trotskista encoberto, em registo suave cosmopolita, que defende a independência da Catalunha e o Acordo Ortográfico de 1990, a ideia de um narcisista pesporrente eleito no Twitter e pelo eixo Lux Frágil-Bairro Alto-Campo de Ourique-Telheiras.

Espanto do dia
Nem pequeno desgosto nem pequeno contentamento; talvez Uma coisa em forma de assim, valendo-me de Alexandre O'Neill:
- 12 deputados do CHEGA.
Pelo menos garantem uma coisa à melancolia lusitana: circo em S. Bento. Sem a Joacine, o João Oliveira, a Cecília Meireles e o Ascenso Simões, aquilo vai precisar de animação.

//

Cá vamos de pesadelo em pesadelo.

Foi assim.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Assalto ao Capitólio

«Continua uma azáfama normal ... Rui Rio,o presidente do PSD, será o primeiro a chegar aqui ao Capitólio, às oito e dois minutos da noite. Oito minutos depois, a partir das oito e dez, será António Costa, o primeiro ministro e o secretário-geral do PS* a chegar aqui ao cineteatro Capitólio.»

Os deuses sabem da minha panca pelo alcance cirúrgico do «cerca de» e pelo rigor das quantidades. Rigor que, depois da ensinança de Bagão Félix, deixei de confundir com a exactidão e, mais rigorosamente ainda, de baralhar com a precisão.

Entretanto, fico a meditar na epistemologia da «azáfama normal».
____________________________________
* Ó Gonçalo, pá, falando assim fizeste crer aos senhores telespectadores que vão chegar ao Capitólio três pessoas: o Costa, o primeiro ministro e o secretário-geral do PS. Não te parecem socialistas a mais?...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Francisco, canivete suíço

Não deixemos que o 'mare nostrum' se transforme num desolador 'mare mortuum'. Por favor, paremos este naufrágio de civilização. - Lesbos, 05.Dez.2021

«O Mediterrâneo continua a ser o cadafalso de muitas vidas e, dizia até o Papa Francisco nos últimos dias, o exemplo do fim da humanidade, uma frase que eu subscrevo em absoluto*» - Assembleia da República, 09.Dez.2021

Quando um BEato como Pedro Filipe Soares, o líder parlamentar mais fraquinho de que me lembro nos últimos 150 anos, cita com aquele enlevo um pontífice de Roma, fico aberto à possibilidade de as unhas dos meus hálux terem pensamento próprio.
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* ... com absoluta falta de rigor.

domingo, 21 de novembro de 2021

Se não for a equivalência mais estapafúrdia do século, avisem-me.

21.Nov.2021, "Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes de Trânsito"
✈ «Todos os anos morrem nas estradas portuguesas um conjunto de pessoas equivalente a três aviões que caíssem em Portugal.» - Rui Ribeiro

✈ «E vale [vale, sim, Andreia Vale] a pena lembrarmos números há pouco também avançados pelo presidente da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária: os mortos nas estradas em Portugal equivalem à queda de três aviões todos os anos.» - Andreia Vale 

Ora bem. Que três aviões poderão cair em Portugal?
Jumbos? Cessnas? Antonovs? F-16? Embraers? Cargueiros? Citations? Tupolevs? A380? Illyushins? DC-10? De combate aos incêndios?...
Com que lotação? Cheios? Com metade dos assentos vazios?...

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Ante tal absurdidade, promovam-se desde já à categoria de 'equivalência razoável' os míticos 16 estádios de futebol da Colina de Santana  explicados na televisão por Helena Roseta, sempre com o fervor a resvalar para o delíquio, pelas 21h35 daquela inolvidável segunda-feira, 09.Dez.2013:
«Isto são 16 hectares e, para quem nos está a ouvir, 16 hectares são 16 estádios de futebol. Portanto, estamos a falar de uma área equivalente a 16 estádios de futebol.» - Jornal das 9, pelo minuto 00:50 

E quanto mede um campo de futebol?, suplica o meu leitor à beira de colapso ansioso. Nada que saber: mede um campo de futebol, um campo de futebol é do tamanho de um campo de futebol.
Na versão leiga, menos rigorosa e particularmente usada por gajas que de bola não pescam grande coisa, campo de futebol é o mesmo que estádio de futebol.
Qualquer macho que se preze diz campo de futebol.
Dando de barato que o campo (relvado e envoltura directa) são 10.000 m2*  e que um estádio médio ande pelos 30.000 m2 [por exemplo, a catedral da Luz tem 45.000 m2], imagine-se a imensidão da Colina de Santana na métrica destrambelhada de Helena Roseta...
Se calhar andamos todos enganados e Lisboa é muitíssimo maior do que julgamos. É possível que só Helena Roseta conheça o real tamanho da cidade. 

Mal comparando, nas medidas de superfície "campo de futebol" estará para "estádio de futebol" como, nas medidas de comprimento, "milha terrestre" para "milha marítima".
Apesar de arquitecta, Helena Roseta baralha-se nisto. É gaja, a malta entende.

Mais anunciou Helena Roseta: «Esses hospitais — São José, Santa Marta, Capuchos — supostamente vão sair todos dali para irem para o novo hospital, caso se vier a construir, não se sabe bem quando, em Chelas
Oito anos volvidos, continuam os três hospitais na Colina e em Chelas nenhum, o que decerto atesta o consabido jeito para a ficção da arquitecta dilecta** de António Costa.
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10.000 m2 x 16 = 160.000 m2, os tais 16 hectares.

** Olha a rima, Plúvio...

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Coisas espantosas

Raquel Varela- Por acaso até fui à Gulbenkian ver o Solokov. Tenho de dizer isto porque foi das coisas mais espantosas da minha vida ...
RV- Hã?
JV- Sokolov.
RV- Sokolov, eu agora tava a dizer, tou com dislexia... É o mais conhecido pintor russo da actualidade...
JV- Pianista.
RV- Pianista, meu Deus! Tou completamente... Obrigada, Joaquim! Vou começar.

Os doutores que quadriplicam têm destas coisas.
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Em tempo [29.Abr.2021]
Soube esta manhã do retrato de Raquel Varela feito ontem, na Rádio Renascença, por Joana Marques:
Nos últimos tempos venho reponderando se não devo promover Joana Marques, por quem tenho admiração crescente, ao 3.º lugar do humor perspicaz, passe a redundância, por troca com Ricardo Araújo Pereira.
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* Já agora e como ninguém ma pediu, aqui vai uma selecção, provisória e volante, ad hoc, de inchaços narcísicos:  
Clara Ferreira Alves .  José Sócrates . Lili Caneças  .  António Lobo Antunes .  Maria João Rodrigues (ex-eurodeputada do PS)  .  José Cid . Cristina Ferreira . Boaventura Sousa Santos . Júlio Isidro . Marco Paulo . José Rodrigues dos Santos . Raquel Varela  .  Cristiano Ronaldo . Manuel José (treinador de futebol)  . Simone de Oliveira  .  Rui Rangel . Eurico Reis (juiz)  . Eduardo Barroso . Bruno de Carvalho . Jorge Jesus .  João Soares .  José Perdigão (cantor) .  José António Pinto Ribeiro (ministro da Cultura num governo de J. Sócrates) . Margarida Rebelo Pinto  .    Alberto João Jardim . Tomás Taveira . José Mourinho . David Fonseca (músico) . Fernando Tordo . Manuel Alegre .  Paulo de Carvalho . Sebastião Bugalho  .  Sandra Felgueiras

sexta-feira, 2 de abril de 2021

A pé, em albustros, mangális e riachos - Gente incontável

«[...]
- ... As mães não conseguiam upar naqueles riachos ...
- Era um grupo de quantas pessoas?
- Umas quinhentas, umas seiscentas, umas setecentas pessoas

Moçambique comove-me.
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Venham dizer-me que o Alcorão não mata...

«O governo garante que está a apoiar os portugueses que estão em risco em Moçambique devido ao terrorismo islâmico.»
Pergunto pela enésima vez: mas o islamismo não é um terrorismo em si? «Terrorismo islâmico» não é uma redundância?
Não alcanço que erro factual pudesse cometer o jornalista Miguel Ribeiro se dissesse simplesmente «devido ao Alcorão», «devido a Maomé», «devido ao islamismo» ou «devido ao Islão».

domingo, 28 de março de 2021

Hebdomadário frívolo

Segunda-feira, 22  ᐅ  Domingo, 28.Mar.2021

•  A abrir, a morte de Adam Zagajewski [21.Jun.1945-21.Mar.2021].
Foi confrangedor como os meios de comunicação social portugueses, com honrosa e assinalável excepção do Público*, se limitaram a replicar, sem vigilância ou brio editorial, o despacho mal amanhado da Lusa que por sua vez assimilava às três pancadas a informação original da Associated Press.
Por exemplo, todos reproduziram, verbatim, este aleijão:
«a poetisa norte-americana Jorie Graham, vencedora de um Prémio Pulitzer, escreveu na sua conta na rede social "Twitter": Caro viajante e voz de sempre. Não vamos parar de o ouvir você. Está para sempre connosco.»**
Ainda assim, destaco o arrojo criativo com que o Observador, em 23.Mar.2021, embora, e igualmente, sem intervenção na prosa da Lusa, se empenhou em ilustrar o óbito do escritor polaco, inserindo uma fotografia originalíssima que legendou, a condizer: «As obras de Zagajewski foram proibidas em 1975 pelas autoridades comunistas de Varsóvia - NurPhoto via Getty Images».
Ei-la, lá continua. Parabéns, Observador, a malta agradece.
Que trampa de jornalismo vem a ser este?

Nesta semana continuou a falar-se da tradução — pura, imprópria, adequada, contaminada, genuína, espúria, autêntica... — das coisas escritas ou recitadas por Amanda Gorman, novo ícone cósmico do "fervor em manobras" no segmento literário, cujo "The Hill We Climb" o insigne e desbocado Plúvio se atrevera a qualificar de sofrível. Vendo mais acuradamente, o poema pouco passa de um cacharolete de clichés.
Como sou amigo dos meus fregueses, deixo caminho para as, de longe, quatro melhores peças das cerca de 43 publicadas por cá sobre o assunto.



O melhor dossiê da querela. Grande trabalho. Obrigado, Isabel.

Inteligência, cultura, graça, escrita esmerada.

Foi, finalmente, a semana em que li em todo lado, incluindo jornais e televisões, "Azerbaijão" bem escrito; e em que ouvi em todo o lado, incluindo televisões e telefonias, "Azerbeijão" mal dito. Para não cansar o ouvido, apenas duas amostras: na RTP;  na SIC
Mistérios do organismo?
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sábado, 6 de fevereiro de 2021

O efeito «jovem» no jornalismo de manipulação e engodo

Sem negar malfeitorias, abusos ou crimes praticados por polícias — sim, infelizmente acontece —, sujeitos a devido julgamento, nem ignorar o direito a ressarcimento das agressões e ofensas várias sofridas às mãos daqueles por cidadãos da Cova da Moura, não consigo deixar de me enojar e sentir insultado como cliente de notícias com o fanatismo ideológico de certo jornalismo de agenda, designadamente o praticado por Joana Gorjão Henriques, Fernanda Câncio e Valentina Marcelino, em torno dos incidentes de Fevereiro de 2015 na esquadra de Alfragide/Amadora. Em cada peça que assinam não escondem, ou escondem muito mal, o que manifestamente as anima: desde logo e sempre, atacar a Polícia, diabolizando-a, ocultando ou branqueando em paralelo idiossincrasias e eventual conduta violenta ou delituosa das vítimas, angelificando-as; tratá-las maternal e sistematicamente por «jovens» faz parte da táctica de atracção do leitor, indignado ou comovido, para a causa.
Volvidos seis anos sobre os factos, transitados em julgado os veredictos, lá veio Valentina Marcelino, jamais saciada na fome de punição da Polícia, prenhe do ódio descabelado que devota a "agentes da autoridade", tomar no Diário de Notícias de ontem as dores dos eternos «seis jovens da Cova da Moura» que agora «[...] apresentaram uma queixa à Provedora de Justiça contra a inspectora-geral da Administração Interna e o director nacional da PSP, por não agirem disciplinarmente contra os oito polícias condenados, que continuam em funções. [...]»

Recordemos os «seis jovens»:  
Flávio [rapper LBC Soldjah], 38 anos; Celso [rapper Kromo di Gheto], 38 anos; Bruno [rapper Timor Young Smoke], 30 anos; Rui, 29 anos; Paulo, 26 anos; Miguel, 25 anos. 


Recupero de 25.Ago.2019 "Os pretinhos bons, os polícias maus e a palavra jovem":
«[...]
Fernanda Câncio [6 peças aqui - ou isto aqui], irmanada com Valentina Marcelino [14 peças aqui], ambas no Diário de Notícias, e Joana Gorjão Henriques no Público [18 peças aqui], a reboque do Bloco de Esquerda/SOS Racismo/Mamadou Ba e com inevitável unção do bonzo de Coimbra [minuto 01:45, eis São Boaventura imprecando São Bento em 12.Fev.2015] lá foram urdindo e fazendo vingar desde 2015, com persistente e manipulada rotulagem etária propícia à comoção das almas sensíveis, a saga dos sempre, sempre, mas sempre tratados por "seis jovens da Cova da Moura"; jamais "indivíduos", "pessoas", "cidadãos", "moradores", ou simplesmente "homens". Para que conste: Flávio, nascido em 1983; Celso, em 1983; Bruno, em 1991; Rui, em 1992; Paulo, em 1995; Miguel, em 1996. Referindo-se a Flávio Almada, senhor de 36 anos, comenta Fernanda Câncio com desvelo pedomaternal: «A brutalidade deste relato de um dos miúdos do caso Cova da Moura é impressionante» - Twitter, 22.Set.2018. Repare-se na candura antropológica [mães, grávidas, crianças a brincar...; de homens ou rapazolas façanhudos, nem uma sombra. Afinal, Cova da Moura é um idílio de inocência, remanso e doçura feminil] das sete ilustrações, escolhidas adrede para enfeitiçar leitores incautos, com que a jornalista Câncio documenta a reportagem de quatro páginas no DN de 15.Jul.2017Sabidona.
De resto, em nenhuma passagem dos quilómetros de prosa jornalística das três inefáveis plumitivas — Fernanda, Valentina, Joana — me lembro de ter encontrado qualquer alusão ao facto, que dou por adquirido, de o jovem Bruno Lopes, o que desencadeou o caso da esquadra de Alfragide, levar no currículo sete condenações transitadas em julgado de 2008 a 2016 e ter a correr, em Setembro de 2017, 36 inquéritos-crime  [a partir do minuto 23:00]; vendo bem, um anjinho. Também "gostei" da cena, narrada por Joana Gorjão Henriques  no Público de 14.Jul.2017, em que três jovens foram detidos por agentes quando estavam a fazer música num estúdio. «Um dos jovens contou que tinha vindo à porta e depois de um curto diálogo foi agredido com uma bastonada, algemado e atirado para o chão e colocado na carrinha.» Deixem-me imaginar o "curto diálogo":
JovemBoa tarde, senhor agente. Como vai a vida? Muito trabalho?
Agente- Faz-se o que se deve e se pode. Uns dias mais tranquilos, outros nem tanto.
JovemOssos do ofício, senhor agente. Temos de enfrentar as coisas com optimismo e calma.
Nisto e sem dúvida por isto, o agente saca do bastão, pumba no jovem
etc., etc.
Escreve Fernanda Câncio no lide da tal reportagem, sem aspas nem atribuição de autoria (Sérgio Godinho): «A sede de uma espera só se estanca na torrente.» Anoto a coincidência de, quando necessita de exibir alguma erudição literária, ser ao mesmo mantra  conhecerá outro?  que recorre António Costa, secretário-geral do Partido Socialista, primeiro-ministro. Já aqui falei disso.
Sem favor, considero Fernanda Câncio entre os jornalistas que mais bem redigem em Portugal, pese não saber como se escreve retaguarda [ela pensa que é rectaguarda, coisa que nem antes do teratológico AO1990 era]. Mas, depois da extensa e — santa ingenuidade minha! — tardia compreensão do conúbio com José Sócrates numa altura (2001-2011) em que eu apesar de tudo admirava Sócrates e votava no PS, partido que hoje tomo por caldeirão de incestuosa imundície, e acreditava na isenção/desinteresse pessoal do que a jornalista escrevia no DN, não posso deixar de achá-la, também, uma das personagens mais desonestas que conheço e sigo na comunicação social portuguesa. Não lhe perdoo aquilo com que me fez amiúde concordar e vez por outra entusiasmar [e não, não falo de figos]. A esta distância, torna-se-me até desafiante especular acerca da muito presumível influência desta codiciosa e esperta paladina das "causas fracturantes" no ideário e na materialização de políticas por parte da criatura horrenda e mendaz — repartiam o coração sem que isso lhe toldasse a deontologia ao defender-lhe o nome (veja-se, entre múltiplos exemplos, este desavergonhado "J'accuse") e a gabar-lhe dia sim, dia sim, a governação — que certo dia recomendou aos portugueses que não deixassem de ir ver «o filme que se chama Milkpresumo, e fala da biografia de um dos primeiros políticos assumidamente homossexuais».
Câncio, desonesta ... e nem sempre fiável. ****

**** Fernanda Câncio: «Tenho a mania do rigor. Não me passa.» - Twitter, 16.Dez.2017
«foi criada, em 1996, na sequência do horrível caso da decapitação no posto da GNR de Sacavém, a Inspecção-Geral da Administração Interna, para investigar casos de ilegalidade e de violência nas forças de segurança» - Fernanda Câncio, DN, 22.Jul.2018
Já agora,
Inês Pedrosa: «Houve um caso em 95 de um polícia que decapitou um cidadão numa esquadra, em Sacavém» - "O último apaga a luz", RTP 3, 25.Jan.2019
Há, portanto, que agregar as amiguinhas Fernanda e Inês [CCB, Lisboa, 08.Jun.2010], na contrafacção fervorosa da realidade, à desonestidade insigne de José Saramago Clara Ferreira Alves.
Já em 31.Mar.2018 Ricardo Araújo Pereira molhara na fantasia o bico desonesto, trocando dessa vez Sacavém por Santarém: «Lembro-me de uma vez, numa esquadra em Santarém... Uma vez, numa esquadra de Santarém, eles serraram a cabeça de um desgraçado.» Lembra-se mesmo?  ***** 

«Comecemos por exemplo, já que falamos da esquerda, com uma frase célebre atribuída a Lenine: 'Proletários de todo o mundo, uni-vos.' Ser proletário, parece, é uma identidade, certo? E uma identidade que deve levar, de acordo com o apelo de Lenine, a que todos os que assim se identificam se unam para, claro, lutar pelos seus direitos.» - Fernanda Câncio, DN, 27.Jul.2019
Azar, doutora. A frase é do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, e nem é bem assim. «Proletários de todos os países, uni-vos!» CertoClaro.

***** Sacavém, terça-feira, 07.Mai.1996 - «[...] Carlos Rosa, 25 anos, roubava para alimentar o vício da droga. Acabou apanhado pela GNR e levado ao comandante que lhe encostou o cano da arma à cabeça e lhe berrou mais uma vez ao ouvido para o intimidar. A pistola de José Santos fez fogo no calor do interrogatório e, enquanto Samuel omitiu o crime, Castelo Branco ajudou a esconder o cadáver – embrulhado num cobertor e levado de carro para um descampado na Quinta da Apelação. O sargento Santos usou uma faca de mato para cortar o magro pescoço de Carlos Rosa, até o decapitar. Deixou o cadáver coberto com ramos e levou a cabeça de volta para o posto onde, com uma chave de fendas, tentou tirar a bala comprometedora. Não reparou que a munição atravessou o crânio da vítima e se foi alojar numa porta de madeira. Horas depois, o sargento abandonou a cabeça em Chelas, Lisboa, atirou a faca ao rio Trancão e deitou o cobertor ao Tejo. O esforço foi em vão: a 16 de Maio, dez dias depois, um pastor encontrou o cadáver. [...]».
Insista-se, para desencanto do contrabando noticioso activista: ninguém decapitou um cidadão dentro da esquadra.
Apre!
[...]»