sábado, 17 de junho de 2017

Lascívia com detergente

Bobadela, 17h30, 42º C.
O facto merece celebração.
Empanzino-me de melancia fresca com a cumplicidade gelada, até ao epílogo, deste maná. Depois, se o mito não me tiver encortiçado o metabolismo, obrarei tudo o que for devido, tendo presente que quem caga mais do que come corre risco sério de extinção. Se encortiçar, que se foda, rolho-me, paro de fazer disparates.
E de dizê-los.
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Fui à feira

Sou pouco tolerante a pichagens e aos diversos modos e géneros de vandalização dos equipamentos públicos, disfarçada amiúde de arte. Quando dou com painéis de horários grafitados fico possesso.
Ontem, no cais do metro de Entrecampos senti-me interpelado por um «te amo» escrito estrategicamente ao lado da flor-logótipo da Linha Amarela.
Confesso: rendi-me, achei graça e fiquei um pouco mais receptivo à bondade — neste caso servida pela mestria que apagou todas as letras de «Entrecampos» estranhas à mensagem, com a mutilação cirúrgica do "p" até ficar "o" — por vezes implícita em actos censuráveis, prejudiciais ao interesse primordial público.

Duas mulheres a precisarem de ser vistas, cada qual com sua razão:
- Clara Ferreira Alves, vendas;
- Teresa Leal Coelho, votos.
Talvez, arrisco eu.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Feriado

Deus ri?
Deus bebe?
Deus peida-se?
Deus caga?
Deus espirra?
Deus tem cócegas?
Deus espreguiça-se?
Deus dorme?
Deus coça-se?
Deus arrota?
Deus funga?
Deus fode?
Deus vem-se?
Deus chora?
Deus salta ao pé-coxinho?
Deus cria macacos do nariz?
Se não for assim, o corpo de Deus não é grande coisa.
Deus me perdoe.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Exactamente ao contrário

«[…]
"Há quem queira sair em poucos segundos e quem comece por se sentir tranquilo, mas toda a gente fica perturbada", acrescentou o engenheiro da Microsoft responsável pela construção desta câmara ecóica – onde todos os sons são absorvidos e não há qualquer eco (exactamente ao contrário da forma como ouvimos o mundo).
[…]»

Este é, por conseguinte, o dia em que Ana Taborda, competente, simpática e bonita editora da Sábado, se espalhou com estardalhaço. 

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Apesar do deslize estrídulo hei-de dizer, com dorido conhecimento de causa, melhor, com convicção de saber do que falo, talvez melhor, com percepção escrutinada em leitura comparativa abundante, isto é, com atrevimento sustentado nos factos e com a mais subjectiva das objectividades e vice-versa — sem com isto querer, nanja eu, dar graxa a Manuela Gonzaga, personalidade que aliás não me arrebata e cuja «consultoria linguística», aqui, de resto, muito me decepciona. Como pôde a doutora Manuela avalizar a feia consultoria que o bom gosto da Porto Editora recambia, por tão desgraciosa ser, para a decente consultadoria? —   que a revista Sábado evidencia habitualmente revisão de textos
melhor do que a da Visão;
melhor do que a do Expresso;
muito melhor do que a do Jornal de Letras, que tem uma revisão desgraçada;
melhor do que a da LER;
equiparável à do SOL, à do Correio da Manhã, à do i ou à do Observador;
melhor do que a do Público;
incomparavelmente melhor do que a do Diário de Notícias, que é uma calamidade diária;
não tão boa como a do Chove, porque ninguém é perfeito.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Ó João Céu e Silva, pelo amor da santa!

«Esteve em vários jornais até chegar ao Expresso, onde também assinou a coluna Pluma Caprichosa.» *
...
«Foi directora da Casa Fernando Pessoa e é júri do prémio Pessoa.» **

- João Céu e Silva, acerca da «marca/estrela» de Balsemão,  antiga «santanete», Clara Ferreira Alves, perdão, e portanto Clara Ferreira Alves, opinadora mutante e mui variada, com quem conversa no DN de hoje a propósito do seu sexto livro.
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* Continua a assinar, desde 1995, se não se importa.
"A pluma caprichosa", já agora,  título de um poema de Alexandre O'Neill, de 1962, que a autora da coluna assumidamente homenageia. [Excerto, ... mas não alimente os pombos, foda-se!]

** «é júri», João Céu e Silva?

Chiça penico, chapéus de coco, bordas de alguidar, borrões de candeia!

domingo, 11 de junho de 2017

Eleit@s e autor@s

Nunca acreditei em que José Rodrigues dos Santos tivesse dito intencionalmente o que disse, no telejornal de 07.Out.2015, acerca da eleição de Alexandre Quintanilha, por acaso marido de Richard Zimler.  

Muito menos me passa pela cabeça que a Porto Editora trate deliberadamente Frederico Lourenço, por acaso marido de André Nassife, como o trata na página 14, de 16, do bem feito, bonito e útil opúsculo "Autores que nos unem", distribuído aos visitantes da 87.ª Feira do Livro de Lisboa.

Mas acho graça a estas coisas.

Superlativo absoluto simples de Manuel Alegre: 100 000,00 €

Em três edições do Expresso do ano de 2005, o socialista emérito Manuel Alegre, deputado na altura, escrevia e assinava "Um par de Purdeys", pregão pornográfico ao Banco Privado Português, de nefanda memória:
«Fui às compras com o Dinheiro, porque esse, ao menos, sabe fazer contas. Passei por uma espingardaria, vi um par de Purdeys muito bonitas, essas armas que há muito são o meu sonho. Outros querem carros e jipes de grandes marcas, casas de campo e de praia, mais isto e mais aquilo, eu só queria um par de espingardas Purdey. Olhámos o preço, o Dinheiro torceu o nariz.
- O vencimento de deputado é uma pelintrice, se não dava para os charutos do outro, como é que queres que dê para as Purdeys?
E fazendo contas de cabeça, acrescentou: Nem sequer com os direitos de autor.
[…]
fiquei na dúvida se o Dinheiro não estaria ele próprio contaminado, quer pela doutrina social da Igreja, quer por algumas reminiscências de Marx, se não do "Capital", que só o Louçã deve ter lido até ao fim, talvez, quem sabe, dos "Manuscritos de 1844", que falam também da alienação do capitalista.
Tretas. O velho enganou-se. Qual alienação qual carapuça. Abre os olhos, rapaz, olha para o mundo à tua volta, o capitalismo ganhou, quem é e quem pode é quem tem.
[…]
- … a poesia não dá para o que tu sabes.
E apontou, o filho da mãe, as duas Purdeys, que mais uma vez ficaram no tinteiro.
Manuel Alegre»


Informação circunstanciada. - Público online, 07.Jan.2011.

Com voto favorável dos quatro jurados não portugueses do "Prémio Camões 2017", Paula Morão, presidente do júri, e Maria João Reynaud atribuíram a Manuel Alegre os 50 mil euros correspondentes à contribuição de Portugal.

Entre os 29 ungidos, desde 1989, não consigo lobrigar nenhum, incluindo Hélia Correia, tão fraco e desmerecedor como o tonitruante poeta sofrível e intratável cagão de Águeda que, a despeito de não ter mais do que 11 anos oficiais de escolaridade — nenhuma desonra ou menoscabo nisso, porém! —, a doutora Clara Ferreira Alves, reverencial e embevecida, tratava por doutor Manuel Alegre no Falatório da RTP 2, em 1996. Não era nem é a única; e ele não desgosta nem corrige.  

Não gosto de Manuel Alegre. Conheço-lhe os escritos quase todos; acompanho-lhe desde 1974 o trajecto público, caprichoso, errático, truculento, mas permanentemente amesendado, com a família*, à República. Não sei de que coisa assim tão extraordinária cultural e civicamente Portugal lhe deva, mas consigo especular sem vesânia nem má-fé sobre quanto, no seu rol doméstico privado, ele "deve" aos contribuintes portugueses. Desde quinta-feira passada, mais 50 000,00 €.

«É natural que me atribuam este prémio. Até podia ter sido mais cedo.» – Manuel Alegre, DN, 09.Jun.2017.

Pode, finalmente, tirar as Purdeys do tinteiro. 

Professora Paula Morão: vitória justíssima.
Presidente-arlequim: homenagem justíssima.

Siga o baile.
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* Manuel Alegre de Melo Duarte,
- casado com Mafalda Maria de Campos Durão Ferreira, antiga subdirectora dos Assuntos Consulares;
- pai de Francisco Durão Ferreira Alegre Duarte, diplomata, e de Joana Durão Ferreira Alegre Duarte, assessora da vereação PS no município de Lisboa;
- irmão de Maria Teresa Alegre de Melo Duarte Portugal, ex-deputada do PS, viúva do célebre guitarrista e antigo deputado do PS António Jorge Moreira Portugal [1931–1994], mãe de Manuel Alegre Portugal, jornalista da RTP, e de João Raul Henriques Sousa Moura Portugal, recente ex-deputado do PS e actual vereador pelo PS na Câmara Municipal da Figueira da Foz, o que me remeteria inevitavelmente para "Tavares & Tavares e o incenso dos Joões", pois, como avisa Ana Cristina Leonardo, «Isto anda tudo ligado», mas estou sem tempo e sem pachorra e ai de mim se quero sugerir seja o que for.
Etc.

«dominar perfeitamente o português»

Sob o título alternativo "Queres trabalhar no i e no Sol?" / "Queres trabalhar no Sol e no i?", o i "online" e em papel de 09.Jun.2017 e a edição em papel do Sol de 10.Jun.2017 trazem o seguinte convite a licenciados com entre 21 e 30 anos: 
«O i e o Sol vão abrir um concurso de estagiários. Ponto prévio: quem não ler jornais e não for uma pessoa profundamente informada sobre o que se passa no país e no mundo, não vale a pena candidatar-se. Segundo ponto prévio: quem não dominar perfeitamente o português – falado e escrito – também não deve continuar a ler isto.»
[...]
E acaba:
«Se pensas que podes ser candidato a estagiário no i e no Sol, envia um texto de 3000 caracteres sobre as eleições no Reino Unido, que decorreram na quinta-feira; uma notícia de 2500 caracteres sobre o discurso do Presidente da República que vai acontecer amanhã, no 10 de junho, e ainda uma carta com as razões porque queres ser jornalista. Além do CV, claro.
Os candidatos devem enviar os textos até terça-feira, dia 13 de junho para o mail opinião@newsplex.pt. Quem for selecionado será depois convidado a prestar provas já no jornal. O estágio será, obviamente, remunerado.»

Em tão pouca prosa e não desconsiderando a redacção acordistada do convite,
- vírgula indevida a seguir a «no mundo»;
- incumprimento da alínea e) do n.º 2 da Base XIX do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 [Plúvio a fazer de advogado do diabo] em «no 10 de junho». Bem, «no 10 de Junho»;
- erro grosso «em as razões porque». Bem, «as razões por que»;
- vírgula em falta a seguir a «13 de junho». 

Ante isto veio-me inevitavelmente à lembrança o requerimento de estágio de uma moça licenciada em "Gestão de Recursos Humanos" — designação que, se me concentro nela mais do que os dois segundos de um hausto, me causa necessidade urgente de um anti-histamínico — que me passou pelas mãos em finais dos anos '90 do século passado, trabalhava eu na melhor companhia aérea do mundoNo item "Conhecimento de línguas", a jovem cursada em tretas afirmava deter «domíneo oral e escrito da lingua portuguêsa». Três erros, uma mentira. 

Quem acode?

sábado, 10 de junho de 2017

O rigor de Luís Nobre Guedes

«A mulher dele, a Cláudia, que escreve no Expresso, dizia...»
Luís Nobre Guedes — pseudónimo de Luís José de Mello e Castro Guedes — na RTP 3, em 08.Jun.2017, incitando à compra de "E Deus criou o mundo", de Carlos Quevedo

Acontece que a mulher do Carlos não se chama Cláudia nem escreve no Expresso.

Este Nobre Guedes sempre me soou a jactante mediocridade.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Menina Elsa e menina Ângela*, não se faz isso ao senhor Ferreira Fernandes!

«[...]
Ao mesmo tempo, o czar tirava as medidas à suntuosidade do edifício e à harmonia dos jardins para os reproduzir em São Petersburgo.
[...]»

Lá que por obediência ao patrão obediente à estupidez tenham de mudar o esmerado peremptório para o medonho perentório, vá que não vá. Agora, suntuoso por sumptuoso não é só medonho; é, em Portugal, erro medonho.
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...
Copy desk**: Elsa Rocha (coord.), Ângela Pereira
...

** «Copy desk» era, se bem me recordo, como em português antigo se denominava o copista-revisor, aquele que conferia e corrigia a cópia efectuada pelo copista revisável,  e assim sucessivamente.

sábado, 3 de junho de 2017

Alberto Gonçalves, mal, muito mal,

e talvez pior o Observador ao puxar para lide da crónica um excerto recolhido neste parágrafo, negritos meus: 
«[...]
A quarta diferença é o comentário sobre Pedro Passos Coelho. Dada a doença da mulher deste, o estadista sisudo de um país convencional evitaria alusões desagradáveis. O dr. Costa, rosto da felicidade que nos caiu em cima, não evitou – ou por distracção, o que atesta o seu discernimento, ou de propósito, o que demonstra o seu repugn…, perdão, impecável carácter. A alegria não quer saber de maleitas.
[...]»

Repórter da SIC- Senhor Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho dizia ontem que o governo se estava a aproveitar das obras do anterior governo para...
António Costa- É um homem menos alegre. Adeus.

A interpretação do comentário de António Costa extrapolada para a doença de Laura Ferreira soa-me a delírio oportunista e, indo até ao fim do adjectivo inacabado de Alberto Gonçalves, repugnante.
Não, não é este Alberto Gonçalves que aprecio. De todo!

Já agora, parece-me, a mim que levo 35 anos de assembleias de condóminos, leviana, redutora e infeliz, se não gratuita, a jocosa "Nota de rodapé" do colunista acerca da governação democrática da "casa comum" dos milhões de portugueses que, citando-o e ao contrário dele, «por isto ou por aquilo» habitam em apartamentos contíguos sob o mesmo telhado. O envolvimento activo e cúmplice na harmonia e na saúde do condomínio sempre me pareceu coisa necessária, importante e digna, um indicador de civilização. Mas, claro, e finalizando desta vez com palavras sábias do doutor António Vitorino, «não é um processo fácil nem isento de dificuldades.»  
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* Obviamente na parte inteligível do "catrapilo" prosódico que António Costa costuma ser.

O «assassinato» de António Bagão Félix

Bom de contas e botânico amador, proclamando-se com convicção, orgulho e garbo, benfiquista católico — não lhe basta uma religião —, António Bagão Félix, por quem mantenho antiga admiração crítica, parece homem de refinada sensibilidade visual e olfactiva, como se infere, por exemplo, destas sinestésicas e extasiantes "Cores e fragrâncias…" no Público de 19.Mai.2017.

Revejo-me genericamente e gosto muito da crónica de Bagão Félix, "Tempos e silêncios", no Público de ontem:
«Há uns tempos, tive a oportunidade de ler um interessante texto de um editorialista italiano do Corriere della Sera, Beppe Severgnini sobre a crise – que eu diria estrutural – do modo verbal conjuntivo. Escreveu ele que o conjuntivo está moribundo. Não se trata, porém, de nenhum assassinato linguístico, de um suicídio premeditado ou induzido, ou de uma eutanásia idiomática. Trata-se, sobretudo, da desconsideração das ideias de dúvida, de incerteza ou de humildade (ou de todas em conjunto). 
[…]
Estamos vivendo uma avalanche de pseudo-hegemonia dos factos (mesmo que não o sejam…). É a primazia crescente sobre a filosofia, a hermenêutica e sobre a necessidade de compreender as coisas. Mas é, de igual modo, uma expressão deste tempo onde quase tudo é efémero, virtual, rápido, descartável, ligeiro, superficial, inútil, supérfluo.
Pouca gente julga, considera, crê ou pensa. Muita gente sabe, transmite, comunica, tem a certeza. 
[…]
Hoje quem se arrisca a usar o conjuntivo ou o condicional, corre o sério risco de ser visto como uma pessoa insegura. “Creio que seja deste modo”, “quem seria aquela pessoa?” cansam os mais convencidos que retorquirão “oh homem, deixa-te de creio e parece. As coisas são ou não são, ponto final”. […]»

Só não gosto mais do texto por causa do horrendo «assassinato»; linguístico, pois. Não que os dicionários o não acolham, mas caramba!, tendo ao dispor a incomparável eufonia de «assassínio», para não falar do apuro etimológico,  por que estranho e inesperado desfalecimento do gosto este devoto activo da língua portuguesa — terceira religião? — resvala para tamanha e escusável feiura?
Ó Plúvio, frena-me essa disenteria adjectivante, porra!
Pensando melhor, acho que sei. Muito recomendável de olhos e de nariz, Bagão Félix não é a primeira vez, afinal, que indicia percepção defeituosa nos tímpanos. Lembremo-nos do Pedro Barroso
Será por isso: diz «assassinato» e soa-lhe bem.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

O papel triste do Diário de Notícias em papel

A notícia da morte de Armando Silva Carvalho começou a circular pelas 11h00 de ontem, 01.Jun.2017.
Nos jornais em papel de hoje:
i - "O homem que sabia a mar", por José Manuel de Vasconcelos [2 páginas inteiras com chamada na capa]
Público - "Um poeta ácido, lúcido, erótico, político", por Luís Miguel Queirós [página inteira]
Jornal de Notícias - "1938-2017, Armando Silva Carvalho", obituário [1/3 de página]

No Diário de Notícias nem uma palavra sobre Armando Silva Carvalho.
Conheço bem o DN, de que sou leitor indefectível desde 1970 e ultimamente assinante. Estava crente em que depois da direcção medíocre de Fernando Lima [Out.2003-Nov.2004] fosse impossível pior. Enganei-me. Aí está, com Paulo Baldaia ao leme, a direcção porventura mais rasca desde 29 de Dezembro de 1864.
Um desconsolo, este DN definhante de Proença de Carvalho, Luís Montez, genro de Cavaco Silva, Pedro Marques Lopes, "o comunitário" — não sei de colunista tão penosamente apedeuta de pena e de língua na comunicação social portuguesa —, Dias Loureiro e José Sócrates de cujo* "O dom profano" vem, por coincidência na mesma edição em que não houve lugar para a morte de um poeta, promoção da Porto Editora oferecendo um exemplar «a cada 8 chamadas» para o 760 ... ... O vexame a que um tenaz divulgador de filósofos se sujeita.
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* Deus me perdoe a ousadia deste determinante relativo.

Onde tem Deus os tomates?

Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e [principalmente] invisíveis, Ele que abarbatou a credibilidade perdida por Poseidon e Neptuno, tivesse-os Ele no sítio e veríamos se a América que votou no grunho não ia levar nos próximos três dias — moldura penal ajustada por defeito — um arraial de maremotos, tsunamis e furacões, ciclones e tornados; cheias, enxurradas e aluviões [lembrando sempre que aluvião, como cheia e enxurrada, seus sinónimos,  é substantivo feminino]; geadas, canículas, frieiras e insolações. Para aprender.
Ou talvez não e o grunho tenha razão. 
Confesso que Ferreira Fernandes me influenciou e admito que não devesse reagir tão a quente. É do clima.

domingo, 28 de maio de 2017

Tradução horrorosa

«[...] Bisogna dire con forza che questa cultura competitiva tra i lavoratori dentro l'impresa è un errore [...]»
Em português pluviano, «É preciso dizer com veemência que esta cultura competitiva entre trabalhadores no seio da empresa é um erro.»

Eis o que o Papa disse segundo a Rádio Renascença.

Imagino que a Aura Miguel tivesse ido mijar na altura. Mas até o tradutor da Google faria melhor do que o estagiário surdo de turno.

Joana Gomes Cardoso,

Presidente do Conselho de Administração da EGEAC - Empresa Municipal de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural da Câmara Municipal de Lisboa, uf!, filha da eurodeputada Ana Gomes — que interessa de quem é filha? —, do PS — que interessa o partido, raios? —, esteve ontem no Hotel Babilónia, Antena 1, a conversar com Pedro Rolo Duarte e João Gobern a pretexto das Festas de Lisboa de 2017
Metralhadora palrante, a doutora Joana gosta muito da palavra «dimensão», tem o tique de «na verdade» e não consegue dizer «todos» sem acrescentar «e todas», o que pode transformá-la sem ela querer numa espécie de psitacídeo da família Cannavigliae.  
Experiente, vivaça, talentosa, bem estruturada, aguerrida, Deus a conserve. A capital agradece.

sábado, 27 de maio de 2017

Marisa foi ao cabeleireiro

Ontem ao serão, a pastorinha do bonzo de Coimbra esteve, amiúde de mãos postas, na "21.ª hora" da TVI 24.
Gosta menos de cristãos do que de muçulmanos, não usou a palavra "Alcorão", muito menos "Maomé", e nos quase 19 minutos de cavaqueira com José Alberto Carvalho ajeitou o cabelo por 48 vezes numa infrene e libidinosa compulsão tricomaníaca que acabou por ser ao que dei mais atenção. De resto, pareceu-me ouvir-lhe coisas acertadas sobre a hipocrisia no negócio das armas e sobre os 20% de contributo dos EUA para o orçamento da NATO, de que Trump se lamuria, até serem «pouco para quem define a política toda».

No canal ao lado, eram 22h12 quando o bispo Louçã disse, juro, que «foi publicada uma carta de órfãos, filhos dos mortos e das mortas, há 40 anos atrás, naquele 27 de Maio de 1977».
- "O tabu de Francisco Louçã", SIC Notícias,  minuto 10:25 
«há 40 anos atrás» ainda é o menos. Inadmissível é que se tenha esquecido das órfãs e das filhas.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Efeitos secundários do padre Anselmo no Plúvio

Há 30 anos que acompanho e leio — religiosamente — o padre Anselmo Borges, com a seguinte consequência, entre outras quiçá menos importantes: quanto mais o leio, por exemplo aqui, ou escuto, mais se me dissipa a fé religiosa, se é que resta alguma.
A leitura sistemática da Bíblia e o estudo atento das organizações e fenómenos eclesiais têm efeito semelhante, mas mais homeopático. Já os excursos do padre Anselmo são de uma eficácia extraordinária: abusando porventura de alguma distracção do meu metabolismo crítico, injectam-me a descrença directamente na veia. Que o rim não drena e essa é que é a perversidade. 

Texto de hoje no DN: "Francisco em Fátima (1)" *
Ó padre Anselmo, tenha dó de nós, das nossas meninges!

A propósito, quem não se atordoa com a profusão heteronímica da mulher do carpinteiro de Nazaré?
Se o senhor Pessoa era plural como o universo, que dizer da Senhora?
OK, a Senhora não escreveu nada.
Intrigante é que a Igreja ainda não homologou, com tantas delas em …ção, uma Nossa Senhora da Menstruação ou, para ser mais moderado, uma Sereníssima Virgem do Período. **
Pois se até do Ó há uma
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* Falando do Papa Francisco,
Anselmo Borges, 26.Mai.2017 - «é profundamente mariano»
Ascenso Simões, 10.Mai.2017 - «não é um mariano convicto»
O consenso hipnotiza-me. ***

** Alimentava certa esperança — de fé estamos conversados — em achar alguma destas no beato Roberto, ele que as conhece todas.
Debalde. Pelos vistos, chega de sangue. E se calhar até concordo.

*** Parafraseando António-Pedro Vasconcelos, oito letras de Anselmo e de Ascenso.
Escusa o leitor abelhudo de vir já com merdas. Contei na calculadora.

Agora vou-me confessar.

Ao cuidado da doutora Isabel Jonet *

Não é todos os dias que se nos depara, a cada cinco segundos de um videoclipe de propósito estimável e boa locução, insulto deste jaez à língua portuguesa.

«Partilhar sabe bem»; falando bem sabe melhor.
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terça-feira, 23 de maio de 2017

Culto tonto da intemporalidade?

Para a peça que assinou no DN de sábado, 20.Mai.2017, "Espero que o ego não o coma", Fernanda Câncio recolheu informação e testemunhos de pessoas mais directamente ligadas ao trajecto musical de Salvador Sobral, nomeadamente Júlio Resende que o vem acompanhando nas gravações e nos concertos.
A jornalista fez decerto tenção de saber a idade do pianista algarvio, conforme se depreende da seguinte passagem, negrito meu:
«Resende, que prefere não dizer a idade, tinha já vários discos editados quando conheceu Salvador.»

Os deuses sabem quanto estes buracos negros na informação me desafiam e acicatam a curiosidade. Está claro que me pus logo na net à cata da certidão de nascimento do Resende. Por nenhuma outra motivação, friso, que não a do apuro científico dos meus conhecimentos de antropologia aplicada e a da pura bisbilhotice — adoapuroeadapura —, sim, bisbilhotice, que um homem que só se alimente de Malinowski nunca irá muito longe no entendimento do Homem.

De modo que tive de ir por arrevesados cálculos geológicos segundo e depois dos quais se me afigura seguro afirmar que o Resende terá nascido entre o Cretácico Inferior e o Quaternário Holocénico.  
Se o leitor amável não vir nisso atrevimento soez da minha parte, estou até capaz de arriscar, na falta de calculadora mais sofisticada, que o Resende nasceu no Antropoceno.

Enfim, acho quase sempre mesquinho, para não dizer ridículo, o escondimento ou a sonegação da idade, como se fosse possível escapar às singelas datas que precedem e se seguem ao hífen da nossa efemeridade
Num puto com ar de ter nascido no decénio de 80 do século XX, parece-me mera tontice. Mas está no seu direito e terá as suas razões; eu é que tenho um feitio esquisito.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Viktor Vidović,

É certo que boa madeira para guitarra até na árvore soa.
Mas estas mãos, senhores!...

Prometo mudar de assunto.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Ascenso Simões,

transmontano cagão, crente em Deus mas mais piedosamente em José Sócrates, afirma em entrevista à Sábado de 10.Mai.2017 que o Papa Francisco «Não é um mariano convicto».  
Ora essa, senhor deputado!? Quem lho disse? Onde leu? 
Entre outras proclamações de exuberante e ardorosa marianofilia — ó p'ra ele, faz três dias, a acenar à boneca —, bastaria ao socratodevoto Ascenso ter presente as conclusões de dois documentos nucleares do enaltecido pontificado de Francisco:
- Carta encíclica "Lumen fidei" ["Luz da fé"], de 29.Jun.2013, capítulo IV, pontos 58. a 60., "Feliz daquela que acreditou";
- Exortação apostólica "Evangelii gaudium" ["Alegria do evangelho"], de 24.Nov.2013, * capítulo V, parte II, pontos 284. a 288., "Maria, a Mãe da evangelização".
Se Jorge Mario Bergoglio «não é um mariano convicto», convoque-se de imediato, para dissipação da heresia ascênsica, o sinédrio dos morcegos da Biblioteca Joanina

Apontamentos do 13 de Maio

Saudação fogosa na paz de Cristo da filha do primeiro-ministro ao presidente-arlequim.

Mãos de António Costa atrapalhadas no pai-nosso. Ali, só o pio Marcelo e a intérprete de língua gestual sabiam como e onde pô-las.

Segurança do Santo Padre. Pelos vistos, o Deus a que se confia não é guarda em que confie. 

António Marto, bispo de Leiria-Fátima, dirige-se ao Papa: Peço-vos permissão para em vosso nome enviar uma carícia aos pequeninos.
Permissão dada, diz o viscoso Marto: Caros amiguitos e amiguitas, o Papa Francisco envia-vos uma carícia cheia de ternura.
Confesso que me repugnou a saturação pleonástica da «carícia cheia de ternura».
"Seis por Meia Dúzia: à sombra duma azinheira" - TVI, 14.Mai.2017
Obrigado, Victor Moura-Pinto, por estes deliciosos seis minutos de fervor.

Merecem ponderação os comentários de Cipião Numantino, Carlos Quartel, Joaquim Moreira, Pedro Varela, Ribeiro Pinto, Maria Machado, Jorge Madeira Mendes, Aónio Lourenço, Diogo Mendes, Rui Franco, Ribeiro Pinto, José C. Aguiar, João Magalhães, Vítor Costa Lima.
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* Relembre-se que é nesta Exortação que o bonzinho do Papa Francisco diz que «o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência.». Não sei se patético se apatetado. Mas eu sei pouco, cerca de nada.

Respeitosamente.

Isto é

um divertido assombro de cinco minutos e quarenta.

«espera lá, Arlindo! Isto é lindo»

Insisto no reconhecimento e grande mérito de Luís Figueiredo, autor do arranjo.

sábado, 13 de maio de 2017

Música

«[…]
Pedro Barroso não é autor de concessões ao fácil, ao “light”, à fama fútil e efémera. Soube criar, com mestria, a sua forma ímpar de estar no mundo da interpretação e da criação musical e literária. A sua música tem um especial sabor épico, que a sua forma de a transmitir acentua sublimemente. Os seus temas cruzam tempos numa simbiose natural de vivências e memórias, anseios e esperança, sonhos e utopias, de “passado contido no futuro” e de futuro prenhe de pretérito. Nele, a portugalidade é enaltecida e jamais olvidada (“a nação ternura”), sem, porém, esquecer o que não nos enobreceu ao longo da (nossa) descoberta.
[…]»

Bagão Félix passou-se. Bagão Félix precisa de otorrino urgentemente. Que literatura ou poesia tem lido Bagão Félix? Que música ouve, que compositores aprecia? Que estranhas coisas dirá o dicionário de Bagão Félix do verbo «criar» e do adjectivo «sublime»?
Ora bem. Sucede que «PB não é autor de concessões ao fácil» ... nem ao difícil, simplesmente porque não consegue, não pode, falta-lhe o duende, não nasceu para aquilo.
«mestria» ... «criação musical e literária»? Ó Bagão, tento na língua.

Literariamente, Pedro Barroso não alcança sequer a carpintaria de Quim Barreiros.
O engenho e a criatividade do músico Pedro Barroso variam, empolgam e enfeitiçam como a névoa do lusco-fusco.
Homenzarrão, vozeirão, talento minguado. O pior é que se leva a sério e levam-no a sério — caso do bom do Bagão Félix — como grande artista.

Comparados com Pedro Barroso, os irmãos Sobral são puro Bach.
Se o Salvador não ganhar logo à noite em Kiev, confirma-se aquilo de que se suspeita: a Europa anda surda.
O arranjo de Luís Figueiredo, céus, aquele arranjo!… Magia.  
Bravo, João Dias! A humanidade ainda não está inteiramente perdida.

Três ou quatro dias na vida alucinante e devotada de um presidente-arlequim

17 de Abril, segunda-feira
Órfão e devoto de Camarate-atentado, Marcelo chega a Tires antes de quase todos; ainda assim com ligeiríssimo atraso: a avioneta já se tinha despenhado.
Ia decerto para se certificar das provas de sabotagem. Receio é que sem a assessoria iluminada de Helena Roseta, especialista em aviões que marram no chão, não vá longe no desenvolvimento e sustentação da tese conspiratória.

18 de Abril, terça-feira
Devoto de Cristina Ferreira, Marcelo reúne com os bruxos em casa de Leonor Beleza. «[…] fez várias incursões bem humoradas pela política interna, em ritmo rápido e cuidando não ter jornalistas na sala, deu um exemplo concreto: a queda da avioneta em Tires. "O poder político tem de estar pronto a responder a situações como esta." […]» - Público, 18.Abr.2017

12/13 de Maio, sexta/sábado
Devoto de Fátima, com uma estranha e fechada anomalia no primeiro ó:

Entretanto, meteu no saco o bandolim do Acordo Ortográfico.
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* Plúvio, devoto.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Tavares & Tavares e o incenso dos Joões

"O coro dos defuntos", publicado em Novembro de 2015, valera a António Tavares, no mesmo ano de 2015, o "Prémio Leya" — 100.000 euros —, de cujo júri Manuel Alegre aparenta ser presidente perene.
Na edição de 2013, António Tavares fora finalista vencido com "As Palavras que me deverão guiar um dia", publicado em Agosto de 2014. 
O escritor António Tavares, advogado, jornalista e professor, foi eleito em 2009 e reeleito em 2013, pelo Partido Socialista, para a Câmara Municipal da Figueira da Foz de que é hoje vice-presidente, mas não é isso que vem ao caso.
O que me traz é o livro "Todos os dias morrem deuses", que não li nem conto ler, o mais recente do autor, que teve lançamento oficial em 21.Abr.2017, faz hoje três semanas, e que mereceu no DN definhante de Pedro Marques Lopes, de Proença de Carvalho, do genro de Cavaco Silva e de José Sócrates imediata recensão abonatória de João Céu e Silva em 29.Abr.2017 e, dois dias depois, apreciação não menos encomiástica de João Gobern.
"O coro dos Joões", isso.*

Em 2008, os primeiros 100 000 euros do Leya ganhou-os o brasileiro Murilo Carvalho, com "O rastro do jaguar", não se lhe conhecendo títulos ulteriores.
Em 2009, com "O Olho de Hertzog", venceu o moçambicano João Paulo Borges Coelho que publicaria em 2010 "As visitas do Dr. Valdez", em 2011 "Cidade dos espelhos", em 2013 "Rainhas da noite" e em 2016 "Água - Uma novela rural".
Em 2010, o prémio não foi atribuído.
Em 2011, com "O teu rosto será o último", ganhou João Ricardo Pedro que publicaria "Um postal de Detroit" em 2016.
Em 2012, com "Debaixo de algum céu", Nuno Camarneiro que veio a publicar em 2015 "Não acordem os pardais" e "Se eu fosse chão".
Em 2013, com "Uma outra voz", Gabriela Ruivo Trindade que voltou a publicar em 2016: "A vaca leitora".
Em 2014, com "O meu irmão", ganhou um miúdo nascido em 1990, Afonso Reis Cabral, que nada publicou entretanto.
Em 2015, o dito Tavares.
Em 2016, Manuel Alegre voltou a não premiar ninguém.
O vencedor de 2017, havendo, será anunciado lá para Novembro próximo.

Todo este aranzel porque João Céu e Silva, jornalista que muito prezo, escreve a propósito de António Tavares o seguinte despautério, destaques meus:
«[...] Diga-se que é o único dos premiados com o "ambicionado" Prémio Leya que anualmente corresponde com um livro ao interesse dos leitores pelos finalistas vencedores deste galardão. Dos restantes, ou não se ouve falar ou entregam projectos demasiado bissextos à editora. [...]»
Leviano, para não dizer ridículo. E injusto para alguns premiados. De resto, nem é verdade que o incensado Tavares tenha escrito todos os anos depois de 2015, já que em 2016 não publicou nada. Ao contrário, por exemplo, do Plúvio que escreve anualmente, sem falhas, no seu T3 na Bobadela, as actas do condomínio: a de 2016 e a de 2017. 
Mas gostei de ver em 14.Abr.2017 o Céu a falar da sua Fátima no Inferno do Canal Q.


O que conheço da escrita de António Tavares não me arrebata: algo pretensiosa, incapaz de uma boa metáfora, a puxar para o críptico e vocabularmente esotérico. Afinal, não é Aquilino quem quer.
Uma amostra:
«[…]
FEVEREIRO, 2015
[…]
Embrulhava-me num cobertor, madrugada a abrir-se aos machacazes que aricam as alvercas e os barrosais, para delas tirarem sustento. Vou mudando de espaço e de tempo e era** muitos, como um coro.
[…]
E tinha Aquilino diante de mim. Aquilino rima com Luandino.
[…]
OUTUBRO, 2015
[…]
E tocava o telefone. E tocou: "Vou passar ao Manuel Alegre", disse-me uma voz. Alegria, pois.***
[…]»
António Tavares, "Diário de um prémio" | JL 1176, 28.Out.2015

E vós, Plúvio, se vos enxergásseis?
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* Não estou certo é de que tenham lido o mesmo livro:
o do João Céu e Silva tem 172 páginas e custa 12,90 €; 
o do João Gobern é maior e custa menos: 176 páginas, 11,61 €.

** Vou ... e era ... [?!]


*** Então não? Pudera! Para quantas doses de amêijoa à Bulhão Pato dão 100 mil euros?

segunda-feira, 8 de maio de 2017

«Completamente»

Luís Marques Mendes, ontem, no "Jornal da Noite" da SIC, afiançou que o Partido Socialista convidara Júlio Magalhães.
Reacção do Partido Socialista: «completamente falso».

Faz-me lembrar de um homem «completamente inocente» condenado por crimes de abuso sexual de crianças.

Cheira-me a advérbio de água no bico, completamente desnecessário à verdade. A verdade usa ser despida; o fingimento, não tanto

A consciência limpa ou tranquila não andará longe.

domingo, 7 de maio de 2017

«Também» precoce do Boucherie?

Carla Hilário Quevedo, rematando a sua zurzidela [sim, sua e dela] na Joana Vasconcela, ups!, celos, e no terço mastodôntico que o padre Cabecinhas, de impecável cabeção, lhe encomendou  [por quantos milhares de euros? Essa é a «Quarta parte»…]:
«Acho uma coisa foleira e sem interesse nenhum.»
[…] 
Domingos Amaral- Por acaso eu gosto.
Pedro Boucherie Mendes- Eu gosto também.
Domingos Amaral- Uma das coisas que me surpreendeu neste terço e nesta obra da Joana Vasconcelos  foi de facto ter havido alguma coisa artística relacionada com a religião, de que eu gostei. Porque normalmente a maior parte das coisas
Pedro Boucherie Mendes- Arte sacra, sim.
Domingos Amaral- … que nos últimos anos, que tenha sido feito, vulgo a igreja no Alto do Restelo, do Troufa Real… 
Pedro Boucherie Mendes- Também gosto.
Domingos Amaral- … aquilo é uma coisa abominante!
Carla Hilário Quevedo- Uma coisa medonha, medonha!
"Irritações", SIC Radical, 04.Mai.2017 - De 43:30 a 44:05

E agora, lá para casa, questionário de escolha múltipla:
Que queria Pedro Boucherie Mendes dizer com «Também gosto.»?
A- Gosto da igreja do Troufa Real do mesmo modo que gosto do terço da Joana.
B- Concordo com o Domingos Amaral, também gosto da igreja do Troufa Real.

Aposto em B, apesar da rima emparelhada e da métrica irregular.

sábado, 6 de maio de 2017

Língua do Estado em estado não recomendável

O Primeiro-Ministro não melhora; nem parece que tenha cura.
«[…] muito do que então foi antevisto tem tado a ter concretizações efectivas.»

Repito-me: o pior é que podem estar crianças por perto.

Afirmações espantosas

«[…]
Neste processo, o Ministério Público exibiu despudoradamente uma das especialidades que vem cultivando há décadas: promover covardemente - e criminosamente - campanhas de difamação nos jornais, por forma a transformar a presunção de inocência em presunção pública de culpabilidade.
[…]»
Atenhamo-nos às quatro décadas de Procuradores-Gerais da República designados pela democracia:
João de Deus Pinheiro Farinha, 1974-1977
Eduardo Augusto Arala Chaves, 1977-1984
José Narciso da Cunha Rodrigues, 1984-2000
José Adriano Machado Souto de Moura, 2000-2006
Fernando José de Matos Pinto Monteiro, 2006-2012
Maria Joana Raposo Marques Vidal, 2012-
Pinheiro Farinha [1919-1994] e Arala Chaves [1914-1993] não estão cá para se defender. Mas por que esperam Cunha Rodrigues, Souto de Moura, Pinto Monteiro e a Joana para agir em desagravo e reparação do ultraje, da injúria, da calúnia, da ofensa, da desonra, do insulto e – usando vocábulo querido ao colunista do DN – da infâmia lançada sobre a instituição que dirigiram e Joana Marques Vidal hoje dirige? Onde está o vosso brio, prezados magistrados da nação?
Ou estou pitosga e a afirmação de José Sócrates não configura crime tipificado?
- x -
Miguel Sousa Tavares, paladino desde sempre da não implicação do casal McCann no desaparecimento da filha Madeleine, convencido do rapto — Passa pela cabeça de alguém que os pais, o pai ou a mãe ou ambos, fizessem sumir o cadáver da miúda depois de inadvertida e desastradamente terem errado ou exagerado na dose para a manter quietinha enquanto estavam na comezaina e nos copos com amigos? Nunca jamais em tempo algum, só mentes pérfidas admitiriam um filme desses! —, afirmou o seguinte, em 3 de Maio corrente, no fecho do especial "Caso Maddie – 10 anos" na SIC Notícias:
«Infelizmente creio que hoje Maddie não estará viva já.»
Alto, pára tudo! Afinal, morreu? Como? Quem a matou? Quando? Porquê?
Reabra-se o caso desde o início, mais bem dito, desde que as tapas começaram a chegar à mesa
Miguel Sousa Tavares endoidou ou esgueirou-se-lhe a língua para explicação mais verosímil? O mais verosímil, também quanto a mim mas em 3 de Maio de 2007, é Madeleine ter morrido. E quero crer que os pais sabem, por muito que tentem persuadir a galáxia doutra coisa. E se eles tentam!
Já Miguel Sousa Tavares, que acompanho há 40 anos e geralmente aprecio, é, sabemo-lo, um obstinado de causas fortes: do amor à caça, ao tabaco, ao Futebol Clube do Porto e à orla costeira, ao ódio sistemático, antigo e infrene ao Ministério Público, ao Acordo Ortográfico, à internet social e aos benefícios fiscais a pensionistas estrangeiros. Causas mais fortes do que ele, o Olimpo o abençoe.

Duas afirmações espantosas. Inconsequentes?

Como diz que disse?

Pedro Marques Lopes– E no entanto tu votarias nele (Emmanuel Macron) numa segunda volta…
Daniel Oliveira- Não, não! Nem na primeira nem na segunda volta. Nunca votaria em Emmanuel Macron.
Pedro Marques Lopes- Então votarias em Le Pen.
Daniel Oliveira- Não votaria. Ninguém me pode obrigar a votar numa pessoa com quem discordo em 98% . […] 
Luís Pedro Nunes- Permitirias que a Marine Le Pen…
Daniel Oliveira- Eu acho que o tempo do voto útil acabou. Eu nunca permitirei que me obriguem a escolher entre a xenofobia e a selvajaria liberal. Não escolho entre as duas, não escolherei entre as duas. Não aceito mais que me ponham nessa posição.

Sete noites volvidas, no Eixo do Mal de 30.Abr.2017:
Daniel Oliveira- Eu, como disse, não tenho dúvidas de que a esquerda vai ter que apoiar Macron. […] Sobre o que eu disse na semana passada, eu, perante a possibilidade de a Le Pen vencer — não tinha pensado sequer nessa possibilidade —, acabaria por votar no ex-banqueiro que tem o apoio do Schäuble, acabaria por votar Macron, acabaria por votar em tudo o que, para além do que a Le Pen defende, eu combato politicamente.

Saltimbanco. Sem dúvidas.

Tivessem estes galarotes iluminados e blocosquerditas zonzos pressentido o apelo do condiscípulo Yanis Varoufakis de 02.Mai.2017, veríamos como cacarejariam por cá.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Rui Tavares e Daniel Oliveira, radicais livres

Daniel Oliveira [DO], leninista intermitente de geometria variável- [...] a maior evidência é que o candidato que pode ganhar — que é o anti-sistema — trabalhou na finança, é um membro destacado da nobreza de Estado francesa, foi ministro, é o regime!, a personificação do regime. Estou a falar de Emmanuel Macron.* 
Pedro Marques Lopes– E no entanto tu votarias nele numa segunda volta…
DO- Não, não! Nem na primeira nem na segunda volta. Nunca votaria em Emmanuel Macron.
PML- Então votarias em (Marine) Le Pen.
DO- Não votaria. Ninguém me pode obrigar a votar numa pessoa com quem discordo em 98% […] só concordo com ele nas liberdades cívicas, não concordo em mais nada. […]
Luís Pedro Nunes- Permitirias que a Marine Le Pen…
DO- Eu acho que o tempo do voto útil acabou. Eu nunca permitirei que me obriguem a escolher entre a xenofobia e a selvajaria liberal. Não escolho entre as duas, não escolherei entre as duas. Não aceito mais que me ponham nessa posição. O Macron apresenta-se como uma startup, é uma startup, tem um discurso insuportável. É também um pisca-pisca, ele vai escolhendo conforme, é a coisa menos genuína que pode existir do ponto de vista de acreditar em alguma coisa.
- x - 
«[…] Podemos criticar, lamentar ou até deplorá-lo, mas a grande oposição política do nosso tempo é entre nacionalismo e cosmopolitismo. Negá-lo é que não passa de tolice. […] Nestas duas semanas que faltam até à decisão definitiva dos franceses, antecipo muita tergiversação, muita confusão ideológica e muito preconceito. Mas nunca como hoje é importante saber de que lado se está — e, sobretudo, como se está. Essa é uma decisão crucial, nomeadamente à esquerda. A esquerda que acredita poder roubar os votos nacionalistas à direita através de uma recusa do projecto europeu acaba por reforçar o argumentário que leva uma Marine Le Pen até perto do poder.
Ao não fazê-lo, a esquerda deixa a defesa da Europa a Emmanuel Macron, sobre quem espero ouvir todas as críticas nos próximos tempos: que é centrista, que é liberal, que já foi banqueiro, etc. Tudo isso é verdade. Ao mesmo tempo — expressão favorita de Macron, que já foi criticado por querer tudo “ao mesmo tempo” e já pôs milhares a gritar “ao mesmo tempo” nos seus comícios — ele é o candidato que mais assumiu a defesa do projecto europeu, supostamente impopular hoje em dia. Foi ele que mais claramente disse aos franceses: se quiserem recuperar a soberania francesa em tempo de globalização, só o poderão fazer através da construção de uma soberania europeia. Esse discurso, que pretende — ao mesmo tempo — conciliar a transformação de uma França presa nas suas hierarquias e nas suas exclusões sociais, que quinze anos depois repete a presença da extrema-direita na segunda volta, com a reconstrução de um projecto europeu que mal vai sobrevivendo sem ideias, é um discurso essencial nos dias de hoje. Macron correu o risco de o fazer, e será provavelmente recompensado por ele.
É desaconselhável, portanto, descontar Macron como se fosse apenas um peso-ligeiro. Mesmo a partir de Portugal, as suas propostas europeias — um orçamento para a zona euro, um imposto sobre as multinacionais ao nível da UE e o lançamento de convenções democráticas em todo o continente — podem estar aquém do que necessitamos, mas estão muito além do que tem sido proposto a partir de algum dos maiores países da UE. Menos desprezo intelectual e ideológico, portanto, por quem apesar de tudo propõe um discurso positivo que conta também connosco.»
- x - 
«[...] Dizer que quem à esquerda defende que a soberania democrática só se tem conseguido exercer no espaço do Estado-Nação (uma constatação de facto) tem em Trump e Le Pen o resultado dos seus pontos de vista é substituir ideias por insultos políticos. Infelizmente, Rui Tavares tem-no feito tantas vezes, nos últimos meses, que já não pode ser um excesso de linguagem. Acha que muitas pessoas de esquerda, onde eu estou incluído, são, na prática, aliados dos neofascistas (ou, como disse noutro texto, “mentes intelectualmente superficiais”). E estende este ataque a todos os que tratem o euro como um problema sem cura ou considerem que a União Europeia está politicamente falida, cavando trincheiras de irracionalidade que impedem qualquer debate sereno. Para quem se propunha unir a esquerda é um estranho exercício. [...] Por mim, preferia que o debate à esquerda fosse construído com base na boa-fé, como vi Rui Tavares defender muitas vezes. Percebendo todas as reais diferenças políticas entre os vários pontos de vista: nada une os que se batem pela soberania democrática no espaço do Estado-Nação aos movimentos xenófobos, assim como nada une um europeísta de esquerda aos neoliberais globalistas. Porque se obrigarmos as pessoas a escolher entre a globalização dos financeiros e a Nação dos fascistas estamos a atirar milhões de democratas e progressistas para os braços da extrema-direita. [...]»

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* Faltou a Daniel Oliveira falar no filósofo e no pianista. Mas isso estragar-lhe-ia o retrato mefistofélico de Macron.