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quinta-feira, 7 de abril de 2022

Três trincos de truz*

Tolentino - Mourinho - Francisco
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* Nas coordenadas geográficas em que me calhou nascer e habitar, quem consegue compreender Humanidade sem Futebol?

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Rússia vs. Ucrânia e altíssima diplomacia

«As notícias que chegam da Ucrânia são muito preocupantes. Confio na intercessão da Virgem Maria e na consciência dos responsáveis políticos.»

«Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia converter-se-á e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições...»

Só respeito fontes fidedignas, literalmente, dignas de , de preferência com manuscritos à vista
Pelo que, e tudo ponderado, estou mais em apostar na intercessão da virgem do que na consciência dos responsáveis políticos, António Guterres incluído.
Assim como assim, a senhora domina o assunto desde há pelo menos 105 anos, ainda o Sr. Virgílio andava de bibe.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Alá, em Chefchaouen; em Roma, Deus

Gosto da palavra 'purtroppo'. Não tanto do que significa. De etimologia caprichosa, soa-me lindíssima.

Todos os dias cai gente e morre gente em buracos. Tragédias multiplicadas.
Ao fim da tarde de terça-feira, 01.Fev.2022, um menino de 5 anos caiu num poço estreito e seco, e ficou entalado a 32 metros de fundura.
Este caso marroquino originou horas e horas de transmissão televisiva planetária, numa orgia de angústia interminável. Por cá, a CNN Portugal — mimese sofisticada e cosmopolita da CMTV — foi a que mais se alambazou no horror inane, mantendo-se em quase contínuo "directo ao vivo", com uma legião de analistas a acrescentarem nada ao insuportável nada, do início da tarde de sexta-feira, 05.Fev, às primeiras horas da noite de sábado, 05.Fev.2022. 

Sei disso porque também assisti; sei disso porque não sou menos curioso mórbido do que os demais; sei disso porque não faço uso profiláctico de botões que dizem "off"; sei disso porque sou reformado e tenho tempo. Sei disso, enfim, porque tenho uma "box".     

Quem, pelos vistos, também não resistiu a acompanhar e a aproveitar a obscenidade mediática foi Francisco, o Papa de Catarina Martins, que no domingo, 06, predicou, da janela habitual:
«[...] todo um povo se juntou para salvar o Rayan. O povo inteiro a trabalhar para salvar um menino. Deram tudo por tudo.* Infelizmente - purtroppo -, não conseguiram. [...]»

E Deus-Alá, omnipotente, misericordioso e justo..., quem salva, afinal? Quem ajuda? A quem acode?
Francisco, que lida com Ele de perto, talvez saiba.
Sim, teodiceia.

Com o devido respeito.
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* «Um povo inteiro a trabalhar para salvar um menino»? Tenha Vossa Santidade paciência, mas o que se viu foi uma amostra indisciplinada de povo ululante, talvez melhor, Alá-lante,  a dificultar o trabalho dos bombeiros, profissionais de saúde e agentes de protecção civil...

sexta-feira, 2 de abril de 2021

A pé, em albustros, mangális e riachos - Gente incontável

«[...]
- ... As mães não conseguiam upar naqueles riachos ...
- Era um grupo de quantas pessoas?
- Umas quinhentas, umas seiscentas, umas setecentas pessoas

Moçambique comove-me.
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Venham dizer-me que o Alcorão não mata...

«O governo garante que está a apoiar os portugueses que estão em risco em Moçambique devido ao terrorismo islâmico.»
Pergunto pela enésima vez: mas o islamismo não é um terrorismo em si? «Terrorismo islâmico» não é uma redundância?
Não alcanço que erro factual pudesse cometer o jornalista Miguel Ribeiro se dissesse simplesmente «devido ao Alcorão», «devido a Maomé», «devido ao islamismo» ou «devido ao Islão».

Cruz contra o vírus corona

ÚLTIMA  HORA

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terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Camarate - 40 anos depois, que se pode ainda contra a legião dominante de crédulos e intrujões?

Pouco.
A fé move montanhas, a fé dissolve a verdade.*

«A avioneta caiu em Camarate por falta de gasolina no motor esquerdo e por precipitação do piloto. Os aviões obedecem às leis da física e da mecânica, não escolhem quem vai lá dentro para cair ou não cair.
O Presidente da República, valendo-se da vasta experiência do professor Marcelo, resolveu criar um novo “facto político” ao comunicar aos portugueses a sua “convicção pessoal” no que respeita à tragédia de Camarate. Foi sabotagem!
É claro que esta revelação é um acto de fé. Respeitável, como qualquer outra crença ou convicção. Mas é apenas isso mesmo, uma convicção. Porque nem o Presidente nem o professor Marcelo são capazes de apontar uma prova, uma só que seja, de que houve sabotagem em Camarate. Não cabe aqui voltar à farsa que foram as dez comissões parlamentares de inquérito a Camarate e aos 33 anos durante os quais elas se arrastaram.
[...]
Quanto ao presente, o cidadão comum, como eu, tem duas opções. De um lado estão mais de duas centenas de testemunhas, uma centena de peritos e de organismos especializados, independentes e oficiais, portugueses e estrangeiros, e as deliberações de 32 magistrados e juízes de tribunais portugueses e europeus. Isto é, estão as provas: não foram encontrados indícios de sabotagem. Do outro lado, temos um “facto político” novo baseado na “íntima convicção” do cidadão Marcelo Rebelo de Sousa que, acessoriamente, é também Presidente da República, primeiro magistrado da Nação, professor catedrático de Direito e ex-representante da família de uma das vítimas.
No que me diz respeito, opto por ficar do lado da seriedade e das instituições democráticas e independentes que nasceram no meu país quando ele reencontrou a liberdade.
[...]»

Em tempo
Reacção de Ricardo Sá Fernandes,  com o habitual ardil de aranha religiosa materialmente interessada.  -  "Camarate, resposta a Cunha Rodrigues e a Barata-Feyo" | Público, 13.Dez.2020
 
Depoimento exaustivo e siderante, sem política nem sentimentos, do coronel piloto aviador (reformado), Victor João Lopes de Brito  -  "Acidente de Camarate", 08.Dez.2020
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* «Os espíritos mais puros inquietam-se, perturbam-se, não sabem como orientar-se e repetem angustiadamente a pergunta de Pilatos ao próprio Cristo: O que é a verdade?
[...]
A verdade é por essência imutável e a adesão do espírito à verdade, ou seja as certezas do espírito são essenciais ao progresso das sociedades humanas.»

sábado, 5 de dezembro de 2020

Desminto e esclareço Pedro Santana Lopes

Bernardo Ferrão [SIC/Expresso]:
Pedro, como é que ouviu estas palavras de Marcelo Rebelo de Sousa? 
Pedro Santana Lopes:
É um assunto muito melindroso. Pessoalmente — obviamente que quem decide são os tribunais, quem investiga é a polícia —, nunca tive dúvida, pessoalmente, de que tenha sido atentado. Foi um atentado. Só quero sublinhar isto, que não é um dado de sabedoria popular mas básica: até hoje, no aeroporto da Portela*, graças a Deus** não caiu nenhum outro, nem antes nem depois. A questão se era dirigido a Sá Carneiro ou a Amaro da Costa é outra matéria.

Repare nesta campa, doutor Pedro Santana Lopes. 
Pelas 11h10 de terça-feira, 12 de Julho de 1988, Pelagia Teresa Majewska, cidadã polaca de 55 anos, piloto de aeronaves, morria em Lisboa ao comando de um Dromader, monomotor de fabrico polaco, que se despenhou instantes depois da descolagem, a exemplo do que no mesmo local sucedera sete anos e meio antes ao Cessna da fábula camaratiana.


Nada consta quanto a possível sabotagem ou atentado, mas nunca é de fiar: o papa polaco da altura, Karol Józef Wojtyla, também tinha os seus inimigos...
Ainda assim, para sossego da Polónia e do planeta, nem Augusto Cid se empenhou na busca da verdade nem Ricardo Sá Fernandes foi procurado por nenhum familiar da vítima.

Enfim, Pedro Santana Lopes nunca primou por credibilidade evidente. Por manifesta credulidade, lá isso, decerto.
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** Os desígnios de Deus são insondáveis.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

4 de Dezembro, defuntos e fiéis

«O tempo foge. Passaram já quatro décadas sobre a morte de Sá Carneiro, naquela viela escura e fria de Camarate. O então primeiro-ministro teria hoje 86 anos. Isto é o que sabemos. Mas este texto é sobre incógnitas.
Noite cerrada, Dezembro frio. Tinha chegado da Faculdade de Direito. O telefone toca.
Francisco Brás de Oliveira, na altura accionista maioritário do jornal O Dia, que privava bastante com as cúpulas da área da AD, com voz cava: Nuno, aconteceu uma tragédia. O Francisco e o Adelino acabam de morrer num desastre de avião, aqui na Portela. Foi há minutos.
"Nacionalista revolucionário", eu não era nem um jovem de partidos, nem militava na área doutrinal de Sá Carneiro.
Mas tinha lá muitos amigos, muitas discussões, muitas noites à procura da luz.
[...]
Não tenho nenhuma certeza absoluta sobre o assunto, depois de ter visto e revisto tudo, publicado e por publicar. O Cessna parece não ter caído nem por falta de combustível, nem por problemas de motor, nem por excesso de peso, nem por qualquer falha dos seus sistemas, devido à idade do aparelho, ou à sua manutenção. Tudo indica que um qualquer engenho (ou série de engenhos) tenha eclodido a bordo.
[...]»

Diz ele que viu e reviu tudo.
Ó Nuno Rogeiro, por favor, respeite os leitores, não engode os incautos! Ao que o proselitismo, a devoção e a orfandade podem levar um homem geralmente bem informado e culturalmente bem apetrechado...
Leia e releia devagarinho, Nuno Rogeiro. Deixe-se de delírios. Ou então, nenhum acidente é acidente; proscreva-se o vocábulo e o conceito dos dicionários.
//
«O pesar, que não me abandona enquanto cidadão, de a nossa democracia nunca ter podido, no plano jurisdicional, carrear dados probatórios bastantes para se provar se camarote, se Camarate foi acidente ou foi crime. Em Camarate pereceram, além de Francisco Sá Carneiro, Snu Abecassis, Adelino Amaro da Costa, Maria Manuela Amaro da Costa, António Patrício Gouveia, Alfredo de Sousa e Jorge Albuquerque. A derradeira decisão judicial elenca razões para não poder ser provado que tenha havido crime, mas também considera não haver prova bastante para concluir que tenha havido acidente
Para quem acompanhou sucessivas comissões parlamentares de inquérito como representante da família de António Patrício Gouveia, lembrando sempre o corajoso Augusto Cid, e nessa qualidade concordou [ele, MRS] com as conclusões das últimas comissões no sentido de ter havido atentado, mesmo se não dirigido especificamente contra Francisco Sá Carneiro, é muito frustrante ter de admitir que o tempo acabou por não facilitar uma decisão jurisdicional com mais sedimentada base probatória. Qualquer que ela fosse, ter-me-ia aquietado mais como cidadão.»
«Uma última nota, sobre a sua morte. Acompanhei, representando a família de António Patrício Gouveia, várias comissões parlamentares de inquérito a Camarate. Formei uma convicção como cidadão, que mantenho, de que não se tratou de um acidente mas sim de um atentado, embora não dirigido necessariamente a Francisco Sá Carneiro. Tenho pena, como cidadão, de que a última decisão da justiça não tenha podido contar, por causa do tempo, com mais dados probatórios e, assim, essa última decisão tenha dito que não havia provas suficientes para apontar para o atentado mas não havia provas suficientes, também, para apontar para o acidente. Ficou por definir a verdade em termos jurisdicionais acerca da morte de Francisco Sá Carneiro e de todos aqueles que o acompanhavam.»

Por outras e mais directas palavras: Bem desejava, bem tentei, fizemos e inventámos ao longo de mais de 30 anos o que era ideológica, política e religiosamente possível para que Sá Carneiro e comitiva não tivessem simplesmente morrido por causa da obstinação, inconsciência e neglicência temerária dos pilotos, mas os factos e o caralho do Cessna [MRS chama-lhes «o tempo»], mancomunados com os tribunais, não facilitaram.
// 
Três páginas de fezada delirante, sem uma linha acerca da saúde prévia da aeronave despenhada.
José Manuel Barata-Feyoautor de "O grande embuste | Camarate - Factos e Conveniências" [2013], que rotula de «dogma político» a tese de atentado, agora provedor do leitor do Público bem que ajudaria à sanidade da história se persuadisse o seu jornal a contrapor a devaneios tão estapafúrdios, como o de que hoje dá conta, um trabalho jornalístico sério acerca de aviação e sinistralidade aeronáutica.

Aquilo de Camarate
[1]   [2]
Etc.

sábado, 14 de novembro de 2020

Bem-vindos ao país cristino [5] *

Missa pelas vítimas da pandemia na Basílica da Santíssima Trindade.
 
Envolvido no esplendor do cantochãosenti qualquer coisa de irónico, paradoxal e burlesco em ir lendo que Cristina Ferreira** dirige o entertenimento e a ficção num grande canal televisivo português, no meio de uma calamidade ortográfica.
Pobre país de pão e circo de rebotalho...


«Abençoe-vos, ilumine-vos e conduza-vos sempre o Deus todo-poderoso e cheio de misericórdia*** ...
Vamos em paz e que o Senhor nos acompanhe...»

Convenhamos que o preto, incluindo o da máscara, assenta lindamente na doutora Fernanda.
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** Protegido pelo adiantado da hora, um naco de pornografia pesada.
Dúvida metafísica: putéfia é para baixo ou pra cima de puta?

*** Nota-se.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Xária ó *


«(...) Eu me encarregarei de lançar o terror no coração dos infiéis e vós batei-lhes nas nucas e nas juntas dos dedos.» - Sura VIII,12
«Ó Profeta, excita os crentes ao combate. Vinte homens firmes dos seus esmagarão duzentos infiéis. Cem porão mil em fuga, porque os infiéis nada compreendem.» - Sura VIII, 66
«(...) matai os idólatras onde os encontrardes, aprisionai-os, cercai-os e armai-lhes emboscadas para os prender. (...)» - Sura IX, 5
«Matai os que não crêem em Deus [Alá], nem no Dia derradeiro, que não considerem proibido o que Deus e o seu Profeta proibiram (...)» - Sura IX, 29
«Deus não dirigiria os que não crêem nos seus versículos. Esses terão um tormento cruel.» - Sura XVI,106    
«Na verdade os que ofendem Deus e o Seu Profeta serão amaldiçoados por Deus neste mundo. Ele preparou-lhes um suplício ignominioso.» - Sura XXXIII,57
«E quando vós encontrardes os que não crêem, devereis bater-lhes nas nucas, até chaciná-los, e apertai fortemente os laços!» - Sura XLVII, 4
«Na verdade, os que não crêem, de entre o povo do Livro, e os idólatras ficarão no fogo do Inferno; lá viverão para sempre. Esses são os piores dos seres criados!» - Sura XCVIII, 5
«Tais são os preceitos de Deus. Os que obedecem a Deus e ao seu Profeta irão para os jardins por onde os regatos correm. Aí morrerão eternamente e isto será a maior felicidade.» - Sura IV,17 
«O que desobedecer a Deus e ao seu Profeta e transgredir os preceitos de Deus será precipitado no fogo, onde viverá eternamente, entregue a castigo ignominioso.» - Sura IV, 18

Acordei hoje com a telefonia a falar de mais umas manobras do «radicalismo islâmico» [sic], desta vez em Viena.**
É sempre assim, obrigatoriamente assim: «radicalismo islâmico», «fundamentalismo islâmico», «extremismo islâmico», «terrorismo islâmico» ..., como se o Islão não fosse, per se, radicalismo, fundamentalismo, extremismo, terrorismo. Até quando continuaremos no ocidente de matriz intercultural educada, bondosa, igualitária, convivial, inclusiva, ecuménica, a edulcorar com um qualificativo pleonástico, açaimados pela inquisição do pensamento autorizado, a essência do mal para explicar os factos?
Ai de nós, pobres de nós!

Como se não bastasse, vem o Papa Francisco tentar persuadir a gentinha ignara de que «o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência. […]» - "Evangelii gaudium
Ainda agora, na "Fratelli tutti", Carta encíclica de 03.Out.2020 que fez vir-se de entusiasmo — orgasmo 1,  orgasmo 2 — o insigne hermeneuta Pedro Marques Lopes, aprecie-se o tom ternurento e reverencial com que Francisco refere o Grande Imã que visitou em Fevereiro de 2019, nos pontos 5, 29, 136, 192 e 285. Ponto 285: «Naquele encontro fraterno, que recordo jubilosamente, com o Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, declaramos – firmemente – que as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue.(...)»
Interrogo-me se estes santíssimos cavalheiros não estão mesmo a tomar-nos por imbecis distraídos.

Entretanto e cumprindo o guião da bovinidade política universal, presidente-arlequim, António Costa e Ferro Rodrigues não poderiam deixar de vir, lestos, repudiar e condenar veementemente o ataque*** 

Islamófobo me confesso. 
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** Altura em que o Boavista dava 3 secos ao Benfica, o que me fez quase crer, Alá me perdoe, que Deus é (mesmo) grande!...

*** Resta saber se, quanto a António Costa, o fez antes ou depois do dever diário de homenagear Mário Soares. Os despachos da Lusa são omissos quanto a isso. issozisso.
E você, visitante paciente, já cumpriu hoje o seu dever diário

PS
Como estou bem disposto, não me vou sem uns miminhos para certas feministas que conheço. Usam votar no BE, na Joacine, no PCP e na esquerda do PS, mas quanto à consideração em que o islamismo tem a mulher nem um pio. 
«Os homens são superiores às mulheres pelas qualidades com que Deus [Alá] os elevou acima delas (...)» - Sura IV, 38
«Dize às crentes que baixem os olhos e que observem a continência, que só deixem ver os ornamentos exteriores, que cubram os seus com véus, que só mostrem os ornamentos a seus maridos ou a seus pais, ou aos pais dos seus maridos, a seus filhos ou aos filhos de seus maridos, a seus irmãos ou aos escravos ou servos varões sem desejos carnais, ou às crianças que ainda não distingam os órgãos sexuais da mulher. Que elas não agitem os pés de maneira a revelarem os ornamentos que trazem ocultos. (...)» - Sura XXIV, 31
«Ó Profeta, dize às tuas esposas e às tuas filhas e às mulheres dos crentes que deixem cair até abaixo os véus exteriores. Será mais fácil assim não as reconhecer e não as ofender. (...)» - Sura XXXIII,59 
«As vossas mulheres são para vós campo cultivado; percorrei o vosso campo como quiserdes (...)» - Sura II, 223
«Aos que juram afastar-se das mulheres impõe-se um período de espera de quatro meses (...)» - Sura II, 226
«As repudiadas aguardarão que decorram três períodos de regras antes de voltarem a casar (...)» - Sura II, 228
«Conservareis a mulher com humanidade e repudiá-la-eis com generosidade. (...)» - Sura II, 229
«Se alguém repudia a sua esposa não a poderá retomar depois sem que ela tenha casado com outro marido, e este por sua vez a tenha também repudiado (...)» - Sura II, 230
«Quando repudiardes mulheres e chegar o momento de as mandar embora, devereis tratá-las com humanidade e com humanidade as despedir. (...)» -  Sura II, 231

Finalmente, um "Protocolo de higiene" para a 35.ª vaga da covid: 
«(...) lavai a cara e as mãos até aos cotovelos; esfregai as cabeças e os pés até aos calcanhares.» - Sura V, 8
«(...) se um de vós vier de lugar escuso ou se acabar de ter relações com mulheres, se não se encontrar água, tomareis areia fina e limpa e com ela esfregareis o rosto e as mãos. (...)» - Sura V, 9

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Com a ajuda de Deus

Rezo para que com a ajuda de Deus...
//
Mãe- Só quero ir-me embora para um lugar em que não haja política, armas e religião.

Não sei imaginar que coisas mais horríveis aconteceriam — que seria de nós e do mundo? — sem a permanente ajuda de Deus e a obstinada persistência do Papa a pedir-Lha*.
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* Francisco reza pelo Líbano
Francisco reza pelo fim da pandemia
Francisco reza pelo Sudão do Sul
Francisco reza pelo Congo
Francisco reza pela Nigéria
Francisco reza pela Síria 
Francisco reza pelo Brasil
Francisco reza pela Nicarágua
Francisco reza pelo México
Francisco reza por Michael Schumacher 
Francisco reza pelo fim dos incêndios na Amazónia
Francisco reza pelos que sofrem com os incêndios na Austrália
Francisco reza pelas vítimas do incêndio de Pedrógão Grande
Francisco reza pelas vítimas dos incêndios na Grécia
Francisco reza pela catedral de Notre Dame ardida
Francisco reza pelas vítimas das inundações na Índia
Francisco reza pelas vítimas das inundações na Austrália
Francisco reza pelas vítimas das inundações no Irão
Francisco reza pelas vítimas do desabamento da ponte em Génova
Francisco reza pelas vítimas do terramoto em Zagreb
Francisco reza pelas vítimas do terramoto no México
Francisco reza pelas vítimas do terramoto na Itália
Francisco reza pelas vítimas do avião abatido no Sinai
Francisco reza pelas vítimas da queda do avião da Chapecoense
Francisco reza pelas vítimas da queda do avião no Egipto
Francisco reza pelas vítimas da queda do avião no Cazaquistão
Francisco reza pelas vítimas da queda do avião da Malaysian Airlines
Francisco reza pelas vítimas dos atentados na Nova Zelândia
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Mogadíscio
Francisco reza pelas vítimas do atentado ao Charlie Hebdo
Francisco reza pelas vítimas dos atentados de Paris
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Copenhaga
Francisco reza pelas vítimas do atentado de San Bernardino
Francisco reza pelas vítimas do atentado de Charleston
Francisco reza pelas vítimas dos atentados em Ancara
Francisco reza pelas vítimas do atentado de Berlim
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Nice
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Istambul
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Uagadugu
Francisco reza pelas vítimas dos atentados no Cairo
Francisco reza pelas vítimas dos atentados de Londres 
Francisco reza pelas vítimas dos atentados de Bruxelas
Francisco reza pelas vítimas dos atentados em Jacarta
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Orlando
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Cabul
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Teerão
Francisco reza pelas vítimas do atentado no Quebec
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Manchester
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Nova Iorque
Francisco reza pelas vítimas do atentado em São Petersburgo
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Estrasburgo
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Christchurch
Francisco reza pelas vítimas do atentado no Sri Lanka
Francisco reza pelas vítimas dos atentados em Darfur
Etc., que estou sem fôlego.

Isto do papa o tempo todo a rezar pelas vítimas de merdas de que nem o Sócrates, o Salgado, o Berardo e o Rui Pinto juntos conseguiriam ter culpa já cansa e chateia um bocadinho. Porque não vai ele, em vez de rezar tanto, ralhar à séria com o Barbudo Caprichoso, Criador do zingarelho cósmico, Omnipotente, Omnisciente, Ubíquo e infinitamente Bom, e pedir-Lhe satisfações? Ele, Francisco, que é tu cá tu lá com Ele; chamá-Lo à razão, admoestá-Lo, aplicar-Lhe uns calduços, sei lá.

Perdoe-me ainda, leitor paciente, por repristinar o Plúvio de 2015:
«[...] compungida compunção pungente do costume com que o papa Francisco — que com siderante bondade [eufemismo de miopia comovedora?] não consegue achar violência no Alcorão* — virá à sua varanda de Roma pedir mais umas atençõezinhas a Deus, Nosso Senhor, Todo-Poderoso, Justo, Providencial e Infinitamente Bom, o mesmo Deus abraâmico sob cuja invocação com outras alcunhas, mais propriamente Alá-cunhas, se vai intensificando a matança ante a bovinidade atenciosa de um Ocidente bem-educado, compreensivo, multicultural e inclusor. [...]»

* Papa Francisco, 24.Nov.2013: «[…] Frente a episódios de fundamentalismo violento que nos preocupam, o afecto pelos verdadeiros crentes do Islão deve levar-nos a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência. […]»
Exortação apostólica "Evangelii gaudium" ["A alegria do Evangelho"] 

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Corpus Christi, 11 de Junho de 2020

Catarina Amaro, cenógrafa e decoradora de "Cá por casa", de Herman José, na RTP, lá saberá porque pendurou a reprodução de um dos mais esplêndidos quadros da pintura portuguesa na parede do programa.
A mim parece descoco monumental.
Então o menino da lágrima não faria ali muito mais sentido? Claro que faria. E até, quem sabe, a stôra Salomé não levasse muito pela cedência temporária do original... 

No Corpo de Deus de 2019 disse aqui da minha admiração por Amadeo de Souza-Cardoso.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Arlequim de todos os credos, na sé e na mesquita

Coisa jamais vista na capital sucedeu ontem, 31 de Maio, domingo em que «todos começaram a falar outras línguas».
Foi aí que a televisão oficial do reino proclamou o arlequim, sem mais, «presidente de todos os credos».
Foi aí que igualmente — oh espanto! — Gualdim Pais, na igreja de Santa Maria do Olival, junto ao Nabão, desembainhou pela derradeira vez a adaga e, num estranho gesto a que os do Sol Nascente chamam sepukku, harakiri ou lá que é, infligiu rasgo horrendo no próprio ventre, esvaído em tripas e finado de vez. Diz que de honra ferida e imensurável desgosto.
Jesus Cristo lhe perdoe, ao Marcelo. Francisco que se precate.

sábado, 11 de abril de 2020

Contributo para um glossário quase imperfeito da coisa,

em verso  livre, com palavras difíceis, nomes e números vários.

novo corona
o (vírus) SARS-CoV-2
120 nm de diâmetro (nm=nanómetro=milésima parte do milímetro)
gotícula  aerossol
contágio a 2 metros
4 minutos a 8 dias em superfícies
incubação
surto
Rt
epidemia  pandemia
Tedros Adhanom Ghebreyesus
covidiota   pandemónio   pão de mia    spamdemia
crise sanitária
ai Jesus!

economia
papel higiénico  atum   farinha   fermento
especulação  açambarcamento

coronabonds  takeaway  lay-off
viva a língua portuguesa!
entregas ao domicílio
pelo senhor Virgílio
  telescola  teletrabalho
 e o caralho 

cenários  geometria
os cientistas   os especialistas
pneumologia  infecciologia  epidemiologia  virologia
estatística  casos
curva  pico  achatar  planalto

infecção   reinfecção
anticorpos   imunidade de grupo 70%
certificado de imunidade

mãos  água  sabão
20 segundos
cara  boca  olhos  nariz
que é como quem diz
álcool  gel
 máscara  luvas  viseira  
zaragatoa  teste  reagente

conter  recolher               distanciar afastar                confinar  cercar
varanda
isolamento horizontal  vs  isolamento vertical
quarentena  14 dias
etiqueta respiratória
estamos todos no mesmo barco    vai ficar tudo bem (brrrnhac!)
   
grupo de risco
velhos
lares
velhos  lares  lares  velhos  velhos  lares  lares  velhos
e assim sucessivamente

a (doença) covid-19
febre   tosse   cefaleia   fraqueza   dificuldade respiratória
sintomático  assintomático
comorbilidade
taxa de letalidade  vs  taxa de mortalidade
hidroxicloroquina   ibuprofeno   paracetamol
hospital de campanha 
quartos  pressão negativa
camas  ventiladores
cuidados intensivos  pneumonia
curados   mortos   caixões   funerais

Wuhan   Itália  Espanha   Equador   Ovar   República Checa  Nova Iorque
Holanda  repugnante  Costa
Trump   Bolsonaro  Boris

presidente-arlequim
emergência
[papelarias   tabacarias   raspadinhas
drogarias   padarias   farmácias
oculistas
concelho]

streaming   skype   zoom   houseparty
parabéns a você  (brrrnhac!)
808242424
profissionais de saúde
laboratório

3.ª vaga
guerra   novo normal   atípico
medo  miséria  fome  dor  desespero
apocalipse
ploc

Aleluia!

3.ª Descontaminação das ruas de Bobadela, pelo Crucificado. **

ÚLTIMA  HORA
Domingo, 12.Abr.2020, 17h15 - 4.ª Descontaminação das ruas de Bobadela, pelo Ressuscitado com ajuda do senhor padre Marcos. **  
__________________________________
* Vitório Rei também rimava assim. Lembram-se?

**  1.ª   e   2.ª

terça-feira, 31 de março de 2020

Henrique Manuel Bento Fialho

acordar  adormecer  arrepiar-se  arrotar  assoar-se  beber  bocejar  cagar  chorar  coçar-se  comer  espirrar  espreguiçar-se  foder  fungar  gargarejar  masturbar-se  mijar   peidar-se  pestanejar  respirar  rir  soluçar  suar  tossir  tremer  vir-se ... 
Gosto disto.*

Caldas da Rainha, terça-feira, 18.Fev.2020 - HMBF recebe em sua casa Cláudia Novais e José Carlos Tinoco,  numa conversa para o programa “3 Formam um Perfeito Par” da Rádio Transforma.
Atente-se, a partir daqui, em como HMBF vai ler — alguém conseguiria ler melhor? — um, como ele diz, «fragmento do Alberto»:
Quando era criança ouvi contar que Deus se escondia por todo o lado...
«De tirar a respiração.» - Cláudia Novais.
Concordo.

Nem sempre acompanhando as escolhas e opiniões de HMBF e com muita frequência concordando com ele**, é-me impossível não simpatizar deveras com Henrique Manuel Bento Fialho, decassílabo perfeito.
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* Ele não diz de que livro está a ler. Digo eu: "Antologia da Poesia Erótica Brasileira" organizada por Eliane Robert Moraes, Tinta da China, Nov.2017.

** Por exemplo, referindo-se a José Sócrates em 21.Out.2017:
«um tipo que cada vez mais se confirma ser um pulha sem vergonha na cara.»

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O inefável e escorregadio Tolentino

«[...] Lá vi então José Tolentino Calaça de Mendonça a desfilar pela internet, vestes cardinalícias, sorriso de orelha a orelha, recebendo o beija-mãos dos seus patrícios, rodeado de padrecas e de autarcas todos impantes de importância, sob o olhar embevecido da mãe e perante a velha espinha dobrada do povo miúdo, ele todo mesuras, ares de santidade e gestos de sábio em câmara lenta. [...]»

«[...] um alto representante da Igreja que arrebata almas e corações de crentes, intelectuais e gente que se arrebata nas coisas da poesia e da espiritualidade. [...]» 

Com fala e ar seráficos característicos do clero católico que sabe tudo, e ensina, sobre amor e sexo,  pouco ou nada fornicando, o poeta, ensaísta, romancista, guionista, teólogo, biblista, conferencista, professor doutor e antigo vice-reitor da Universidade Católica, hoje cardeal, José Tolentino Mendonça é um dos cinco portugueses de que não consta, não se diz, não se ouve, não se vê, não se escreve o mais ínfimo defeito, a mais tímida reserva, o mais leve reparo. É um enaltecido e mui agraciado consenso nacional.*
Neste momento, não consigo lembrar-me dos nomes dos outros quatro.
Sigo-o e aprecio-lhe a lira vai para 20 anos.
Matricialmente forjado nas fundas e obscuras berças do vicariato madeirense retrógrado** [perdoe-me, leitor paciente, a saturação pleonástica], leu entretanto muito, frequentou e profissionalizou-se no sinédrio dos autores amados pelos crentes e não-crentes lisboetas aculturados na capela do Rato. Sem dúvida um homem sensível, esperto e espiritualmente vasto, artífice de escrita enfeitiçante, o padre Tolentino tornou-se cosmopolita e fez-se transversal, um intelectual de ampla notoriedade pública, mas sempre fujão, como o diabo da cruz, de qualquer concreta escolha política. Humanismo cristão? Como é particular amigo, lá de casa, de Assunção Cristas, André Ventura, Maria João Avillez, Laurinda Alves, Helena Sacadura Cabral..., se calhar é isso. Mas a gelatina lumbricóide é que não lhe sai do molde. 

* Tive de ir ao inferno, à Maria D'Aljubarrota, para encontrar um rumor desalinhado do uníssono bovino.
** «A celebração [graduação em bispo, Jerónimos, 28.Jul.2018] foi presidida pelo cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e teve como bispos co-ordenantes o cardeal D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, e D. Teodoro de Faria, bispo emérito do Funchal.»

Tolentino não é propriamente fiável. Às vezes disparata alarvemente, como, por exemplo, no texto ensaístico que co-assinou com Alfredo Teixeira no Expresso de 06.Mai.2017, "Fátima, um estado de arte", em que se discorre sobre a relevância de Fátima na "Viagem a Portugal"***, de José Saramago, fazendo errónea e recorrentemente crer que o livro é de 1995 e contextualizando socialmente o fenómeno desde 1995. Ora, de 1995 é a 23.ª edição da obra, primeira sob chancela da Caminho, que li em 1981 — 14 anos antes! —, ano em que saiu a 1.ª edição - Círculo de Leitores.
...
Da Batalha eu fui a Fátima
Onde a fé vive bem mais

Só a fé poderá salvar Fátima., escreveu José Saramago [página E|30], sim, mas em 1981, não em 1995.
Reconhecendo pertinência na decepção que a feiura evidente do recinto causou em Saramago, os autores do ensaio — padre Tolentino e teólogo Teixeira, docente na universidade de que o primeiro era vice-reitor — tecem loas ao incremento arquitectónico e estético, operado de 1995 para cá [muita e boa arte, uma moderníssima e bela nova basílica, concordo]. Já quanto ao imenso, obsceno e insaciável comércio de bugiganga, promessas e esmolas, praticado ou patrocinado pelo santuário, nem um pio. O móbil da Católica é dinheiro, o móbil de Fátima é dinheiro e nisso, manda a prudência do suc€$$o, não se toca que pode espantar os fiéis. A Educação e a Fé são os melhores escudos do negócio.
Cabe, assim, pôr aqui frases inteiras da passagem de Saramago, o viajante, pela Cova da Iria, em 1981, negrito meu, de que Tolentino e Teixeira fugiram a sete pés:
«[...] O viajante, que é impenitente racionalista, mas que nesta viagem já muitas vezes se emocionou por causa de crenças que não partilha, gostaria de poder comover-se também aqui. Retira-se sem culpas. E vai protestando um pouco de indignação, um pouco de mágoa, um pouco de enfado diante do estendal de comércio das inúmeras lojinhas que aos milhões, vendem medalhas, rosários, crucifixos, miniaturas do santuário, reproduções mínimas e máximas da Virgem. O viajante é, no final das contas, um homem religiosíssimo: já em Assis o escandalizara o negócio sacro e frio que os frades agenciam por trás dos balcões. [...]»
De resto, Saramago ainda foi bondoso com a reitoria do santuário ao deixar no tinteiro a proliferação pantagruélica dos sorvedouros de esmolas, o mercado de promessas e o mastodôntico negócio da queima de cera.
E a coisa — ainda há três dias lá estive; relembro que o Plúvio é devoto de Fátima — não pára de inchar, inchar, inchar.
Conte o leitor as vezes que a palavra «euro» entra nesta notícia recente, com percentagens várias e muitos milhões, caucionada pela directora de comunicação do Santuário de Fátima, Carmo Rodeia.
Ora bem: zero, Ave Maria, cheia de graça...
Enfim, letra de José Tolentino Mendonça, música de outro Gil, João.
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E que tal a gramática de Tolentino?
Tem dias. Aí vai, por amostra, um punhado de merdas colhidas desde 2013 na página do insigne e purpurado colunista do Expresso, "Que coisa são as nuvens". 

Uma alma caridosa explique a sua excelsa e doutorada eminência que áurea por aura é erro grosso:
«foram despojados da sua áurea»
«com a áurea acrescida trazida pelo uso»
«esta mulher, sem áurea de letrada»
«Quando progressivamente as estradas se foram colonizando pelo tráfico automóvel»
tráfego automóvel, foda-se!

«com os seus sofrimentos, os seus revezes»
revezes é feminino e nada tem a ver com os reveses a que Tolentino alude.

«Veja-se, por exemplo, o ênfase simbólico que tem sido dado»
a ênfase, raios!

«novos interfaces tecnológicos»

«Quanto muito, e por uma condescendência especial»
«Quanto muito tem crescido o voyeurismo que sobrevoa a existência alheia»
quando muito, se não se importa.

«As personagens do mundo homérico são, sem dúvida, melhor descritas.»

«Quem não sabe parar, não sabe viver»
«connosco mesmos e com os outros»
vírgula proibida / connosco e com os outros

«Jantava, lavava a louça e colocava-se a escrever
Abrenúncio!

«a morte iniciava a rondar-lhe os passos» 
Abstruso.

«Ao que parece, durante anos, o compositor John Cage sondou a possibilidade de elaborar uma obra completamente silenciosa, mas impedia-o duas coisas: [...] Contudo, encorajado pelas experiências que se realizavam já nas artes visuais, construiu a sua peça intitulada 4’33’’»
impediam-no duas coisas

«Saímos e regressamos de casa»
regressamos a casa

«À medida que fazemos a experiência deste lugar deixamos de saber se os longos trechos de caminho de floresta nos preparam para contemplar as obras artísticas ou se o encontro com estas inicia-nos, finalmente, num contacto verdadeiro com a natureza.»
ou se o encontro com estas nos inicia

«O mais provável é que tenham perecido a uma doença»
perecido de uma doença

«Aquilo que Durkheim chamava "as formas elementares" do fenómeno religioso podem encontrar-se, sem grandes contorcionismos simbólicos, no entusiasmo colectivo que o desporto-rei desperta.»
aquilo ... pode encontrar-se

«O pássaro domesticado vivia na gaiola e, o pássaro livre, na floresta […]
Meu amor voemos para o bosque»
Terá sido por esta tradução ou por esta, ambas brasileiras, que Tolentino se conduziu. Adaptou uma ou outra frase, como «Vem antes ter aqui comigo» ou «não podiam voar alinhando as suas asas», cumpliciando-se desleixadamente na pontuação desastrosa. Deixasse-se guiar por esta tradução, igualmente brasileira, e não se espalharia tanto. Ou então, o mais avisado, traduzisse ele.
Senão, veja-se a versão inglesa do próprio Rabindranath Tagore [07.Mai.1861-07.Ago.1941], Nobel da Literatura em 1913:
«[...]
The tame bird was in a cage, the free bird was in the forest.
They met when the time came, it was a decree of fate.
The free bird cries, "O my love, let us fly to wood."
[...]» 

Só mais uma, doutra monta. 
O hábito de o ler diz-me que Tolentino é artista na ocultação das gárgulas de que bebe.
«[…]
No pólo oposto, o poeta Rainer Maria Rilke ajuda-nos a pensar a ideia de aberto**** como projecto. E o aberto o que é? É a possibilidade de cada um viver em abertura fecunda ao real, resumida assim: "A nossa tarefa consiste em impregnar esta terra, provisória e perecível, tão profundamente em nosso espírito, com tanta paixão e paciência que a sua essência ressuscita em nós o invisível."
[…]»

**** «O termo “Aberto” foi criado por Rilke para exprimir essa abertura do ser para a vivência fecunda do real.»
- Nota de Alexandre Bonafim Felizardo, da USP (Universidade de São Paulo), no artigo "Dora Ferreira da Silva, leitora de Rainer Maria Rilke: aspectos intertextuais", publicado na revista "FronteiraZ"***** n.º 5, de Agosto de 2010, pp 156-165, isolado aqui. No mesmo artigo escreve ABF: 
«[…]
Esse trabalho transmuta as coisas, torna-as interiores a si mesmas e a nós, torna-as invisíveis. Conforme as palavras do próprio Rilke: “A nossa tarefa consiste em impregnar essa terra, provisória e perecível, tão profundamente em nosso espírito, com tanta paixão e paciência que a sua essência ressuscite em nós o invisível.” (Rilke apud Blanchot, 1987, p. 138). 
[…]»
***** Da PUC-SP [Pontifícia Universidade Católica de São Paulo]
Nota
Ao matreiro Tolentino, escondendo do leitor do Expresso que trasladou do brasileiro, escapou que em português europeu teria de ser «no nosso espírito».
E mesmo dando de barato que, no contexto da citação de Rilke, o conjuntivo «ressuscite em nós o invisível» do Felizardo faz mais sentido do que o indicativo do «ressuscita em nós o invisível» do Tolentino, ainda assim a ideia da ressurreição d' o invisível continuava a soar um tudo-nada aberrante. Como não sei alemão [«Unsere Aufgabe ist es, diese vorläufige, hinfällige Erde uns so tief, so leidend und leidenschaftlich einzuprägen, daß ihr Wesen in uns "unsichtbar" wieder aufersteht.» - Rainer Maria Rilke, 13.Nov.1925] e não tenho mais nada que fazer, guglei. E não é que no suplemento "Vida literária" do Diário de Lisboa de 06.Jul.1961 António Ramos Rosa, falando de Herberto Helder, citava a mesma passagem rilkeana, aqui, sim, com fraseado convincente?
«A nossa tarefa é impregnar esta terra provisória e perecível tão profundamente no nosso espírito, e com tanta paixão e paciência, que a sua essência ressuscite em nós invisível.»
Que lhe parece, senhor padre arcebispo cardeal, etc. e tal?