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quarta-feira, 18 de novembro de 2020

À beira do vómito

Atente-se nestas 10 páginas do Público assinadas entre Maio de 2019 e hoje por José António Cerejo, porventura o melhor jornalista de investigação português da actualidade, ainda que reformado, em torno de vigarices e trapalhadas várias que envolvem fortemente a veterana deputada do PS, Hortense Martins.

Como é que a sua chefe, presidente do grupo parlamentar socialista, convive e (não) actua — enfim, pactua — ante tal pestilência de costumes duma camarada de bancada?
Ana Catarina Mendes, capturada por embaraço indisfarçável: Para mim, a presunção de inocência é absolutamente essencial.

Não sei que resposta mais esquiva e civicamente repulsiva pudesse ACM dar. 

De que riem, de quem riem, para quem riem, o que faz sorrir, afinal, estas senhoras? A vida corres-lhes bem, decerto.
Para mim, a senhora deputada Ana Catarina Mendes é emético. Já aqui me deixara nauseado.  
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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Liberdade de dizer

«Uma das consequências de uma doença contemporânea da política em democracia nos dias de hoje é o cada vez maior policiamento do pensamento, das imagens, das informações e da linguagem. É um efeito de uma outra tendência dos nossos dias, o incremento do tribalismo que define também as suas fronteiras pela posse ou recusa de léxico que serve de marca de identidade. São processos muito perigosos para a democracia porque não se desenvolvem na fronteira entre democracia e ditadura, mas sim no interior da democracia e dos seus processos de funcionamento. São doenças em que o agressor não vem de fora, mas de dentro, em que o corpo sadio se destrói a si próprio.
[...]
A verdade é que se somam todos os dias verdadeiras proibições de utilização de vocábulos e expressões, com a constituição de um léxico proibido, dependente de grupos de pressão, e de modismos, aplicados nas redacções dos órgãos de comunicação social e em redes sociais, que permitem insultos, insinuações, falsidades, processos de intenção, mas cortam objectivamente a liberdade de expressão, que – tem que se dizer isto mil vezes –​ é feita para proteger o direito de dizer coisas com que não concordo, que me indignam, e que me enojam, mas que têm o direito de ser ditas.
[...]»

sábado, 1 de setembro de 2018

Ciganada, escarumbas, monhés, paneleiragem, fufedo

«[...]
é perigoso instituir, como cada vez mais acontece, formas de policiamento da linguagem. Usar, como se diz nos EUA, a n-word, nigger, chamar “macacos” aos jogadores negros, acompanhando os insultos por gestos simiescos, chamar “monhé” ao primeiro-ministro, chamar “paneleiros” aos homossexuais e “fufas” às lésbicas, e por aí adiante, por muitas fúrias verbais que suscite, cabe no meu entendimento da liberdade de expressão. Nada tenho contra as tempestades de resposta - quem não se sente não é filho de boa gente - mas sou completamente contra a censura do Estado, do Facebook, do Google e do Twitter, que pretende criar um muro sanitário para as ofensas e, ao fazê-lo, entram num processo censório que sabemos como começa, mas não sabemos como acaba.
[...]»
José Pacheco Pereira, "O admirável mundo novo e a sua companheira, a censura"
Público, 01.Set.2018

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Este é o tempo, este é o mundo

«[…] Este é o tempo para nos levantarmos em defesa do que acreditamos, diz o antigo primeiro-ministro […]»
Caríssima Ana*, olhe que vai certa diferença entre acreditação e fé, credencial e credo. Por via da dúvida, eu escreveria «em defesa daquilo em que acreditamos»; daquilo em que aquerditamos, dito por um intelectual como Jorge Jesus.

Sem sair do Público de hoje, deste mundo e deste tempo, pior está José Pacheco Pereira:
«[…] Este é o mundo de Trump, irrascível e agressivo […]»
Mas JPP não anda a falar sozinho. Ouve-se malfadamente muita irrascibilidade por aí. Dois casos, ao acaso, de falantes encartados: Luís Pedro Nunes, por exemplo nesta conversa; Júlio Isidro, por exemplo nesta.
Nada como a voz de quem sabe

Enfim, somos tempo, somos mundo...
Voltando e acabando no facundo Pacheco,
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* Quantos avôs paternos tem a simpática Ana Pereira é que não deixa de me intrigar.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Acordo Ortográfico [101]

Nos últimos quatro minutos da "Quadratura do círculo" especial, na passada sexta-feira, 08.Jan.2016, na SIC Notícias, deu-se a conversa que se segue.

José Pacheco Pereira [JPP]- Eu acho que das coisas mais positivas que o governo tem feito é rever, revogar e reverter. E há muita coisa para rever, revogar e reverter, e uma delas é que se olhe de novo para o Acordo Ortográfico. O Acordo Ortográfico não é um mero tratado internacional como os outros. É um tratado internacional que uma parte importante dos países que falam a língua portuguesa não está a aplicar ou então têm-no no papel mas não o aplicam. É um factor importante de abastardamento da língua portuguesa. Há um conjunto de interesses económicos ligados ao Acordo Ortográfico que têm de ser acautelados, em particular as editoras — mas isso é possível fazer — de livros escolares. O problema é este: isto é uma questão que tem a ver com a identidade nacional. O abastardamento da língua portuguesa gerado pelo Acordo Ortográfico atinge esta situação absurda de haver jornais escritos em... antes e depois de acordo. Há uma parte significativa dos portugueses que não vai nunca escrever na base do novo acordo. A questão é esta, muito simples: será que o governo pensa pelo menos olhar de novo para uma eventual alteração do Acordo Ortográfico, o mais cedo possível para que os seus custos não sejam cada vez maiores e se possa repor uma situação de dignidade da língua portuguesa? A esmagadora maioria dos portugueses, que escrevem literatura, que escrevem nos jornais, que falam português, não se revê naquelas coisas absurdas.
António Lobo Xavier [ALX]- Eu secundo.
António Costa, Primeiro-Ministro [AC]- Para mim, acho que não faz sentido mexer no Acordo Ortográfico. Acho que faz sentido deixar que a sociedade evolua naturalmente na sua aplicação.
JPP- Mas para isso não o pode impor obrigatoriamente nas escolas e no Estado.
AC- Ainda hoje há muitas pessoas que escrevem Luís não terminando com s mas com z.
JPP- Mas se for num exame marcam um erro de ortografia.
AC- A minha geração já aprendeu na escola que Luís se escreve com s e não com z, e naturalmente essa evolução se há-de ir fazendo. E acho que temos convivido todos bem e creio que nunca até agora ninguém deixou de compreender aquilo que está escrito.
JPP- Posso interpretar das suas palavras ...
ALX- Eu delego.
JPP- ... como deixando de haver a obrigatoriedade no Estado e nas escolas de impor a ortografia do Acordo Ortográfico? É que isso só é válido se efectivamente a liberdade for maior.
AC- Vm lá ver, o Estado deve praticar aquilo que é estritamente a língua oficial e a fazê-lo.
JPP, caridoso- Está a fazê-lo.
AC- Que para as novas gerações deve ser divulgada e deve ser ensinada a nova ortografia, deve ser brlft, como aconteceu a mim! Eu não sei se foi atingido por algum acordo ortográfico; eu fui* e o António [Lobo Xavier] também deve ter sido. Eu lembro-me, quer dizer, a mim ensinaram-me na escola primária, foi para aí na segunda ou na terceira classe…*
ALX- Mas esse acordo fazia sentido…
AC- Oiça, fazia tanto sentido como o brlft. Vm lá ver, essa é outra questão.
JPP- Mas porque é que a gente não reverte isto? Rapidamente!
AC- Ó Pacheco Pereira, se me pergunta se eu teria tomado a iniciativa de fazer o Acordo Ortográfico, eu diria "não, não teria tomado a iniciativa de fazer o Acordo Ortográfico". A sua pergunta agora é outra: é se tomo a iniciativa de desfazer o Acordo Ortográfico. E eu também lhe digo "não, não tomo a iniciativa de desfazer o Acordo Ortográfico".**
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* António Costa nasceu em 17.Jul.1961. Nessa altura, a reforma ortográfica mais recente datava de 1945. Só em 1973, através do Decreto-Lei n.º 32/73, de 6 de Fevereiro, a ortografia portuguesa de Portugal voltaria a sofrer pequenas alterações que não emergiam de nenhum acordo formal e nada tinham a ver com o senhor Luiz. Correriam os anos de 1968/1969 quando António Costa andava na segunda ou na terceira classe... O menino Costa há-de por certo ter sido atingido — nota-se que foi —, não por um acordo mas por um brlft; disso não quero duvidar.
** Intimassem-no o Partido Comunista Português ou o Bloco de Esquerda a desfazê-lo e veríamos se o não desfaria. A correr e a saltar.
Do doutor António Costa só podemos esperar iniciativas, as que forem mesmo dele, de extrema motivação patriótica. Sem prejuízo, obviamente, do brlft. A língua que se dane.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Acordo Ortográfico [93]

«[…]
Devia haver um referendo sobre o Acordo, mas os homens do "vota no castelo", os apátridas da língua, têm medo de o perder. Mas há muito que se pode fazer. Muita gente já o está a fazer, sob a forma de uma desobediência cívica exemplar: recusar-se a escrever segundo as suas normas e assim proclamar que "o meu amor à língua portuguesa não pára. Com acento.»

- x -
«[…]
nunca fui entusiasta do Acordo; encarei-o com desagrado e adoptei-o com relutância, mas sem drama. O que fiz, sim, foi escrever vários textos no blogue Jugular, não sobre o AO90 mas acerca do bruaá irracional e insensato que rodeia o tema e, sobretudo, a cegueira e a falta de informação — mas também a má-fé, que é real — dos que rejeitam o AO90 por mero preconceito, ignorância, temor, preguiça, seguidismo ou ligeireza. Isto, por si só, nem seria muito grave; pior é quando lhe está associado um inegável teor de arrogância, nacionalismo básico e provincianismo serôdio.
[…]
Assim se chega à fase do roer as muletas, quando já não há pés para alvejar nem balas a disparar. O texto de M.F.M. é uma boa demonstração do delírio enviesado para onde frequentemente resvalam os autoproclamados paladinos da língua portuguesa.»
reagindo ao artigo da filósofa e ensaísta Maria Filomena Molder, "O direito de ser atropelado", no Público de 04.Mai.2015.

- x -

«[…]
Por cá, a prevenção manda e mandou consagrar aquilo que, na alma navegante de cada lusófono, constituía uma necessidade gritante: um acordo ortográfico (AO) para o português. A ideia, inicialmente mastigada por duas dúzias de génios nos seus imensos tempos livres, tornou-se oficiosa em 1991, mereceu a aprovação do prof. Cavaco em 2008, subiu a regra nos documentos de Estado em 2012 e fez-se obrigatória há dias.
Não imagino que sanções se aplicarão aos prevaricadores daqui em diante (sugiro açoites na praça ou a digestão dos discursos da dra. Edite Estrela).
[…]»
A brincadeira de AG com facto/fato é capaz de ser exagero, dada a alínea c) do n.º 1 da Base IV do AO.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Acordo Ortográfico [92]

«Anacleto estava radiante. Já lhe tinham dito lá na repartição mas ele não acreditava. No dia 13, o das aparições lá de Fátima, já podia escrever com menos letras, que alívio. Agora era lei, já não podiam gozar com ele quando escrevia “coação” e lhe perguntavam onde é que tinha comprado o coador. Só podia ser mesmo bênção dos pastorinhos. Ele tinha-se informado, sabia tudo. Até ao dia 13, havia na escrita portuguesa duas ortografias. Uma para Portugal e outra para o Brasil. Um excesso! Agora, a partir de dia 13, passa a haver só duas ortografias. Reparem bem na subtileza: duas e “só duas”.
[…]
Claro que nem toda a gente ia aceitar aquilo, havia muitos conspiradores, sediciosos, sempre prontos a pôr em causa os altos interesses da Pátria. Para isso, ele tinha um remédio: o capitão Windows.
[…]
O capitão Windows ri-se do matraquear no teclado e corrige as más vontades. Só dedos muito atentos e hábeis conseguem despistá-lo. Mas até esses hão-de cansar-se, vão ver!
[…]
o general Bertoldo Klinger (1884-1969), que assinava “jeneral Klinjer” e que, muito antes de apoiar o golpe que instaurou a ditadura em 1964, escreveu uma ousada obra intitulada Ortografia Simplificada Brazileira. Aí, dando largas à ortografia que ele próprio inventara, escreveu: “Etimolojia e Uso têm seu relevante papel, sine qua non, na constituisão, no recrutamento do vocabulário; feito isso, termina, porêm, seu papel: entra em asão a Ortografia, para ficsar fielmente para os olhos o ce a boca emitiu, o ouvido persebeu. Portanto, a Ortografia alfabética só póde ser pronunsiativa, fonética. Seu instrumento é o Ortoalfabéto, de símbolos nesesários e bastantes, sônicos, simples, diretos e imvariáveis. Direto, cér dizer ce o nome do símbolo é ezatamente o do próprio fonema ce ele representa.” 
Anacleto entrara em êxtase.
[…]»
Nuno Pacheco, "O capitão Windows e o general Klinger" | Público, P2, 17.Mai.2015

- x -

«[…]
o absurdo do zelo português num AO falhado e que nos isolará ainda mais. Onde os estragos serão mais significativos é em Portugal, para os portugueses, e para a sua língua. É que o Acordo Ortográfico não é matéria científica de linguistas nem, do meu ponto de vista, deve ser discutido nessa base, porque se trata de um acto cultural que não é técnico, e como acto cultural em que o Estado participa, é um acto político e as suas consequências são identitárias. Não me parece aliás que colha o historicismo habitual, como o daqueles que lembram que farmácia já se escreveu “pharmácia”, porque as circunstâncias políticas e nacionais da actualidade estão muito longe de ser comparáveis com as dos Acordos anteriores.
[…]
Esta comunicação entre uma língua e a cultura que transporta é posta em causa quando a engenharia burocrática da língua a afasta da sua marca de origem, mesmo que essas marcas sejam “mudas” na fala, mas estão visíveis nas palavras. As palavras têm imagem e não apenas som, são vistas por nós e pela nossa cabeça, e essa imagem “antiga” puxa culturalmente para cima e não para baixo.
O AO é mais um passo no ataque generalizado que se faz hoje contra as humanidades, contra o saber clássico e dos clássicos, contra o melhor das nossas tradições. Não é por caso que ele colhe em políticos modernaços e ignorantes, neste e nos governos anteriores, que naturalmente são indiferentes a esse património que eles consideram caduco, ultrapassado e dispensável.
[…]»
José Pacheco Pereira, "Os apátridas da língua que nos governam" | Público, 16.Mai.2015

- x -

«[…]
Milagre! Três vezes milagre! Glória aos deputados que com o seu voto permitiram o AO. Glória aos acordistas que nos salvaram da babel. Glória ao ministro que o decretou obrigatório nas escolas. Louvor e graça a todos os que tornaram as palavras irreconhecíveis. E um aplauso especial para aqueles que, em nome da sacrossanta unificação, onde havia duas grafias nos ofereceram de borla três ou quatro (ou mesmo cinco: deíctico/deítico/dêictico/dêítico/díctico). Salve!
[…]
Interrutor já temos e homologado.
Agora alguém que apague a luz.»
Ana Cristina Leonardo, "Orgulhosamente sós" | Expresso/E, 16.Mai.2015

«[…]
a estupidez a impor pela força o que não consegue impor pela razão.
[…]»
Miguel Sousa Tavares | SIC, 13.Mai.2014

- x -

«[…]
Agradeço a continuação das provisórias tréguas, permitindo-me continuar a escrever nessa língua luminosa que é o português herdado dos meus antepassados e não nessa língua de trapos, nessa caricatura de português, congeminada pelos sábios linguistas que se autodeclararam donos da língua e que, por facto consumado e demissão colectiva dos responsáveis políticos, a impuseram à força a todos nós. Um dia, espero bem, alguém fará a história desta congeminada traição ao nosso património, da arrogante incompetência que a promoveu e da estarrecedora inércia que a consentiu, por mera ignorância e terror de enfrentar os “mestres”.
[…]
sugiro ao candidato presidencial Sampaio da Nóvoa, que afanosamente procura um passado de ideias que não se conhecem e um presente de ideias que se entendam (qualquer mais concreta do que declarar-se, por exemplo, um transportador de desassossegos), que abrace esta causa, jurando-nos que, se eleito, tudo fará para pôr fim a este pesadelo. Já terá valido a pena a candidatura.
[…]»

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Acordo Ortográfico [90]

«[…]
Todo o processo de engendramento e implantação do Acordo Ortográfico de 1990 só tem paralelo nas experiências agrícolas de Lissenko: a ortografia, como o trigo duro, tem de se vergar às miragens de uma ideologia (que tem nome de “lusofonia”, mas é muito mais do que ela) e conformar-se aos desígnios de políticos e cientistas pioneiros, ditos linguistas, mas que são na verdade agentes de uma ciência politizada. Juntos, gritaram em coro, antes de perderem o pio: “A ortografia é a arte plástica do Estado”. Quem lê jornais, escritos públicos e documentos oficiais percebe que está instalada a anomalia ortográfica (em meia hora de televisão, no dia 25 de Abril, li dois “fatos” em vez de “factos”) e que a aplicação do AO90 é tão desastrosa e tão contrária aos efeitos pretendidos (temos agora três normas ortográficas no “espaço lusófono”) como a agricultura de Lissenko. E é já tão paródica como ela. O que é irritante é que toda a verdade de facto exige peremptoriamente ser reconhecida e recusa a discussão. Por isso é que os políticos com responsabilidade nesta matéria e o respectivo braço armado científico (os cientistas pioneiros do laboratório linguístico de onde saiu o AO90) recusam sair a público e discutir os resultados da sua bela obra: mostram-se às vezes irritados com o ruído da paródia. Mas apostam no silêncio, à espera que das intervenções genéticas no trigo duro nasça, se não cevada e centeio, pelo menos erva para forragens.»

Já agora...

«[...]
Como saltar do “órgão eréctil” para o AO? Fácil. Ao “órgão eréctil” foi-lhe capado o cê. Recordemos. As consoantes mudas são eliminadas quando não proferidas na pronúncia culta. No caso, o cê foi à vida, o que quer dizer que se alguém insistir em pronunciar “eréctil” isso significará que é um grandessíssimo bronco (a boa notícia é que, sendo bronco, não é necessariamente impotente). Estamos, pois, assim. Viva a fonética! Hipótese: em Portugal existe um grave problema de surdez. Ou isso, ou quem assinou o AO deve responder por crime de lesa-língua (as duas teses não se excluem entre si).
[…]
alguém, por amor de Deus, revogue o suicídio acelerado da língua. Sem esquecer que estamos a morrer orgulhosamente sós.»

«[…]
Obscuro é o Acordo. Nas motivações, no teor e nas consequências. As últimas são desastrosas! Nunca se viu tanta asneira junta. É “fato” para facto, “contato” para contacto, “impato” para impacto, “infecioso” para infeccioso, “batéria” para bactéria, “perfecionista” para perfeccionista... Seria fastidioso prosseguir. Dirão: isso são erros! Não constam do Acordo. Ah, pois é! Mas curioso mesmo é que ninguém os escrevesse antes do dito. Quanto ao teor, já os especialistas explicaram como a mítica unificação resultou num labirinto de variantes ao gosto do freguês e quão perverso é o critério da pronúncia culta (Coimbra? Porto? Funchal?). A parte fácil são as motivações: novos dicionários, prontuários, livros escolares e adaptações de clássicos dão dinheiro a muita gente (além dos instrumentos online).
[…]»

«[…]
A ideia de fazer um referendo sobre o Acordo Ortográfico é boa.
[…]
Votarei "não" com muito gosto e vontade de acabar com essa malfeitoria à comunidade dos portugueses e dos que falam português.»
José Pacheco Pereira, "Referendar o Acordo Ortográfico" | revista Sábado, 23.Abr.2015

«[…]
O presente título pode gerar certa ambiguidade que esclareço de imediato. Tivesse eu escrito "alto e pára o baile!" e o leitor perceberia logo que se tratava de uma ordem para desligar a música. Com o (des)Acordo Ortográfico, tanto lhe será permitido pensar isso como o oposto: bora pró baile!
[…]
uma reforma que decapita todas as consoantes mudas quer-me parecer coisa tão radical que nem no chamado 'período do terror' da Revolução Francesa, quando diariamente rolavam cabeças que era um disparate!
[…]
Ockham inventou um princípio que diz mais ou menos isto: havendo duas hipóteses igualmente válidas, escolhe-se a mais simples (na realidade, o que ele disse mesmo foi: pluralitas non est ponenda sine necessitate). Ora bem: se 'pára' se distinguia de 'para', simplificando a compreensão e a leitura, porquê complicar?
[…]
A falta que faz às vezes uma navalha de Ockham
Ana Cristina Leonardo, "Alto e para o baile!" | Expresso/E, 01.Mai.2015

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Se António Guerreiro não é o melhor, quem é o melhor?


Todos os artigos, inteiros, de António Guerreiro, no Público/Ípsilon
de 08.Ago.2014 a 03.Abr.2015
08.Ago.2014
. O banco secularizado | BES/Novo Banco. «Estávamos nós cheios de fé na História, que é a última religião dos doutos, a assistir, pela televisão e em directo, ao processo de secularização do Banco Espírito Santo, quando começámos a perceber que a boa nova a anunciar um banco bom e novo (termos muito simples e claros, como podemos ver, pois a linguagem secularizada renuncia a toda a obscuridade) era ainda demasiado permeável a um ordenamento divino do mundo — na sua versão maniqueísta, que opera uma nítida separação entre bons e maus — e a uma concepção cultual do capitalismo financeiro.»
. Versos de puro nada | Recensão de "", livro de poesia de Daniel Jonas. «podemos dizer que estes sonetos de Daniel Jonas nos libertam e nos deslocam para paragens bem distantes daquelas em que grande parte da poesia portuguesa contemporânea nos instala.»

15.Ago.2014
. Turistas, mas relutantes | O turista de Lisboa. «cada turista é, para o seu semelhante, um espelho onde este vê reflectida a sua imagem de pessoa caricata, infantil, gregária, rendida a uma alegria imbecil, parodiante de uma mobilização geral.»

22.Ago.2014
. O povo da televisão | «aqueles programas, reportagens e concursos frequentados por pessoas que são submetidas à deformação pelos próprios apresentadores, repórteres e 'entertainers' para satisfazer os ditames televisivos do expressionismo grotesco.»

29.Ago.2014
. Treblinka é já ali | Maus tratos a animais de companhia [Lei n.º 69/2014, de 29 de Agosto] e a invocação do humanismo como legitimação da lei.

05.Set.2014
. E agora? Lembra-me. | O filme de Joaquim Pinto: poesia, mística da imanência, quotidiano.

12.Set.2014
. Sua Majestade, o Cinema | "Os Maias", filme de João Botelho.
. Os novos teólogos | O liberal João Carlos Espada e «as exigências medíocres de uma pequena burguesia intelectual.»

19.Set.2014
. Pedofilia e pedofobia | «será possível falar da pedofilia, como uma questão de enorme complexidade, sem nos limitarmos a proferir interjeições de horror? Tentemos.»

26.Set.2014
. A cidade e o campo | Sobre "Ouro e cinza", de Paulo Varela Gomes. «o campo é hoje, em larga medida, uma produção da Mota-Engil para a RTP, SIC e TVI.»

03.Out.2014
. O Pedro Manuel | Pedro Passos Coelho, «o triste produto do tempo do homem-massa e o engendramento catastrófico do fim de todos os encantamentos políticos, ideológicos e sociais.»
. Ler o que nunca foi escrito | Recensão de "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas", obra póstuma, inacabada, de José Saramago. Manuel Alberto Valente, o editor [o mesmo do último Herberto Helder], apanhado em falso.

10.Out.2014
. O ruído que vem dos livros | Ainda "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas". Porrada no editor. Veremos que chico-espertices industriais vai a Porto Editora perpetrar com o autor morto depois da patifaria que lhe fez com os últimos livros em vida.
. Retrato do cineasta enquanto escritor | Recensão de "Obra escrita", de João César Monteiro, editada por Vitor Silva Tavares.
«— Beijou os rotundos amareliflões melões melicheirões do seu rabicundo, cada um dos rotundos e melonosos hemisférios, no seu rego amareliflão, com uma obscura prolongada provocante melomelidorante osculação.
— Sinais visíveis de post-satisfação?
— Uma contemplação silenciosa; uma ocultação errática; uma degradação gradual; uma repulsão atenta; uma erecção próxima”.
[…]
Ao sr Vasconcelos [António-Pedro Vasconcelos] foram deixadas todas as indicações julgadas úteis para a boa execução do plano, tarefa de que ele se encarregou escrupulosamente, segundo creio, e pela qual lhe estou muito grato. Bem feia acção seria, pois, eu vir agora queixar-me do trabalho generosamente despendido por um colega em proveito de um filme meu, mas lá que o enquadramento é uma boa merda, isso é.»

17.Out.2014
. Homens e animais | Diferendo e litígio, a propósito do abate em Espanha de um cão chamado Excalibur.

24.Out.2014
. A pilhagem fiscal | «um Estado que perdeu a vergonha de se apresentar como agente supremo de uma pilhagem legal.»

31.Out.2014
. As metamorfoses do poder | Recensão de "Massa e Poder", de Elias Canetti, «um dos mais grandiosos ensaios do século XX. […] todas as distâncias e protecções que os homens criaram por se sentirem ameaçados pelos outros e pelo desconhecido são ditadas pelo medo de serem tocados.»
. A ecologia literária | Os 100 000 euros do Prémio Leya e a nova literatura mundial.

07.Nov.2014
. O destino do partido | A natureza dos partidos políticos.

14.Nov.2014
. O escritor e o seu duplo | A paródia e a manha de António Lobo Antunes nas entrevistas, designadamente na que deu a Isabel Lucas no Público/Ípsilon de 07.Nov.2014.

21.Nov.2014
. Letrados e reaccionários | «O reaccionário letrado (do tipo Paulo Varela Gomes) e o letrado reaccionário (do tipo José Pacheco Pereira) […] podem respeitar-se mutuamente mas não pertencem à mesma confraria.»

28.Nov.2014
. Sade, esse sublime energúmeno | «Duzentos anos após a sua morte, Sade continua a visitar-nos como um fantasma que não se extingue, desafiando o nosso tempo com os seus textos, tão difíceis de olhar de frente, em que se faz a apologia do prazer e do vício contra a lei e a ordem.»
. Virar as costas ao presente | «interessante questão formulada por José Pacheco Pereira: uma vez que durante a nossa vida não temos tempo para ler as grandes obras do passado, valerá então a pena ler livros novos?»

05.Dez.2014
. Uma história de fantasmas | sobre o filme "Cavalo Dinheiro", de Pedro Costa. Rememorar.
. A alta tensão timótica | «Muitas vezes, apetece reclamar que se faça tábua rasa, que venha um esquecimento libertador que permita começar tudo de novo. Por exemplo: que nos seja concedida a felicidade suprema de uma profunda amnésia apagar o nome de José Sócrates da cabeça dos seus amigos e dos seus inimigos e passar a residir apenas nos arquivos.»

12.Dez.2014
. Uma paisagem desencantada | Balanço de 2014. «É no ensaísmo e no vasto campo das ciências humanas e sociais que a actual lógica editorial mais danos provocou, limitando assim o debate e a livre circulação de ideias. […] A apresentação desta lista exige um preâmbulo: ela abrange não apenas o ensaio propriamente dito (que, como sabemos sempre se interrogou a si mesmo enquanto género e forma), mas o campo mais vasto dos livros de ciências humanas e sociais, incluindo a filosofia, a estética, a crítica literária e artística. [...]
Por isso, só poderia resultar num conjunto muito ecléctico, à medida das diferentes proveniências disciplinares das pessoas que para ele contribuíram. Se o saber é sempre polémico, um balanço anual que pretende totalizar um tão vasto campo de saberes é, inevitavelmente, um campo de batalha.
»
[Inclui escolhas – ensaio, poesia, ficção – de António Araújo, António Guerreiro, Diogo Ramada Curto, Gustavo Rubim, Hugo Pinto Santos, Helena Vasconcelos, Isabel Coutinho, Isabel Lucas, José Riço Direitinho, Luís Miguel Queirós, Maria Conceição Caleiro, Nuno Crespo e Rui Lagartinho.]
. Palavras que libertam e atraiçoam | Sexo, género, feminino, masculino. «outro termo que tem sido sujeito a um uso inflacionado, e por isso nefasto, é “homofobia”. A palavra “fobia” tem um sentido preciso, muito forte, e convinha não a banalizar.»

19.Dez.2014
. Os nossos queridos Bouvard e Pécuchet | Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi na comissão de inquérito ao BES. «Queríamos escutar as narrações e os argumentos dos dois homens ricos, sumptuosamente ricos, e o que ouvimos foi uns pobres homens: um podia chamar-se Bouvard e o outro Pécuchet. E, tal como os dois homenzinhos de Flaubert, estes também foram vítimas de um espírito enciclopédico e coleccionador, mas de um novo tipo: coleccionaram palavras do jargão financeiro, construíram com elas um sistema que ruiu por todos os lados, mas continuam a debitá-las de maneira incontinente, a mostrar que não conhecem outras.»

26.Dez.2014
. Miguel, porque escreves? | Escritor, escrevente. «Por uma entrevista a Miguel Sousa Tavares, na SIC, feita por Raquel Marinho (e publicada também no site do Expresso com o título: “Porque escreves, Miguel?”), fiquei a saber que o seu último livro começava com uma resposta a esta questão. […] o Miguel, que nestas coisas da literatura é tão ingénuo, nunca perceberá porque é que quanto mais se reivindica como escritor (oportunidades não lhe faltam) mais se enterra como um banal escrevente.»

02.Jan.2015
. O corsário, o profeta, o apocalíptico | Sobre "Pasolini", filme de Abel Ferrara.
. Muito orgulho gay e algum preconceito | «um banqueiro que assume a sua homossexualidade ao mais alto nível é visto como um exemplo. Mas exemplo de quê e para quem? Para quem aspira chegar a banqueiro, para quem deseja mas não ousou assumir a sua homossexualidade, ou para quem acha que não se importaria nada de dizer ao mundo que é homossexual se um dia chegasse a banqueiro, em Londres? Um operário da construção civil que fizesse, na sua aldeia, perante os seus conterrâneos, exactamente o mesmo que fez o banqueiro António Simões, seria sempre um exemplo de muito maior coragem e aquele que importaria de facto mostrar.»

09.Jan.2015
. Sexualidade e política | Ainda a distinção ao banqueiro larilas. «Seja-me permitido retomar e desenvolver o assunto. […] As cerimónias e opções em que a maior parte do activismo gay e lésbico se compraz estão fixadas nas convenções da identidade e do reconhecimento. Daí a glorificação do coming out, como se a liberdade de não declarar publicamente não fosse tão legítima e eventualmente tão portadora de um potencial crítico como a de declarar. […] o discurso e as escolhas de instituições como a ILGA não só nada produzem de relevante no plano político e cultural como se conformaram a um kitsch ideológico cujo brilho resplandece com mais força nos momento de gala.»

16.Jan.2015
. As imposturas da avaliação | «A grande impostura da avaliação enquanto prática e doutrina não está apenas instalada na universidade e na investigação, estendeu-se nos últimos anos a todos os domínios de actividade profissional e a todos os sectores da sociedade. […] A avaliação tem uma natureza e uma função essencialmente estratégicas: nas empresas, está ao serviço da gestão e da disciplina dos “recursos humanos”; na universidade e na investigação, é o “dispositivo” de uma máquina de governo.»

23.Jan.2015
. Se isto é Celan… | Recensão de "Não Sabemos mesmo O Que Importa — Cem Poemas", de Paul Celan. «era com regozijo e expectativa que se esperava a tradução de cem poemas de Celan por Gilda Lopes Encarnação, que tinha feito, entre outras, uma excelente tradução de "A Montanha Mágica" (D. Quixote). Mas o resultado que nos oferece "Não Sabemos Mesmo O Que Importa" (assim se chama a antologia) não é nada satisfatório.»
. Civilização e barbárie | «Tal oposição, hoje tão proclamada, corresponde a uma visão idealista e cumulativa da “história do espírito”, à maneira de Hegel. Mesmo quem, noutras circunstâncias, não quer ouvir falar de dialéctica, surge agora completamente rendido ao processo dialéctico e ao evolucionismo na história das ideias: é isto que significa a afirmação muito comum de que a barbárie — aquela com que fomos recentemente confrontadosé o resultado de duas faltas: a da secularização e a dos valores do Iluminismo (a crítica, a razão, o progresso, a universalidade, o cosmopolitismo). Ora, o que esta maneira de pensar desconhece é precisamente aquilo que o historiador da arte e da cultura Aby Warburg (1866-1929) designou como uma fundamental esquizofrenia: a civilização está continuamente em luta contra o seu pólo demónico (traduza-se assim, e não como “demoníaco”, o dämonisch), num conflito trans-histórico, tipológico.»

30.Jan.2015
. Populismo e demofobia | «Quem, no domingo passado, à noite, seguiu a contagem dos votos, na Grécia, através dos vários canais portugueses de televisão, terá sentido uma enorme impaciência perante as milícias civis de comentadores e “politólogos”, que parecem personagens decalcadas dos aforismos satíricos de Karl Kraus contra os jornalistas do seu tempo: dizem e “comentam” porque não têm nada a dizer, e têm algo a dizer porque a sua tarefa é comentar. No meio de tanta indigência, lá apareceu, brandido por alguns, o fantasma do populismo, seja ele efectivamente encarnado ou tenha a condição de espectro. Estas almas penadas - para continuarmos no mesmo plano semântico - parecem não ter ainda percebido que não têm ao seu dispor nenhuma figura do povo para poderem agitar a bandeira do populismo, que o povo como sujeito político, tal como o conhecemos a partir da modernidade, desapareceu; […] Os actuais denunciadores do populismo, incapazes de entender a política como algo mais do que gestão e método, táctica e estratégia, vêem outra coisa: vêem um papão, sob a forma do povo que já não existe. Lutam contra fantasmas. Eles próprios são mortos-vivos, zombies do comentário e da “politologia” do pequeno ecrã.»

06.Fev.2015
. Eduardo Lourenço, cena primitiva | Recensão de "Obras Completas II – Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista e Outros Ensaios". «Este volume é uma peça importantíssima na bibliografia sobre o neo-realismo, mas também importante para acedermos a um momento fundamental do percurso intelectual de Eduardo Lourenço, para chegarmos, digamos assim, à sua “cena primitiva”.»
. O examinador foi ao exame | Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC). «a crueldade provoca, mas a estupidez desmoraliza. […] O que vemos neste tipo de provas é, mais uma vez, a falácia da máquina da avaliação: ela presume uma cientificidade que de modo nenhum consegue demonstrar que possui.»

13.Fev.2015
. A Grécia como paradigma | «A Grécia é hoje um caso limite de experimentação biopolítica, um país inteiro tornou-se uma forma derivada dos campos, um lugar habitado não já por um povo ou por uma sociedade histórica, mas por uma mera população supérflua. Desapossados de toda a soberania e coagidos a erradicar a política como instância de mediação entre a economia e o social, os gregos estão reduzidos a um projecto de experimentação dos princípios económicos de um biopoder que delimita e designa populações – e segmentos de populações – suspeitas, inúteis e supérfluas.»

20.Fev.2015
. A eloquência patética do presidente | Cavaco Silva. «Quando o Presidente da República, interpelado pelos jornalistas, fala para os microfones e para as câmaras de televisão, é difícil tomar atenção às suas palavras – seja para louvá-las, seja para criticá-las – porque a elas se sobrepõe de maneira enfática o medium corpóreo não verbal: os traços móveis do rosto, o movimento da boca, os lábios encrespados, a disposição do corpo. O significado das suas palavras dissolve-se na mímica facial intensificada e nos aspectos prosódicos do seu discurso (a entoação, o ritmo, os picos de intensidade, etc.) Mas não se trata da gestualidade retórica dos políticos, um dos elementos que lhes conferem aquele quid a que Max Weber chamou carisma. Não, não é gestualidade retórica: é eloquência patética. […] patética porque se manifesta como um espasmo de exteriorização de uma causa interior. Dir-se-ia, na sua mímica intensificada, que ele não é patrão dos seus gestos, do seu olhar, da sua expressão. E, por isso, torna-se transparente, não consegue travar o mau-humor nem controlar os arrebatamentos de homem severo, não consegue mascarar as suas paixões nem desmentir o coração. […] ele fala, mas nós já só conseguimos vê-lo.»

27.Fev.2015
. Só, como Franz Kafka | «A edição dos Diários de Kafka, pela Relógio D’Água, traduzidos com enorme competência por Isabel Castro Silva, é um acontecimento editorial que tem de ser salientado. […] O mistério chamado Kafka está coberto pela película espessa de uma vida banal. […] uma existência marcada por um grandioso falhanço em todos os combates a que se viu obrigado: com o pai (cuja autoridade o assustava tanto que nem sequer era capaz de permanecer em pé diante dele), com a literatura (não acabou nenhum dos seus romances), com o mundo das mulheres.»
. O bom aluno | «O bom aluno é aquele que interiorizou plenamente a moral da culpa e sabe que deve comportar-se como um ser em débito. Haverá algum momento em que a culpa vai ser expiada, isto é, em que o débito vai ser saldado? Evidentemente que não. Por isso é que se criou a figura da “dívida eterna” ou infinita. […] Para se tornar um bom aluno, como lhe é exigido para continuar a dar-lhe crédito, a Grécia não precisa de pagar a sua dívida — que é infinita e eterna. Tem é de dar como garantia do fictício e sempre diferido reembolso um conjunto de virtudes sociais e políticas que são a carne e o sangue da moralidade a que está obrigada. Tem de sujeitar-se eternamente ao performativo da promessa. Não é que as promessas paguem dívidas, mas são um reconhecimentos e uma ritualização da culpa.»

06.Mar.2015
. O poeta sem biografia | «Fernando Echevarría, na semana passada distinguido com o prémio Casino da Póvoa, anunciado e entregue na 16ª edição do festival Correntes d’Escritas, é o autor de uma obra poética grandiosa, que sempre permaneceu impermeável às determinações prosaicas da chamada “vida literária”. […] A obra de Fernando Echevarría, construída de maneira silenciosa, parece um objecto arquitectónico de grande envergadura, em que nada escapa a uma geometria rigorosa e ao primado da dimensão intelectual. […] Pertence nitidamente a uma categoria de poetas que tudo fazem para expulsar a dimensão biográfica, de maneira a que na obra sobressaia uma aguda consciência do acto de escrever e não aquilo que é anterior e exterior a ele.»
. A elite consensual | «Parece um título anódino, mas quando analisado pelo lado de uma psicologia racional e de um realismo político, ambos respeitosos dos grandes equilíbrios, verificamos que é de uma grande envergadura. "Nem mais alemães que os alemães, nem mais gregos que os gregos": eis o título da crónica da semana passada de Francisco Assis, eurodeputado do PS que escreve neste jornal todas as quintas-feiras. […] A encenação de debate cria a aparência de que uns e outros pensam de maneira diferente, mas toda a diferença se anula na mesmidade que brota da linguagem comum do “Nem-Nem”. Como se todos eles, festivos como os saltimbancos e nómadas como os cibernautas, se preparassem diante de um espelho deformador, antes de debitar opinião e analisar a temperatura exterior do ambiente: “Diz-me, espelho meu! Estou em forma? Estou conforme?” […] Empossados como fabricantes de opinião para consumo da população genérica, quanto mais “Nem-Nem” são, mais hipóteses têm de ser aclamados como objectivos e responsáveis. […] Esta elite consensual, resultante de um agregado onde se instalou a maquinaria infernal de produção do “homem médio” ou homo mediocris, reivindica-se como uma maioria moral, na medida em que exerce uma hegemonia da opinião. […] a regra mais importante da elite consensual: nunca oferecer qualquer resistência ao presente.»

13.Mar.2015
. O otium e o lazer | «O tempo do lazer é aquele que resta depois do trabalho, vulgarmente chamado “tempo livre”, o que indica que ele se define não em si mesmo, mas em relação ao tempo de trabalho. Diferente do lazer é o ócio (no sentido do otium latino, não no sentido pejorativo que a palavra adquiriu). É do otium que nascem as artes, as letras e as ciências. O lazer é um tempo de recuperação e de preparação para o trabalho; o otium é o tempo da liberdade e não se deixa apropriar pela lógica mercantil dos tempos livres […] O sobressalário não está dependente da lei do mercado, da oferta e da procura. Trata-se de um salário arbitrário, isto é, dependente de uma arbitragem e de um preço políticos, e não do mercado. Um exemplo: o Lloyds Bank paga mais de uma dezena de milhões de libras, só em prémios e suplementos, ao seu CEO Horta Osório, como ficámos há dias a saber, não porque ele seja o único no mundo a conseguir a performance desejada (que, aliás, depende de uma equipa numerosíssima e não de uma só pessoa), mas porque convém ao Lloyds a operação publicitária que consiste em dizer ao mundo que tem a chefiá-lo um homem superpoderoso, e a medida do seu superpoder é evidentemente aferida pelo dinheiro que ganha. Esta burguesia do sobressalário raramente tem a possibilidade de converter o seu dinheiro em tempo. […] só o otium concede tempo e disposição para ler Guerra e Paz. O lazer, na melhor das hipóteses, satisfaz-se com um item do top Fnac ou com os roteiros da “cultura para o fim-de-semana”.»
Como diria Ana Lourenço: «Vamos fazer agora uma pequena pausa para intervaloEu espero por si.»

20.Mar.2015
. A política virtuosa | «Com a solicitude esclarecida do bom pastor que sabe por onde deve conduzir o rebanho, Francisco Assis, na sua crónica da passada semana ["A difícil moderação", Público, 12.Mar.2015], pôs-me à distância da sua “difícil moderação” e empurrou-me para o lado dos extremismos. […] Eu tinha cometido a indelicadeza de o classificar como representante de uma elite consensual que exibe as virtudes da moderação centrista, mas o centro a que me referia podia não coincidir com o centro ideológico. […] este editorialismo ideológico e generalizado intoxica o ambiente, corrompe a linguagem, asfixia o pensamento e arruína o espaço público. É este contexto que permite a Francisco Assis reclamar como um gesto de coragem e de grande ousadia a sua “difícil moderação”. […] Celebremos a prova de resistência e de luta esforçada pela moderação salvífica, na batalha de Assis da penúltima quinta-feira, em nome de uma coisa que nos esmaga, de tal modo representa o todo da política virtuosa: a “civilização democrática e liberal”. Assim lhe chama Francisco Assis, funcionário político, obreiro intelectual e seu guarda avançado. Esta densa e eloquente elaboração do pensamento político, a que Karl Kraus chamaria “fraseologia”, é uma manifestação gritante do idioma mediático-político, irredutivelmente “nem-nem”. Nem isto nem aquilo, ele é pura tagarelice, uma palavra vazia, insignificante.»

27.Mar.2015
. Ah, a poesia! | «A ampliação, de ano para ano, das manifestações públicas para festejar o Dia Mundial da Poesia é um sintoma (atenção: um sintoma, não uma causa) de que se chegou a um ponto crítico da delapidação da poesia, não sob a forma da violência exercida por um inimigo exterior, bem identificado, mas sob a forma do desastre sereno vindo de tantos lados e impossível de localizar com precisão: é como o tempo que faz, o tempo meteorológico. Estas bem-intencionadas manifestações em sua honra são de facto um sintoma de que a poesia caminha para a museificação, mas perdeu efectualidade social e já nada conta na economia do livro. A esta contingência respondem alguns poetas mais foliões fazendo de jograis intermitentes no palácio quando chega a Primavera.»

03.Abr.2015
. A grande fadiga europeia | Recensão de "Submissão", romance de Michel Houellebecq. França, ano de 2022. «O presidente muçulmano chega serenamente ao topo do poder político em França, à margem das lutas entre o “movimento identitário” e os islamitas radicais. […] por todo o lado são bem visíveis os signos da conversão a uma nova ordem. Por exemplo, as mulheres, antes tão emancipadas e até libertinas, começam a cobrir a cabeça com um véu. Fazem-no porque o novo regime as obriga? Não, fazem-no voluntariamente, escolhendo alegremente a submissão em vez da crítica e da resistência. São os mecanismos da submissão generalizada que Houellebecq transforma em fábula política.»
. A desfiguração do rosto | «Ainda o coro ia no adro e já estava a ser exibida na última edição da revista do Expresso uma iconografia do escritor [Herberto Helder] que sempre tinha dito “não” a álbuns de família e outros bibelots, e que um dia escreveu: “Não me vou deixar apanhar por tentações biográficas.” […] o tempo e a força da sua obra irão novamente fazer desaparecer o rosto, mas por agora o efeito é o de uma desfiguração. […] Porque Herberto sempre esteve do lado da neutralidade da imagem do escritor perante a sua obra, reduzindo-o ao anonimato, o álbum de fotografias de Alfredo Cunha tem o efeito terrível de o fazer aparecer na condição de apóstata. Um fotógrafo à altura da difícil missão poderia ter feito o seu trabalho sem que se quebrasse o pacto que o poeta tinha estabelecido com a esfera pública. Mas as fotos não passam da mais banal reportagem, iconografia lisa e estereotipada de escritor com estantes de livros atrás. Nelas, não se adivinha nenhuma espessura, nada que indicie a presença de Herberto Helder, por mais que nos digam que é dele a figura que elas representam. […] é sempre obsceno, e ninguém deveria ser autorizado a tal, abrir as portas da intimidade num jornal. Tratando-se de Herberto Helder, que levou a vida inteira a fechar todas as portas, não é apenas obsceno, é uma violência.»

quinta-feira, 6 de março de 2014

Acordo Ortográfico [88] ... e uma das melhores cenas do cinema

«O modo como a Assembleia da República está a fugir de tomar posições é bem revelado no modo como se empurrou para o eterno e adiado futuro a decisão sobre o Acordo Ortográfico. Percebe-se que a opinião dos deputados não conta para nada, mesmo havendo uma possível maioria contra o Acordo, e que apenas a força do impasse político internacional, transformada em inércia, mantém as coisas como estão. Ou seja, a língua portuguesa continua a estragar-se todos os dias, apenas porque ninguém quer saber disso nas elites políticas, nem tem coragem de dizer sim ou não. Ou não quer defrontar os interesses que explicam a manutenção de um acordo moribundo, mas deixado apodrecer no meio das palavras de uma velha língua que infecta e gangrena. Estamos assim.»

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«Esta semana, no meio de uma embrulhada confusão de razões, contra-razões e subtilezas pouco subtis, saltitando de argumentos e de posições que não lembrariam ao Diabo, pior, que não lembrariam aos engendradores do Acordo Ortográfico, ficou-se a perceber uma coisa que digo já qual é. Mas antes, seja-me permitida uma sugestão: a de que futuros negociadores do mesmo instrumento, deputados ou não, académicos ou professores, editores, tradutores ou revisores de provas, sejam reciclados através de um curso intensivo de gramática da língua portuguesa, como condição essencial para integrarem esse grupo.
[…]
não se percebe esta situação a que se chegou de criação e aplicação de três grafias diferentes, agora com uma posição edulcorada do nosso Parlamento que também não vai levar longe e que não cria condições para uma revisão multilateral das regras-quadro que permitiriam a sua aplicação, nem do autêntico chorrilho de asneiras que viola mesmo o preceituado nesse instrumento internacional.
[…]
Infelizmente é a uma situação de surrealismo delirante que se está a chegar. A língua está a ser destruída. Não conheço hoje muitos políticos que sejam a favor disso. Se falarmos de outros utentes qualificados, também não, salvas as excepções menores do costume e as propensões para a cedência do costume.
[…]
Realmente, como na salada dos pais do imortal Basílio, o acordo foi mexido por uns cegos e temperado por uns loucos...»
Vasco Graça Moura, "Omnes discrepantes" | DN, 05.Mar.2014

- x - 
«[…]
Já passou pela mão de todos os deputados e governantes uma lista impressionante de nomes de escritores, professores, académicos ou jornalistas — os que usam a língua profissionalmente — que não deixa qualquer dúvida de que apenas uma minoria, e já sem quaisquer argumentos válidos, continua a sustentar este crime. […] Há, pois, quaquer coisa de misterioso e estranho por trás da teimosia de governantes e deputados, de todos os partidos, em não ceder aos constantes apelos que de todos os lados recebem. […] É nesta alturas, e como último recurso, que eu gostava de ter um Presidente da República que, no uso da sua função de garante da independência nacional (de que a preservação da língua é parte indissociável), puxasse do artigo 120.º da Constituição e matasse de vez esta vergonha. Mas, infelizmente, também não é o caso.»
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A despropósito,
«[…]
Filmes como 2001: Odisseia no Espaço de Kubrick estão vivos não por causa dos efeitos especiais, mas porque tinham personagens como o computador Hal 9000, cuja "morte" é uma das melhores cenas do cinema de sempre
[…]»
JPP, "Por que razão Gravidade é considerado um bom filme?" | ibidem

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Acordo Ortográfico [86]

«[...]
Com estas questões do programa de português para o secundário cruza-se, mais uma vez e inevitavelmente, a do Acordo Ortográfico, objecto de um belo artigo de José Pacheco Pereira no Público de sábado*. Em que ortografia vão os nossos grandes autores ser servidos nas escolas? Serão implacavelmente desfigurados pela aplicação dessa coisa sem nome? Ou virá o Governo a tomar providências rápidas para, pelo menos em parte, remediar a situação?
A crítica definitiva do Acordo Ortográfico, nos planos científico, jurídico, político e sociocultural, está feita há muito, pelo que nem sequer vale a pena retomá-la. Mas torna-se necessária uma solução que, de resto, e como Pacheco Pereira também salienta, sairá tanto mais cara ao País quanto mais tarde ela for tomada. Os custos directos e indirectos serão muito altos, mas arriscam-se a tornar-se astronómicos se se continuar a perder tempo. Trata-se de uma questão também política que, pela sua dimensão internacional, requer um particular tacto no seu tratamento e cuja solução, segundo creio, poderia ser encontrada em três planos.
Em primeiro lugar, o Governo poderia negociar com os editores de livro escolar, que não são assim tantos, o abandono do esquema actual de aplicação do Acordo nas edições escolares, tendo em conta o tempo de validade dos livros e manuais existentes e o seu ritmo de substituição.
Entretanto, o Governo suspenderia a aplicação do Acordo Ortográfico decretada por uma Resolução do Conselho de Ministros de ultrajante memória, determinando que, na medida do possível, se voltasse já ao sistema anterior (afinal o ainda vigente, quer se queira quer não...).
Em terceiro lugar, no plano internacional, seriam desencadeadas as medidas necessárias a uma revisão imediata do Acordo Ortográfico pelos oito países de língua portuguesa (incluindo portanto Timor).
[...]»
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