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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Bom ano, Ana.

domingo, 16 de junho de 2013

o morto por tu

num epicédio de sentimentolindo!esplendordetextoquebonito!beijogrande como só ela sabe mas que recoloca o menino da lágrima a uma breve sístole da arte grande com a ténue diferença de que ela escreve para a urbanidade culta da igreja de manuel reis  e o menino da lágrima é mais t3 na bobadela de ana cássia rebelo, a fernanda câncio, cuja escrita em minúsculas sempre me soou a maneirismo pífio, veio em público e para a tribo blogadora enlutada falar com o morto na segunda pessoa do singular -  não, joão. tu eras mesmo espantoso … [tudo indica que tenha mesmo deixado de ser.]
nada de novo: o costume de tratar o morto por tu é antigo, afigurando-se eterno e insanável o desconchavo, até dos sages, perante a morte que, sendo talvez o único assunto que verdadeiramente importa à existência, acho combinarem melhor com ela o silêncio – ganho consolo, enfim, num ou noutro requiem de mozartes – e o recatado recolhimento. a merda é que a vaidade nos torna tagarelas e até um animal alegadamente lúcido como o maradona não resistiu a um abraço sabe-se lá a quem. ora o problema é justamente quem: quem é tu cujo corpo foi a cremar no alto de são joão pelas 14 horas de hoje?
entendo e sinto bem, ante a recorrente e educada perplexidade do revisor da rodoviária a conferir-me na foto do passe, que eu é um outro; agora, tu, quem é tu?
se calhar, a atenção que te – perdão! -  lhe dei irremediavelmente tarde, sei lá, foda-se.

quarta-feira, 7 de março de 2012

«Nessa noite,

deitei-me nas ruínas do meu corpo, era já só ossos, os malares cavados, a carne ressequida. Ventava na arcada das costelas e o ruído desse vento perpétuo não me deixou adormecer. A morte pesou-me mais do que a vida.»

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Da sabedoria - jaula, capoeira

31.Jul.1977, Alberto sapiens     |     16.Fev.2012, Ana sapiens

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

«a culpa, está bem de ver, é

dos miúdos que não tomam os medicamentos certos para a cura dos meus males.»

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Ana Cássia Rebelo,

imperatriz.

«[...] bem vistas as coisas, a língua da outra, grossa, comprida, autêntico falo que crescia e entumecia quando entrava dentro de si, era maior, incomparavelmente mais competente, do que o pénis do velho maçon, cansado de tanto uso, envelhecido, mirradinho como uma salsicha frita de véspera.»
"Exosqueleto", 10.Jan.2012

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

«As palavras com que me aborda são delicadas

[...]
A menina já provou mão de vaca com grão, é uma delícia, diz por fim. A autofagia do bicho entristece-me. Ouço-o em silêncio. Linda, a pronúncia do norte.»

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Retorno,

«livro da mais extraordinária descoberta deste ano e dos que se foram e de todos que estão para vir: Dulce Maria Cardoso. [...]»

«O passado tem a grande vantagem de não existir.
[…]
Na verdade, o importante é sempre o que não há.
[…]
o bem é o antipensamento. […] É interessante pensar que se retirássemos o mal do mundo não tínhamos nada. Não tínhamos arte, romances, não tínhamos civilização sequer, como a concebemos.
[…]
Deus é a maior invenção da humanidade. Eu espero até que à força de ter sido inventado exista mesmo.»

«Só um desprezo grande pelas mulheres pode levar a que, em vez da fotografia da Dulce Maria Cardoso, entrevistada pelo Carlos Vaz Marques, apresentada como tendo escrito o primeiro grande romance sobre os retornados, ponham na capa a mala de cartão da Linda de Suza.»

domingo, 4 de setembro de 2011

Isto é bonito demais, foda-se.

«No meio das cabriolices, reparei no meu avô descalço, deixei a brincadeira, e pedi-lhe para me deixar lavar-lhe os pés. Estranhou o pedido, mas anuiu com um sorriso. O sol aquecera a água, estava morna, peguei numa barra áspera de sabão azul e branco e lavei-lhe os pés. Primeiro um, depois outro, com vagar, como se fossem objectos frágeis. O meu avô agradeceu-me e deixou-se estar assim, de pés descalços descansando ao sol. Tirou o canivete do bolso e pôs-se a descascar um pêro. Olhando aquela pele muito branca, de porcelana, translúcida, uma pele delicada, virgem, macia, que contrastava com as unhas amarelas, grossas e torcidas, senti vontade de beijar os pés do meu avô. Se não o fiz, foi porque, já naquela altura, apesar da idade, me apercebi da inadequação daquele desejo.»

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Educação sem ministério

Não se ‘faz alta’ ao avião, ao comboio, ao barco ou ao metro, para que parem, mas faz-se, ainda se faz, ao táxi, ao eléctrico e ao autocarro.
O gesto universal de ‘fazer alta’ acho-o dos mais bonitos, simples e eficazes que uma pessoa tem à mão – isso mesmo – para exercer um direito que é cumulativamente um pedido e vice-versa ao contrário e reciprocamente.
Esta tarde, na paragem do Prior Velho, uma preta com um pirralho dos seus 5 anos pela mão fez alta ao 329 [Campo Grande – Quinta da Piedade. Deus, na sua infinita, sábia e caprichosa parcimónia, sendo certo que não me contemplou com o jeito para a escrita que a Ana Cássia Rebelo tem, privilegiou-me ainda assim com uma geografia comum, o que me faz ficar-Lhe eternamente grato].
O autocarro parou, a porta abriu-se, a preta entrou e o pirralho disse «Obrigado, senhor motorista!». O motorista sorriu ao pirralho «De nada, ora essa!», charrou a sua dose diária de felicidade, fechou a porta e aliviou suavemente a embraiagem no mesmo tempo suave de carregar no acelerador.
Mãe abençoada e bonita.
Próxima paragem: Sacavém de cima.