domingo, 31 de março de 2013

Rigor, isenção.

Não se vê qualquer incompatibilidade, bem pelo contrário, entre o ódio visceral e alucinado que Alberto Gonçalves [AG] - que assina, na Sábado todas as quintas e no Diário de Notícias todos os domingos, das mais hílares, azeiradas e bem redigidas prosas na imprensa portuguesa - devota perseverantemente a José Sócrates [JS] e o apreço que tem por Cavaco Silva, não tanto, é certo, quanto o que nutre por Manuela Ferreira Leite mas, ainda assim, o suficiente para ter integrado a Comissão de Honra da candidatura do, a meu ver, maior e mais extenso pesadelo da democracia portuguesa, na sua recondução à presidência da República em 2011.
Por isso, não surpreende o erro grosseiro de AG ao no DN de hoje informar, alardeando especioso rigor, que na entrevista de quarta-feira passada, 27, à RTP 1, JS «repetiu em 57 ocasiões a palavra "narrativa"» nem a diligente dúvida [capitis diminutio? - quem tenha comissariado publicamente Cavaco a algum zelo público na preservação da sua imagem se há-de achar compelido...] no uso do adjectivo “discutível” e uma bondade franciscana no substantivo “trapalhadas” quando, 5 linhas adiante, escreve «Não importa que, com a discutível excepção do ataque às trapalhadas do PR, a prestação do eng. Sócrates roçasse o patético.» 

Pois bem: JS pronunciou a palavra "narrativa", bordão insuportável dos tempos que correm, 31 vezes, duas no plural; nem mais nem menos. Onde foi AG, senão à gula do ódio, inventar 26 narrativas? Nem com os 13 "embuste(s)" que o entrevistado proferiu [por favor, caro leitor, confie no meu rigor e noutras coisas em or, que ver e rever os 92 minutos da entrevista a contar as palavras todas* deu-me um trabalheira do camandro] a fazer de narrativa, as narrativas montariam a 57. Portanto, AG enganou os incautos legentes [dão-se-me amiúde umas metempsicoses de Llansol de que não consigo despossuir-me] do DN em 84% de narrativa não narrada. Engano doloso é uma hipótese. 

Quanto ao grunho de Belém, subscrevo Ferreira Fernandes, Sócrates, os outros e ele próprio, no DN de anteontem

«[…] Sócrates foi moderado, criticou no PR falhas de solidariedade institucional. Ora com Cavaco um animal feroz levantaria outra coisa: aquele que é hoje o Presidente de Portugal ganhou de um banco, num ano, mais do dobro do que lá tinha depositado - e, depois de ter sido provado que o banco era de bandidos, não devolveu as mais-valias. […]» 
No seu lençol de vesânia anti-socrática – “A entrevista” -, diz AG: «[…] a que se resume afinal o eng. Sócrates? A pouquito, uma mediocridade arrogante e uma calamidade política que subiu na carreira à custa de manha, sorte e atraso de vida. […]» 
Eu não diria melhor, ipsis verbis, mutatis mutandis, com cabimento sextuplicado - e estou a ser injusto com JS -, a respeito do dr. Cavaco Silva. 

À medida em que fui repassando o vídeo foi-me curiosamente ficando mais nítida a percepção de que entre os 50 preopinantes encartados que entretanto li e escutei acerca da entrevista, muito mais tolhidos no discernimento ficaram, desta feita, os execradores de Sócrates, que não conseguem vislumbrar nele um resquício de virtude do que os seus sequazes, que não lhe conseguem descortinar uma pontinha de defeito. 
Por mim, não morrendo de amores pelo homem, continuo a achar que o Portugal pós-“25 de Abril” ainda não teve primeiro-ministro melhor. Outras coisas boas não se lhe devessem, e devem-se-lhe muitas, a par de alguns desvarios, bastaria o que fez pelo tratamento do nosso lixo. 
Há vários traços de personalidade que me desgostam em JS que não vêm agora ao caso. Vem no entanto uma qualidade política que lhe vejo raramente reconhecida e que creio não lhe faltar: José Sócrates é um genuíno patriota. 

Um momento da conversa: 
JS- O discurso político vale muito […] 
Vítor Gonçalves [VG], entrevistador- Não está a sugerir, engenheiro Sócrates, que o governo deve vender ilusões ao país?... 
JS- O que está a reproduzir é a crítica que me faziam […] diziam que eu estava a vender ilusões; essa era a crítica que me faziam. Pois eu digo-lhe uma coisa: um político que desiste da confiança, de puxar pelas energias do seu país, que desiste do futuro, é um governante que não está à altura das suas responsabilidades. 
VG- Não pondo em causa a verdade… 
JS- Com certeza! Mas a política faz-se com construção. 
[…] 
Um dos problemas deste governo é ter matado qualquer expectativa. Eu percebo que o governo quando chegou não quisesse ter as mesmas prioridades do governo anterior. O governo disse que não gostava do investimento nas escolas nem das energias renováveis nem das novas oportunidades nem das barragens nem do Magalhães nem de nada. O governo tem o direito de dizer isso, mas tem de responder a uma pergunta: afinal de que é que gosta? E não há país que possa ser governado sem uma esperança, sem vontade, sem ambição. O dever da política, o dever dos governantes é traçar um rumo. Sabe o que me faz lembrar o governo ao longo deste dois anos? Faz-me vir ao espírito a frase da Divina Comédia, do Dante; quando se entra no Inferno, quando o personagem entra no Inferno, “Vós que entrais, abandonai toda a esperança”. Este governo foi o que fez. […] O que parece o discurso deste governo é um discurso de expiação, de punição; isso é um erro. 

Em resumo e finalmente, a conversa começou assim: 
VG- Porque é que José Sócrates, que esteve os últimos dois anos em Paris, decidiu regressar à política através do comentário político? 
JS- Em primeiro lugar, há um tempo para tudo na vida. […] Este é o tempo para tomar a palavra. É isto que desejo fazer. […] Tomar a palavra. 
Por outro lado, entendi também que era o momento de falar. 

Falou e disse. 
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* Acusam Sócrates de ter estado, como sempre, arrogante, desabrido, mal-educado. Foi? 
É certo que disse 16 vezes repare, escaparam-lhe quatro Eh pá, um chocarreiro O que lhe posso dizer é o seguinte, pá… e até um Oh homem!, para Paulo Ferreira. Mas, e as 76 vezes em que pediu desculpa [desculpe(m)-me, desculpar-me-á(ão)…]? E as 68 em que pediu licença ou permissão [se me dá(ão) licença, se me permite(m)deixe(m)-me dizer-lhe(s)…]?

sábado, 30 de março de 2013

Acordo Ortográfico [78]

«[...] as pessoas sentem como intolerável que o poder político se ocupe de questões que não lhe dizem respeito e que não podem ser submetidas ao arbítrio de quem detém o monopólio da violência legal. O Governo legisla hoje sobre a norma ortográfica como legisla sobre a nossa saúde, o nosso corpo e a nossa vida. É a isto que se chama biopolítica. Mas as razões de indignação surgem agravadas por um outro factor: o Governo arroga-se o direito não apenas de exercer essa violência legal, mas de o fazer em relação a uma matéria da qual manifestamente não percebe nada. À violência junta-se a ignorância. E, a somar à violência e à ignorância, há ainda uma razão estratégica absurda e anedótica: a de fazer da unificação ortográfica (que, afinal, é uma miragem e, por agora, já resultou num desacordo mais fundo do que aquele que tínhamos antes) um instrumento de conquista de poder e de influência da língua portuguesa no mundo. Por último, a coroar todas estas razões, há a desordem ortográfica a que afinal ficámos submetidos [...]»
António Guerreiro, "O Acordo Ortográfico e os seus trolhas" | Público/Ípsilon, 29.Mar.2013

sexta-feira, 22 de março de 2013

Acordo Ortográfico [77]

«Escritores, jornalistas, professores e alunos reuniram-se na quarta-feira para debater o Acordo Ortográfico, no fórum "Onde Pára e Para Onde Vai a Língua Portuguesa?", Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa. João Bosco Mota Amaral, Miguel Sousa Tavares, Nuno Pacheco e Maria Alzira Seixo pronunciaram-se contra o diploma, na qualidade de “cidadãos da língua portuguesa” - palavras de Miguel Sousa Tavares.
[…]»

Cidadãos da língua portuguesa” sentem-se assaltados pelo Acordo Ortográfico

Público online [jornalista Ana Freitas], 22.Mar.2013


- x -  
«[…]
defendendo em teoria os benefícios de um AO, devo reconhecer que este AO a que se chegou, após o longo e sinuoso processo negocial que escusado será aqui recordar, tem causado muitos danos à lusofonia que tanto defendo.
Não vou aqui entrar na argumentação mais técnica – sendo certo que sou particularmente sensível, por formação (filosófica) à questão da filologia (“sem filologia não há filosofia”), não é menos certo que a língua portuguesa, antes deste AO, já estava, em muitos casos, longe da raiz filológica. Para mais, tenho, até por razões académicas, uma visão histórica da língua: leio frequentemente textos antigos e constato que a língua já mudou (muito) mais antes do que agora com este AO. Dito isto, não posso deixar de reconhecer que este AO tem recomendações que a mim me causam as maiores reservas.
[…]»

Tamanho

- Quanto calças?
- 41
- E em erecção?

















________________________
Está bem:
- Não tanto.

Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Jorge Coelho, José Sócrates...

«[…]
Segundo um novo hábito em expansão, quem saiu de cena como político reentra e recicla-se como comentador.
[…]
Mas o que é, afinal, essa "ciência" do comentário político, tal como ela é praticada? Trata-se de um discurso parasitário que reduz a política a mera gestão (isto é, que a confirma e conforta naquilo em que ela de facto se tornou), onde se fazem análises e profecias que não saem do jogo das tácticas e das estratégias. É tudo um jogo, no qual os comentadores falam de um lugar em que se representam como detentores do monopólio da objectivação pública. A resposta a dar-lhes deve consistir em tornar a lógica deles reversível, isto é, em objectivar os detentores do monopólio da objectivação. Devemos então começar por verificar que aquilo a que eles se dedicam e a que chamamos comentário tem o alcance de uma estereotipada fraseologia.
[…]»

sábado, 16 de março de 2013

António Guerreiro na Estação Meteorológica,

às sextas, no Ípsilon do Público.

«[…] o que é curioso verificar é que esta visão que a Igreja tem da homossexualidade é reproduzida nos media muito modernos, muito desinibidos, que até preferem dizer “gay” a “homossexual”, mas assim que vêem alguns homossexuais juntos acham que eles não podem estar a fazer outra coisa senão a fornicar ou a reivindicar a consciência de classe. […]»
- x -
«[…] porque não é fácil recuperar ou aprender os gestos, os manifestantes apoderaram-se novamente da Grândola. É uma citação evidente, através da qual uma imagem do passado entra em constelação com o presente. Mas saberá, quem entoa a canção, apreender o que é absolutamente inédito na actual situação, ou estará o seu gesto, como parece, preso a um encanto mítico, a uma cegueira que impede de estar à altura das exigências do nosso tempo? […]»
- x - 
«[…] Assim se cumpre o desígnio da musealização do mundo, ou seja, da exposição sub specie aesthetica de tudo o que já fez parte da vida. Eis a estética como factor de anestesia. Eis o museu a elevar o kitsch à máxima potência e a retirar à arte e à cultura todo o efeito. […]»

Paulo Varela Gomes entrevistado por António Guerreiro

Retrato do escritor enquanto reaccionário e comunista utópico

quarta-feira, 13 de março de 2013

Messi, perdão, meço

a vida em jogos olímpicos e em Papas. Nestes, vou, desde 1953, no sétimo e em mais iria não fosse João Paulo II [1978-2005] ter-me consumido grande parte da biografia. Com sorte e em Deus querendo, se Ele existir, ainda sobreviverei ao septuagenário Francisco — com quem, por enquanto, eleito minutos atrás,  simpatizo —, pelo que é bem provável que morra, saciado de papas, ao oitavo.
Em olimpíadas é que estou a ficar velho com'ó caralho: já cá moram 14.
Tempus edax rerum e não se fala mais nisso até que se volte a falar.

terça-feira, 12 de março de 2013

Rodrigo Leão

Estive, das 21:30 até perto da meia-noite de sexta-feira passada, 8, a referendar o meu impiedoso e leviano juízo acerca de Rodrigo Leão a 10 metros do palco onde ele actuava. Impõe-se-me rectificar o sal e pedir perdão: vendo e escutando com maior disponibilidade, Rodrigo Leão é muito menos mau do que fiz aqui constar.
Por outro lado e apesar daquele maneirismo todo dos 5/4 e dos 7/4, entremeados de 6/8, de quebrar os rins, e da enxurrada de tonalidades menores dissonantes em que a incursão bissexta de acordes maiores perfeitos soa a nenúfares na inquietude, Rodrigo Leão não é mau de todo.
Como previra, a quem saí rendido do CCB foi à Celina da Piedade. Bravo, Celina!
Muito esperneia a humanidade, senhores!

"Conclave"

Genial.

«Rectaguarda europeia» | «América protecionista»

O sempre magnífico Manuel S. Fonseca escreve «de acordo com a antiga ortografia»; e faz ele bem. Por isso, achei graça ao facto de na exaltação calipígia de há dias ter usado tantos cês na retaguarda, que sempre se escreveu sem c, que não lhe sobrou nenhum para usar onde a antiga ortografia manda que se use.

segunda-feira, 11 de março de 2013

O bispo de Bragança que se cuide

Consta que Clio se queixou do senhor bispo ao pai.
Com um assédio desta brutalidade, eu não queria estar na pele do Cordeiro.
A justiça divina é terrível.

Olhos adentro

Está visto que os anúncios começados por a são os que primeiro chamam a atenção.
Eles têm tudo estudado.

«O futebol

ainda pode ensinar fascismo ao fascismo.»

sexta-feira, 8 de março de 2013

Para que olha e que segura

a mulher enquanto mija?

quinta-feira, 7 de março de 2013

Capas

Em 25 anos de publicação, apenas oito das 122 capas da LER trouxeram caras de mulher; em rigor, de seis mulheres: Lídia Jorge em 1988 e em 2011; Agustina Bessa-Luís em 1990 e em 2009; Margarida Rebelo Pinto em 2008; Inês Pedrosa [só os olhos] em 2010; Hélia Correia e Sophia de Mello Breyner Andresen em 2012. Curiosamente, nenhuma destas capas é do período de 2000 a 2006, em que a LER foi dirigida pela única mulher que a dirigiu, Mafalda Lopes da Costa.
Aparente, estranha, pertinaz e bisonha misoginia - de que o Francisco José Viegas pessoalmente decerto não padece, já lhe e nos bastando dele a cavacofilia hórrida... - talvez o explique. 
Para variar, este mês, mais um descolhoante macho.
Já o JL prima por variar, quase sempre em regime de excelência, coisa que a capa da presente quinzena, com esta senhora linda, não desmente.

Rogério Casanova

na LER de Março de 2013:
 
- "Balas sobre o globo", sobre Neal Stephenson e o seu livro mais recente, Readme
«[…] A tentativa de aliar sabedoria e compressão resulta muitas vezes em algo difícil de distinguir da arbitrariedade. […]» - RC
- ‘Consultório literário’ – Grandes contos
«[…] Parece-me preguiçosamente fácil regurgitar aqui uma lista devastadora de alguns dos melhores exemplos da forma, portanto é exactamente isso que vou fazer. […]» - RC
 
«Berlim! O simples nome da metrópole ainda desconhecida, o peso surdo da sua primeira sílaba e a ligeira ressonância da segunda, bastava para o excitar da mesma maneira que o faziam os nomes românticos dos vinhos bons e das mulheres más*.» - Vladimir Nabokov, traduzido por Miguel Serras Pereira, citado por RC.
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* Como Tatiana.

quarta-feira, 6 de março de 2013

terça-feira, 5 de março de 2013

Viva o Público!

«[…] um alambique de alquimista, uma égua com dois potros, um mancebo enrabado mai-los seus dois alcaiotes
[…]
algumas sombras e alguns fantasmas, alguns noivos com os respectivos convivas, doze peidos envergonhados, outras tantas bufas sem cheiro […]»
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Não tendo, desde 05.Mar.1990, perdido nenhuma das 8364 edições do Público, sinto-me apto a considerar que, no seu 23.º aniversário, o diário do Belmiro traz o melhor editorial de sempre.