domingo, 19 de janeiro de 2020

By Ace Chen

Não me intrometo no chinfrim zoante que por aí anda sobre que coisa seja arte, pois d'arte nada sei, só a sinto.
Mas não me vou sem uma isentíssima colherada*: isto, sim,** cheira-me a bom gosto. [emoji de riso, s.f.f.]
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* E mais outra, que ainda tenho espaço: a Electra 8 já cá canta. Vida de intelectual não pode ser só Correio da Manhã.

** Que pena os amaricanos não usarem acentos...

Ó Pedro Mexia, tento nessa língua...

ora! Última hora! Última hora! Última hora! Última hora! Última hora! Última h

Pedro Mexia diz «items».

«quais são os items dessa acusação que lhe é feita?»

«são aliás todos os items da minha ementa»
os itens

«O punk, nesse sentido, para mim é a epítome desse lado de energia» 
o epítome 

«sensação que basta ser verosímel — não é preciso ser verdadeira —, basta ser verosímel para ser bastante grave.»

«está aberto a qualquer solução possível e imaginária para continuar no poder»

«atenção, eu não sou daquelas pessoas que acha que»
daquelas pessoas que acham

«não faço parte das pessoas que diz "não aconteceu nada"»
das pessoas que dizem

«Uma das coisas que acontece, uma das coisas que acontece muito foi aquilo que o Germano disse.»
uma das coisas que acontecem

Pedro Mexia é dos portugueses que por aí escrevem e falam que mais admiro.
Mas, lá está*, há sempre o perigo de crianças por perto
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* Tique incontinente e relapso do comparsa Ricardo Araújo Pereira, por sinal ultracuidadoso no manejo da gramática.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Coprolalíadas

Desde que, Primavera de 1981, li "Ler na retrete", de Henry Miller*, numa retrete de Campolide, em Lisboa, não mais deixei de ler nelas.
E o que tenho aprendido, meus amigos!

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«[...] Na minha opinião hoje lemos para nos livrarmos, primeiro, de nós próprios; segundo, para arranjarmos defesa contra perigos reais ou imaginários; terceiro, para nos mantermos a par dos outros ou impressioná-los, o que é o mesmo; quarto, para sabermos o que se passa no mundo; quinto, para nosso prazer, ou seja, estimular e elevar as nossas actividades, para nos enriquecermos. [...]»

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

RTP 2020 - 16 cantigas

Liminarmente banidas
Rebellion - Não é cantiga portuguesa.
Abensonhado - Não é cantiga.
Dói-me o país - O Caracol até que não tem má voz, mas os 25 segundos de não-cantiga lá pelo meio estragam tudo.
Movimento - Não é cantiga.
Suficiente +
Cegueira - Comparem-se os primeiros 40 segundos com os primeiros 40 de "Happy together", de The Turtles, 1967*.  O mesmo Fá sustenido menor e tudo...

Bom - 
O dia de amanhã
Medo de sentir  - Elisa, a melhor voz.
Bom
Mais real que o amor  - Pese ou talvez por causa do Albinoni que por ali perpassa.

A melhor cantiga
Passe-partout - O melhor arranjo.

Mandasse eu, poupava-se nos jurados e na electricidade, e era assim.
Tudo por ordem, aqui.
A vitória de Rebellion não me surpreenderá. Quem manda no metabolismo da traquitana é a contingência do senão.
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Amor

Tu.
Meu embarque.

Três retratos tipo-passe de Rui Rio

O de Salvador Malheiro, caudatário peralvilho de RR, na entrevista radiodifundida pela TSF e publicada no DN [tenho o DN por jornal oficioso do presidente do PSD eleito em 13.Jan.2018] de 11.Mar.2018, na qual trata todos os nomes pelo nome, excepto o do seu chefe a quem se refere invariável e reverenciosamente por «Dr. Rui Rio».

O do escritor Manuel Jorge Marmelo na revista Notícias Magazine de 18.Mar.2018: 
«[...] fiquei elucidado quanto ao carácter do indivíduo que tem sempre a boca cheia de ética.»

O do senhor que aplaude à esquerda de quem olha, na Convenção do Conselho Estratégico Nacional do PSD, em Santa Maria da Feira, 16.Fev.2019 .

Quem não o conhecer que o compre.
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«Quando não se tem grande estofo, procura-se fazer uma política de casos — compreende? —, de casos. E isso, se leva o adversário, neste caso sou eu, a responder caso a caso, onde é que cai o debate? Cai em baixo na lama, fica aqui muito rasteiro.»
Então não, doutor? Se a política não é de casos, de que é ela? É mesmo isso que se exige: que o presidente do PSD responda pelos casos. De que foge, afinal?
E estou a marimbar-me no estofo do Montenegro.

«Na corrida à liderança interna do PSD...»

Esperamos ansiosamente por notícias da liderança externa do PSD.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

55055

Curiosidade frívola, não mais.
A edição n.º 44044 saiu há 11 anos; 11 anos antes, a n.º 33033; etc. Em papel.
Só daqui a outros 11, se o defunto ressuscitasse, haveria de sair* a edição n.º 66066.
O Diário de Notícias morreu em Julho de 2018.**  Desde aí é semanário, por sinal muito bom.
Entretanto, para manter a correnteza dos números, vão forjando diariamente uma mentira incorpórea.
Ainda assim, não deixou de mexer comigo a primeira página da edição n.º 55055, de ontem.
DN online é outra coisa. 
Conforme entre outras ocasiões contei nesta, o Diário de Notícias é há 50 anos parte dos meus dias. Por isso me emociono e encanito. 
Tudo triste.
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* Hesito nestes tempos verbais.

** Sei da crise geral na imprensa, mas muito me sugere que a menstruação sincronizada de Daniel Proença de Carvalho-Fernanda Câncio-Ferreira Fernandes-Pedro Marques Lopes, que acarinham desde sempre Rui Rio na direcção do PSD*** [os indícios são copiosos; se pedirem, mostro. A Justiça, ai a Justiça!, o medonho e velhaco Ministério Público, a violação do segredo, a inversão do ónus, o direito premial..., esta gente parece atormentada. O ectoplasma de José Sócrates leva a sair daquela casa.****] e decerto o preferirão agora a Montenegro, ajudou a rejeição dos leitores e apressou o enterro do meu velho DN. 

*** «[...] O PSD estava sem mensagem de esperança e colado a um período que todos queremos esquecer. Rui Rio pode não gozar de um estado de graça no seu partido, mas tem condições para renovar a ligação do PSD aos portugueses e recuperar os eleitores que o abandonaram.
E mostrou uma qualidade que começa a ser rara na classe política: a coragem de dizer o que muitos pensam mas não se atrevem a dizer.
O seu discurso foi, nesse aspecto, inovador. É com coragem e determinação que se afirma uma liderança.»

**** «03.Dez.2019 - A solução para a crise do jornalismo é simples
É dar dinheiro a quem o faz – What else? No caso da imprensa escrita, face à actual oferta, jamais daria dinheiro à Cofina, à Impresa, à Sonae e quejandos, exemplos de pasquinagem que degradam e infectam o espaço público. Dou dinheiro pelo DN, sete euros e tal por mês, e assim continuarei a fazer enquanto o produto me continuar a respeitar como cidadão. É simples.
[...]»

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O inefável e escorregadio Tolentino

«[...] Lá vi então José Tolentino Calaça de Mendonça a desfilar pela internet, vestes cardinalícias, sorriso de orelha a orelha, recebendo o beija-mãos dos seus patrícios, rodeado de padrecas e de autarcas todos impantes de importância, sob o olhar embevecido da mãe e perante a velha espinha dobrada do povo miúdo, ele todo mesuras, ares de santidade e gestos de sábio em câmara lenta. [...]»

«[...] um alto representante da Igreja que arrebata almas e corações de crentes, intelectuais e gente que se arrebata nas coisas da poesia e da espiritualidade. [...]» 

Com fala e ar seráficos característicos do clero católico que sabe tudo, e ensina, sobre amor e sexo,  pouco ou nada fornicando, o poeta, ensaísta, romancista, guionista, teólogo, biblista, conferencista, professor doutor e antigo vice-reitor da Universidade Católica, hoje cardeal, José Tolentino Mendonça é um dos cinco portugueses de que não consta, não se diz, não se ouve, não se vê, não se escreve o mais ínfimo defeito, a mais tímida reserva, o mais leve reparo. É um enaltecido e mui agraciado consenso nacional.*
Neste momento, não consigo lembrar-me dos nomes dos outros quatro.
Sigo-o e admiro-lhe a lira vai para 20 anos.
Matricialmente forjado nas fundas e obscuras berças do vicariato madeirense retrógrado** [perdoe-me, leitor paciente, a saturação pleonástica], leu entretanto muito, frequentou e profissionalizou-se no sinédrio dos autores amados pelos crentes e não-crentes lisboetas aculturados na capela do Rato. Sem dúvida um homem sensível, esperto e espiritualmente vasto, artífice de escrita enfeitiçante, o padre Tolentino tornou-se cosmopolita e fez-se transversal, um intelectual de ampla notoriedade pública, mas sempre fujão, como o diabo da cruz, de qualquer concreta escolha política. Humanismo cristão? Como é particular amigo, lá de casa, de Assunção Cristas, André Ventura, Maria João Avillez, Laurinda Alves, Helena Sacadura Cabral..., se calhar é isso. Mas a gelatina lumbricóide é que não lhe sai do molde. 

* Tive de ir ao inferno, à Maria D'Aljubarrota, para encontrar um rumor desalinhado do uníssono bovino.
** «A celebração [graduação em bispo, Jerónimos, 28.Jul.2018] foi presidida pelo cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e teve como bispos co-ordenantes o cardeal D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, e D. Teodoro de Faria, bispo emérito do Funchal.»

Tolentino não é propriamente fiável. Às vezes disparata alarvemente, como, por exemplo, no texto ensaístico que co-assinou com Alfredo Teixeira no Expresso de 06.Mai.2017, "Fátima, um estado de arte", em que se discorre sobre a relevância de Fátima na "Viagem a Portugal"***, de José Saramago, fazendo errónea e recorrentemente crer que o livro é de 1995 e contextualizando socialmente o fenómeno desde 1995. Ora, de 1995 é a 23.ª edição da obra, primeira sob chancela da Caminho, que li em 1981 — 14 anos antes! —, ano em que saiu a 1.ª edição - Círculo de Leitores.
...
Da Batalha eu fui a Fátima
Onde a fé vive bem mais

Só a fé poderá salvar Fátima., escreveu José Saramago [página E|30], sim, mas em 1981, não em 1995.
Reconhecendo pertinência na decepção que a feiura evidente do recinto causou em Saramago, os autores do ensaio — padre Tolentino e teólogo Teixeira, docente na universidade de que o primeiro era vice-reitor — tecem loas ao incremento arquitectónico e estético, operado de 1995 para cá [muita e boa arte, uma moderníssima e bela nova basílica, concordo]. Já quanto ao imenso, obsceno e insaciável comércio de bugiganga, promessas e esmolas, praticado ou patrocinado pelo santuário, nem um pio. O móbil da Católica é dinheiro, o móbil de Fátima é dinheiro e nisso, manda a prudência do suc€$$o, não se toca que pode espantar os fiéis. A Educação e a Fé são os melhores escudos do negócio.
Cabe, assim, pôr aqui frases inteiras da passagem de Saramago, o viajante, pela Cova da Iria, em 1981, negrito meu, de que Tolentino e Teixeira fugiram a sete pés:
«[...] O viajante, que é impenitente racionalista, mas que nesta viagem já muitas vezes se emocionou por causa de crenças que não partilha, gostaria de poder comover-se também aqui. Retira-se sem culpas. E vai protestando um pouco de indignação, um pouco de mágoa, um pouco de enfado diante do estendal de comércio das inúmeras lojinhas que aos milhões, vendem medalhas, rosários, crucifixos, miniaturas do santuário, reproduções mínimas e máximas da Virgem. O viajante é, no final das contas, um homem religiosíssimo: já em Assis o escandalizara o negócio sacro e frio que os frades agenciam por trás dos balcões. [...]»
De resto, Saramago ainda foi bondoso com a reitoria do santuário ao deixar no tinteiro a proliferação pantagruélica dos sorvedouros de esmolas, o mercado de promessas e o mastodôntico negócio da queima de cera.
E a coisa — ainda há três dias lá estive; relembro que o Plúvio é devoto de Fátima — não pára de inchar, inchar, inchar.
Conte o leitor as vezes que a palavra «euro» entra nesta notícia recente, com percentagens várias e muitos milhões, caucionada pela directora de comunicação do Santuário de Fátima, Carmo Rodeia.
Ora bem: zero, Ave Maria, cheia de graça...
//
E que tal a gramática de Tolentino?
Tem dias. Aí vai, por amostra, um punhado de merdas colhidas desde 2013 na página do insigne e purpurado colunista do Expresso, "Que coisa são as nuvens". 

Uma alma caridosa explique a sua excelsa e doutorada eminência que áurea por aura é erro grosso:
«foram despojados da sua áurea»
«com a áurea acrescida trazida pelo uso»
«esta mulher, sem áurea de letrada»
«Quando progressivamente as estradas se foram colonizando pelo tráfico automóvel»
tráfego automóvel, foda-se!

«com os seus sofrimentos, os seus revezes»
revezes é feminino e nada tem a ver com os reveses a que Tolentino alude.

«Veja-se, por exemplo, o ênfase simbólico que tem sido dado»
a ênfase, raios!

«novos interfaces tecnológicos»

«Quanto muito, e por uma condescendência especial»
«Quanto muito tem crescido o voyeurismo que sobrevoa a existência alheia»
quando muito, se não se importa.

«As personagens do mundo homérico são, sem dúvida, melhor descritas.»

«Quem não sabe parar, não sabe viver»
«connosco mesmos e com os outros»
vírgula proibida / connosco e com os outros

«Jantava, lavava a louça e colocava-se a escrever
Abrenúncio!

«a morte iniciava a rondar-lhe os passos» 
Abstruso.

«Ao que parece, durante anos, o compositor John Cage sondou a possibilidade de elaborar uma obra completamente silenciosa, mas impedia-o duas coisas: [...] Contudo, encorajado pelas experiências que se realizavam já nas artes visuais, construiu a sua peça intitulada 4’33’’»
impediam-no duas coisas

«Saímos e regressamos de casa»
regressamos a casa

«À medida que fazemos a experiência deste lugar deixamos de saber se os longos trechos de caminho de floresta nos preparam para contemplar as obras artísticas ou se o encontro com estas inicia-nos, finalmente, num contacto verdadeiro com a natureza.»
ou se o encontro com estas nos inicia

«O mais provável é que tenham perecido a uma doença»
perecido de uma doença

«Aquilo que Durkheim chamava "as formas elementares" do fenómeno religioso podem encontrar-se, sem grandes contorcionismos simbólicos, no entusiasmo colectivo que o desporto-rei desperta.»
aquilo ... pode encontrar-se

«O pássaro domesticado vivia na gaiola e, o pássaro livre, na floresta […]
Meu amor voemos para o bosque»
Terá sido por esta tradução ou por esta, ambas brasileiras, que Tolentino se conduziu. Adaptou uma ou outra frase, como «Vem antes ter aqui comigo» ou «não podiam voar alinhando as suas asas», cumpliciando-se desleixadamente na pontuação desastrosa. Deixasse-se guiar por esta tradução, igualmente brasileira, e não se espalharia tanto. Ou então, o mais avisado, traduzisse ele.
Senão, veja-se a versão inglesa do próprio Rabindranath Tagore [07.Mai.1861-07.Ago.1941], Nobel da Literatura em 1913:
«[...]
The tame bird was in a cage, the free bird was in the forest.
They met when the time came, it was a decree of fate.
The free bird cries, "O my love, let us fly to wood."
[...]» 

Só mais uma, doutra monta. 
O hábito de o ler diz-me que Tolentino é artista na ocultação das gárgulas de que bebe.
«[…]
No pólo oposto, o poeta Rainer Maria Rilke ajuda-nos a pensar a ideia de aberto**** como projecto. E o aberto o que é? É a possibilidade de cada um viver em abertura fecunda ao real, resumida assim: "A nossa tarefa consiste em impregnar esta terra, provisória e perecível, tão profundamente em nosso espírito, com tanta paixão e paciência que a sua essência ressuscita em nós o invisível."
[…]»

**** «O termo “Aberto” foi criado por Rilke para exprimir essa abertura do ser para a vivência fecunda do real.»
- Nota de Alexandre Bonafim Felizardo, da USP (Universidade de São Paulo), no artigo "Dora Ferreira da Silva, leitora de Rainer Maria Rilke: aspectos intertextuais", publicado na revista "FronteiraZ"***** n.º 5, de Agosto de 2010, pp 156-165, isolado aqui. No mesmo artigo escreve ABF: 
«[…]
Esse trabalho transmuta as coisas, torna-as interiores a si mesmas e a nós, torna-as invisíveis. Conforme as palavras do próprio Rilke: “A nossa tarefa consiste em impregnar essa terra, provisória e perecível, tão profundamente em nosso espírito, com tanta paixão e paciência que a sua essência ressuscite em nós o invisível.” (Rilke apud Blanchot, 1987, p. 138). 
[…]»
***** Da PUC-SP [Pontifícia Universidade Católica de São Paulo]
Nota
Ao matreiro Tolentino, escondendo do leitor do Expresso que trasladou do brasileiro, escapou que em português europeu teria de ser «no nosso espírito».
E mesmo dando de barato que, no contexto da citação de Rilke, o conjuntivo «ressuscite em nós o invisível» do Felizardo faz mais sentido do que o indicativo do «ressuscita em nós o invisível» do Tolentino, ainda assim a ideia da ressurreição d' o invisível continuava a soar um tudo-nada aberrante. Como não sei alemão [«Unsere Aufgabe ist es, diese vorläufige, hinfällige Erde uns so tief, so leidend und leidenschaftlich einzuprägen, daß ihr Wesen in uns "unsichtbar" wieder aufersteht.» - Rainer Maria Rilke, 13.Nov.1925] e não tenho mais nada que fazer, guglei. E não é que no suplemento "Vida literária" do Diário de Lisboa de 06.Jul.1961 António Ramos Rosa, falando de Herberto Helder, citava o mesma passagem rilkeana, aqui, sim, com fraseado convincente?
«A nossa tarefa é impregnar esta terra provisória e perecível tão profundamente no nosso espírito, e com tanta paixão e paciência, que a sua essência ressuscite em nós invisível.»
Que lhe parece, senhor padre bispo cardeal, etc. e tal?

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

sábado, 11 de janeiro de 2020

Miguel Sousa Tavares conta mal e não fala melhor

Tenho presente uma conversa na telefonia, há meia dúzia de anos, em que Miguel Sousa Tavares, jornalista veterano e escritor, falava do empenho máximo — cuidado com erros de português, verificação atenta dos factos — com que prepara a página que desde Janeiro de 2006 assina todos os sábados no Expresso. 
Pois bem:
«[...]
Quando a minha avó morreu, em 1967, ... havia dois canais de TV em Portugal: um passava o telejornal e o "Bonanza", o outro a missa e a "TV Rural".
[...]»

Da avó nada sei, mas lembro-me da RTP em 1967, tinha ele 15 anos e eu 14.
Missa, Bonanza e TV Rural, todas as semanas; Telejornal, diariamente. E continuariam no mesmo canal — RTP 1 —  após 25.Dez.1968 quando já havia dois; eucaristia, farueste e «despeço-me com amizade» sempre ao domingo.

Ainda Miguel Sousa Tavares, jornalista e escritor:
«E a Pedro Santana Lopes aplica-se como uma luva os versos do fado de Amália»
aplicam-se

«De resto, além de coleccionarem "apoios" para que o país se está nas tintas e de caciquarem as bases, confundindo-as com o país, nenhum deles avançou até agora com a mais pequena, insignificante, modesta ideia de como servirem Portugal.»
Arrebicarem, de arrebique; alambicarem, de alambique; clicarem, de clique; repicarem, de repique; despicarem, de despique…
Caciquarem, de cacique, valha-nos Santa Carameca!? Ó doutor Miguel Sousa Tavares, que javardice de gramática é essa?

«Os portugueses têm à partida uma desconfiança de quaisqueres políticos, de quaisqueres políticos! Isso faz parte do bota-abaixo de café.»
quaisquer  ... quaisquer, chiça!

«E portanto, quando ele [presidente da Coreia da Norte] agora oferece aos amaricanos o desmantelamento das instalações nucleares, ele está a oferecer uma coisa que já existe.»
americanos

«Sérgio Moro interviu directamente a favor da campanha do Bolsonaro como já tinha intervido a favor do impeachment da Dilma.»
interveio  ...  intervindo, foda-se!

É isto um escritor esmerado? É isto um jornalista escrupuloso?
O pior, insisto, é o perigo de crianças por perto

Amor com amor se paga

- Se vieres ao meu funeral prometo que irei ao teu.

Achava absoluta e universalmente inexequível um mútuo destes até ao dia em que Afonso de Melo, por sinal dos que mais bem escrevem nos jornais portugueses, me trouxe notícias do Gana: 
«[...] Os ga* gostam de ir aos enterros uns dos outros. [...]»

D. Esperança, que é quem morrerá por último, vai ao funeral de toda a gente.
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Correio celestial

«A caixa de correio de Nossa Senhora
Há um arquivo com mais de oito milhões de documentos onde está escrita uma parte relevante da história recente de Portugal. São cartas enviadas, ao longo de décadas, para o Santuário de Fátima com Nossa Senhora no remetente.
O Expresso teve acesso a esse acervo*, que revela agora em primeira mão.»

Imprudente, escrevi aqui, em 26.Mai.2017: «OK, a Senhora não escreveu nada».
Tivesse consultado o jornalismo de referência credível e não incorreria em tão temerária afirmação.
Afinal, é o Expresso a asseverá-lo, a Senhora não pára de escrever...
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* acesso a esse acervo é coisa que soa a çççç, não contando com o ç de soa, a este destinatário que com atenção lê, humildemente escuta e respeitosamente se subscreve, com os melhores cumprimentos,
Plúvio.

Em tempo
«Rectificação
No último número da Revista, a chamada de capa do artigo sobre as cartas de Fátima continha um erro: onde se lia "remetente" deveria ler-se "destinatário". O Expresso apresenta as suas desculpas aos leitores.» - Expresso, 11.Jan.2020

Rectificação feita — só lhes fica bem —, restará saber onde arranja a Senhora, entre a lida do céu e a realização de milagres, tempo para ler tanta tralha...
Quanto às quejandas desculpas, remeto eu agora para ali.

Direito premial, sim ou sopas?

«[...]
A minha opinião é claríssima: a delação premiada é uma prática abominável, que qualquer Estado de direito deveria liminarmente rejeitar. [...]
A denúncia premiada traz ao de cima a podridão que as sociedades escondem por vergonha.
[...]»

E, por exemplo, na Alemanha?
«[...]
Até finais dos anos 70 do século passado, na Alemanha não havia qualquer tipo de negociação em termos de julgamentos criminais: nem do tipo do plea bargain americano, nem da delação premiada brasileira, nem fosse o que fosse. Os julgamentos iam-se fazendo. 
As primeiras negociações informais de sentenças a troco de confissões terão surgido por diversos factores, mas não há dúvidas de que um deles foi o aumento de crimes de grande complexidade, especialmente crimes “de colarinho branco”, que exigiam muito maior trabalho de investigação e de complexa recolha de prova do que os tradicionais crimes como o roubo, o furto e os homicídios. [...]
Tornou-se evidente que o processo penal na Alemanha, em que todas as provas devem ser apresentadas, lidas e discutidas em julgamento, não estava preparado para lidar com os complexos casos de crimes económicos, em que as provas são, muitas vezes, uma imensa quantidade de dados e documentos com a audição de um sem-número de especialistas e testemunhas. A morosidade da justiça tornava-se insuportável. [...]
Em Portugal, estes desvarios da exótica Alemanha, seguramente reminiscentes da Stasi e da PIDE, nunca serão permitidos graças à nossa florescente indústria da morosidade e da impunidade.*»
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* Quantas fotografias de figurões que por aí vicejam o amável leitor consegue enfiar nesta frase? Dezenas várias?
Isso ou muito mais, e coriscos me fulminem se me veio à lembrança Manuel Pinho... 

sábado, 4 de janeiro de 2020

O efeito Bobadela*

Enquanto a Austrália arde, a Indonésia submerge e a guerra não começa, vivo no melhor lugar do mundo.

«Aquilo não é propriamente o bairro da Jamaica, não estamos a falar ali da Bobadela

«Esta classe média que era pobre antes de se tornar média, se mora na Bobadela não quer ir morar para os Olivais. Quer é instalar-se em Nova Iorque.»

«Este John Travolta da Bobadela está a coisa mais linda do mundo!»

«O arraial da Bobadela, do Algueirão e de Caxias. Os santos populares nos subúrbios.»

«Eu já comecei a aceitar a Bobadela na minha vida
//
Moro na Bobadela, concelho de Loures [não confundir com esta Bobadela, esta Bobadela ou esta Bobadela], desde 1981.
Vivem aqui sportinguistas, indianos, brancos, chineses, pretos, testemunhas de Jeová e alentejanos simpáticos, em proporção harmonizada.
A Bobadela é um sítio soalheiro e arranjado. Tem uma pastelaria óptima a que o meu amigo João chama "a Versailles da Bobadela" e dois restaurantes supimpas: este e este onde ainda hoje almocei umas belas lulas grelhadas. E, não menos importante, tem o Elias.

E portanto não tenho a menor dúvida devo dizer à dona Clara Ferreira Alves: «E se falasse ali do Caralho, que fica no enfiamento do Páteo Bagatela** de quem está de costas para a civilização»?
Fodam-se igualmente Ana Marques, Paulo Farinha e Xana Alves que nunca deverão ter posto cá os pés. Paulo Farinha, jornalista que prezo, teria obrigação de averiguar que arraiais de santos populares na Bobadela, azar seu, não são costume.
E não, caro e persistentemente formidável [como ainda ontem - "Às ordens do cliente"] António Guerreiro, confirmo que não me apetece nada «ir morar para os Olivais», mas muito menos para Nova Iorque.
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* Os kikos de Cascais dizem conceito.

** Eis a incomodada senhorita clamando no melhor semanário nacional contra a favela onde reside:
«[...] tudo, rigorosamente tudo, mudou para pior desde que lá comecei a morar. […] Recapitulando, nesta imundície não se consegue respirar. Não se consegue estacionar. Não se pode protestar. Não há um canto que não tenha buracos, pedras da calçada fora do sítio, desnivelamentos e armadilhas para os velhos. As baratas deslizam no Verão.
[...]»
Clara Ferreira Alves, "Tu és a revolução Expresso/E, 29.Set.2017
Ó doutora, saia da merda, a vila de Bobadela acolhê-la-á. Até rima com Bagatela e tudo...
Só para dar um cheirinho, veja-me a pinta desta sala de estar. Que tal? Por que espera? Venha, não se acanhe que eu apresento-a ao condomínio.

Ouvi, lede e ride

... e dizei-me se estes seis minutos e meio — Alberto Gonçalves, "O presidente, o comendador e o atraso de vida" | podcast "Ideias Feitas", Observador, 02.Jan.2020 — não vão lindamente com a partitura magistral [a alegria, essa é visível de ver], mais uma, de

No caso de RC, confesso, casquinei. Salvou-me o sábado.
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Mais sabei, se o não souberdes já, que João Taborda da Gama, ainda que (ainda) não afamado por isso, escreve muito bem e tem graça. Atentai, por exemplo, no balanço soft-core desta carruagem:
«[...]
E quando disse que se despia toda logo que entrava no comboio voltou a cruzar o olhar com o meu, ... talvez por isso, e porque já tinha falado em se despir, e tinha mostrado a roupa interior, sentiu necessidade de trazer respeito à coisa e contou do marido, um chato [...]»

Não tendes de agradecer. É um gosto. Pago as assinaturas.