terça-feira, 23 de maio de 2017

Culto tonto da intemporalidade?

Para a peça que assinou no DN de sábado, 20.Mai.2017, "Espero que o ego não o coma", Fernanda Câncio recolheu informação e testemunhos de pessoas mais directamente ligadas ao trajecto musical de Salvador Sobral, nomeadamente Júlio Resende que o vem acompanhando nas gravações e nos concertos.
A jornalista fez decerto tenção de saber a idade do pianista algarvio, conforme se depreende da seguinte passagem, negrito meu:
«Resende, que prefere não dizer a idade, tinha já vários discos editados quando conheceu Salvador.»

Os deuses sabem quanto estes buracos negros na informação me desafiam e acicatam a curiosidade. Está claro que me pus logo na net à cata da certidão de nascimento do Resende. Por nenhuma outra motivação, friso, que não a do apuro científico dos meus conhecimentos de antropologia aplicada e a da pura bisbilhotice — adoapuroeadapura —, sim, bisbilhotice, que um homem que só se alimente de Malinowski nunca irá muito longe no entendimento do Homem.

De modo que tive de ir por arrevesados cálculos geológicos segundo e depois dos quais se me afigura seguro afirmar que o Resende terá nascido entre o Cretácico Inferior e o Quaternário Holocénico.  
Se o leitor amável não vir nisso atrevimento soez da minha parte, estou até capaz de arriscar, na falta de calculadora mais sofisticada, que o Resende nasceu no Antropoceno.

Enfim, acho quase sempre mesquinho, para não dizer ridículo, o escondimento ou a sonegação da idade, como se fosse possível escapar às singelas datas que precedem e se seguem ao hífen da nossa efemeridade
Num puto com ar de ter nascido no decénio de 80 do século XX, parece-me mera tontice. Mas está no seu direito e terá as suas razões; eu é que tenho um feitio esquisito.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Viktor Vidović,

É certo que boa madeira para guitarra até na árvore soa.
Mas estas mãos, senhores!...

Prometo mudar de assunto.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Ascenso Simões,

transmontano vaidoso, crente em Deus mas mais piedosamente em José Sócrates, afirma em entrevista à Sábado de 10.Mai.2017 que o Papa Francisco «Não é um mariano convicto».  
Ora essa, senhor deputado!? Quem lho disse? Onde leu? 
Entre outras proclamações de exuberante e ardorosa marianofilia — ó p'ra ele, faz três dias, a acenar à boneca —, bastaria ao socratodevoto Ascenso ter presente as conclusões de dois documentos nucleares do enaltecido pontificado de Francisco:
- Carta encíclica "Lumen fidei" ["Luz da fé"], de 29.Jun.2013, capítulo IV, pontos 58. a 60., "Feliz daquela que acreditou";
- Exortação apostólica "Evangelii gaudium" ["Alegria do evangelho"], de 24.Nov.2013, * capítulo V, parte II, pontos 284. a 288., "Maria, a Mãe da evangelização".
Se Jorge Mario Bergoglio «não é um mariano convicto», convoque-se de imediato, para dissipação da heresia ascênsica, o sinédrio dos morcegos da Biblioteca Joanina

Apontamentos do 13 de Maio

Saudação fogosa na paz de Cristo da filha do primeiro-ministro ao presidente-arlequim.

Mãos de António Costa atrapalhadas no pai-nosso. Ali, só o pio Marcelo e a intérprete de língua gestual sabiam como e onde pô-las.

Segurança do Santo Padre. Pelos vistos, o Deus a que se confia não é guarda em que confie. 

António Marto, bispo de Leiria-Fátima, dirige-se ao Papa: Peço-vos permissão para em vosso nome enviar uma carícia aos pequeninos.
Permissão dada, diz o viscoso Marto: Caros amiguitos e amiguitas, o Papa Francisco envia-vos uma carícia cheia de ternura.
Confesso que me repugnou a saturação pleonástica da «carícia cheia de ternura».
"Seis por Meia Dúzia: à sombra duma azinheira" - TVI, 14.Mai.2017
Obrigado, Victor Moura-Pinto, por estes deliciosos seis minutos de fervor.

Merecem ponderação os comentários de Cipião Numantino, Carlos Quartel, Joaquim Moreira, Pedro Varela, Ribeiro Pinto, Maria Machado, Jorge Madeira Mendes, Aónio Lourenço, Diogo Mendes, Rui Franco, Ribeiro Pinto, José C. Aguiar, João Magalhães, Vítor Costa Lima.
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* Relembre-se que é nesta Exortação que o bonzinho do Papa Francisco diz que «o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência.». Não sei se patético se apatetado. Mas eu sei pouco, cerca de nada.

Respeitosamente.

Isto é

um divertido assombro de cinco minutos e quarenta.

«espera lá, Arlindo! Isto é lindo»

Insisto no reconhecimento e grande mérito de Luís Figueiredo, autor do arranjo.

sábado, 13 de maio de 2017

Música

«[…]
Pedro Barroso não é autor de concessões ao fácil, ao “light”, à fama fútil e efémera. Soube criar, com mestria, a sua forma ímpar de estar no mundo da interpretação e da criação musical e literária. A sua música tem um especial sabor épico, que a sua forma de a transmitir acentua sublimemente. Os seus temas cruzam tempos numa simbiose natural de vivências e memórias, anseios e esperança, sonhos e utopias, de “passado contido no futuro” e de futuro prenhe de pretérito. Nele, a portugalidade é enaltecida e jamais olvidada (“a nação ternura”), sem, porém, esquecer o que não nos enobreceu ao longo da (nossa) descoberta.
[…]»

Bagão Félix passou-se. Bagão Félix precisa de otorrino urgentemente. Que literatura ou poesia tem lido Bagão Félix? Que música ouve, que compositores aprecia? Que estranhas coisas dirá o dicionário de Bagão Félix do verbo «criar» e do adjectivo «sublime»?
Ora bem. Sucede que «PB não é autor de concessões ao fácil» ... nem ao difícil, simplesmente porque não consegue, não pode, falta-lhe o duende, não nasceu para aquilo.
«mestria» ... «criação musical e literária»? Ó Bagão, tento na língua.

Literariamente, Pedro Barroso não alcança sequer a carpintaria de Quim Barreiros.
O engenho e a criatividade do músico Pedro Barroso variam, empolgam e enfeitiçam como a névoa do lusco-fusco.
Homenzarrão, vozeirão, talento minguado. O pior é que se leva a sério e levam-no a sério — caso do bom do Bagão Félix — como grande artista.

Comparados com Pedro Barroso, os irmãos Sobral são puro Bach.
Se o Salvador não ganhar logo à noite em Kiev, confirma-se aquilo de que se suspeita: a Europa anda surda.
O arranjo de Luís Figueiredo, céus, aquele arranjo!… Magia.  
Bravo, João Dias! A humanidade ainda não está inteiramente perdida.

Três ou quatro dias na vida alucinante e devotada de um presidente-arlequim

17 de Abril, segunda-feira
Órfão e devoto de Camarate-atentado, Marcelo chega a Tires antes de quase todos; ainda assim com ligeiríssimo atraso: a avioneta já se tinha despenhado.
Ia decerto para se certificar das provas de sabotagem. Receio é que sem a assessoria iluminada de Helena Roseta, especialista em aviões que marram no chão, não vá longe no desenvolvimento e sustentação da tese conspiratória.

18 de Abril, terça-feira
Devoto de Cristina Ferreira, Marcelo reúne com os bruxos em casa de Leonor Beleza. «[…] fez várias incursões bem humoradas pela política interna, em ritmo rápido e cuidando não ter jornalistas na sala, deu um exemplo concreto: a queda da avioneta em Tires. "O poder político tem de estar pronto a responder a situações como esta." […]» - Público, 18.Abr.2017

12/13 de Maio, sexta/sábado
Devoto de Fátima, com uma estranha e fechada anomalia no primeiro ó:

Entretanto, meteu no saco o bandolim do Acordo Ortográfico.
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* Plúvio, devoto.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Tavares & Tavares e o incenso dos Joões

"O coro dos defuntos", publicado em Novembro de 2015, valera a António Tavares, no mesmo ano de 2015, o "Prémio Leya" — 100.000 euros —, de cujo júri Manuel Alegre aparenta ser presidente perene.
Na edição de 2013, António Tavares fora finalista vencido com "As Palavras que me deverão guiar um dia", publicado em Agosto de 2014. 
O escritor António Tavares, advogado, jornalista e professor, foi eleito em 2009 e reeleito em 2013, pelo Partido Socialista, para a Câmara Municipal da Figueira da Foz de que é hoje vice-presidente, mas não é isso que vem ao caso.
O que me traz é o livro "Todos os dias morrem deuses", que não li nem conto ler, o mais recente do autor, que teve lançamento oficial em 21.Abr.2017, faz hoje três semanas, e que mereceu no DN definhante de Pedro Marques Lopes, de Proença de Carvalho e de José Sócrates imediata recensão abonatória de João Céu e Silva em 29.Abr.2017 e, dois dias depois, apreciação não menos encomiástica de João Gobern.
"O coro dos Joões", isso.*

Em 2008, os primeiros 100.000 euros do Leya ganhou-os o brasileiro Murilo Carvalho, com "O rastro do jaguar", não se lhe conhecendo títulos ulteriores.
Em 2009, com "O Olho de Hertzog", venceu o moçambicano João Paulo Borges Coelho que publicaria em 2010 "As visitas do Dr. Valdez", em 2011 "Cidade dos espelhos", em 2013 "Rainhas da noite" e em 2016 "Água - Uma novela rural".
Em 2010, o prémio não foi atribuído.
Em 2011, com "O teu rosto será o último", ganhou João Ricardo Pedro que publicaria "Um postal de Detroit" em 2016.
Em 2012, com "Debaixo de algum céu", Nuno Camarneiro que veio a publicar em 2015 "Não acordem os pardais" e "Se eu fosse chão".
Em 2013, com "Uma outra voz", Gabriela Ruivo Trindade que voltou a publicar em 2016: "A vaca leitora".
Em 2014, com "O meu irmão", ganhou um miúdo nascido em 1990, Afonso Reis Cabral, que nada publicou entretanto.
Em 2015, o dito Tavares.
Em 2016, Manuel Alegre voltou a não premiar ninguém.
O vencedor de 2017, havendo, será anunciado lá para Novembro próximo.

Todo este aranzel porque João Céu e Silva, jornalista que muito prezo, escreve a propósito de António Tavares o seguinte despautério, destaques meus:
«[...] Diga-se que é o único dos premiados com o "ambicionado" Prémio Leya que anualmente corresponde com um livro ao interesse dos leitores pelos finalistas vencedores deste galardão. Dos restantes, ou não se ouve falar ou entregam projectos demasiado bissextos à editora. [...]»
Leviano, para não dizer ridículo. E injusto para alguns premiados. De resto, nem é verdade que o incensado Tavares tenha escrito todos os anos depois de 2015, já que em 2016 não publicou nada. Ao contrário, por exemplo, do Plúvio que escreve anualmente, sem falhas, no seu T3 na Bobadela, as actas do condomínio: a de 2016 e a de 2017. 
Mas gostei de ver em 14.Abr.2017 o Céu a falar da sua Fátima no Inferno do Canal Q.


O que conheço da escrita de António Tavares não me arrebata: algo pretensiosa, incapaz de uma boa metáfora, a puxar para o críptico e vocabularmente esotérico. Afinal, não é Aquilino quem quer.
Uma amostra:
«[…]
FEVEREIRO, 2015
[…]
Embrulhava-me num cobertor, madrugada a abrir-se aos machacazes que aricam as alvercas e os barrosais, para delas tirarem sustento. Vou mudando de espaço e de tempo e era** muitos, como um coro.
[…]
E tinha Aquilino diante de mim. Aquilino rima com Luandino.
[…]
OUTUBRO, 2015
[…]
E tocava o telefone. E tocou: "Vou passar ao Manuel Alegre", disse-me uma voz. Alegria, pois.***
[…]»
António Tavares, "Diário de um prémio" | JL 1176, 28.Out.2015

E vós, Plúvio, se vos enxergásseis?
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* Não estou certo é de que tenham lido o mesmo livro:
o do João Céu e Silva tem 172 páginas e custa 12,90 €; 
o do João Gobern é maior e custa menos: 176 páginas, 11,61 €.

** Vou ... e era ... [?!]


*** Então não? Pudera! Para quantas doses de amêijoa à Bulhão Pato dão 100 mil euros?

segunda-feira, 8 de maio de 2017

«Completamente»

Luís Marques Mendes, ontem, no "Jornal da Noite" da SIC, afiançou que o Partido Socialista convidara Júlio Magalhães.
Reacção do Partido Socialista: «completamente falso».

Faz-me lembrar de um homem «completamente inocente» condenado por crimes de abuso sexual de crianças.

Cheira-me a advérbio de água no bico, completamente desnecessário à verdade. A verdade usa ser despida; o fingimento, não tanto

A consciência limpa ou tranquila não andará longe.

domingo, 7 de maio de 2017

«Também» precoce do Boucherie?

Carla Hilário Quevedo, rematando a sua zurzidela [sim, sua e dela] na Joana Vasconcela, ups!, celos, e no terço mastodôntico que o padre Cabecinhas, de impecável cabeção, lhe encomendou  [por quantos milhares de euros? Essa é a «Quarta parte»…]:
«Acho uma coisa foleira e sem interesse nenhum.»
[…] 
Domingos Amaral- Por acaso eu gosto.
Pedro Boucherie Mendes- Eu gosto também.
Domingos Amaral- Uma das coisas que me surpreendeu neste terço e nesta obra da Joana Vasconcelos  foi de facto ter havido alguma coisa artística relacionada com a religião, de que eu gostei. Porque normalmente a maior parte das coisas
Pedro Boucherie Mendes- Arte sacra, sim.
Domingos Amaral- … que nos últimos anos, que tenha sido feito, vulgo a igreja no Alto do Restelo, do Troufa Real… 
Pedro Boucherie Mendes- Também gosto.
Domingos Amaral- … aquilo é uma coisa abominante!
Carla Hilário Quevedo- Uma coisa medonha, medonha!
"Irritações", SIC Radical, 04.Mai.2017 - De 43:30 a 44:05

E agora, lá para casa, questionário de escolha múltipla:
Que queria Pedro Boucherie Mendes dizer com «Também gosto.»?
A- Gosto da igreja do Troufa Real do mesmo modo que gosto do terço da Joana.
B- Concordo com o Domingos Amaral, também gosto da igreja do Troufa Real.

Aposto em B, apesar da rima emparelhada e da métrica irregular.

sábado, 6 de maio de 2017

Língua do Estado em estado não recomendável

O Primeiro-Ministro não melhora; nem parece que tenha cura.
«[…] muito do que então foi antevisto tem tado a ter concretizações efectivas.»

Repito-me: o pior é que podem estar crianças por perto.

Afirmações espantosas

«[…]
Neste processo, o Ministério Público exibiu despudoradamente uma das especialidades que vem cultivando há décadas: promover covardemente - e criminosamente - campanhas de difamação nos jornais, por forma a transformar a presunção de inocência em presunção pública de culpabilidade.
[…]»
Atenhamo-nos às quatro décadas de Procuradores-Gerais da República designados pela democracia:
João de Deus Pinheiro Farinha, 1974-1977
Eduardo Augusto Arala Chaves, 1977-1984
José Narciso da Cunha Rodrigues, 1984-2000
José Adriano Machado Souto de Moura, 2000-2006
Fernando José de Matos Pinto Monteiro, 2006-2012
Maria Joana Raposo Marques Vidal, 2012-
Pinheiro Farinha [1919-1994] e Arala Chaves [1914-1993] não estão cá para se defender. Mas por que esperam Cunha Rodrigues, Souto de Moura, Pinto Monteiro e a Joana para agir em desagravo e reparação do ultraje, da injúria, da calúnia, da ofensa, da desonra, do insulto e – usando vocábulo querido ao colunista do DN – da infâmia lançada sobre a instituição que dirigiram e Joana Marques Vidal hoje dirige? Onde está o vosso brio, prezados magistrados da nação?
Ou estou pitosga e a afirmação de José Sócrates não configura crime tipificado?
- x -
Miguel Sousa Tavares, paladino desde sempre da não implicação do casal McCann no desaparecimento da filha Madeleine, convencido do rapto — Passa pela cabeça de alguém que os pais, o pai ou a mãe ou ambos, fizessem sumir o cadáver da miúda depois de inadvertida e desastradamente terem errado ou exagerado na dose para a manter quietinha enquanto estavam na comezaina e nos copos com amigos? Nunca jamais em tempo algum, só mentes pérfidas admitiriam um filme desses! —, afirmou o seguinte, em 3 de Maio corrente, no fecho do especial "Caso Maddie – 10 anos" na SIC Notícias:
«Infelizmente creio que hoje Maddie não estará viva já.»
Alto, pára tudo! Afinal, morreu? Como? Quem a matou? Quando? Porquê?
Reabra-se o caso desde o início, mais bem dito, desde que as tapas começaram a chegar à mesa
Miguel Sousa Tavares endoidou ou esgueirou-se-lhe a língua para explicação mais verosímil? O mais verosímil, também quanto a mim mas em 3 de Maio de 2007, é Madeleine ter morrido. E quero crer que os pais sabem, por muito que tentem persuadir a galáxia doutra coisa. E se eles tentam!
Já Miguel Sousa Tavares, que acompanho há 40 anos e geralmente aprecio, é, sabemo-lo, um obstinado de causas fortes: do amor à caça, ao tabaco, ao Futebol Clube do Porto e à orla costeira, ao ódio sistemático, antigo e infrene ao Ministério Público, ao Acordo Ortográfico, à internet social e aos benefícios fiscais a pensionistas estrangeiros. Causas mais fortes do que ele, o Olimpo o abençoe.

Duas afirmações espantosas. Inconsequentes?

Como diz que disse?

Pedro Marques Lopes– E no entanto tu votarias nele (Emmanuel Macron) numa segunda volta…
Daniel Oliveira- Não, não! Nem na primeira nem na segunda volta. Nunca votaria em Emmanuel Macron.
Pedro Marques Lopes- Então votarias em Le Pen.
Daniel Oliveira- Não votaria. Ninguém me pode obrigar a votar numa pessoa com quem discordo em 98% . […] 
Luís Pedro Nunes- Permitirias que a Marine Le Pen…
Daniel Oliveira- Eu acho que o tempo do voto útil acabou. Eu nunca permitirei que me obriguem a escolher entre a xenofobia e a selvajaria liberal. Não escolho entre as duas, não escolherei entre as duas. Não aceito mais que me ponham nessa posição.

Sete noites volvidas, no Eixo do Mal de 30.Abr.2017:
Daniel Oliveira- Eu, como disse, não tenho dúvidas de que a esquerda vai ter que apoiar Macron. […] Sobre o que eu disse na semana passada, eu, perante a possibilidade de a Le Pen vencer — não tinha pensado sequer nessa possibilidade —, acabaria por votar no ex-banqueiro que tem o apoio do Schäuble, acabaria por votar Macron, acabaria por votar em tudo o que, para além do que a Le Pen defende, eu combato politicamente.

Saltimbanco. Sem dúvidas.

Tivessem estes galarotes iluminados e blocosquerditas zonzos pressentido o apelo do condiscípulo Yanis Varoufakis de 02.Mai.2017, veríamos como cacarejariam por cá.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Rui Tavares e Daniel Oliveira, radicais livres

Daniel Oliveira [DO], leninista intermitente de geometria variável- [...] a maior evidência é que o candidato que pode ganhar — que é o anti-sistema — trabalhou na finança, é um membro destacado da nobreza de Estado francesa, foi ministro, é o regime!, a personificação do regime. Estou a falar de Emmanuel Macron.* 
Pedro Marques Lopes– E no entanto tu votarias nele numa segunda volta…
DO- Não, não! Nem na primeira nem na segunda volta. Nunca votaria em Emmanuel Macron.
PML- Então votarias em (Marine) Le Pen.
DO- Não votaria. Ninguém me pode obrigar a votar numa pessoa com quem discordo em 98% […] só concordo com ele nas liberdades cívicas, não concordo em mais nada. […]
Luís Pedro Nunes- Permitirias que a Marine Le Pen…
DO- Eu acho que o tempo do voto útil acabou. Eu nunca permitirei que me obriguem a escolher entre a xenofobia e a selvajaria liberal. Não escolho entre as duas, não escolherei entre as duas. Não aceito mais que me ponham nessa posição. O Macron apresenta-se como uma startup, é uma startup, tem um discurso insuportável. É também um pisca-pisca, ele vai escolhendo conforme, é a coisa menos genuína que pode existir do ponto de vista de acreditar em alguma coisa.
- x - 
«[…] Podemos criticar, lamentar ou até deplorá-lo, mas a grande oposição política do nosso tempo é entre nacionalismo e cosmopolitismo. Negá-lo é que não passa de tolice. […] Nestas duas semanas que faltam até à decisão definitiva dos franceses, antecipo muita tergiversação, muita confusão ideológica e muito preconceito. Mas nunca como hoje é importante saber de que lado se está — e, sobretudo, como se está. Essa é uma decisão crucial, nomeadamente à esquerda. A esquerda que acredita poder roubar os votos nacionalistas à direita através de uma recusa do projecto europeu acaba por reforçar o argumentário que leva uma Marine Le Pen até perto do poder.
Ao não fazê-lo, a esquerda deixa a defesa da Europa a Emmanuel Macron, sobre quem espero ouvir todas as críticas nos próximos tempos: que é centrista, que é liberal, que já foi banqueiro, etc. Tudo isso é verdade. Ao mesmo tempo — expressão favorita de Macron, que já foi criticado por querer tudo “ao mesmo tempo” e já pôs milhares a gritar “ao mesmo tempo” nos seus comícios — ele é o candidato que mais assumiu a defesa do projecto europeu, supostamente impopular hoje em dia. Foi ele que mais claramente disse aos franceses: se quiserem recuperar a soberania francesa em tempo de globalização, só o poderão fazer através da construção de uma soberania europeia. Esse discurso, que pretende — ao mesmo tempo — conciliar a transformação de uma França presa nas suas hierarquias e nas suas exclusões sociais, que quinze anos depois repete a presença da extrema-direita na segunda volta, com a reconstrução de um projecto europeu que mal vai sobrevivendo sem ideias, é um discurso essencial nos dias de hoje. Macron correu o risco de o fazer, e será provavelmente recompensado por ele.
É desaconselhável, portanto, descontar Macron como se fosse apenas um peso-ligeiro. Mesmo a partir de Portugal, as suas propostas europeias — um orçamento para a zona euro, um imposto sobre as multinacionais ao nível da UE e o lançamento de convenções democráticas em todo o continente — podem estar aquém do que necessitamos, mas estão muito além do que tem sido proposto a partir de algum dos maiores países da UE. Menos desprezo intelectual e ideológico, portanto, por quem apesar de tudo propõe um discurso positivo que conta também connosco.»
- x - 
«[...] Dizer que quem à esquerda defende que a soberania democrática só se tem conseguido exercer no espaço do Estado-Nação (uma constatação de facto) tem em Trump e Le Pen o resultado dos seus pontos de vista é substituir ideias por insultos políticos. Infelizmente, Rui Tavares tem-no feito tantas vezes, nos últimos meses, que já não pode ser um excesso de linguagem. Acha que muitas pessoas de esquerda, onde eu estou incluído, são, na prática, aliados dos neofascistas (ou, como disse noutro texto, “mentes intelectualmente superficiais”). E estende este ataque a todos os que tratem o euro como um problema sem cura ou considerem que a União Europeia está politicamente falida, cavando trincheiras de irracionalidade que impedem qualquer debate sereno. Para quem se propunha unir a esquerda é um estranho exercício. [...] Por mim, preferia que o debate à esquerda fosse construído com base na boa-fé, como vi Rui Tavares defender muitas vezes. Percebendo todas as reais diferenças políticas entre os vários pontos de vista: nada une os que se batem pela soberania democrática no espaço do Estado-Nação aos movimentos xenófobos, assim como nada une um europeísta de esquerda aos neoliberais globalistas. Porque se obrigarmos as pessoas a escolher entre a globalização dos financeiros e a Nação dos fascistas estamos a atirar milhões de democratas e progressistas para os braços da extrema-direita. [...]»

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* Faltou a Daniel Oliveira falar no filósofo e no pianista. Mas isso estragar-lhe-ia o retrato mefistofélico de Macron.

domingo, 16 de abril de 2017

Domingo de paz coaxante*

A religião cristã matou muitíssimo, durante muito tempo; deixou de matar tanto; hoje em dia, mata pouco, quase nada. Não era terror, era fé. Entretanto, amansou, adoçou, civilizou-se.
Várias outras religiões ainda matam muito, matam menos, deixaram de matar.
Algumas religiões não matam nada, só entretêm.
A fé muçulmana — sou um ourives do rigor terminológico — é que, desde o primeiro instante, desde a Hégira, vá, nunca parou de dar porrada e matar desalmadamente, mais bem dito, com toda a alma. De há 40 anos para cá deram em chamar-lhe terrorismo islâmico**, extremismo, radicalismo, fanatismo e não sei o quê.

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* Ia para dar à presente mensagem o título "Domingo de pás coalescentes" quando premi sem querer a "Síndrome de Estocolmo" da guerreira ateia Câncio. Tudo mudou de figura. Afinal, o Baygon também mata que farta. 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Em família, no reino dos justos

Manuel Dias Loureiro comove pedregulhos:
«[...]
Hoje se puder ainda vou dar festinhas e beijinhos aos meus netos. Amanhã se puder farei o mesmo. Hoje ainda terei oportunidade de dar atenção e carinho à minha mãe, à minha mulher, às minhas filhas, aos meus irmãos e a alguns amigos. Amanhã farei o mesmo.
[...]»

Daniel Proença de Carvalho, advogado pessoal do doutor Dias Loureiro, é presidente do conselho de administração do "Global Media Group", dono do Diário de Notícias; Paulo Tavares, director-adjunto do Diário de Notícias.
Manuel Dias Loureiro, apaniguado de José Sócrates, é afinal um santo; os companheiros de Dias Loureiro, uma confraria de bondade.

Mundo malvado e sádico! O diabo tomou conta dos tribunais. Quem nos livra da Justiça?
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