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sábado, 14 de maio de 2022

Exaltação do dinheiro na missa do enforcado

«O Banco Privado Português só trata de dinheiro.» 

Deixem-me imaginar.
Cumpridas as formalidades legais e consulares, incluindo a autópsia, traz-se o corpo para inumação na terra que o viu nascer, faz dentro de dias 70 anos
A viagem de trasladação terá um pequeno desvio por Bilbau para celebração da missa de corpo presente, presidida por Vítor Melícias, na sala do museu do Solomon entretanto reservada.    
Da liturgia fúnebre constará a leitura solene de algumas peças literárias de exaltação do dinheiro, seleccionadas entre várias dezenas que o enforcado encomendou a agência especializada e que renderam aos autores, no primeiro decénio do século XXI, 1500 euros por texto, pela seguinte ordem de autoria:
Incumbir-se-ão da leitura, alternadamente, Leonor Silveira e Pedro Abrunhosa, designados por conta da dicção esmerada que lhes é unanimemente reconhecida e por integrarem a lista de autores escolhidos. Assim, a encerrar o referido momento litúrgico, Leonor Silveira lerá o texto de Pedro Abrunhosa e este lerá o de Leonor Silveira.
Não sei se aguento sem chorar.     

Na altura em que rabisco esta fantasia não é possível confirmar se o presidente-arlequim, que é muito devoto e homenageador, comparecerá.


Convenhamos por fim que será difícil congeminar ironia mais cáustica do que a de eu ter sabido do banqueiro morto pelas 9h00 de ontem através de uma notícia no ... Dinheiro Vivo.

terça-feira, 12 de abril de 2022

66 segundos de escorrência fétida

«Foram hoje apresentadasa) as memórias de Daniel Proença de Carvalho. Chamam-se "Memórias do Advogado - Justiça, Política e Comunicação Social".b) O Daniel Proença de Carvalho, há quem goste, há quem não goste dele, é um personagem marcante e como se costuma agora dizer incontornável da democracia portuguesa. Esteve em todos os momentos do nosso regime, até esteve noutros anteriores, particularmente no célebre "caso Sommeronde houve aí uma grande guerra também de regimes, contra o regime, aliás. E portanto, é uma vida, esta aqui, a vida de um homem; é também a vida de muito da nossa história recente. Ele fala sobretudo de justiça, dos problemas da justiça em Portugal. Mas fala também de política e de comunicação social. É um livro que se começa a ler e depois não se consegue parar. É um livro notável de um homem a quem o senhor Presidente da República hoje disse que o país deve muito e eu tenho que concordar inteiramente com o Presidente da República, é um homem a quem eu acho que o país deve muito.»c)
66 segundos de Pedro Marques Lopes, lambecusista-mor do reino, 07.Abr.2022d)
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a) Pressente-se nesta poderosa sala — «veja as imagens» —, ou aqui, um suave, mefítico e sofisticado cheirete a compadres...


c) Talvez PML devesse aduzir, para melhor compreensão pública do acto de propaganda, que o seu advogado, e doutros dignos constituintes como Ricardo Salgado, é o Francisco Proença de Carvalho, filho do Daniel que, já agora, entre multiplicados mesteres de que se incumbiu ao longo de uma existência vivida nos peristilos de poderes vários, foi defensor de José Sócrates e patrão do jornal onde PML publicou semanalmente de 2009 a 2020.e)
 
d) Posaconazol não pára de desconcertar.
«Gosto pelo menos de pensar que tenho um bocadinho de cuidado com as palavras». - 23h05
Nota-se. Palavras não eram ditas,
«O Partido Social Democrata continua a não conseguir ter um discurso que de encontro a este eleitorado moderado». - 23h26
Praticante penoso da língua, há-de reformar-se do comentariado sem que ninguém o elucide de que com o 'ir de encontro', que profere insistentemente, diz o contrário do que quer dizer.
de encontro    ao encontro

e) Tempo de salivante e mal disfarçado contentamento aquele — 2017-2019, num Diário de Notícias ainda animado de socratofilia palpável —, de hossanas ao na altura novel presidente do PSD com Daniel Proença de Carvalho, chefe da trupe, Fernanda Câncio e seu serviçal Pedro Marques Lopes, irmanados no desiderato comum de domesticação do Ministério Público e açaime do juiz Carlos Alexandre que a reforma da Justiça propalada e exigida por Rui Rio — um dos cavalos de batalha no seu programa político — haveria de lograr, assim lhe dessem ouvidos ou o poder necessário.

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Mas para informação substancial acerca da figura incontornável e do livro em apreço, apresentados por Miguel Sousa Tavares, dos mais antigos e persistentes gladiadores-odiadores do Ministério Público, vá lá adivinharmos porquê, nada supera a generosa, suculenta e bem documentada peça, elaborada por  quem sabe e conhece, José, que dá uma ideia do país que muito deve a Daniel Proença de Carvalho, já que nem o frenético arlequim nem o pândego Posaconazol tiveram a gentileza de explicar que gente concreta deve assim tanto a este músico medíocre e que especificada dívida está por cobrar.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Jornalismo

O Estado, detendo a maioria do capital, 50,14%, é quem mais ordena.
Os que mais mandam a seguir — olha que melros — são a Global Media Group [TSF, JN, DN... - Daniel Proença de Carvalho, Afonso Camões, família Oliveira, socratolatria prístina intensiva, Fernanda Câncio, Pedro Marques Lopes, Valupi...] com 23,36% e a Impresa [SIC, Expresso - família Balsemão], com 22,35%.
O resto, migalhitas pouco relevantes.

Pelo que tenho penosamente observado, na Lusa pratica-se um jornalismo entre o geralmente servil ao interesse tácito do governo — nesta altura, seria difícil arranjar melhor garante disso do que a suma eminência da cartilagineidade plumitiva do burgo, o dúctil Nicolau —, o inócuo e, aqui e ali, o jornalismo indigente.

Por exemplo, a Lusa despachou anteontem esta notícia de carácter religioso com o bombástico e enganoso título
«Coreia do Norte anuncia consagração de Pyongyang a Nossa Senhora de Fátima»,
ilustração paradigmática da sobredita indigência.  Digam-me se não é de bradar aos céus, minha nossa senhora!
Mas não menos chocante foi, para mim, a acriticidade mular com que uma dúzia de órgãos de comunicação social, tidos por respeitáveis, replicaram, sem tugir, a disparatada manchete tal qual a Lusa a pariu, com a Coreia do Norte no sujeito da frase.

Isto está um pesadelo e ... Plúvio, bem que escusavas de ser tão enfática e gordurosamente verboso.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Comunitário e justo

O comunitário Pedro Marques Lopes, ateu licenciado em Direito pela Universidade Católica Portuguesa, viciado em golfe, maluquinho do Futebol Clube do Porto, devoto incondicional do meu presidente, o impoluto Jorge Nuno Pinto da Costa, e adepto gaiteiro de Marcelo, o nosso presidente-arlequim, cidadão abastado que pôde por exemplo despender em 1999 436.450,00 € numa moradia unifamiliar na Quinta do Peru, com púlpito permanente na TSF, no Diário de Notícias, no Jornal de Notícias e nas Produções Fictícias/SIC, psitacídeo contumaz do «Estado de direito democrático liberal», antigo apaniguado de José Sócrates, aparenta nos últimos 10 anos viver atormentado com a questão da justiça em Portugal. Recorrentemente enfurecido com procuradores da República indistintos e dois ou três juízes, mancomunados com o Correio da Manhã, e com o atropelo dos, quanto a ele, quatro inamovíveis e sacrossantos pilares dos tribunais — preservação absoluta do segredo de justiçaabsoluta presunção de inocência, inversão do ónus da prova no enriquecimento sem causa e delação premiada absolutamente repudiáveis —, PML mostra-se na sua peleja solidariamente ao lado de Rui Rio, que disfarça mal o rancor antigo que devota ao Ministério Público, alinhado com Daniel Proença de Carvalho [presidente do Conselho de Administração da Global Media Group a quem PML vende opinião no DN (rigorosamente a mesma, com o exacto mesmo guião, que dois dias antes vendeu à SIC de Pinto Balsemão — estúpido é que ele não é, há que saber facturar), no JN e na TSF, advogado pretérito de José Sócrates, pai de Francisco Proença de Carvalho, advogado de Ricardo Salgado e de quem o próprio PML é constituinte] e de menstruação opinativa invariavelmente sincronizada, do que guardo registos profusos, com os seus amigos do peito no DN, Ferreira Fernandes, ex-recente director e Fernanda Câncio, grande repórter.*
Eis como no Eixo do Mal de quinta-feira, 14.Mai.2020, quando se conversava sobre a morte da menina Valentina às mãos do pai-ogre Sandro Bernardo, conforme copiosamente noticiado desde três dias antes, para sua decepção não apenas pelos pregoeiros da Cofina, o trauliteiro comunitário opinou, com solenidade e seriedade inusitadas, secundando Daniel de Oliveira:
«Faço minhas, se ele [Daniel Oliveira] me permite, as palavras dele, e acrescento uma coisa que é importante. Até nestes casos, até nestes casos, é fundamental a presunção de inocência. É particularmente nestes casos que é preciso a presunção de inocência.
DO- Quanto piores os casos...
PML- ... Quanto piores os crimes mais necessários são (?!). Porque só quando nós tivermos, a comunidade tiver — eu acho que tem e perdeu-a (?), não sei agora, é análise para outra altura — , quando nós perdermos esse valor essencial, é aí que abrimos as portas a juízas que não sabem ser juízas  [...] Já sei que vou ter uns tipos no Facebook, mas é nestes que é fundamental a presunção de inocência.»
Pedro Marques Lopes, arcanjo da decência penal, para sossego cívico da comunidade.

Pedro Marques Lopes insiste com frequência em advertir a comunidade com um argumento que tem tanto de aparente mérito como de descarado sofisma: Sim, porque hoje são os outros mas amanhã podemos ser nós as vítimas destas iniquidades da justiça.
Cada qual sabe da suspeita ou sarilhos em que pode incorrer, cada qual sabe das linhas com que se cose, cada qual sabe de quem é compincha ou com quem se deita.**
Sem prejuízo da razão que pontualmente assista à sua incontinente diatribe judiciária, que teme Pedro Marques Lopes? Que concreta vileza da justiça o amedronta tanto e tão pessoalmente

Considerações gerais de PML sobre a justiça e sobre o caso de Sócrates em particular, 05.Mar.2017

PML e o colapso da justiça, 09.Jul.2017

PML: «Não tenho medo nenhum de exagerar. O maior problema da nossa democracia chama-se sistema de justiça.», 28.Out.2017 [Eixo do mal]

PML: «Se, há décadas, toda a gente olha para o lado enquanto a nossa Justiça se vai degradando, porque diabo o conselheiro Gaspar faria diferente? […] O estado da Justiça é o maior problema estrutural do nosso regime. Aliás, a única instituição que regrediu em Portugal desde o 25 de Abril foi a Justiça. [...] É que convém não esquecer: não há assunto mais político do que a Justiça.», 29.Out.2017 [Diário de Notícias]

PML, Rui Rio e o nosso sistema de justiça, 14.Jan.2018

PML e o segredo de justiça, 13.Out.2018

Já agora, ó doutor Pedro Marques Lopes, leu-a toda? Morro de curiosidade por saber que «erros gravíssimos» encontrou. 

PML e os megaprocessos: «Os megaprocessos são na esmagadoríssima maioria das vezes processos que acabam por ter um cariz político, na perspectiva em que o poder judicial pretende aparecer como combatente contra enormes conspirações com origem no poder político. A justiça, no fundo, coloca a aplicação do direito em segundo lugar e quer surgir como uma espécie de salvadora do sistema. Ou seja, não cumpre o seu papel.» - 02.Fev.2019

PML e a inocência de José Sócrates, 25.Abr.2019
[Ali, de cravo na lapela. Em Janeiro de 1986, ia PML fazer 20 anos,
era mais de chapelinho
Prá Frente Portugal!
contra Mário Soares
A propósito da comemoração do 25 de Abril, o impenitente e progressista democrata de sempre informa-nos, ufano, de que desce a Avenida da Liberdade desde 1976. Aí, tinha PML, filho de família reaccionária do Minho, nove anos. Sobre isso há uma história interessante que hei-de contar.] 

PML e o Ministério Público, 27.Jun.2019

PML e o Ministério Público, 29.Jun.2019

PML: «o estado da justiça é, sem dúvida rigorosamente nenhuma***, o maior problema institucional do nosso país.», 21.Set.2019

PML: «As soluções para o lodaçal e roubalheira generalizada em que supostamente vivemos já são conhecidas: inverte-se o ónus da prova, instaura-se a delação premiada, limita-se a presunção de inocência», 23.Nov.2019

PML, o problema da justiça e a democracia em risco, 05.Mar.2020

Não sei de textos ou discursos de Pedro Marques Lopes, que fala amiúde de cobardia e de coragem****, acerca da integridade e do escrúpulo.
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* Não ignorando a crise geral no ramo, tudo me sugere que, dos accionistas à administração e da administração à direcção e à redacção, a atracção tóxica por Sócrates [até eu, Plúvio, até eu fui enrolado...] nos 13 anos anteriores a 2018 não é alheia à deserção de compradores e aceleração do definhamento, agonia e adivinhável extinção em papel do meu Diário de Notícias de sempre e de que continuo assinante.

** E daí, talvez não, nem sempre sabemos. A Câncio, por exemplo, diz que foi enganada.

*** Sem dúvida rigorosamente nenhuma é como usam pronunciar-se os idiotas.

**** PML, "A tabloidização da Justiça e os cobardes", 09.Abr.2017

PML, acerca das reacções de Cavaco Silva e de Pedro Passos Coelho à não recondução de Joana Marques Vidal como PGR: 
«A estratégia é esta: Vamos fazer crer as pessoas que Marcelo é mais um membro da geringonça. […] Daí vêm o texto de Passos e estas declarações de Marcelo. O problema é que são cobardes e a cobardia nota-se logo. E qual é a cobardia disto? É que eles não têm mesmo coragem de dizer claramente que Marcelo Rebelo de Sousa é da geringonça.» -  30.Set.2018, de 01:00 a 05:00 

PML, acerca de «cobardes» e «colaboracionistas» no Correio da Manhã: 
«Clara [...], sabes do que é que tu precisas? Precisas que não haja colaboracionistas e cobardes. E eu digo quem são os colaboracionistas e os cobardes. Os cobardes são as pessoas que são atacadas e não dizem uma palavra contra o Correio da Manhã. […] Os colaboracionistas são pessoas como Santana Lopes, Assunção Cristas, que escrevem naquele jornal.» - 04.Fev.2018 
Pena a coragem e o fôlego de PML não terem dado senão para dois «colaboracionistas». Gostaria de ouvi-lo a chamar com idêntico vigor nomes feios, por exemplo, a Adolfo Luxúria Canibal, Alexandre Pais, Ana Gomes, Carlos Moedas, Eduardo Cintra Torres, Fernando Ilharco, Francisco José Viegas,  Francisco Moita Flores, José Rentes de Carvalho [fez 90 anos há três dias e está aí para as curvas], Joana Amaral Dias, João Pereira Coutinho, José Jorge Letria, Leonor Pinhão, Luís Menezes Leitão, Manuel S. Fonseca, Marcos Perestrello, Maria Filomena Mónica, Rui Pereira ou Rui Zink, colunistas regulares do CM, qualquer deles incomparavelmente melhor a analisar ou a prosar do que PML.

«Felizmente não faço as figuras — por uma questão de higiene —, não faço as figuras de certos comentadores que vivem à conta do facto de alguém lhe [sic] pôr processos.» - 20.Mai.2018 
Aposto em que PML estava a pensar no João Miguel Tavares, processado em tempos por José Sócrates. A apregoada coragem de PML não lhe permitiu nomeá-lo... Definitivamente, o comentador higienizado — que enaltece e se revê na coragem com que Rui Rio «chama os bois pelos nomes» —  desconhece a figura que faz. 

- Mas ó Plúvio, a figura pública de Pedro Marques Lopes é assim tão má?
- É pior. Acho que Ricardo Araújo Pereira, aqui e aqui [sonsinho..., parvinho..., patético ... Ninguém percebe a projecção pública que tem ... Porque é que o Pedro Marques Lopes é o cronista mais bem sucedido do país? ... Não escreve bem, não tem graça...***** ], foi demasiado benévolo.
Fica para próximo verbete a minha demonstração de que PML é pior.
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***** Amigos para ocasiões:
«Reagir a uma crítica com bullying e ataques ao carácter revela dificuldade em estar no espaço público sem ser tratado como uma santinha. O que ouvi do RAP sobre PML esteve ao nível das redes sociais. Pequeno, despropositado, rancoroso e dispensável. O Ricardo tem talento para mais.»

«foi uma enorme surpresa, nunca tínhamos visto nada assim vindo dali. ataques de carácter? ir buscar cenas q não têm nada a ver? optar pela facilidade da piada boateira e pla rasquice da calúnia? considerar-s intocável e acima d crítica? mandar bocas ordinárias? nem pensar.»

segunda-feira, 11 de maio de 2020

A respeito do respeito de Daniel Oliveira pela Igreja Católica

Daniel Oliveira aos berros:
«[...] A Igreja não teve nenhum papel na construção da democracia portuguesa e teve um fortíssimo papel em 48 anos de ditadura! Não, não teve nenhum papel! A Igreja foi totalmente ausente na construção da democracia portuguesa! Zero! Não teve nenhum papel!
Eu respeito a Igreja Católica*, já várias vezes aqui o deixei claro, não respeito a reescrita da História. [...]»

Sou a última pessoa da galáxia a quem algum ministro da Igreja Católica viria encomendar desagravo das declarações deste façanhudo e autoritário preopinante avençado por Nuno Artur Silva**,  por Francisco Pinto Balsemão e por Daniel Proença de Carvalho. Ainda assim e, não vá acusarem-me de batota dialéctica, admitindo que o jornalista quisesse referir-se ao papel institucional da Igreja, não a individualizados membros dela, não resisto a contrapor estes apontamentos de Nuno Teotónio Pereira e de Joana Lopes que encontrei "Entre as brumas da memória", blogue onde, de resto, o filocomunista Daniel Oliveira, que diz pérda no lugar de pêrda, é estimado.
Para que conste.
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* Ahahahah.

Está bem, abelhinhas...

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

55055

Curiosidade frívola, não mais.
A edição n.º 44044 saiu há 11 anos; 11 anos antes, a n.º 33033; etc. Em papel.
Só daqui a outros 11, se o defunto ressuscitasse, haveria de sair* a edição n.º 66066.
O Diário de Notícias morreu em Julho de 2018.**  Desde aí é semanário, por sinal muito bom.
Entretanto, para manter a correnteza dos números, vão forjando diariamente uma mentira incorpórea.
Ainda assim, não deixou de mexer comigo a primeira página da edição n.º 55055, de ontem.
DN online é outra coisa. 
Conforme entre outras ocasiões contei nesta, o Diário de Notícias é há 50 anos parte dos meus dias. Por isso me emociono e encanito. 
Tudo triste.
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* Hesito nestes tempos verbais.

** Sei da crise geral na imprensa, mas muito me sugere que a menstruação sincronizada de Daniel Proença de Carvalho-Fernanda Câncio-Ferreira Fernandes-Pedro Marques Lopes, que acarinham desde sempre Rui Rio na direcção do PSD*** [os indícios são copiosos; se pedirem, mostro. A Justiça, ai a Justiça!, o medonho e velhaco Ministério Público, a violação do segredo, a inversão do ónus, o direito premial..., esta gente parece atormentada. O ectoplasma de José Sócrates leva a sair daquela casa.****] e decerto o preferirão agora a Montenegro, ajudou a rejeição dos leitores e apressou o enterro do meu velho DN. 

*** «[...] O PSD estava sem mensagem de esperança e colado a um período que todos queremos esquecer. Rui Rio pode não gozar de um estado de graça no seu partido, mas tem condições para renovar a ligação do PSD aos portugueses e recuperar os eleitores que o abandonaram.
E mostrou uma qualidade que começa a ser rara na classe política: a coragem de dizer o que muitos pensam mas não se atrevem a dizer.
O seu discurso foi, nesse aspecto, inovador. É com coragem e determinação que se afirma uma liderança.»

**** «03.Dez.2019 - A solução para a crise do jornalismo é simples
É dar dinheiro a quem o faz – What else? No caso da imprensa escrita, face à actual oferta, jamais daria dinheiro à Cofina, à Impresa, à Sonae e quejandos, exemplos de pasquinagem que degradam e infectam o espaço público. Dou dinheiro pelo DN, sete euros e tal por mês, e assim continuarei a fazer enquanto o produto me continuar a respeitar como cidadão. É simples.
[...]»

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

José Sócrates

«[...] Quem vive à custa de outras pessoas é suposto fazer uma vida modesta, sem luxos, para não sobrecarregar quem o ajuda — não vive à grande e à francesa, não vai várias vezes de férias durante o ano, não viaja em executiva, não frequenta restaurantes caros.
Repito: moralmente, a sua conduta era menos condenável se o dinheiro fosse mesmo dele, ainda que vindo da corrupção.»

Pobre e tonto de mim, ingénuo e crédulo quando, entretido a exorcizar o pesadelo cavaquista e a piniculagem, me deixava ir no engodo do lausperene a José Sócrates no pagode do Miguel Abrantes e no «pardieiro» do Valupi  — e noutras capelas —, e nas prosas encomiásticas de Ferreira Fernandes e de Fernanda Câncio [DN e jugular] da governação do namorado desta, sem me sobrar discernimento para vislumbrar o ogre.

A propósito, mantém-se para mim mistério dos maiores, a par da partenogénese da Virgem e da genialidade de Pedro Cabrita Reis, a dedicação persistente e fervorosa de Valupi a José Sócrates, ano após ano, diariamente, sem a mínima quebra, contra a infestação, generalizada em toda a comunicação social menos no condomínio honrado de Daniel Proença de Carvalho, Afonso Camões, ... Ferreira Fernandes, Fernanda Câncio e Pedro Marques Lopes, dos pulhas e dos canalhas, da indústria da calúnia, do esgoto a céu aberto, da desonestidade intelectual, do assassinato de carácter — sim, Valupi diz assassinato mas ninguém é perfeito.
Não é de crime que falo mas de asseio puro e simples, de carácter.* Como consegue Valupi, um dos blogadores que melhor gramática praticam no burgo, estrénuo defensor da virtude e da nobreza da cidade, espadeirar com tais energia, perseverança e sanha em prol de um profuso trafulha como José Sócrates?

Por falar em crime, lidas as 3908 páginas do despacho de acusação no processo da "Operação Marquês", em que José Sócrates é o primeiro arguido, estranhei e decepcionou-me a omissão do, a meu ver, mais grave de quantos delitos ele possa ter cometido: o crime contra a Língua Portuguesa consumado na Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, em co-autoria com a trupe de delinquentes que o assistiam e convalidando a delinquência impune dos estarolas que o precederam, e esse, sim — não é difamação de pulhas avençados na indústria da calúnia —, cabal e publicamente admitido por extenso, José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, aos 9 de Dezembro de 2010. Crime de lesa-pátria.
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* No Aspirina B sabe-se pouco e não se aprende nada sobre lei penal. Já do Porta da Loja, um dos blogues de melhor serviço público em Portugal [arquivo, recortes de imprensa, audiofilia, música, justiça...] não digo o mesmo. Por exemplo, "A prova indirecta no processo Marquês". 

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Fernanda, Tânia, Felícia

«CMTV vai a julgamento por divulgar vídeos de interrogatórios de Miguel Macedo
Três funcionárias da estação vão a julgamento por divulgação das inquirições do ex-ministro, em 2015. [...]»
«O pudor e o respeito
Cara Fernanda, funcionária de Proença de Carvalho e subalterna dos dois jornalistas* que o namorado queria ver à frente de um dos grupos que manda na comunicação social. Escrevias tu, há dias, que eu, funcionária da Cofina, com carteira profissional de jornalista, iria ser julgada por violação de segredo de justiça por divulgar os interrogatórios no processo Vistos Gold. Insurgias-te com a CMTV pelo trabalho no caso da viúva Rosa para terminares, onde querias começar, no processo Marquês e na divulgação do que o teu ex-namorado disse à Justiça. Li-te também quando destilavas ódio no Twitter contra os PSP que divulgaram as fotos dos assaltantes. Dizias que não diferiam dos assassinos da Arábia Saudita. Sabes... Pedir uma casa de três milhões a um namorado também não te deixa muito distante de algumas actividades que eu conheço. Pior: o que vos separa nem sequer é o pudor. É mesmo a falta de respeito pela inteligência alheia.»

«[...] Fernanda Câncio. Conheço-a desde que ela se introduziu nesta área com um grupo de anarquistas que tentaram dar algumas luzes àquela cabeça [...]»

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sábado, 22 de julho de 2017

Alberto Gonçalves, um regalo


Alberto Gonçalves — que Paulo Baldaia escorraçou no início do ano do definhante DN em papel de Proença de Carvalho, José Sócrates, Pedro Marques Lopes e do genro de Aníbal Cavaco Silva, entre outros e com salvaguarda de uma dúzia de jornalistas e colunistas recomendáveis — escreve muito bem, tem muita graça e, não raro, carradas de pertinência.
É decerto isso que faz inveja, acirra e exaspera a arrogância bacteriologicamente pura e imunizada contra a dúvida, a incerteza, o talvez e o ponto de interrogação, designadamente nas capelas de socratolatria.

Sem prejuízo do que aqui escrevi faz sete semanas,  aqui,  aqui,  aqui  ou  aqui, e do que tenho dito da piniculagem ou do PSD.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Cartilagíneos

O cartilagíneo reina no habitat psicanalítico e psicológico* e abunda no mundo político e da politicologia, eclesiástico, comunicacional e artístico.
O cartilagíneo funciona no óbvio previsível. O cartilagíneo não surpreende.
O cartilagíneo não afronta. O cartilagíneo só excepcionalmente confronta. O cartilagíneo não arrisca o prestígio. O cartilagíneo não tem esquinas. O cartilagíneo opina em círculo. O cartilagíneo discorda suavemente. O cartilagíneo tende para o consenso dos contrários. O cartilagíneo e a volubilidade não constituem contradição. O cartilagíneo é mestre no pino e no surf.
O cartilagíneo preza quem lhe paga.
O cartilagíneo ri com facilidade e é publicamente cordato.
Enfim, o cartilagíneo respira e sobrevive eloquentemente no condicional: raramente diz, quase sempre diria; não faz, habitualmente faria; não vai, iria.

Amostra aleatória, falível e subjectiva, de notórios cartilagíneos portugueses que reúnem um mínimo de cerca de seis dos critérios ontogénicos atrás inventariados e definidos pela escala pluvioponderada em muitos anos de observação distraída e atenta:
Não considerei espécimes da área psi, subsumida por cartilagineidade matricial. Psicanalista cartilagíneo, psiquiatra cartilagíneo, psicólogo cartilagíneo, tautologias. Tome-se para exemplo o xarope Júlio Machado Vaz.  

Marcelo Rebelo de Sousa, presidente-arlequim, Cartilaginius rex**. Indestronável. Observemo-lo:
«Ora bom, eu diria só duas coisas: a primeira é a de que — sic, à Pinto da Costa e à Marques Lopes  foi muito útil e importante […]. A segunda observação que eu faria é esta: [...]» 
Marcelo foi sempre assim.

Já a biruta lombricóide*** pertence a um subgrupo dos cartilagíneos, muito populoso, para que agora não tenho tempo.

Com todo o respeito. 
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** Agradeço ao Eremita a formulação taxonómica.

*** Sei de uma lombriga condenada a pena efectiva de três meses de prisão de ventre. 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

O papel triste do Diário de Notícias em papel

A notícia da morte de Armando Silva Carvalho começou a circular pelas 11h00 de ontem, 01.Jun.2017.
Nos jornais em papel de hoje:
i - "O homem que sabia a mar", por José Manuel de Vasconcelos [2 páginas inteiras com chamada na capa]
Público - "Um poeta ácido, lúcido, erótico, político", por Luís Miguel Queirós [página inteira]
Jornal de Notícias - "1938-2017, Armando Silva Carvalho", obituário [1/3 de página]

No Diário de Notícias nem uma palavra sobre Armando Silva Carvalho.
Conheço bem o DN, de que sou leitor indefectível desde 1970 e ultimamente assinante. Estava crente em que depois da direcção medíocre de Fernando Lima [Out.2003-Nov.2004] fosse impossível pior. Enganei-me. Aí está, com Paulo Baldaia ao leme, a direcção porventura mais rasca desde 29 de Dezembro de 1864.
Um desconsolo, este DN definhante de Proença de Carvalho, Luís Montez, genro de Cavaco Silva, Pedro Marques Lopes, "o comunitário" — não sei de colunista tão penosamente apedeuta de pena e de língua na comunicação social portuguesa —, Dias Loureiro e José Sócrates de cujo* "O dom profano" vem, por coincidência na mesma edição em que não houve lugar para a morte de um poeta, promoção da Porto Editora oferecendo um exemplar «a cada 8 chamadas» para o 760 ... ... O vexame a que um tenaz divulgador de filósofos se sujeita.
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* Deus me perdoe a ousadia deste determinante relativo.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Tavares & Tavares e o incenso dos Joões

"O coro dos defuntos", publicado em Novembro de 2015, valera a António Tavares, no mesmo ano de 2015, o "Prémio Leya" — 100.000 euros —, de cujo júri Manuel Alegre aparenta ser presidente perene.
Na edição de 2013, António Tavares fora finalista vencido com "As Palavras que me deverão guiar um dia", publicado em Agosto de 2014. 
O escritor António Tavares, advogado, jornalista e professor, foi eleito em 2009 e reeleito em 2013, pelo Partido Socialista, para a Câmara Municipal da Figueira da Foz de que é hoje vice-presidente, mas não é isso que vem ao caso.
O que me traz é o livro "Todos os dias morrem deuses", que não li nem conto ler, o mais recente do autor, que teve lançamento oficial em 21.Abr.2017, faz hoje três semanas, e que mereceu no DN definhante de Pedro Marques Lopes, de Proença de Carvalho, do genro de Cavaco Silva e de José Sócrates imediata recensão abonatória de João Céu e Silva em 29.Abr.2017 e, dois dias depois, apreciação não menos encomiástica de João Gobern.
"O coro dos Joões", isso.*

Em 2008, os primeiros 100 000 euros do Leya ganhou-os o brasileiro Murilo Carvalho, com "O rastro do jaguar", não se lhe conhecendo títulos ulteriores.
Em 2009, com "O Olho de Hertzog", venceu o moçambicano João Paulo Borges Coelho que publicaria em 2010 "As visitas do Dr. Valdez", em 2011 "Cidade dos espelhos", em 2013 "Rainhas da noite" e em 2016 "Água - Uma novela rural".
Em 2010, o prémio não foi atribuído.
Em 2011, com "O teu rosto será o último", ganhou João Ricardo Pedro que publicaria "Um postal de Detroit" em 2016.
Em 2012, com "Debaixo de algum céu", Nuno Camarneiro que veio a publicar em 2015 "Não acordem os pardais" e "Se eu fosse chão".
Em 2013, com "Uma outra voz", Gabriela Ruivo Trindade que voltou a publicar em 2016: "A vaca leitora".
Em 2014, com "O meu irmão", ganhou um miúdo nascido em 1990, Afonso Reis Cabral, que nada publicou entretanto.
Em 2015, o dito Tavares.
Em 2016, Manuel Alegre voltou a não premiar ninguém.
O vencedor de 2017, havendo, será anunciado lá para Novembro próximo.

Todo este aranzel porque João Céu e Silva, jornalista que muito prezo, escreve a propósito de António Tavares o seguinte despautério, destaques meus:
«[...] Diga-se que é o único dos premiados com o "ambicionado" Prémio Leya que anualmente corresponde com um livro ao interesse dos leitores pelos finalistas vencedores deste galardão. Dos restantes, ou não se ouve falar ou entregam projectos demasiado bissextos à editora. [...]»
Leviano, para não dizer ridículo. E injusto para alguns premiados. De resto, nem é verdade que o incensado Tavares tenha escrito todos os anos depois de 2015, já que em 2016 não publicou nada. Ao contrário, por exemplo, do Plúvio que escreve anualmente, sem falhas, no seu T3 na Bobadela, as actas do condomínio: a de 2016 e a de 2017. 
Mas gostei de ver em 14.Abr.2017 o Céu a falar da sua Fátima no Inferno do Canal Q.


O que conheço da escrita de António Tavares não me arrebata: algo pretensiosa, incapaz de uma boa metáfora, a puxar para o críptico e vocabularmente esotérico. Afinal, não é Aquilino quem quer.
Uma amostra:
«[…]
FEVEREIRO, 2015
[…]
Embrulhava-me num cobertor, madrugada a abrir-se aos machacazes que aricam as alvercas e os barrosais, para delas tirarem sustento. Vou mudando de espaço e de tempo e era** muitos, como um coro.
[…]
E tinha Aquilino diante de mim. Aquilino rima com Luandino.
[…]
OUTUBRO, 2015
[…]
E tocava o telefone. E tocou: "Vou passar ao Manuel Alegre", disse-me uma voz. Alegria, pois.***
[…]»
António Tavares, "Diário de um prémio" | JL 1176, 28.Out.2015

E vós, Plúvio, se vos enxergásseis?
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* Não estou certo é de que tenham lido o mesmo livro:
o do João Céu e Silva tem 172 páginas e custa 12,90 €; 
o do João Gobern é maior e custa menos: 176 páginas, 11,61 €.

** Vou ... e era ... [?!]


*** Então não? Pudera! Para quantas doses de amêijoa à Bulhão Pato dão 100 mil euros?

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Em família, no reino dos justos

Manuel Dias Loureiro comove pedregulhos:
«[...]
Hoje se puder ainda vou dar festinhas e beijinhos aos meus netos. Amanhã se puder farei o mesmo. Hoje ainda terei oportunidade de dar atenção e carinho à minha mãe, à minha mulher, às minhas filhas, aos meus irmãos e a alguns amigos. Amanhã farei o mesmo.
[...]»

Daniel Proença de Carvalho, advogado pessoal do doutor Dias Loureiro, é presidente do conselho de administração do "Global Media Group", dono do Diário de Notícias; Paulo Tavares, director-adjunto do Diário de Notícias.
Manuel Dias Loureiro, apaniguado de José Sócrates, é afinal um santo; os companheiros de Dias Loureiro, uma confraria de bondade.

Mundo malvado e sádico! O diabo tomou conta dos tribunais. Quem nos livra da Justiça?
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Salgado é um arcanjo, Sócrates um anjinho

Não negando a incomodidade com a detenção para interrogatório do compincha, José Sócrates falou:

«Há um aspecto que me deixa preocupado e que me causa incómodo e não vou deixar de o referir. … O ponto que me incomodou foi este: foi o facto de a justiça ter decidido levar Ricardo Salgado para ser interrogado sob detenção, tratando-se de crimes, como dizem, de burla, falsificação, fraude fiscal e branqueamento de capitais. O que é que me espantou nisto e que me causa incómodo? … É claro que a justiça tem este poder que lhe foi dado pela lei, mas as explicações que foram dadas até ao momento para se deter…, isto é, porque o acto de detenção significa privar alguém da sua liberdade. É um acto, digamos assim, forte. É uma possibilidade que a justiça tem que só deve usar em circunstâncias devidamente justificadas. É de facto uma situação muito humilhante para o próprio, muito infamante. Se a justiça age de uma forma ou doutra mediante alguém que detém poder ou mediante alguém que caiu em desgraça, isso seria absolutamente horrível. Realmente isso incomodou-me. Eu não vi até hoje nenhuma explicação que me convencesse de que era necessário deter o próprio para o levar a interrogatório. Essas razões que vêm nos jornais são razões um bocadinho pueris e não me convencem. Acho que a justiça ganhava em explicar-nos a todos porque é que deteve Ricardo Salgado, tendo ele, segundo vem nos jornais, tendo-se declarado disponível para responder às questões que lhe queriam colocar, porque é que o deteve e insistiu em que ele fosse responder ao interrogatório sob prisão. O acto de deter alguém para o levar a interrogatório…, porque eu percebo que mediante um crime grave, umas evidências muito fortes …, mas deveria haver mais explicações em relação ao acto de detenção.»
RTP, domingo, 27.Jul.2014 [Versão integral não disponível.]

Exemplo de três abstracções simples, razoáveis ou não, que o amável leitor do Chove nunca lerá nas capelas blogosféricas da socratolatria:
1. Deixemos que a justiça faça o que tem a fazer sem pressa nem precipitação, sem constrangimento nem pressões. Demos tempo ao tempo. Que se investigue e apure tudo, demore o que demorar.
2. Ninguém deve ser responsabilizado pelos amigos que escolhe e mantém.
3. Armando Vara é um cidadão impoluto, sujeito impecável, acima de qualquer suspeita. Gestor e político a quem Portugal deve muito.

Os devotos inoxidáveis de José Sócrates agastam-se com as delongas da justiça, entre outros pecados capitais de que a acusam. Não perdendo de vista a pressa da malandragem em que se investigue pouco e se arquive tudo, manda a honestidade saber que a rapidez judicial não é o requisito mais exigível, nem aconselhável, em todos os contextos de ilicitude como, aliás e por motivação pérfida, ninguém o sabe e pratica mais proveitosamente do que os craques forenses do recurso e da estratégia dilatória.
Por mim, que moro na Bobadela e viajo de passe social, nestes tentaculares e complexos casos de colarinho branco com bandidos espertos e endinheirados, não posso senão apreciar uma justiça competentemente serena e paciente. Vagarosa, se necessário, como os melhores tintos e as boas fodas, sem desdoiro das rapidinhas.*

Já o Correio da Manhã era há muito — desde o ovo, por assim dizer, em 1979 — esgoto a céu aberto, e lá escreviam, por exemplo, Medeiros Ferreira e Emídio Rangel, ambos falecidos em 2014.
Quem foi porventura o maior e mais tenaz amigo que José Sócrates algum dia teve a escrever na imprensa portuguesa?
Emídio Rangel, no Correio da Manhã. Lembro-me de como, ano após ano, sábado atrás de sábado, na coluna "Coisas do circo" o defendia, e aos seus governos, com arreganho e perseverança granítica, contra tudo e contra todos. Também eu, nessa altura, ia por Sócrates, votei nele. Mas entretanto li merdas, ouvi merdas, vi muitas merdas. Não me confino nem me esgoto no JL, na LER, na Colóquio Letras ou no Aspirina B, ai de mim! Tanto que se aprende na merda, senhores! E garanto que há maneira de não nos sujarmos. Seja dito que não insinuo que o CM é pura porcaria; mas lá que a faz, faz, e não pouca. 
Pessoas como Fernando Medina, Rui Moreira, Rui Pereira, Magalhães e Silva, Ana Gomes, Joana Amaral Dias, Baptista-Bastos, Marinho e Pinto, Mário Nogueiraescrevem, algumas falando na televisão do esgoto a céu aberto, avençadas no Correio da Manhã. Devo crer, camarada Valupi**, que só por forte inclinação e comprovado jeito para trabalhos em fossas e sarjetas se dispõem a receber uns trocos da Cofina?

Nisto, dá-se anteontem o caso do 20.º arguido. Novo rebuçadão, como era de esperar, para o esgoto a céu aberto do dia seguinte.
Sorte nossa podermos dispor de alternativas asseadas, sérias, ditas "de referência". Observei duas.
JN: «Banqueiro indiciado por cinco crimes é suspeito de ter corrompido Sócrates». Em jornal dirigido por Afonso Camões, amigo de José Sócrates, confesso que não esperava tantos pormenores na capa.
DN, perdão!, «novo Diário de Notícias». No das bancas, o do anúncio, em papel, chamada no canto inferior direito da capa sem a palavra «crimes», muito menos «cinco», «corrompido» e «Sócrates» nem pensar; na página 9, vá lá, a coisa aparece aceitavelmente desenvolvida por Carlos Rodrigues Lima, mas a doçura da capa é todo um tratado.
Quem sabe no DN online, perdão!, no «novo DN» online tivéssemos mais sumo, melhor e mais pormenorizada compreensão do que levara Ricardo Salgado ao Departamento Central de Investigação e Acção Penal e ao Tribunal Central de Instrução Criminal. Fui ver. Tá quieto ó pret, ups!, ó Plúvio. Uma única chamada na página principal [em português vernáculo, home page]: «Advogados de Sócrates dizem que nova suspeita é "falsa e absurda"», estampando a parelha causídica mais charmosa da galáxia. Só a escarafunchar na secção "Portugal" se chegava a uma informação minimamente jornalística do que, aos olhos da justiça, parece conluiar Sócrates e Salgado.
Daniel Proença de Carvalho, amigo e advogado de José Sócrates, presidente do conselho de administração do grupo a que pertence o DN, e agora colunista; Francisco Proença de Carvalho, seu filho, advogado de Ricardo Salgado. Há lá maior garantia de noticiário sobre Sócrates e Salgado animado por um «jornalismo guardião da verdade, da busca dos factos e liberto das amarras do poder político ou económico»? É este, relembre-se para conforto e confiança dos leitores mais exigentes, o Diário de Notícias do Pedro Marques Lopes.

Mas afinal, Sócrates mente ou não mente?
- Eu sobre Sócrates o que sei é que ele mentiu. Na entrevista que eu lhe fiz [Expresso, 19.Out.2013] ele mentiu, mentiu. E mentiu mesmo! Mentiu bem e mentiu mesmo!
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* «aprendi como é devagar —
comer devagar, sorrir, dormir devagar, cagar e foder —
aprendi devagar.»
Herberto Helder

** Valupi, curioso mas impossível anagrama feminino de Plúvio, e este, anagrama masculino daquele, honni soit qui mal y pense.