quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O engenheiro e os filósofos

Na célebre entrevista ao Expresso de 19 de Outubro corrente, Clara Ferreira Alves perguntou a José Sócrates, sobre a nacionalização do BPN,

- Está arrependido?

José Sócrates respondeu esta coisa destemida e tremenda, sem qualquer endosso autoral ou remissão filosófica,

- Arrependermo-nos é errarmos duas vezes.

Mais para o fim, dizia José Sócrates,

- Citando um filósofo, a política é a eterna aprendizagem do convívio com a decepção.

Como o engenheiro Sócrates não facilitou e a doutora Clara Ferreira Alves não ajudou, fui deixado a pensar, a googlar e a catar papel: onde terá ido ele buscar aquela do arrependimento? Que filósofo definiu assim a política?


Pois bem.

. Do arrependimento

Na na altura muito badalada conferência que proferiu no Collège Universitaire de Poitiers em 03.Nov.2011 [Pagar a dívida é uma ideia de criança. […] As dívidas gerem-se.- lembra-se?], interpelado por um estudante sobre o que mudaria na sua governação de seis anos se pudesse voltar atrás, o ex-primeiro-ministro explicou-se [01:31:10],

- Nietzsche um dia disse uma coisa mais ou menos como esta: arrependermo-nos é errar duas vezes.

Em que obra terá Nietzsche escrito aquilo ou parecido? Tenho e li boa parte da obra de Nietzsche publicada em português; não que Nietzsche tivesse em grande conta o arrependimento ou o remorso, mas não me lembro nem me soa a do ‘errar duas vezes’.

Que tal, por exemplo, Bento de Espinoza [Ética, Parte IV, Proposição LIV]? - «O arrependimento não é virtude nem procede da Razão, mas aquele que se arrepende do que fez é duas vezes miserável ou impotente.»

Cá para mim, foi o Espinoza. 


. Da política

26.Mai.2001- Daniel Innerarity [Bilbau,1959], político, filósofo e professor basco, publica no El País um artigo de opinião, “Hacer política”,

«[…] A mi juicio, la política, especialmente cuando queremos diferenciarla de otras actividades, exige fundamentalmente dos cosas: primera, haber caído en la cuenta de que su terreno propio es el de la contingencia, y segunda, una especial habilidad para convivir con la decepción. Habrá, sin duda, otras definiciones más exactas, pero seguro que ninguna de ellas deja de recoger, en alguna medida, estas dos propiedades.

[…]

En algún momento hay que recoger el veredicto y hacer con ello la política que se pueda. De ahí que la política sea fundamentalmente un aprendizaje de la decepción. Está incapacitado para la política quien no haya aprendido a gestionar el fracaso o el éxito parcial, porque el éxito absoluto no existe. […].»

2002- Daniel Innerarity publica o livro “La transformación de la política”, no qual plasma, com levíssimas adaptações, o dito artigo.

2005- 1.ª edição portuguesa do livro de Daniel Innerarity, “A Transformação da Política”.

28.Fev.2007- «[…] A seguir ao debate mensal na Assembleia da República, José Sócrates, primeiro-ministro e secretário-geral do PS, juntou-se aos deputados socialistas num colóquio sobre a "transformação da política na era da globalização", com o filósofo espanhol Daniel Innerarity. […]

Da obra de Daniel Innerarity, que contou ter conhecido quando António Costa lhe ofereceu um livro pelo Natal, Sócrates disse ter retido que "a política é a aprendizagem permanente do convívio com a decepção", uma frase que o "impressionou e iluminou". [...]» [Lusa, 01.Mar.2007]

13.Mar.2008- Na reportagem da SIC, “Sócrates como nunca o viu” [minuto 30:10], José Sócrates flana com Raquel Alexandra*: «[…] sabe, um filósofo espanhol que conheci aliás recentemente – eu leio filósofos espanhóis; eu não conhecia este, é um basco, um homem que conheci aliás pessoalmente -, escreveu um livro que comprei, ou melhor, perdão, que me foi oferecido, aliás, pelo António Costa no Natal de 2005, e que dizia uma coisa muito interessante. Dizia ele que a actividade política é a eterna aprendizagem do convívio com a decepção. […]» 
30.Abr.2010- Intervenção de José Sócrates na cerimónia de doutoramento 'Honoris Causa' atribuído pela Universidade da Beira Interior a António Guterres: Um grande filósofo europeu disse que a política é a eterna aprendizagem do convívio com a decepção. Não posso estar mais de acordo.
18.Out.2010- «[…] No Salão Nobre do Edifício dos Antigos Paços do Concelho de Lagos, (…) A Sra. Vice-Presidente da Câmara Municipal, Maria Joaquina Matos - eleita presidente, na lista do PS, em 29.Set.2013 -, (…) parafraseando um filósofo político disse que “a actividade política é a eterna aprendizagem do convívio com a decepção”. […]»

Ou seja, o basco não disse exactamente assim, estas coisas pegam-se mas o sentido está lá.


. Do mais

Sábado que vem, 02 de Novembro, fiéis defuntos, veremos como Sócrates vai responder à pergunta parola: O que é que dizem os seus olhos? **

Não espantará se sacar do coldre um filósofo.

 

Do ‘tsunami Sócrates’ destes dias – com o marketing da Babel a espevitar a onda -, li, além da conversa com Clara Ferreira Alves, a entrevista a João Céu e Silva no DN, vi o homem no Herman 2013, assisti ao lançamento d’ A Confiança no Mundo, ouvi a entrevista à TSF … mais as conversas com a Ana Daniela Soares e com a Maria Flor Pedroso, uf!

Nem de tudo gostei e daquilo no Museu da Electricidade, a que um beócio atarantado da cmTV chamou Fundação Mário Soares, não gostei quase nada.

Mas, claro, tenho-me comprazido à tripa-forra, mormente na blogosfera já que não tenho conta no livro das fuças, com a fogueira de fel, sânie e ódio que esta pessoa, porventura o melhor primeiro-ministro de Portugal – um patriota com recorte, visão e determinação de estadista, essa é que é essa*** – nos últimos 100 anos, pese o feitio esquinudo [anguloso, diz ele de si] e certa e determinada idiossincrasia que me encanita particularmente, que José Sócrates, dizia, atiça na caceteiragem passista e filocavaquista. Será que ainda os incomoda a coinceneração por que Sócrates porfiou com admirável valentia para asseio deste país? Se calhar é disso. Ou será do simplex?

Afinal, com que mais posso entreter-me? Com rebites, enxós, palpites e trenós?

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* Sim, a mesma, a que flana. 

** Eu acho que os meus olhos exprimem satisfação e contentamento e felicidade. Ou não? Não acha? [SIC, 02.Nov.2013/14:30] 

*** Dois amigos, que lidaram de perto com o governante José Sócrates em circunstâncias de laboração diversas e não coincidentes no tempo, e se desavieram dele, advertem-me recorrentemente: Como muita e muito boa gente, andas enganado, pá. O Sócrates é a mais refinada representação diabólica do mal; parece uma pessoa e é diametralmente outra. Abre os olhos, convence-te disso.

Ainda não me convenceram nem quero convencer-me.