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sábado, 14 de maio de 2022

Exaltação do dinheiro na missa do enforcado

«O Banco Privado Português só trata de dinheiro.» 

Deixem-me imaginar.
Cumpridas as formalidades legais e consulares, incluindo a autópsia, traz-se o corpo para inumação na terra que o viu nascer, faz dentro de dias 70 anos
A viagem de trasladação terá um pequeno desvio por Bilbau para celebração da missa de corpo presente, presidida por Vítor Melícias, na sala do museu do Solomon entretanto reservada.    
Da liturgia fúnebre constará a leitura solene de algumas peças literárias de exaltação do dinheiro, seleccionadas entre várias dezenas que o enforcado encomendou a agência especializada e que renderam aos autores, no primeiro decénio do século XXI, 1500 euros por texto, pela seguinte ordem de autoria:
Incumbir-se-ão da leitura, alternadamente, Leonor Silveira e Pedro Abrunhosa, designados por conta da dicção esmerada que lhes é unanimemente reconhecida e por integrarem a lista de autores escolhidos. Assim, a encerrar o referido momento litúrgico, Leonor Silveira lerá o texto de Pedro Abrunhosa e este lerá o de Leonor Silveira.
Não sei se aguento sem chorar.     

Na altura em que rabisco esta fantasia não é possível confirmar se o presidente-arlequim, que é muito devoto e homenageador, comparecerá.


Convenhamos por fim que será difícil congeminar ironia mais cáustica do que a de eu ter sabido do banqueiro morto pelas 9h00 de ontem através de uma notícia no ... Dinheiro Vivo.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Existenciais breves ou quase

Esta manhã lavei-me no mar

Não é fácil escapar de si; se calhar é impossível.

Isto de uma pessoa se levar a sério acaba por se tornar numa chatice.

Dois os motores do meu valer a pena viver: memória e curiosidade.

Nada ressuscita mais do que a fome, a saudade, a sede, a curiosidade…
Passo a vida a matá-las.

Que sucederia se não cagássemos, perdão, obrássemos, isto é, fizéssemos cocó?
Pois, isso.

Perdi a fé não porque tenha chegado à conclusão de que mas justamente porque não cheguei a nenhuma conclusão.

Atire a primeira pedra quem nunca removeu cerúmen com a chave da caixa do correio.

Nada há de mais repetitivo do que o coração. Talvez por isso ninguém consegue mobilizar-me contra a rotina. 

Que faz o homem que Deus não faça melhor?

Poesia na piscina?
Inspiração debaixo de água pode não ser grande coisa.

Nenhum pássaro se suicida por defenestração.

Gosto de agrião e não gosto menos de canja, mas há palavras que dão mais com umas do que com outras e quanto a isso, nicles batatóides, jamais sacrificarei o veredicto do verbo ao veredicto do prato.
Hoje a alternativa era entre sopa de agrião e canja e eu sabia que no fim iria agradecer à menina Dulce. Não restava outro critério: Com qual das sopas vai soar mais agradável a palavra «obrigado», já que simpatizo tanto com a menina Dulce? — eu para os meus botões, botões de chuva — Com a de agrião, claro!, até Pitágoras acharia o mesmo.
De modo que…
Menina Dulce- Então, e hoje, doutor Plúvio, canjinha ou uma sopinha de agrião?
Eu- Hoje vou pelo agrião.
Menina Dulce, depositando-me nas mãos a malga fumegante- Aqui tem, agrião.
Eu- Obrigado.
E assim fomos felizes, a menina Dulce e eu, durante 15 segundos.
O que é demais enjoa. Se não enfartar.

É surpreendente como, na imensidão do Google, ainda ninguém tenha respondido «A minha biografia.» à pergunta corriqueira «Qual é o livro da sua vida?».

Porque complicamos tanto, se a vida é tão breve e o orgasmo nem se fala?

Aprendi que a nossa importância é da importância que nos dão e não da que temos.
- Quanto é a importância?
- ... €. Deseja com número de contribuinte?
- Pode ser.
  
Na lavandaria
Aos 69 sinto-me às voltas na última centrifugação.

Quem mas faz paga-mas. Deixarei de falar a todos os amigos que não forem ao meu funeral. 

Parir pedra
Sei da vossa avidez por notícias do meu corpo.
Ei-las. Tendo sobrevivido ao meu suicídio, não consegui impedir a vizinha Elisabete de me levar de charola — lugar do morto como convinha — para a urgência hospitalar. Dor intensa, vómito, transpiração, tez lívida.
A eco de emergência acusou um areal nos rins onde, obtido o necessário financiamento, tenciono montar uma barraca para venda de gelados. Só me falta mar.
- E o sangue na urina, doutora?
- Três litros de água por dia.
De resto, tudo bem.

Adeus, até à próstata.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Competência e rigor foram de vela?

Na edição de 14 de Abril corrente o semanário "Nascer do Sol", por que paguei 4 euros, noticiava na página de desportos a morte, aos 17 anos, num acidente náutico na Tunísia, da que fora a velejadora olímpica mais jovem nos jogos TOKYO 2020, ocorridos em 2021, «que tinha já sido campeã olímpica no Rio '2016».
«O barco onde seguia com a irmã acabou por virar devido a ventos fortes.»

Os leitores que fizessem o resto:
- investigar acerca do nome/nacionalidade da rapariga e data da tragédia;
- descobrir o disparate dentro da notícia.

Eu fiz. E confirmei que o noticiário da BBC é melhor, muito melhor do que o de cá.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Azar de Gonçalo M. Tavares?


«pediu ao motorista para parar o carro junto a um dos penhascos. De seguida, saiu e atirou-se ao mar.»

Uma semana depois, raiando o admirável como quase sempre, Gonçalo M. Tavares escreve:
«[...]
O embaixador aproxima-se do precipício, e este chama-o com a voz que a tristeza ouve; a voz que só uma certa tristeza limite consegue ouvir.
[...]
Que sabemos dos humanos?
Sabemos pouco.»

No mesmo dia da publicação de Gonçalo M. Tavares dizem-nos que
«[Oliver Antić, 1950-2022*] era um apaixonado pela fotografia e estava a fazer um vídeo ... para enviar aos netos, que vivem nos Estados Unidos, quando escorregou numa rocha e caiu ao mar. ... Estava a filmar de costas para o mar.»
Azares destes, e quero crer que Gonçalo M. Tavares foi tão induzido no engano como eu, sucedem aos melhores. Sobretudo quando não se controlam todas as fases da cadeia de produção...
Posto o que, Gonçalo M. Tavares talvez devesse tentar uma conversa com o motorista antes do próximo episódio de "Os cadernos e os dias - História fragmentada do mundo". 

Quando olhas longamente para um abismo, também o abismo olha para dentro de ti.
- Friedrich Nietzsche, no capítulo IV de "Para além do bem e do mal", 1886,  que li aos 19 anos.
Ainda hoje não olho de cima para baixo a mais de 10 metros de altura que não me lembre disso.**
Aos 68 apetece pensar que tenho resistido com castidade heróica à sedução do precipício.

Sim, Gonçalo, sabemos pouco dos humanos. Quase nada. Se calhar, nada.
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** - Mas, ó Plúvio, isso não é a VPPB? E se te deixasses de enredos literários da treta?...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Alá, em Chefchaouen; em Roma, Deus

Gosto da palavra 'purtroppo'. Não tanto do que significa. De etimologia caprichosa, soa-me lindíssima.

Todos os dias cai gente e morre gente em buracos. Tragédias multiplicadas.
Ao fim da tarde de terça-feira, 01.Fev.2022, um menino de 5 anos caiu num poço estreito e seco, e ficou entalado a 32 metros de fundura.
Este caso marroquino originou horas e horas de transmissão televisiva planetária, numa orgia de angústia interminável. Por cá, a CNN Portugal — mimese sofisticada e cosmopolita da CMTV — foi a que mais se alambazou no horror inane, mantendo-se em quase contínuo "directo ao vivo", com uma legião de analistas a acrescentarem nada ao insuportável nada, do início da tarde de sexta-feira, 05.Fev, às primeiras horas da noite de sábado, 05.Fev.2022. 

Sei disso porque também assisti; sei disso porque não sou menos curioso mórbido do que os demais; sei disso porque não faço uso profiláctico de botões que dizem "off"; sei disso porque sou reformado e tenho tempo. Sei disso, enfim, porque tenho uma "box".     

Quem, pelos vistos, também não resistiu a acompanhar e a aproveitar a obscenidade mediática foi Francisco, o Papa de Catarina Martins, que no domingo, 06, predicou, da janela habitual:
«[...] todo um povo se juntou para salvar o Rayan. O povo inteiro a trabalhar para salvar um menino. Deram tudo por tudo.* Infelizmente - purtroppo -, não conseguiram. [...]»

E Deus-Alá, omnipotente, misericordioso e justo..., quem salva, afinal? Quem ajuda? A quem acode?
Francisco, que lida com Ele de perto, talvez saiba.
Sim, teodiceia.

Com o devido respeito.
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* «Um povo inteiro a trabalhar para salvar um menino»? Tenha Vossa Santidade paciência, mas o que se viu foi uma amostra indisciplinada de povo ululante, talvez melhor, Alá-lante,  a dificultar o trabalho dos bombeiros, profissionais de saúde e agentes de protecção civil...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Alekos fazia anos a 13 de Dezembro

 Deixou de fazer.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Bem-vindos ao país cristino [9]

Quando a protagonista é a morte, acho a pornografia uma coisa especialmente indecorosa, repugnante.
Estes 45 minutos de ontem, em Portugal, souberam-me a pornografia da pior.
Que leva um pai enlutado a tal exibição?
Bem sei, ou julgo saber: share, um milhão e setecentos mil espectadores. Incluo-me; ainda tenho bom estômago.

Mas nada como socorrer-me de quem sabe mesmo disto:
«Eu conheço o jogo ... sei o que é preciso fazer, isto é um negócio.»

E não, aquele não foi o momento mais decente na carreira do oficiante comovido, de resto um dos melhores profissionais na indústria televisiva do entretenimento.
Quanto ao Carreira-artista nacional propriamente dito — não, como é evidente, o pai Carreira —, a minha admiração é nenhuma. Ratoneiro de cantigas.

Chamem-me insensível.

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sexta-feira, 16 de abril de 2021

Maria Antónia Palla, Sócrates e o monstro na sala

Em Agosto de 1966, num baldio dos arredores do lugar de Chicote, circunscrição de Bundas, província do Moxico, Leste de Angola, foram encontrados os cadáveres seviciados de Manuel Castro e de sua mulher, Eulália Marques, pais da minha ex-mulher Maria Clara, sua única filha, então com 6 anos. Ao lado, escrito no chão «UNITA VENCERÁ!». O Sr. Manuel e a dona Eulália saíram de Portugal no início do decénio de 1960, estabelecendo-se em Angola com uma modesta mercearia. Razão do assassínio, sem nenhuma outra apurável: não bastando serem portugueses, eram brancos. Na altura da referida matança, a UNITA, fundada uns meses antes, era pouco mais do que desconhecida. Aquelas mortes, bárbaras e gratuitas, constituíam as primeiras acções de terrorismo sobre colonos portugueses perpetradas pelo movimento de Jonas Savimbi [1934-2002].
Quanto mais fui podendo saber da vida e da obra do pseudo-"doutor Savimbi", ao longo de 35 anos, mais firmemente se me foi consolidando a ideia que dele guardarei para sempre: sem prejuízo doutras apreciáveis qualidades patrióticas, um facínora, tribalista sanguinário, carniceiro e racista, sem escrúpulo.

- E a que vem isto agora, Plúvio?
Vem que a Sra. D. Maria Antónia Palla, mãe de António Costa, secretário-geral do PS e primeiro-ministro de Portugal, escreveu no Público de ontem, 15.Mar.2021, uma coisa intitulada "Sócrates: porquê tanto ódio?":
«[...] Foi o meu conceito de liberdade e de justiça que, por imperativo de consciência, me levou a manifestar a José Sócrates a minha solidariedade. [...] Nunca, na minha longa vida, assisti em directo a manifestações de ódios tão profundas como as que tenho observado através das televisões. Entrevistas, debates, só com pessoas da mesma opinião. O contraditório não existe. As regras mais primárias do jornalismo foram enterradas.
Há alguns séculos atrás gritariam “Sócrates para a fogueira!”. Agora dizem-no de forma mais sofisticada. Mas queimam à mesma uma pessoa, destruindo o seu passado, infectando o seu presente, roubando-lhe o futuro.
O que está, quem está por detrás desta demência? Até onde se irá parar? Detentores de um poder que julgam eterno, não lhes chega liquidar um homem. [...]
Como os contestatários de Maio de 68, direi que “não sei o que quero, mas sei o que não quero”. De uma coisa estou certa: Justiça sem compaixão não é Justiça.»

- Sim, Plúvio, e...?
Isto, por exemplo,
«[...] Foi na Jamba que, em 1988, conheci Jonas Savimbi. Tornara-se uma personagem mítica, quer para os que o admiravam quer para os que o odiavam. A mim impressionou-me sobretudo a afabilidade e a grandeza com que acolhia os visitantes, fosse num simples "jango" das Terras do Fim do Mundo ou na "villa" que o rei de Marrocos punha à sua disposição quando vinha a Rabat e onde o visitei por duas vezes. Era um homem de uma inteligência fulgurante, com grande sentido de humor e uma soma invulgar de conhecimentos, considerando as condições em que habitualmente vivia. [...]»
MAP, 02.Mar.2002

«[Jonas Savimbi], um homem fascinante e absolutamente carismático.»

«Toda a gente sabe que Maria Antónia Palla é uma confessa admiradora de Jonas Savimbi e da UNITA.»

«[Jonas Savimbi], o único político de quem tenho uma fotografia na sala.»

- Ó Plúvio, ainda não percebi aonde queres chegar...
Quero chegar justamente à sala da Sra. D. Maria Antónia Palla.
Quero que a Sra. D. Maria Antónia Palla se foda mais os seus conceitos de liberdade, de justiça, de imperativo de consciência e sobretudo de compaixão. Quero que a Sra. D. Maria Antónia Palla vá bugiar com os fascinantes heróis da sua afeição.

E fico a pensar, com remorso, se não devo um pedido de desculpa à stôra Maria Salomé, de Cascais, por aqui ter mangado da decoração da sua sala.
Observando a sala onde António Costa toma chá com a mãe, mil vezes o menino da lágrima!!!

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Por entre os escolhos inevitáveis dos apoios e contraditas

No n.º 32 da Rua da Liberdade — oh ironia!, para quem chegou ao PS pelo atalho da UDP —, na Figueira da Foz, morreu ontem*, de ataque cardíaco**, um cidadão esperto e bem sucedido, ladino, porreiro e amigalhaço, que nunca primou pela profundidade pública do pensamento e cujo ideário político deixou condensado em Braga ao início da noite de sexta-feira, 30.Mar.2001, quando ameaçou:

Adivinhavelmente, a pena do arlequim engalanou-se de hipérboles estapafúrdias, catalisando a unanimidade louvaminheira nauseante:

«Com o dramático falecimento de Jorge Coelho desaparece uma das mais destacadas personalidades da vida pública portuguesa nas décadas de 80 e 90 e no início deste século, em que foi governante, parlamentar, Conselheiro de Estado, dirigente partidário, analista político e gestor empresarial.
Reunindo grande intuição, espírito combativo, perspicácia política, afabilidade pessoal e sentido de humor, por entre os escolhos inevitáveis dos apoios e das contraditas, deixou na memória dos Portugueses o gesto singular de assumir, em plenitude, a responsabilidade pela Tragédia de Entre-os-Rios *** e a capacidade rara de antecipar o sentir do cidadão comum.
O Presidente da República recorda, com saudade, o amigo e apresenta à sua Família as mais sinceras condolências. ****»

"MORREU JORGE COELHO, O POLÍTICO DE CAUSAS"
Ao passar pelas primeiras páginas dos jornais de hoje, acometeu-me a momentânea ilusão de uma gralha no cabeçalho do Jornal de Negócios. Assim de repente, admiti se não teriam querido dizer «político de queijos»...

Moderem-se, porra! Haja proporção [quantos milhões de «mais destacadas personalidades da vida pública» terá Marcelo no tinteiro?] e, sobretudo, recato na morte.
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*

** O coração tem as suas razões ..., bem escreveu um francês que pensava profundo [Blaise Pascal, "Pensées", 1670]. 

*** Num teatro bacoco, casou com a culpa e demitiu-se. No código japonês de ética política, se calhar suicidava-se deixando a culpa viúva...

Marcelo escolheu para a família de Jorge Coelho um grau prestigiante de condolências: "as mais sinceras".
Não é para todos. Por exemplo, e atendendo apenas a mortos da última semana, a família de Conceição Moita, católica antifascista, não mereceu senão condolências singelamente "sentidas"; já os parentes e amigos de Almeida Henriques, autarca de Viseu, tiveram de se contentar com simples "sinceras". 
Os critérios de Marcelo são um frenesim de inescrutabilidade. Se alguma vez o arlequim disser não mais do que «as minhas condolências», que haveremos de pensar de tamanha secura? Muito possivelmente que o falecido se portou mal...

domingo, 28 de março de 2021

Hebdomadário frívolo

Segunda-feira, 22  ᐅ  Domingo, 28.Mar.2021

•  A abrir, a morte de Adam Zagajewski [21.Jun.1945-21.Mar.2021].
Foi confrangedor como os meios de comunicação social portugueses, com honrosa e assinalável excepção do Público*, se limitaram a replicar, sem vigilância ou brio editorial, o despacho mal amanhado da Lusa que por sua vez assimilava às três pancadas a informação original da Associated Press.
Por exemplo, todos reproduziram, verbatim, este aleijão:
«a poetisa norte-americana Jorie Graham, vencedora de um Prémio Pulitzer, escreveu na sua conta na rede social "Twitter": Caro viajante e voz de sempre. Não vamos parar de o ouvir você. Está para sempre connosco.»**
Ainda assim, destaco o arrojo criativo com que o Observador, em 23.Mar.2021, embora, e igualmente, sem intervenção na prosa da Lusa, se empenhou em ilustrar o óbito do escritor polaco, inserindo uma fotografia originalíssima que legendou, a condizer: «As obras de Zagajewski foram proibidas em 1975 pelas autoridades comunistas de Varsóvia - NurPhoto via Getty Images».
Ei-la, lá continua. Parabéns, Observador, a malta agradece.
Que trampa de jornalismo vem a ser este?

Nesta semana continuou a falar-se da tradução — pura, imprópria, adequada, contaminada, genuína, espúria, autêntica... — das coisas escritas ou recitadas por Amanda Gorman, novo ícone cósmico do "fervor em manobras" no segmento literário, cujo "The Hill We Climb" o insigne e desbocado Plúvio se atrevera a qualificar de sofrível. Vendo mais acuradamente, o poema pouco passa de um cacharolete de clichés.
Como sou amigo dos meus fregueses, deixo caminho para as, de longe, quatro melhores peças das cerca de 43 publicadas por cá sobre o assunto.



O melhor dossiê da querela. Grande trabalho. Obrigado, Isabel.

Inteligência, cultura, graça, escrita esmerada.

Foi, finalmente, a semana em que li em todo lado, incluindo jornais e televisões, "Azerbaijão" bem escrito; e em que ouvi em todo o lado, incluindo televisões e telefonias, "Azerbeijão" mal dito. Para não cansar o ouvido, apenas duas amostras: na RTP;  na SIC
Mistérios do organismo?
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sábado, 6 de fevereiro de 2021

Dar cara aos números

Gostei de como falou anteontem o virologista camaronês John Nkengasong, director do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana [Africa CDC]:

«Às 9 da manhã, hora de África ocidental, o mundo tinha registado 103 milhões de casos de Covid-19, tendo 2,2 milhões de pessoas morrido infelizmente. [...] Quando esta pandemia começou no ano passado, dizer que mil pessoas tinham morrido era muito perturbador. Hoje temo que com o grande número de mortes que está a ocorrer, isto comece a tratar-se de números e não de pessoas. Temos de continuar a recordar que se trata de indivíduos, entes queridos, irmãos, mães, irmãs, tios. Há que dar cara a estes números para que não sejam apenas estatísticas. Seria uma tragédia começarmos a normalizar estas mortes.*»

Não gostei do «recordar que se tratam de indivíduos» perpetrado na RTP pelos apedeutas do costume.

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* «Uma única morte é uma tragédia, um milhão de mortes é uma estatística.»
Muito provavelmente apócrifa, a afirmação atribuída ao Zé dos bigodes ilustra bem a vileza do nosso estado civilizacional. Estamos ainda muito assim.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

João Cutileiro, 26.Jun.1937 - 05.Jan.2021

Da meia dúzia de obituários que li na morte de João Cutileiro elejo o de José Cabrita Saraiva.
«[...]
Tanto nas palavras como na arte Cutileiro exprimiu-se sempre de forma sincera, acutilante* e descomplexada, sem medo de ofender. [...]
E foi "para cima" que concebeu o seu polémico monumento ao 25 de Abril no Parque Eduardo VII, em 1997. A obra causou incómodo e até escândalo pela sua semelhança com um falo em ejaculação - o que lhe valeu o epíteto de "pirilau". [...]
O que está nos Restauradores também é um pirilau, não é? E no Rossio, o D. Pedro IV, lá em cima também é um pirilau. São todos pirilaus. E o Cristo Rei, não é apirilauzado? (J. Cutileiro)
[...]»
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* JCS não terá feito de propósito, mas lá que «acutilante» vai bem com «Cutileiro», isso vai.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Wilson deu o peido-mestre

«[...] Roubei um carro e fui preso. Tive que fazer umas asneiras para conseguir sair da Marinha. [...] Entrei no mundo da prostituição. [...]»

Torre Bela, 24. Abr.1975
«Camaradas, isto vocês não fizeram só para terem trabalho. Vocês fizeram-no para ter a terra, porque são vocês que a vão trabalhar. Vêm talvez oferecer-vos hoje um bife da propriedade. Eu não me satisfaria com um bife porque o povo trabalhador não se pode satisfazer com isso. Nós achamos que é pouco e vocês não devem arredar pé disto porque um bife é pouco mas se aqui se fizer uma cooperativa numa parte desta terra é preciso que esse latifundiário que está aí, que tem aqui casas vazias para passar o fim-de-semana para as caçadas e para os amigos dele. Exploraram este povo durante anos e anos, os vossos pais, os vosso avós.
Com muita serenidade, mas nós temos é estar conscientes dos nossos direitos e daquilo que queremos, mas com serenidade. Quando eu vos digo, mas se vier para aqui um contrato de trabalho para uns quantos trabalhadores como início para uma cooperativa vocês não devem ficar por aí. Este indivíduo que está aqui não pode ficar com o resto da propriedade. Não há direito — e é outro problema que vocês têm de pôr, se não o puserem agora têm de o pôr no futuro, têm de pensar nele —, não há direito de que existam aqui imóveis vazios quando há necessidades aqui à volta nas aldeias. Vocês necessitam destes imóveis que estão aqui, necessitam ou não? Não é agora, já. Por agora é um pedaço, mas não desarmar e continuar a luta para que este pedaço seja tudo aquilo que é vosso. Mas isto pode ser uma ponta, tem que vir o resto. Quando, nós não sabemos mas se ficarem decididos e unidos o resto virá.»
Wilson Filipe:
«Obrigado, Mortágua.»*  

Como isto anda tudo ligado, não havia o partido das filhas de Mortágua de dar notícia da morte de Wilson? Eis:
«Wilson foi uma das figuras ligadas à ocupação da Herdade da Torre Bela, em 1975. Participou no documentário de 1977 de Thomas Harlan sobre a mesma ocupação e no filme “Linha Vermelha” de José Filipe Costa. [...] De acordo com a agência Lusa, Wilson Filipe faleceu a 24 de Dezembro e as cerimónias fúnebres deverão ter lugar a 28 ou 29 de Dezembro.
A Herdade da Torre Bela foi ocupada a 23 de abril de 1975 por vários trabalhadores da Azambuja, numa ocupação que ocorreu sem intervenção partidária** e que deu origem a uma cooperativa popular. [...]»

WF- Qual é o valor da tua farramenta? Qual é o valor da tua farramenta??!! ...Tudo isto é da cooperativa. ... Dás-me licença? Isto tem o valor de 100 escudos. ... Isto já não é teu. Isto é meu, é deste, é de todo o mundo!
CCV- Pode ser muito bem, mas eu é que trabalho com ela ... Tenho de ir comprar outra e depois essa outra fica a ser da comparativa e depois eu vou comprar outra e é sempre da comparativa, pá!?... Daqui a nada também o que eu visto, o que eu calço é da comparativa. Mas se fui eu que comprei! ... 
WF- É isso mesmo! É essa a nossa finalidade.
CCV- Amanhã tiram-me as botas e fica da comparativa, fica a ser da comparativa, fica a ser da comparativa e eu fico nu.
WF- É essa a nossa finalidade. ... Tu não ficas nu, tu ficas com mais roupa do que a que tens!!!
CCV- Não vejo isso, não vejo nada disso. ... Eu cada vez vejo mais, cada vez vejo mais.
WF- Tu és louco. ... 
CCV- Só quem não vê é os cegos, quem não vê é aqueles que morreram e os que estão ainda para nascer, esses é que ainda não viram. Vêm para ver.
...
WF- Tu no fundo hoje não compreendes nada, não sei porquê. Porque tu efectivamente, vou-te dizer mais uma vez ... Todavia lembra-te, ... esta farramenta que tu dizes que é tua hoje passa a pertencer da [sic] cooperativa e só assim é que isto vai para a frente

«No dia 1 de Dezembro de 1975 — 219 dias depois da ocupação das terras — a "Comuna popular de Torre Bela" foi ocupada por militares agindo por ordem do governo socialista. A Comissão de Trabalhadores foi detida. Os oficiais da polícia militar compareceram em conselho de guerra e a produção parou. A Revolução dos cravos chegava ao seu termo.
Em 1982, D. Diogo, duque de Bragança, e seus irmãos recuperaram a posse das suas terras e reconverteram os 22.331 hectares da herdade em reserva de caça***

«[...] Depois fui falar com o duque, um tipo arrogante, que me disse que não dava emprego às pessoas, mas que me dava a mim — e um cavalo e um jipe. Levantei-me e dei-lhe um peido nas trombas. [...]»
_______________________________________
«[...] desmascarado pela jornalista Alexandra Lucas Coelho. Eu dormia no quarto do duque. Era o único que tinha casa de banho privativa, confessou 32 anos depois o líder popular da ocupação, hoje vendedor de camiões. Wilson, ex-assaltante de bancos, antecipou-se aos agricultores nas noites passadas no palácio. O mesmo palácio que os agricultores tomaram. [...]»


** Não? Jurem.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Visto no passaporte

À entrada do Outro Mundo o polícia do SEF lá do sítio recebe de asas postas, correcto e super-cortês, recém-chegados:
- Bem-vindo, Sr. José Branco! Pode mostrar-me a sua documentação, por favor?  
- Bem-vindo, Sr. Vicente da Silva! Pode mostrar-me a sua documentação, por favor?  
- Bem-vinda, Sra. Maria de Sousa! Pode mostrar-me a sua documentação, por favor? 
- Bem-vindo, Sr. Eduardo de Faria! Pode mostrar-me a sua documentação, por favor? 
- Welcome, Mr. David Cornwel!!! * Can you show me your papers, please?

Todos são encaminhados para uma espécie de salão nobre e servidos copiosamente de champanhe Taste of Diamonds, ovas de esturjão-beluga, trufas brancas de Alba, café Kopi Lwak e pires de tremoços Lupinus albus de Cantanhede.
Todos portadores de "visto" rubricado por Clara Ferreira Alves e certidões de com ela haverem privado em grau de intensidade mínimo exigível na zona mais fina do Outro Mundo.
______________________________________
*
«[...] Bati com suavidade à porta, ele entreabriu, e pela fenda consegui dizer “sou jornalista, Expresso, venho para a entrevista”. O homem respondeu, agora não vou dar entrevista. Neste momento não. Insisti. Estava a ler e não ia interromper a leitura para falar comigo. Tudo dito com polidez glacial, naquele tom das classes educadas da Inglaterra. A fenda da porta alargou, ligeiramente. Conseguia agora ver a cara, fechada e sem um sorriso, com um sobrolho levantado. Percebido, lá se ia a oportunidade de falar com John le Carré. Perdido por cem perdido por mil, perguntei com insolência o que ele estava a ler que não podia ser interrompido. A porta abriu um pouco mais, deixando ver uma figura alta, com uma madeixa de cabelo de cor indefinida, louro branco, sobre a testa. Respondeu que era Flaubert, “Madame Bovary”. Aí eu não resisti e disse, adoro esse romance, já o li tantas vezes. E ele, eu também, quantas? Nove vezes. E dissemos os dois ao mesmo tempo, nove vezes. Nine times. Com esta declaração que parecia cronometrada, a porta abriu-se completamente. O escritor, admirado com a coincidência, continuou a falar de Flaubert, a atenção ao pormenor, discutimos ainda uma comparação com Tchekov, o modo como ambos conseguiam caracterizar uma personagem através do que a rodeava ou do estado da luz, ou das observações sobre a paisagem. E assim consegui a entrevista de David John Moore Cornwell. Aliás, John le Carré. [...]
Abriu o minibar e perguntou se queria um whisky, uma garrafinha anã. Bebemos os dois, cada um com a sua garrafinha, no quarto do Ritz, um quarto com duas camas. Nada de suítes presidenciais.
«[...]»

//
«[...]
E a petulante gabarolice oceânica, senhores?
Mário Soares, John le Carré, Hotel Ritz...
«O John le Carré abriu a  porta.
- ... O que é que está a ler?
Estou a ler a Madamme Bovary ...
Ah, a Madamme Bovary!, disse eu ... Eu já li esse livro nove vezes.
- ... pela nona vez.
Dissemos os dois ao mesmo tempo. A porta abre-se de par em par e ele olhou para mim e disse:
Oh! Do you want a drink?
Quer whiskie velho ou the bay whiskey? E sentou-se e esteve horas a falar comigo. Portanto, o Flaubert e a Madame Bovary ... eu acho que lhe fiz uma óptima entrevista.»
[...]»

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Camarate - 40 anos depois, que se pode ainda contra a legião dominante de crédulos e intrujões?

Pouco.
A fé move montanhas, a fé dissolve a verdade.*

«A avioneta caiu em Camarate por falta de gasolina no motor esquerdo e por precipitação do piloto. Os aviões obedecem às leis da física e da mecânica, não escolhem quem vai lá dentro para cair ou não cair.
O Presidente da República, valendo-se da vasta experiência do professor Marcelo, resolveu criar um novo “facto político” ao comunicar aos portugueses a sua “convicção pessoal” no que respeita à tragédia de Camarate. Foi sabotagem!
É claro que esta revelação é um acto de fé. Respeitável, como qualquer outra crença ou convicção. Mas é apenas isso mesmo, uma convicção. Porque nem o Presidente nem o professor Marcelo são capazes de apontar uma prova, uma só que seja, de que houve sabotagem em Camarate. Não cabe aqui voltar à farsa que foram as dez comissões parlamentares de inquérito a Camarate e aos 33 anos durante os quais elas se arrastaram.
[...]
Quanto ao presente, o cidadão comum, como eu, tem duas opções. De um lado estão mais de duas centenas de testemunhas, uma centena de peritos e de organismos especializados, independentes e oficiais, portugueses e estrangeiros, e as deliberações de 32 magistrados e juízes de tribunais portugueses e europeus. Isto é, estão as provas: não foram encontrados indícios de sabotagem. Do outro lado, temos um “facto político” novo baseado na “íntima convicção” do cidadão Marcelo Rebelo de Sousa que, acessoriamente, é também Presidente da República, primeiro magistrado da Nação, professor catedrático de Direito e ex-representante da família de uma das vítimas.
No que me diz respeito, opto por ficar do lado da seriedade e das instituições democráticas e independentes que nasceram no meu país quando ele reencontrou a liberdade.
[...]»

Em tempo
Reacção de Ricardo Sá Fernandes,  com o habitual ardil de aranha religiosa materialmente interessada.  -  "Camarate, resposta a Cunha Rodrigues e a Barata-Feyo" | Público, 13.Dez.2020
 
Depoimento exaustivo e siderante, sem política nem sentimentos, do coronel piloto aviador (reformado), Victor João Lopes de Brito  -  "Acidente de Camarate", 08.Dez.2020
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* «Os espíritos mais puros inquietam-se, perturbam-se, não sabem como orientar-se e repetem angustiadamente a pergunta de Pilatos ao próprio Cristo: O que é a verdade?
[...]
A verdade é por essência imutável e a adesão do espírito à verdade, ou seja as certezas do espírito são essenciais ao progresso das sociedades humanas.»

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Luto de arlequim

«Marcelo Rebelo de Sousa apresentou condolências à Família de Sara Carreira
Neste momento de dor, luto e choque, apresentei as minhas sentidas e amigas condolências à família Carreira pela terrível perda.
Marcelo Rebelo de Sousa»

Ignorante e perplexo, prostro-me ante a morte e o sofrimento da morte.
O que não me coarcta a análise crítica e epistemológica, em perspectiva e correlação, de certas e determinadas coisas, considerando, talvez sobretudo, as incertas e as indeterminadas.
Em Março último, Lhor Homeniuk morreu no aeroporto de Lisboa às mãos da República Portuguesa e do presidente desta nem um pio de pesar ou desculpa.
Um destes dias morreu um estimável e popular profissional do futebol [Vítor Oliveira, 17.Nov.1953-28.Nov.2020e de Belém nem um sussurro.
Na outra semana morreu a querida e bondosa tia Alice, irmã da minha mãe, e do arlequim silêncio sepulcral.
O que terá impelido Marcelo a tornar públicas e tão conspícuas as suas «amigas condolências»?
Deixem-me adivinhar: 
Portugal gaiteiro e bimbo, país cristino...

sábado, 5 de dezembro de 2020

Desminto e esclareço Pedro Santana Lopes

Bernardo Ferrão [SIC/Expresso]:
Pedro, como é que ouviu estas palavras de Marcelo Rebelo de Sousa? 
Pedro Santana Lopes:
É um assunto muito melindroso. Pessoalmente — obviamente que quem decide são os tribunais, quem investiga é a polícia —, nunca tive dúvida, pessoalmente, de que tenha sido atentado. Foi um atentado. Só quero sublinhar isto, que não é um dado de sabedoria popular mas básica: até hoje, no aeroporto da Portela*, graças a Deus** não caiu nenhum outro, nem antes nem depois. A questão se era dirigido a Sá Carneiro ou a Amaro da Costa é outra matéria.

Repare nesta campa, doutor Pedro Santana Lopes. 
Pelas 11h10 de terça-feira, 12 de Julho de 1988, Pelagia Teresa Majewska, cidadã polaca de 55 anos, piloto de aeronaves, morria em Lisboa ao comando de um Dromader, monomotor de fabrico polaco, que se despenhou instantes depois da descolagem, a exemplo do que no mesmo local sucedera sete anos e meio antes ao Cessna da fábula camaratiana.


Nada consta quanto a possível sabotagem ou atentado, mas nunca é de fiar: o papa polaco da altura, Karol Józef Wojtyla, também tinha os seus inimigos...
Ainda assim, para sossego da Polónia e do planeta, nem Augusto Cid se empenhou na busca da verdade nem Ricardo Sá Fernandes foi procurado por nenhum familiar da vítima.

Enfim, Pedro Santana Lopes nunca primou por credibilidade evidente. Por manifesta credulidade, lá isso, decerto.
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** Os desígnios de Deus são insondáveis.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

4 de Dezembro, defuntos e fiéis

«O tempo foge. Passaram já quatro décadas sobre a morte de Sá Carneiro, naquela viela escura e fria de Camarate. O então primeiro-ministro teria hoje 86 anos. Isto é o que sabemos. Mas este texto é sobre incógnitas.
Noite cerrada, Dezembro frio. Tinha chegado da Faculdade de Direito. O telefone toca.
Francisco Brás de Oliveira, na altura accionista maioritário do jornal O Dia, que privava bastante com as cúpulas da área da AD, com voz cava: Nuno, aconteceu uma tragédia. O Francisco e o Adelino acabam de morrer num desastre de avião, aqui na Portela. Foi há minutos.
"Nacionalista revolucionário", eu não era nem um jovem de partidos, nem militava na área doutrinal de Sá Carneiro.
Mas tinha lá muitos amigos, muitas discussões, muitas noites à procura da luz.
[...]
Não tenho nenhuma certeza absoluta sobre o assunto, depois de ter visto e revisto tudo, publicado e por publicar. O Cessna parece não ter caído nem por falta de combustível, nem por problemas de motor, nem por excesso de peso, nem por qualquer falha dos seus sistemas, devido à idade do aparelho, ou à sua manutenção. Tudo indica que um qualquer engenho (ou série de engenhos) tenha eclodido a bordo.
[...]»

Diz ele que viu e reviu tudo.
Ó Nuno Rogeiro, por favor, respeite os leitores, não engode os incautos! Ao que o proselitismo, a devoção e a orfandade podem levar um homem geralmente bem informado e culturalmente bem apetrechado...
Leia e releia devagarinho, Nuno Rogeiro. Deixe-se de delírios. Ou então, nenhum acidente é acidente; proscreva-se o vocábulo e o conceito dos dicionários.
//
«O pesar, que não me abandona enquanto cidadão, de a nossa democracia nunca ter podido, no plano jurisdicional, carrear dados probatórios bastantes para se provar se camarote, se Camarate foi acidente ou foi crime. Em Camarate pereceram, além de Francisco Sá Carneiro, Snu Abecassis, Adelino Amaro da Costa, Maria Manuela Amaro da Costa, António Patrício Gouveia, Alfredo de Sousa e Jorge Albuquerque. A derradeira decisão judicial elenca razões para não poder ser provado que tenha havido crime, mas também considera não haver prova bastante para concluir que tenha havido acidente
Para quem acompanhou sucessivas comissões parlamentares de inquérito como representante da família de António Patrício Gouveia, lembrando sempre o corajoso Augusto Cid, e nessa qualidade concordou [ele, MRS] com as conclusões das últimas comissões no sentido de ter havido atentado, mesmo se não dirigido especificamente contra Francisco Sá Carneiro, é muito frustrante ter de admitir que o tempo acabou por não facilitar uma decisão jurisdicional com mais sedimentada base probatória. Qualquer que ela fosse, ter-me-ia aquietado mais como cidadão.»
«Uma última nota, sobre a sua morte. Acompanhei, representando a família de António Patrício Gouveia, várias comissões parlamentares de inquérito a Camarate. Formei uma convicção como cidadão, que mantenho, de que não se tratou de um acidente mas sim de um atentado, embora não dirigido necessariamente a Francisco Sá Carneiro. Tenho pena, como cidadão, de que a última decisão da justiça não tenha podido contar, por causa do tempo, com mais dados probatórios e, assim, essa última decisão tenha dito que não havia provas suficientes para apontar para o atentado mas não havia provas suficientes, também, para apontar para o acidente. Ficou por definir a verdade em termos jurisdicionais acerca da morte de Francisco Sá Carneiro e de todos aqueles que o acompanhavam.»

Por outras e mais directas palavras: Bem desejava, bem tentei, fizemos e inventámos ao longo de mais de 30 anos o que era ideológica, política e religiosamente possível para que Sá Carneiro e comitiva não tivessem simplesmente morrido por causa da obstinação, inconsciência e neglicência temerária dos pilotos, mas os factos e o caralho do Cessna [MRS chama-lhes «o tempo»], mancomunados com os tribunais, não facilitaram.
// 
Três páginas de fezada delirante, sem uma linha acerca da saúde prévia da aeronave despenhada.
José Manuel Barata-Feyoautor de "O grande embuste | Camarate - Factos e Conveniências" [2013], que rotula de «dogma político» a tese de atentado, agora provedor do leitor do Público bem que ajudaria à sanidade da história se persuadisse o seu jornal a contrapor a devaneios tão estapafúrdios, como o de que hoje dá conta, um trabalho jornalístico sério acerca de aviação e sinistralidade aeronáutica.

Aquilo de Camarate
[1]   [2]
Etc.

domingo, 29 de novembro de 2020

Bem-vindos ao país cristino [6] - 15 minutos de esterco

A doutora Cristina Ferreira [CF], industrial de entretenimento, que o presidente da República apadrinha e o primeiro-ministro apaparica,  protagonizou ontem à noite, pelas 21h14, os 25 segundos mais abjectos de que me recordo na televisão portuguesa. Lá irei, mas antes dêmos-lhe a palavra enquanto conversa com o jornalista José Alberto Carvalho [JAC] em defesa do seu beliscado estatuto e na promoção descarada deste livreco.

CF:
«Deixa-me já te dizer» [sic]
...
«Deixa-me usar uma frase do Valter Hugo Mãe. Aliás, o prefácio do Valter Hugo Mãe é extraordinário»*
...
«Recebi aqui uma mensagem que, de todas, das milhares, é a que eu acho que melhor define»
dos milhares, senhora doutora, dos milhares.
...
«Eu de repente estou à mercê de 10 milhões de pessoas que podem utilizar as redes sociais para comentar o meu trabalho»
Que comedida, doutora Cristina! Tão poucas?
...
«Convidei uma série de especialistas das mais diferentes áreas para darem a sua opinião e para iniciarmos aqui este debate, desde a filósofa à procuradora-geral da República, ao sociólogo... Porque é que isto acontece?»
A própria PGR? Ná, não me cheira, não estou a ver Lucília Gago a envolver-se directamente na causa particular de uma regateira ofendida. CF a esticar-se, a armar-se em assunto sério da nação.
Ficamos sem saber quem será a insigne filósofa e o sumo sociólogo. Hannah Arendt? Alain Touraine?...
CF não se enxerga. 
...
JAC:
«Deixa-me retomar aqui o prefácio do Valter Hugo Mãe*, assinado orgulhosamente nas Caxinas em Outubro de 2020»

JAC, num triste e deplorável papel de jogral de CF, em pleno "jornal nacional" das 8.
...
CF:
«Eu vou-te dizer uma coisa: isto que está aqui não me toca, nada do que está aqui me toca»
...
JAC:
«Mas estás revoltada, percebe-se que estás revoltada.»
CF:
«Estou revoltada e tenho uma coisa para te dizer ... estou aqui aflita, e estou aflita por uma coisa [CF esboça duas lágrimas]: a mim não me dói mas tenho muito medo de que doa a muitas outras pessoas»
Afinal, aquilo toca-a ou não toca? Dói-lhe ou não dói? **
...
«Saiu uma capa recentemente da revista Sábado, de um grupo que me tem atacado constantemente nos últimos tempos. O que é que lá está? Um ataque vil à minha moral, à pessoa que eu sou pessoalmente [sic], com invasões da minha vida pessoal e profissional. Eu mando aquilo para o advogado e digo O que é que se pode fazer com isto? E ele diz Cristina, infelizmente, nada. Há muitas fontes próximas.» ***
...   
«Imagina que dentro desta casa há uma pessoa que não gosta de mim»
Que exagero, doutora! Tantas?
...
«A Dulce Rocha, a procuradora-geral da República, diz isso mesmo»
Bem me parecia que «procuradora-geral da República» lá atrás era cagança. Cristina Ferreira desgasta-se a impressionar-nos com a eminência da sua pessoa. Sucede, azar dela, que a magistrada do Ministério Público, Dulce Rocha, com currículo estimável, nem procuradora-geral adjunta chegou a ser. Aposentou-se em Fevereiro de 2018, na posição de simples procuradora da República
...
«Se eu posso usar a minha imagem pública, o passo que se segue é uma petição pública para que esta discussão possa existir»
Gente poderosa faz coisas em grande.


E agora, os inacreditáveis finais 25 segundos de abjecção.
Eram 21h14 quando de indicador esquerdo em riste, depois o direito, fixando a câmara, em plano fechado sobre o seu rosto circunspecto, e fulminando-nos de moralidade, Cristina Ferreira encerrou o sórdido entremez de propaganda de si, num momento de manipulação e chantagem da audiência do mais reles que a habilidade humana pode lograr:
«Eu lembro aqui uma menina de 13 anos, Marion****, francesa, que se suicidou porque escreveram coisas na internet deste género. E essa menina de 13 anos pode ser a sua filha, pode ser o seu filho. Um dia destes pode ser ele a não aguentar aquilo que lhe dizem e a suicidar-se a seguir. E este livro [CF exibe a capa em grande plano] não é meu; este livro é de todos.»
Só faltou mesmo 761 200 900ligue agora! Não desperdice a oportunidade única de levar para casa 10 mil exemplares de "Pra cima de Puta" pelo custo simbólico de 1 euro + o IVA da chamada. Ligue!  
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* Como se a caução de um dos mais pífios e melosos escritores da nossa contemporaneidade garantisse a excelência seja do que for. Não bastando, VHM escreve com deficiências sérias de sintaxe. Retorquir-me-á o amável visitante: Mas se até a Inês Meneses escolhe VHM para a prefaciar, alguma qualidade o romancista de Caxinas terá.
Ahahah, ora aí está! Além de que a editora do "Pra cima de Puta", decerto não por acaso, é a mesma do "Caderno de encargos sentimentais". Contraponto, lembra-se?
 
** «Essas, agressivas, ... em mim não têm nenhum impacto. Em mim não têm nenhum, nunca, zero! ... As pessoas podem não acreditar, mas em mim têm efeito zero! Qualquer notícia, qualquer crítica, o que quer que seja.»
É por isso queao contrário do que consta"Pra cima de Puta", efeito de eflúvio celeste, foi escrito por um arcanjo anónimo inspirado por Deus.
Cristina Ferreira não existe. É puro ectoplasma.

*** Não me tomem por néscio. Sei bem, de conhecimento robusto, que na presente refrega em torno da Media Capital/TVI, a Cofina de Paulo Fernandes não fala de Cristina Ferreira sem propósito contaminado de interesse.
Mas não devo dispensar nenhuma pedrinha para melhor compreensão do mosaico do universo. E que pedrinhas falantes vão nestas 10 páginas — "Cristina, Guerras, Poder e a Queda" | revista Sábado, 25.Nov.2020  — assinadas pelas jornalistas Raquel Lito, Sónia Bento e Lucília Galha... Por muito que custe a CF, quase tudo aquilo se passa em estúdio ou vem de fontes do seu aquário profissional. Qual moral? Qual pessoal?

**** Cristina Ferreira, madura sabidona de 43 anos, oportunística, obscena e despudoradamente coteja o seu caso com o de Marion Fraisse que se enforcou em Fevereiro de 2013, aos 13 anos, num quadro de "bullying" escolar. Parasita sem escrúpulo nem asseio.
Já em 2018, quando migrou da TVI para a SIC, CF charrara alarvemente no cadáver de Lady Di.
Apesar dos laivos de ignorância grosseira, CF não é inocente nem ingénua. Recolhe do que semeia. De que e porque se queixa?