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terça-feira, 12 de abril de 2022

66 segundos de escorrência fétida

«Foram hoje apresentadasa) as memórias de Daniel Proença de Carvalho. Chamam-se "Memórias do Advogado - Justiça, Política e Comunicação Social".b) O Daniel Proença de Carvalho, há quem goste, há quem não goste dele, é um personagem marcante e como se costuma agora dizer incontornável da democracia portuguesa. Esteve em todos os momentos do nosso regime, até esteve noutros anteriores, particularmente no célebre "caso Sommeronde houve aí uma grande guerra também de regimes, contra o regime, aliás. E portanto, é uma vida, esta aqui, a vida de um homem; é também a vida de muito da nossa história recente. Ele fala sobretudo de justiça, dos problemas da justiça em Portugal. Mas fala também de política e de comunicação social. É um livro que se começa a ler e depois não se consegue parar. É um livro notável de um homem a quem o senhor Presidente da República hoje disse que o país deve muito e eu tenho que concordar inteiramente com o Presidente da República, é um homem a quem eu acho que o país deve muito.»c)
66 segundos de Pedro Marques Lopes, lambecusista-mor do reino, 07.Abr.2022d)
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a) Pressente-se nesta poderosa sala — «veja as imagens» —, ou aqui, um suave, mefítico e sofisticado cheirete a compadres...


c) Talvez PML devesse aduzir, para melhor compreensão pública do acto de propaganda, que o seu advogado, e doutros dignos constituintes como Ricardo Salgado, é o Francisco Proença de Carvalho, filho do Daniel que, já agora, entre multiplicados mesteres de que se incumbiu ao longo de uma existência vivida nos peristilos de poderes vários, foi defensor de José Sócrates e patrão do jornal onde PML publicou semanalmente de 2009 a 2020.e)
 
d) Posaconazol não pára de desconcertar.
«Gosto pelo menos de pensar que tenho um bocadinho de cuidado com as palavras». - 23h05
Nota-se. Palavras não eram ditas,
«O Partido Social Democrata continua a não conseguir ter um discurso que de encontro a este eleitorado moderado». - 23h26
Praticante penoso da língua, há-de reformar-se do comentariado sem que ninguém o elucide de que com o 'ir de encontro', que profere insistentemente, diz o contrário do que quer dizer.
de encontro    ao encontro

e) Tempo de salivante e mal disfarçado contentamento aquele — 2017-2019, num Diário de Notícias ainda animado de socratofilia palpável —, de hossanas ao na altura novel presidente do PSD com Daniel Proença de Carvalho, chefe da trupe, Fernanda Câncio e seu serviçal Pedro Marques Lopes, irmanados no desiderato comum de domesticação do Ministério Público e açaime do juiz Carlos Alexandre que a reforma da Justiça propalada e exigida por Rui Rio — um dos cavalos de batalha no seu programa político — haveria de lograr, assim lhe dessem ouvidos ou o poder necessário.

//
Mas para informação substancial acerca da figura incontornável e do livro em apreço, apresentados por Miguel Sousa Tavares, dos mais antigos e persistentes gladiadores-odiadores do Ministério Público, vá lá adivinharmos porquê, nada supera a generosa, suculenta e bem documentada peça, elaborada por  quem sabe e conhece, José, que dá uma ideia do país que muito deve a Daniel Proença de Carvalho, já que nem o frenético arlequim nem o pândego Posaconazol tiveram a gentileza de explicar que gente concreta deve assim tanto a este músico medíocre e que especificada dívida está por cobrar.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Miguel Sousa Tavares conta mal e não fala melhor

Tenho presente uma conversa na telefonia, há meia dúzia de anos, em que Miguel Sousa Tavares, jornalista veterano e escritor, falava do empenho máximo — cuidado com erros de português, verificação atenta dos factos — com que prepara a página que desde Janeiro de 2006 assina todos os sábados no Expresso. 
Pois bem:
«[...]
Quando a minha avó morreu, em 1967, ... havia dois canais de TV em Portugal: um passava o telejornal e o "Bonanza", o outro a missa e a "TV Rural".
[...]»

Da avó nada sei, mas lembro-me da RTP em 1967, tinha ele 15 anos e eu 14.
Missa, Bonanza e TV Rural, todas as semanas; Telejornal, diariamente. E continuariam no mesmo canal — RTP 1 —  após 25.Dez.1968 quando já havia dois; eucaristia, faroeste e «despeço-me com amizade» sempre ao domingo.

Ainda Miguel Sousa Tavares, jornalista e escritor:
«E a Pedro Santana Lopes aplica-se como uma luva os versos do fado de Amália»
aplicam-se

«De resto, além de coleccionarem "apoios" para que o país se está nas tintas e de caciquarem as bases, confundindo-as com o país, nenhum deles avançou até agora com a mais pequena, insignificante, modesta ideia de como servirem Portugal.»
Arrebicarem, de arrebique; alambicarem, de alambique; clicarem, de clique; repicarem, de repique; despicarem, de despique…
Caciquarem, de cacique, valha-nos Santa Carameca!? Ó doutor Miguel Sousa Tavares, que javardice de gramática é essa?

«Os portugueses têm à partida uma desconfiança de quaisqueres políticos, de quaisqueres políticos! Isso faz parte do bota-abaixo de café.»
quaisquer  ... quaisquer, chiça!

«E portanto, quando ele [presidente da Coreia da Norte] agora oferece aos amaricanos o desmantelamento das instalações nucleares, ele está a oferecer uma coisa que já existe.»
americanos

«Sérgio Moro interviu directamente a favor da campanha do Bolsonaro como já tinha intervido a favor do impeachment da Dilma.»
interveio  ...  intervindo, foda-se!

É isto um escritor esmerado? É isto um jornalista escrupuloso?
O pior, insisto, é o perigo de crianças por perto

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Eu, quem?

Calipto.

«Foram os eucaliptos, propagando o fogo de uns para os outros, de um lado para o outro da estrada, através das suas copas, quem matou aquelas 47 pessoas.»

Ó senhor doutor e ilustre escritor Miguel Sousa Tavares, pelo amor da santa, «foram os eucaliptos quem»? Que prosopopeia é essa? Logo o Miguel, a quem oiço repetidamente confessar que investe cuidado máximo – vigilância do erro, esmero na gramática – na sua lauda semanal do Expresso. 

«De facto, ao contrário do que defende a ignorância urbana e arrogante de propostas tendentes a proibir a caça, vindas do PAN, do PEV ou do BE, a caça (e também por causa da sua íntima relação com a agricultura), é uma das últimas actividades que ainda mantêm os terrenos cultivados, desmatados, e vigiados e preserva o que resta do mundo rural — cujo abandono, todos concordam, é, no fim de tudo, a causa principal dos incêndios.»
Não deixa de me fazer sorrir a objurgatória à «ignorância urbana e arrogante» por parte de um menino-bem, nado, cultivado e vivido na aristocracia citadina, putativo porta-voz da sabedoria rural de caçadeira a tira-colo. E eu pensando que a causa principal dos incêndios fosse a maldade louca... 
Já no Expresso do sábado anterior, 24.Jun.2017, Miguel Sousa Tavares vertera copiosa sanha anti-eucalíptica em "O essencial e o marginal". Gosto da resposta – Meu caro Miguel Sousa Tavares... – que Henrique Raposo lhe deu: "Calitros" | Expresso, 01.Jul.2017".   

Não me vou sem quatro ou cinco quinaus  gamárticos no Expresso e noutras gazetas. Estão a pedi-los.

«Volta Galp, estás perdoada»
«Volta, Galp», se fazem favor. «Volta Galp» é outra coisa, senhores jornalistas.

«têm havido várias reuniões entre os advogados das duas partes»
«tem havido», foda-se. Aprendam. Aprendam. Aprendam.

«Lev Yashin, para muitos um dos melhores guarda-redes da história da futebol, também jogou durante muitos anos, até aos 41. Começou em 1950 e só terminou em 1970, sempre ao serviço do seu Dínamo de Moscovo e da selecção da Rússia, onde venceu os jogos olímpicos em 1956.»
Que merda é aquilo, ó doutor Gonçalo Lopes
«e da selecção da União Soviética que com Lev Yashin na baliza venceu os jogos olímpicos de 1956 em Melbourne», se não se importa. 

«Até sempre Henrique.»
«Até sempre, Henrique.», se faz favor. «sempre Henrique», doutor Eduardo Dâmaso, é outra coisa; sempre Henrique é o que Medina Carreira foi a vida toda.

Irra!
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* Diário de Notícias, o meu DN vai para 47 anos, definhante e desleixado como nunca. Hoje em dia, um jornal sempre disponível e lesto para os arrotos de indignação do príncipe da lisura procedimental infamado e perseguido pela justiça, para estímulo dos idólatras não vá esmorecer-lhes o fervor, mas que foi, relembro, o único diário português em papel a não conceder uma linha a Armando Silva Carvalho por altura da sua morte, no dia seguinte e em todos os seguintes dias seguintes. 
Desleixo, sim. Repare-se no sector "Opinião" da ficha técnica:
André Macedo, a quem Paulo Baldaia sucedeu na direcção, desaparecido desde 23.Mar.2017.
Miguel Ángel Belloso, desaparecido desde 24.Fev.2017.
Yanis Varoufakis, desaparecido desde 30.Nov.2016.
André Carrilho, muito bem, um génio, continua no activo. Mas porque não consta o magnífico José Bandeira, porventura o melhor cartunista de Portugal, que continua a publicar diariamente no DN desde há um milhão de anos?
E João Gobern, que ultimamente se tem desunhado a escrever, porque não consta também?
Enfim, grande tristeza.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Chispas

Melhores textos * 
«[…]
A economia daquilo a que chamam tragédias é favorável à comunicação social. Enquanto nos períodos normais a televisão e a imprensa vivem de luzes, música, plumas, comentadores e lantejoulas, que têm de ser pagos e custam muito dinheiro, um acontecimento imprevisto fornece grandes cenários naturais e humanos a baixo custo. A consequência evidente para quem presta atenção a esses acontecimentos é a atenção extraordinariamente demorada a tudo aquilo que sai de graça. Num barranco em chamas, e entre blocos de publicidade, o mesmo jornalista improvisa infinitamente sobre o barranco em chamas; e quando escasseiam imagens variadas de barrancos em chamas, o mesmo jornalista improvisa infinitamente sobre as mesmas imagens. O seu género é a stand-up tragedy.
[…]
são eles que mobilam com conteúdos o que de qualquer maneira os jornalistas nunca conseguiriam por si só imaginar: um cão, um filho, um tractor, uma mala de roupa. Visto o que se tem visto, os acontecimentos recentes sugerem que nem sempre será boa ideia não matar o mensageiro.»
- x - 
«[…]
A nauseabunda estetização da catástrofe servida ao espectador — o “belo” cenário trágico resultante das montagens e encenações feitas nos estúdios das televisões — também mostra que alguém, certamente uma equipa, rejubilou com os seus belos alvos que lhes fornecem matéria para uma grande produção a baixo preço, para um filme-catástrofe que não precisa de efeitos especiais, só precisa de uma montagem bem ornamentada e música a condizer. Tudo devidamente sublinhado por textos, legendas e designações (por exemplo, “a estrada da morte”) que remetem para as grandes ficções de Hollywood. Às vezes, sobre essas imagens sobrepõe-se uma voz-off que lê um texto a imitar qualquer coisa de literário, a sublinhar a operação que reduz a tragédia real a uma opereta obscena. A estetização é uma violência exercida sobre as vítimas da catástrofe e, paradoxalmente, tem o efeito de uma anestesia aplicada ao espectador.
[…]»
- x - 

Nota
Espanta-me como tanta e tão bem informada gente caiu na esparrela do Canadair.
Nessa não caí eu, que mantenho permanentemente ligado [há uma moda tinhosa nos canais de notícias a dizer «em permanência»] desde há um ano e picos o detector "presidente-arlequim". Raramente falha.
Nas quase duas horas em que o avião esteve despenhado, com Miguel Sousa Tavares em zapping frenético à cata dos destroços, desconfiei serenamente: não havendo sinal ou notícia de que Marcelo estivesse a caminho, de que Marcelo já estivesse junto da carcaça fumegante ou até de que Marcelo tivesse chegado instantes antes do despenhamento — sim, antes; é preciso não saber nada da idiossincrasia presidencial-arlequineira para julgar Marcelo incapaz de estar nos sítios e nas coisas antes de haver sítios ou de as coisas acontecerem… —,  a probabilidade de nova desgraça era altamente remota. 
Certo é que na tarde de terça-feira passada, 20 de Junho, não houve sinal ou notícia de Marcelo em trânsito. Por isso, não acreditei no desastre e tinha razão.
Senhores jornalistas da LUSA, e outros, e Miguel Sousa Tavares, aprendam de vez para não tornarem a espalhar-se ou a embarcar em boatos: detector "presidente-arlequim" sempre ligado!

Nem eu resisto a molhar o bico no fogo
Não pára de medrar, em mim que não sei de labareda grande que não comece por lume pequeno, o convencimento teimoso de que a detecção precoce de um incêndio — vigias, guardas — não é coisa que interesse por aí além ao negócio e à propaganda do combate, mormente à coreografia estapafúrdia, jactante e ultracara dos famigerados «meios aéreos» contratados pelo Estado.
Quanto vale no mercado pornográfico da emoção ou na mobilização de massas uma imagem destas? Nada.
Quatro meses de kamovs disponíveis para aspergir árvores, apenas em horário diurno e desde que os meteocaprichos consintam, pagariam quantas torres de vigilância com 24 horas diárias de salário o ano todo? Expliquem-me.  **
Não sejamos ingénuos: o combate é que rende. Chego a ter vergonha de ser humano [algum outro bicho se envergonha?] ao pensar na floresta de negócios perdidos por cada fogueira na floresta apagada à nascença. Não falando das mortes evitadas. 
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* Sem surpresa, o pior texto é d' o comunitário, "Uma culpa antiga", no DN de ontem, 25.Jun.2017, que passo a resumir, ipsis verbis e na ordem por que está redigido:
Não sei / Sei / Julgo saber / Estou mesmo convencido / Não sou capaz de saber /
o que fazer para que, no mínimo, se remedei. [sic] /
Sei bem / Julgo saber / Estou mesmo convencido / comunidade / comunidade / Não sou capaz de saber / Sei / Suspeito / Não ignoro / Sei o mesmo que o leitor sabe / Sei de forma bem mais informada / comunidade / não desconheço /
Concelhos que há quarenta ou cinquenta anos tinham o dobro ou o triplo das pessoas que agora têm e que os que ainda lá estão são na sua esmagadora maioria velhos, muito velhos. [sic] /
Era capaz de apostar / comunidade /
Existe uma cultura de desprezo por o mundo rural. [sic]

Nas oito vezes em que se refere ao interior do país, Pedro Marques Lopes escreve com maiúscula, vá lá saber-se porquê, «o Interior». Bacoco. 
"À Procura", coluna d' o comunitário, é um penoso repositório semanal de ortografia deficiente, dislexia sintáctica, discordâncias grosseiras [estou em condições de mostrá-lo com abundância], a carpinteirar a pasmada obviedade de ideias que Pedro Marques Lopes vende habitualmente, as mesmas, em duplicado na SIC e no DN. Atente-se, por exemplo, em como no Eixo do Mal de anteontem, do minuto 07:45 ao minuto 13:35o comunitário replicava antecipando-a, parágrafo a parágrafo, a crónica de ontem, "Uma culpa antiga".
Chamem-lhe parvo.
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**
«DIRETIVA OPERACIONAL NACIONAL N.º 2 – DECIF ***
DESPACHO
No âmbito das competências que me foram delegadas pela Senhora Ministra da Administração Interna pelo Despacho n.º 181/2016, publicado na 2.ª série do Diário da República n.º 4, de 7 de janeiro, alterado pelo Despacho n.º 8477/2016, publicado na 2.ª série do Diário da República n.º 124, de 30 de junho homologo a Diretiva Operacional Nacional, que visa estabelecer, para o ano de 2017, o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF), conforme proposta da Autoridade Nacional de Proteção Civil.
Lisboa, 30 março de 2017.
O Secretário de Estado da Administração Interna,
Jorge Gomes****»

***
130 páginas, incluindo 41 anexos.
Compêndio abrasivo das causas e das finalidades com abordagem teleológica do "porquê?" e etiológica do "para quê?"; ou talvez ao contrário, o que vem dar no mesmo:
- a expressão «postos de vigia» ocorre 10 vezes,
- a expressão «meios aéreos» ocorre 66 vezes.

****
Jorge Gomes que o presidente-arlequim abraçou ... «O que se fez foi o máximo que se podia fazer. Não era possível fazer mais».

sábado, 6 de maio de 2017

Afirmações espantosas

«[…]
Neste processo, o Ministério Público exibiu despudoradamente uma das especialidades que vem cultivando há décadas: promover covardemente - e criminosamente - campanhas de difamação nos jornais, por forma a transformar a presunção de inocência em presunção pública de culpabilidade.
[…]»
Atenhamo-nos às quatro décadas de Procuradores-Gerais da República designados pela democracia:
João de Deus Pinheiro Farinha, 1974-1977
Eduardo Augusto Arala Chaves, 1977-1984
José Narciso da Cunha Rodrigues, 1984-2000
José Adriano Machado Souto de Moura, 2000-2006
Fernando José de Matos Pinto Monteiro, 2006-2012
Maria Joana Raposo Marques Vidal, 2012-
Pinheiro Farinha [1919-1994] e Arala Chaves [1914-1993] não estão cá para se defender. Mas por que esperam Cunha Rodrigues, Souto de Moura, Pinto Monteiro e a Joana para agir em desagravo e reparação do ultraje, da injúria, da calúnia, da ofensa, da desonra, do insulto e – usando vocábulo querido ao colunista do DN – da infâmia lançada sobre a instituição que dirigiram e Joana Marques Vidal hoje dirige? Onde está o vosso brio, prezados magistrados da nação?
Ou estou pitosga e a afirmação de José Sócrates não configura crime tipificado?
- x -
Miguel Sousa Tavares, paladino desde sempre da não implicação do casal McCann no desaparecimento da filha Madeleine, convencido do rapto — Passa pela cabeça de alguém que os pais, o pai ou a mãe ou ambos, fizessem sumir o cadáver da miúda depois de inadvertida e desastradamente terem errado ou exagerado na dose para a manter quietinha enquanto estavam na comezaina e nos copos com amigos? Nunca jamais em tempo algum, só mentes pérfidas admitiriam um filme desses! —, afirmou o seguinte, em 3 de Maio corrente, no fecho do especial "Caso Maddie – 10 anos" na SIC Notícias:
«Infelizmente creio que hoje Maddie não estará viva já.»
Alto, pára tudo! Afinal, morreu? Como? Quem a matou? Quando? Porquê?
Reabra-se o caso desde o início, mais bem dito, desde que as tapas começaram a chegar à mesa
Miguel Sousa Tavares endoidou ou esgueirou-se-lhe a língua para explicação mais verosímil? O mais verosímil, também quanto a mim mas em 3 de Maio de 2007, é Madeleine ter morrido. E quero crer que os pais sabem, por muito que tentem persuadir a galáxia doutra coisa. E se eles tentam!
Já Miguel Sousa Tavares, que acompanho há 40 anos e geralmente aprecio, é, sabemo-lo, um obstinado de causas fortes: do amor à caça, ao tabaco, ao Futebol Clube do Porto e à orla costeira, ao ódio sistemático, antigo e infrene ao Ministério Público, ao Acordo Ortográfico, à internet social e aos benefícios fiscais a pensionistas estrangeiros. Causas mais fortes do que ele, o Olimpo o abençoe.

Duas afirmações espantosas. Inconsequentes?

sexta-feira, 3 de março de 2017

Mas não é só o escritor Miguel Sousa Tavares que tem problemas com o infinitivo flexionado*

Por exemplo, o bom Miguel Esteves Cardoso:
«Foi como se almoçássemos lautamente para tirar a imensa fome, para podermos dedicarmo-nos, com objectividade, ao trabalho de lembrar refeições ainda melhores.» [podermos dedicar-nos

«O mínimo que podemos fazer é envergonharmo-nos de sermos cúmplices de tanta crueldade [envergonhar-nos de ser cúmplices

«Pensamos que estamos a actualizarmo-nos ou a mantermo-nos informados mas o que estamos a fazer é a participar em passatempos.» [estamos a actualizar-nos ou a manter-nos

«Porque estamos a divertirmo-nos.» [estamos a divertir-nos

E o melhor, como se proclama, insuperável escritor, António Lobo Antunes, que tal é ele de gramática?
«Por favor, leiam-no [ao José Cardoso Pires]: é uma imensa prenda que darão a vós mesmos.» [leiam-no ... darão a vocês mesmos   /   lede-o ... dareis a vós mesmos

«Não sei porque carga de água» [por que carga de água]

«não são capazes de saírem à nossa frente» [capazes de sair]

«A casa cresce, o número de degraus da escada do jardim para o primeiro andar aumentam.» [o número ... aumenta]

«Também não entendia porque motivo o Mundo era meu inimigo.» [por que motivo]

Que porcaria de professores de Português teve esta gente?
Para piorar as coisas nem revisores há já para acudir.
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quarta-feira, 1 de março de 2017

A grandeza áscia de Aníbal António Cavaco Silva e os colhões ectópicos de João Pedro Matos Fernandes

«[...]
Mas não foi isso o que verdadeiramente me arrepiou nas notícias e imagens do lançamento do livro do Professor. Outra coisa eu não esperava dele nem do seu livro. O que me impressionou e arrepiou foi uma visão que diz tudo sobre quem foi e quem é este homem. Após mais de vinte anos na vida política e nos mais altos postos dela, tendo fatalmente conhecido não só vários grandes do mundo mas também toda uma geração de portugueses da política, da cultura, do empresariado, das universidades, etc., quem é que Cavaco Silva tinha a escutá-lo no seu lançamento? A sua corte de sempre, tirando os que estão a contas com a Justiça. Os mesmos de sempre — Leonor Beleza e o que resta da sua facção fiel no PSD. Mais ninguém. Nem um socialista, nem um comunista, nem um escritor, um actor, um arquitecto, um músico reconhecido. Nada poderia ilustrar melhor o que foi e é o pequeno mundo de Cavaco Silva. Ele que continue a escrever a sua história: a História jamais o absolverá.
[…]
Foi assim, por exemplo, que nasceu uma cidade clandestina, com igreja e tudo, no Portinho da Arrábida. Mas, felizmente para nós todos, que somos donos do domínio público, havia então um ministro do Ambiente (Carlos Pimenta)que, ao contrário do actual, os tinha no sítio** e fez a única coisa que um Estado de direito pode fazer quando ocupam a sua propriedade e a propriedade de todos: mandou aquilo abaixo.
[…]»
___________________________________________
Na terceira república portuguesa, não contando com os seis governos provisórios de 1974 a 1976, o ambiente só ganhou dignidade ministerial no XI Governo Constitucional [Ago.1987-Out.1991], de Aníbal Cavaco Silva, na altura ainda com designação, e missão alargada, de Ministério do Ambiente e Recursos Naturais, de que foi primeiro titular Fernando Real que por acaso de berço nascera onde Francisco Sá Carneiro houve de, 58 anos depois, morrer por acidente de avioneta
O primeiro Ministério do Ambiente, sem mais, chefiado por Elisa Ferreira, surgiria no XIII Governo Constitucional [1995-1999], de António Guterres. 
Carlos Pimenta assumiu funções governativas no IX Governo Constitucional [Jun.1983-Nov.1985], dito «do bloco central», de Mário Soares/Mota Pinto/Rui Machete, em que foi Secretário de Estado do Ambiente, de Jun.1983 a Fev.1985, na dependência do Ministro da Qualidade de Vida, António Capucho, e Secretário de Estado das Pescas, de Fev.1985 a Nov.1985, na dependência do Ministro do Mar, José de Almeida Serra.
No X Governo Constitucional [Nov.1985-Ago.1987], de Aníbal Cavaco Silva, Carlos Pimenta foi Secretário de Estado do Ambiente e Recursos Naturais, na dependência do Ministro do Plano e Administração do Território, Luís Valente de Oliveira.
Para que não me tributem a memória, declaro que todos estes pluviosos saberes me chovem daqui.

** Donde, ao contrário do ministro João Pedro Matos Fernandes, Carlos Pimenta foi um governante de tomates. Como diz o povo, um verdadeiro macho ortorquíaco. [Do grego orthós + órkhis]

Ainda Miguel Sousa Tavares [MST]:
«[…] Isso permite que os ocupantes venham agora invocar o “usucapião” *** da ilegalidade e o que o notável António Pina, presidente da Câmara de Olhão e um dos felizes “proprietários” de uma casa de férias no domínio público da Ria Formosa, tenha o supremo desplante de declarar que as ocupações são “uma conquista do 25 de Abril”! Ah, pobre 25 de Abril: de facto, tu serves para tudo! […]»
*** Eu digo e defendo a usucapião não ignorando os dicionariastas mais acomodadiços que caucionam o masculino.

Com a razia de revisores na imprensa e nos media em geral, quem nos protege da asneira e da degenerescência da língua?
Já que estou com a mão na massa, apetecem-me uns quinaus ao Miguel Sousa Tavares, jurista, escritor, entre os bons analistas da política, que tem voz grossa, costas largas e especiais deveres de ofício, mas também ele um desprotegido, por poupança na revisão, no jornal do avaro doutor Pinto Balsemão.
MST usa escrever rentabilizar, um sms ou preferir antes (uma coisa a outra). Lá com ele
Inaceitáveis e enxovalhantes são dislates como os que passo a ilustrar em oito amostras da sua coluna semanal no Expresso na qual, sei, MST se aplica com redobrados cuidados de rigor nos factos e esmero na língua:

11.Abr.2015, "O que vai passando" - «basta atentar no caso que despoletou  este assunto». [espoletou este assunto]

09.Jan.2016, "Marcelo e os outros" - «A grande notícia destas presidenciais é a de que vamos finalmente vermo-nos livres do casal Aníbal/Maria Cavaco Silva.» [vamos ... ver-nos]

19.Mar.2016, "A política contada aos adultos" - «Podemos sempre consolarmo-nos com isto». [Podemos ... consolar-nos]  

04.Jun.2016, "Porque é que as 35 horas são uma provocação" - «Porém e sobre pressão dos seus parceiros de malabarismo e dos sindicatos da Função Pública». [sob pressão]

24.Set.2016, "Várias mentiras e um imposto" - «Trata-se de pura e simples ideologia, fundada na célebre frase de Engels ("toda a propriedade é um roubo"), pela qual passaram mais de cem anos, dezenas de nações arruinadas e milhões de seres humanos condenados à fome e à miséria.»
"O que é a propriedade?", Proudhon - Editorial Estampa, 2.ª edição, 1975, página 11:
A propriedade é um roubo. Original em francês, publicado em 1840, pelo que MST poderia dizer, com acrescida propriedade, «pela qual passaram 176 anos». 
Engels, doutor Sousa Tavares!? Essa é de cabo de esquadra. O Expresso não veio corrigir na semana seguinte e assim se dissemina o disparate pelos séculos fora.

05.Nov.2016, "A loucura dos povos" - «salvo-conduto para os mandatos de captura internacional pendentes sobre a sua lusa pessoa.» [mandados de captura]

07.Jan.2017, "Um novo ano. Apenas isso" - «é difícil, senão impossível, virar os números do avesso». [se não impossível]

04.Fev.2017, "Justiça à portuguesa" -  «lá se abriram dois processos: um, disciplinar, e outro, a pedido do próprio José Sócrates, criminal. O primeiro, a cargo do Conselho Superior do Ministério Público, terminou com a inevitável absolvição do seu par, com o fundamento de que as suas declarações tinham sido proferidas “num contexto de tensão verbal muito excessiva”.» [tensão verbal muito expressiva].

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Recomendação ao senhor padre poeta comendador Tolentino

Ponha os professores e alunos da universidade de que é vice-reitor, mormente dos cursos de Economia, Gestão, Marketing e Direito, a ler, a reflectir e a debater sobre as últimas 10 linhas de "Os inimputáveis", crónica de Miguel Sousa Tavares no Expresso de 09.Abr.2016.

Isso mesmo: ganância, escrúpulo, ética.
Semana sim, semana sim, sabatina na Católica. Para aquilatar o avanço das consciências. Alguns irão para o governo, muitos para o empresariado.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Acordo Ortográfico [102]

«[…]
Um Presidente da República garante da independência nacional não pode assinar ou manter em vigor o Acordo Ortográfico de abastardamento da língua portuguesa
[…]»
Miguel Sousa Tavares, "A deserção presidencial e a rendição governamental" | Expresso, 16.Jan.2016

- x - 

«Embora o voto seja a escolha de um programa político global, consideramos que o posicionamento dos Candidatos acerca do AO90 é um elemento preponderante nessa decisão.»

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Errado, certo, confuso, o azar latino de Maria Filomena Mónica, um engano cósmico de Virgílio Azevedo e o sempre inefável Sampaio da Nóvoa


Miguel Sousa Tavares escreve mal:
«A grande notícia destas presidenciais é a de que vamos finalmente vermo-nos livres do casal Aníbal/Maria Cavaco Silva.» *vamos finalmente ver-nos livres

Margarida Davim, ultraconfusa: 
«[...] 
Não há quem não acredite que não haverá uma segunda volta.» — Não falta quem acredite que haverá uma segunda volta. [Por exemplo] 
"Os não-comícios de Marcelo" | Sol, 09.Jan.2016

Miguel Esteves Cardoso escreve mal: 
«[…] 
acolhem e servem toda a gente que por ali passa como se se tratassem de velhos amigos.
[…]» — como se se tratasse de velhos amigos 
"Um branquinho perfeito, o Corvus 2014, para a praia da Adraga" | Público/Fugas, 09.Jan.2016

Carlos Bessa escreve bem:
«[…] 
Há, em todo o livro, uma voz quase sinfónica, com diferentes entoações, como se se tratasse de diferentes instrumentos que dialogam
[…]» 
Recensão de "Porto do Mistério do Norte", de Dimas Simas Lopes | Expresso/E, 09.Jan.2016

David Teles Pereira escreve mal:
«[…] 
o que justifica em grande parte a circunstância da sua obra se ter tornado (…) uma obra de referência do pensamento político
[…]» — a circunstância de a sua obra se ter tornado 
Recensão de "O conceito do político", de Carl Schmitt | Sol/b.i., 09.Jan.2016

Paulo Portas frusta? Jamais em tempo algum.
«[...] 
O futuro ex-líder do PP não frusta a sua agente
[...]» — frustra 
"O livro que é um bom investimento" | Sol, 09.Jan.2016

Maria Filomena Mónica não sabe latim:
«[…] 
O jantar tinha de estar terminado antes da meia-noite, quando partíamos para a capelinha em São Pedro de Alcântara onde, durante a Missa do Galo, se cantava o Adestis Fidelis.
[…]» — Adestes Fideles 
"O avental" | Expresso, 09.Jan.2016

Engano cósmico de Virgílio Azevedo:
«[...] 
a idade do Universo é de 13,82 mil milhões de anos-luz.
[…]» — Ai isso é que não é, que eu fui contar. Tem 13,82 mil milhões de anosAno-luz é distância.
"Os segredos de Einstein" | Expresso, 09.Jan.2016
__________________________________
* Já agora, um dos outros contra quem Marcelo concorre e de quem Miguel Sousa Tavares diz:
«[…]
Sampaio da Nóvoa, inventado por Mário Soares após um célebre discurso numa das sessões soaristas da Aula Magna, vem do absoluto vazio sideral: ninguém sabe onde ele esteve, o que fez, o que pensou, o que disse, nestes 40 anos de democracia. Mas o pior é o que diz e pensa hoje, uma névoa discursiva que ninguém entende e que faz dele o cantautor destas presidenciais, uma fusão entre o MDP/CDE e o Festival da Canção, versão Ary dos Santos. Frases como "a República também é vida, tem de ser sentida todos os dias na vida das pessoas" (já sentiu a República hoje?), dizem-nos tanto sobre o que seria uma Presidência sua como o facto de ter jogado futebol na Académica. Apenas podemos ter como certo que os seus discursos levariam semanas a ser digeridos e interpretados, fazendo de alguns dicursos de Jorge Sampaio textos de uma clareza fulgurante.
[…]»
Rio-me e aplaudo.
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A partir daqui, que é quando o sapo Cocas vai pisar a embraiagem e engrenar as mudanças, o presente verbete tem o patrocínio de Cá Vai Sintra

Entre as 10h15 e as 10h45 de ontem, 13.Jan.2016, Sampaio da Nóvoa deu uma entrevista na Antena 1.
Maria Flor Pedroso para o candidato [minuto 29:50]- A sua escolha musical tem a ver com a morte de David Bowie [08.Jan.1947-10.Jan.2016]. Só lhe pergunto se ele por acaso faz parte da sua banda sonora, não fora o facto de ele ter morrido; mas se ele faz parte da sua banda sonora.
Sampaio da Nóvoa- Faz, fez durante muito tempo, durante muitos anos. Foi uma referência muito constante nas minhas músicas e nos meus silêncios também, que é sempre a coisa mais importante da música, é o silêncio; é a nota mais difícil de escrever, é o silêncio. E também porque representa, esta música de mudança, de apelo à mudança, uma homenagem também a um homem que desapareceu agora, que é uma marca forte para mim, para muitas gerações em Portugal e que traz essa ideia de mudanças que nós precisamos para este país, para termos um país diferente, um país em que as mudanças sejam promovidas também pelo Presidente da República. É em nome da mudança e não em nome da estagnação que eu venho a estas eleições presidenciais.
Maria Flor Pedroso- "Changes", de David Bowie, é a escolha de António Sampaio da Nóvoa para fechar esta conversa.

Nesta série de entrevistas radiofónicas todos os candidatos trazem, para fim de conversa, uma música de sua eleição. Por exemplo, Marcelo Rebelo de Sousa, esta manhã, trouxe o António Zambujo, "Pica do 7"
Julgando eu que o cantochão gregoriano fosse a banda sonora mais conforme ao perfil incorpóreo deste candidato, eis que ele nos surpreende — serei o último a pensar em oportunismo** — com o azougado do Bowie fazendo-nos crer que tem passado os últimos 50 anos a assobiar-lhe as modas.

** Ainda assim, estou capaz de suspeitar que Sampaio da Nóvoa viria com o "Acordai", «... homenagem também a um homem que desapareceu agora, que é uma marca forte para mim, para muitas gerações em Portugal e que traz essa ideia de mudanças que nós precisamos para este país, para termos um país diferente, um país em que as mudanças sejam promovidas também pelo Presidente da República ...», tivesse Fernando Lopes-Graça morrido na véspera, o que só pode ser delírio meu, já que os comunistas são imortais.
Admito, finalmente, que o nosso ex-magnífico reitor tenha ponderado trazer 4'33", em tributo da coisa mais importante da música e da nota mais difícil de escrever. Mas o cadáver de John Cage nunca renderia tantos votos como um cadáver ainda morno, além de que a Maria Flor Pedroso era capaz de não achar graça.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Acordo Ortográfico [92]

«Anacleto estava radiante. Já lhe tinham dito lá na repartição mas ele não acreditava. No dia 13, o das aparições lá de Fátima, já podia escrever com menos letras, que alívio. Agora era lei, já não podiam gozar com ele quando escrevia “coação” e lhe perguntavam onde é que tinha comprado o coador. Só podia ser mesmo bênção dos pastorinhos. Ele tinha-se informado, sabia tudo. Até ao dia 13, havia na escrita portuguesa duas ortografias. Uma para Portugal e outra para o Brasil. Um excesso! Agora, a partir de dia 13, passa a haver só duas ortografias. Reparem bem na subtileza: duas e “só duas”.
[…]
Claro que nem toda a gente ia aceitar aquilo, havia muitos conspiradores, sediciosos, sempre prontos a pôr em causa os altos interesses da Pátria. Para isso, ele tinha um remédio: o capitão Windows.
[…]
O capitão Windows ri-se do matraquear no teclado e corrige as más vontades. Só dedos muito atentos e hábeis conseguem despistá-lo. Mas até esses hão-de cansar-se, vão ver!
[…]
o general Bertoldo Klinger (1884-1969), que assinava “jeneral Klinjer” e que, muito antes de apoiar o golpe que instaurou a ditadura em 1964, escreveu uma ousada obra intitulada Ortografia Simplificada Brazileira. Aí, dando largas à ortografia que ele próprio inventara, escreveu: “Etimolojia e Uso têm seu relevante papel, sine qua non, na constituisão, no recrutamento do vocabulário; feito isso, termina, porêm, seu papel: entra em asão a Ortografia, para ficsar fielmente para os olhos o ce a boca emitiu, o ouvido persebeu. Portanto, a Ortografia alfabética só póde ser pronunsiativa, fonética. Seu instrumento é o Ortoalfabéto, de símbolos nesesários e bastantes, sônicos, simples, diretos e imvariáveis. Direto, cér dizer ce o nome do símbolo é ezatamente o do próprio fonema ce ele representa.” 
Anacleto entrara em êxtase.
[…]»
Nuno Pacheco, "O capitão Windows e o general Klinger" | Público, P2, 17.Mai.2015

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«[…]
o absurdo do zelo português num AO falhado e que nos isolará ainda mais. Onde os estragos serão mais significativos é em Portugal, para os portugueses, e para a sua língua. É que o Acordo Ortográfico não é matéria científica de linguistas nem, do meu ponto de vista, deve ser discutido nessa base, porque se trata de um acto cultural que não é técnico, e como acto cultural em que o Estado participa, é um acto político e as suas consequências são identitárias. Não me parece aliás que colha o historicismo habitual, como o daqueles que lembram que farmácia já se escreveu “pharmácia”, porque as circunstâncias políticas e nacionais da actualidade estão muito longe de ser comparáveis com as dos Acordos anteriores.
[…]
Esta comunicação entre uma língua e a cultura que transporta é posta em causa quando a engenharia burocrática da língua a afasta da sua marca de origem, mesmo que essas marcas sejam “mudas” na fala, mas estão visíveis nas palavras. As palavras têm imagem e não apenas som, são vistas por nós e pela nossa cabeça, e essa imagem “antiga” puxa culturalmente para cima e não para baixo.
O AO é mais um passo no ataque generalizado que se faz hoje contra as humanidades, contra o saber clássico e dos clássicos, contra o melhor das nossas tradições. Não é por caso que ele colhe em políticos modernaços e ignorantes, neste e nos governos anteriores, que naturalmente são indiferentes a esse património que eles consideram caduco, ultrapassado e dispensável.
[…]»
José Pacheco Pereira, "Os apátridas da língua que nos governam" | Público, 16.Mai.2015

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Milagre! Três vezes milagre! Glória aos deputados que com o seu voto permitiram o AO. Glória aos acordistas que nos salvaram da babel. Glória ao ministro que o decretou obrigatório nas escolas. Louvor e graça a todos os que tornaram as palavras irreconhecíveis. E um aplauso especial para aqueles que, em nome da sacrossanta unificação, onde havia duas grafias nos ofereceram de borla três ou quatro (ou mesmo cinco: deíctico/deítico/dêictico/dêítico/díctico). Salve!
[…]
Interrutor já temos e homologado.
Agora alguém que apague a luz.»
Ana Cristina Leonardo, "Orgulhosamente sós" | Expresso/E, 16.Mai.2015

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a estupidez a impor pela força o que não consegue impor pela razão.
[…]»
Miguel Sousa Tavares | SIC, 13.Mai.2014

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«[…]
Agradeço a continuação das provisórias tréguas, permitindo-me continuar a escrever nessa língua luminosa que é o português herdado dos meus antepassados e não nessa língua de trapos, nessa caricatura de português, congeminada pelos sábios linguistas que se autodeclararam donos da língua e que, por facto consumado e demissão colectiva dos responsáveis políticos, a impuseram à força a todos nós. Um dia, espero bem, alguém fará a história desta congeminada traição ao nosso património, da arrogante incompetência que a promoveu e da estarrecedora inércia que a consentiu, por mera ignorância e terror de enfrentar os “mestres”.
[…]
sugiro ao candidato presidencial Sampaio da Nóvoa, que afanosamente procura um passado de ideias que não se conhecem e um presente de ideias que se entendam (qualquer mais concreta do que declarar-se, por exemplo, um transportador de desassossegos), que abrace esta causa, jurando-nos que, se eleito, tudo fará para pôr fim a este pesadelo. Já terá valido a pena a candidatura.
[…]»