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quinta-feira, 7 de março de 2019

Marcelo Rebelo de Sousa, entre a tonteira e o solecismo gárrulos

«Arnaldo Matos ficará na memória de todos como um defensor ardente da liberdade».

«Senhoras e senhores deputados, estamos condenados a sermos irmãos.»*

Um presidente-arlequim é capaz da eloquência do silêncio? Cuido que não.
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* O professor Marcelo não está sozinho na atrapalhação infinitiva.
«Saíam das mangueiras à noite a tropeçarem no vento»
«tu estás sempre a ires-te embora»
«Levámos muito tempo a aproximarmo-nos um do outro»
«são os únicos capazes de as resolverem»

E nem por num momento de discernimento diminuído, em 03.Fev.2018, ter chamado «excelentíssimo» a este estaminé, pouparei o grande Miguel Esteves Cardoso à exibição de [mais] três corpos de delito no "Ainda ontem" do Público. A morigeração dos usos impõe-mo, ahahah:
«podemos divertirmo-nossermos ternos … sermos ajudados … brincarmos» 
«Mas logo começámos a preocuparmo-nos»
«sermos nós a encomendarmos»

estamos condenados a ser irmãos
saíam das mangueiras à noite a tropeçar no vento
estás sempre a ir-te embora
levámos muito tempo a aproximar-nos
são os únicos capazes de as resolver
podemos divertir-nos … [podemos] ser ternos … [podemos] ser ajudados … [podemos] brincar 
começámos a preocupar-nos
sermos nós a encomendar
Ufa!

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Ladroagem, honra, orgulho

«Ministério Público acusa Tony Carreira de plagiar 11 músicas
...
Os arguidos aproveitam a matriz de obras alheias, utilizando a mesma estrutura, melodia, harmonia, ritmo e orquestração e, por vezes, a própria letra de obras estrangeiras que traduzem, obtendo um trabalho que não é mais do que uma reprodução parcial do original, não obstante a introdução de modificações”, explica a acusação.
...
Tony Carreira está acusado de 11 crimes de usurpação e de outros tantos de contrafacção

António Costa, primeiro-ministro, rejubila e aplaude de pé.
«Foi uma sorte esta coincidênciaEu quis transmitir de forma clara e inequívoca o grande respeito e consideração que o Estado português tem pelo trabalho que ele faz e o orgulho que temos por ter visto o seu trabalho reconhecido pela França.»
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quinta-feira, 16 de março de 2017

António Lobo Antunes

Não sei se é o melhor. Ele tem-se como tal.
Aprecio o escritor António Lobo Antunes. É o mestre da metáfora e um artista sinfónico.
Guardo desde 1979 as entrevistas mais significativas na imprensa portuguesa. Julgo ter assistido a todas as que concedeu às rádios e televisões de cá, incluindo as conversas fraternas com Mário Crespo ou aquelas em que vem repetidamente professando funda admiração por Tony Carreira
Acompanho-o nos romances e na Visão
A entrevista longa mais recente deu-a a Cristina Margato no Expresso de 11.Fev.2017.
Diz sempre o mesmo, conta sempre as mesmas anedotas. Todavia, desta vez disse um pouco mais. Perpassa por ali um Lobo Antunes estagiado e amadurecido em pelo menos 35 anos de vigorosas barricas de caralho português e aviso já que não me responsabilizo por letras despencadas da árvore.

Vaidade de vaidades...
«eu era bonito que me fartava, bolas!
[...]
Comecei por perceber que estas folhinhas [onde escreve] valiam muita massa quando estava na Transilvânia. Havia uma feira do livro, e apareceu-me uma senhora com uma destas folhas. Perguntei-lhe: “Mas onde é que a senhora arranjou isto?” “Num leilão.” Como é que aquilo foi parar à Roménia? Eu dava capítulos inteiros a amigos. É como dar um quadro a amigo e ele ir vendê-lo.
[...]
Eu fui muito precoce e, segundo a minha mãe conta, aos dois anos falava espanhol.
[...]
- O que pensa sobre o Nobel da Literatura deste ano?
«Nem penso nisso. Pensava que o prémio fosse muito mais dinheiro.*
[...]
Acho a lista do Prémio Jerusalém muito melhor.**
[...]
O Prémio Jerusalém, que tem uma lista excelente**, começa com o Bertrand Russell. Tem Borges, de que não sou grande fã, mas ele é bom.
[...]
Havia uma cadeira de psicologia na faculdade e o professor fez-me os testes. Eu tinha 187 [QI]. Mas isto não quer dizer nada.
[...]
sou muito cagão.»***

Será que não sabe que se repete desde sempre?
«E depois se me começo a repetir? Se calhar já me repito agora e não me dou conta.
[...]
Tenho muito medo de começar a repetir-me.»

Todos? Que falácia! Se quiser faculto-lhe um rol de grandes físicos e matemáticos do século XX todos profundamente descrentes.
«Grandes físicos e matemáticos do século XX são todos profundamente crentes e falam sobre Deus.»

Sobre José Saramago. Desprezo, inveja, dor de cotovelo?
«O Saramago achava-se mesmo um grande escritor. Eu sempre achei aquilo uma merda, ainda não o conhecia. Sempre teve mulheres de direita enquanto se afirmava comunista. Nunca correu riscos. Nunca foi preso. Nunca tive uma conversa com ele sobre livros.
- Nunca houve uma conversa?
«Como havia de ter? Não há tertúlias. Não nos encontrávamos muito. Nunca tive uma conversa com ele mas também não me interessava muito.»

António Lobo Antunes, por favor, não finja, não se menoscabe. As suas crónicas são pequenas pérolas, você sabe-o bem, investe nelas quanto pode e retira delas rico provento. Por favor!
«Espanta-me que as pessoas gostem das crónicas.»

Tendo para concordar.
«Os políticos são repugnantes, de uma maneira geral.»****

Que sobranceria, céus!
- Usa dicionários?
«Não, não tenho. Para quê?»*****
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* Quem pensa António Lobo Antunes que endromina?
«Mas porque é que se há-de estar a dar importância a uma coisa que é só um prémio? […] Descanse que ele vai vir! […] É inevitável. Neste momento, com tudo isto que se passa à minha volta, acerca de mim, é inevitável. Nos próximos três anos, um destes anos vem. Não me dá uma alegria especial.
De qualquer maneira, se der alegria aos portugueses já fico contente.
»
Conversa com Fátima Campos Ferreira, "O meu tempo é hoje", gravada em sua casa na penúltima semana de Novembro de 2014; transmitida na RTP Informação em 23.Jan.2015.

** António Lobo Antunes ganhou o Prémio Jerusalém em 2005. Quando receber o Nobel veremos como se lhe referirá na cerimónia de entrega e entrevistas seguintes.

*** Nota-se.

**** Vendo melhor, talvez uns menos do que outros.

***** Para quê?, senhor doutor e escritor António Lobo Antunes? Olhe, para por exemplo não passar pela vergonha de, aos 74 anos e com obra do tamanho da sua, aviar em público «cinco quilos e quatrocentas gramas» de costeletas e miudezas. Ainda ontem...
Os dicionários costumam ser bom antídoto da ignorância.

«Outro dia era um senhor, que já não é ministro, a dizer na televisão 'nunca tinha visto nem ouvisto'. Isto é um ministro? Falam assim, 'nunca tinha visto nem ouvisto'.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Mas não é só o escritor Miguel Sousa Tavares que tem problemas com o infinitivo flexionado*

Por exemplo, o bom Miguel Esteves Cardoso:
«Foi como se almoçássemos lautamente para tirar a imensa fome, para podermos dedicarmo-nos, com objectividade, ao trabalho de lembrar refeições ainda melhores.» [podermos dedicar-nos

«O mínimo que podemos fazer é envergonharmo-nos de sermos cúmplices de tanta crueldade [envergonhar-nos de ser cúmplices

«Pensamos que estamos a actualizarmo-nos ou a mantermo-nos informados mas o que estamos a fazer é a participar em passatempos.» [estamos a actualizar-nos ou a manter-nos

«Porque estamos a divertirmo-nos.» [estamos a divertir-nos

E o melhor, como se proclama, insuperável escritor, António Lobo Antunes, que tal é ele de gramática?
«Por favor, leiam-no [ao José Cardoso Pires]: é uma imensa prenda que darão a vós mesmos.» [leiam-no ... darão a vocês mesmos   /   lede-o ... dareis a vós mesmos

«Não sei porque carga de água» [por que carga de água]

«não são capazes de saírem à nossa frente» [capazes de sair]

«A casa cresce, o número de degraus da escada do jardim para o primeiro andar aumentam.» [o número ... aumenta]

«Também não entendia porque motivo o Mundo era meu inimigo.» [por que motivo]

Que porcaria de professores de Português teve esta gente?
Para piorar as coisas nem revisores há já para acudir.
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quarta-feira, 30 de março de 2016

Arlequim, arlequim aos molhos

Não oferecia dúvida a nenhum olhar minimamente atento que a conversa de 10 minutos e picos com que o Presidente da República veio, pelas 17h00 de anteontem, explicar na TV a promulgação do Orçamento do Estado consistia de texto meticulosamente estudado e previamente escrito. Dissimulando uma espontaneidade de gato escondido com rabo de fora, Marcelo lá foi seguindo, certinho, o teleponto até que ao minuto 08:55 se entaramelou na leitura:
«Nós sabemos que como orçamento-compromisso houve reservas de parte a parte e que porventura não este o governo, não é o orçamento que o governo teria preferido.»

.  Constança Cunha e Sá- Há aqui um registo completamente diferente. O passeio pelos jardins, o facto de estar sentado, o facto de não ser uma comunicação escrita. Que me lembre deve ser a primeira comunicação ao país de um Presidente … 
José Alberto Carvalho- Não escrita! 
Constança- … não escrita. Portanto, tudo isto é de certa forma surpreendente. 
.  o Presidente, que falou de improviso num pouco comum horário das 17h00, diferente das 20h00 que tantos governantes utilizam para fazerem as aberturas dos noticiários.

.  Sentado, de improviso — mas que Presidente é que faz uma comunicação ao país de improviso? —, este foi mais um comentário que podia ter continuado com um “Judite, ainda temos tempo para ir aos livros?”

.  o Presidente da República falou de improviso e elencou as razões pelas quais deu luz verde ao OE.

.  E Marcelo marcou a diferença com discurso de improviso

Etc.

Que porcaria de jornalismo é este?

// 

Aproveito para meia dúzia de impressões requentadas que conservo daquela estapafúrdia quarta-feira, 9 de Março de 2016, dia da posse de Marcelo, o mais cartilagíneo dos políticos, a mais azougada das criaturas, até agora uma espécie de presidente-arlequim.

10h11- Marcelo jura e torna-se PR.

10h12- Canta-se «contra os canhões marchar, marchar» enquanto o canhão canta 21 estrondos contra a Trafaria.

10h18 – Ferro Rodrigues discursa.
«Eleito “de forma clara”, discursou ainda o Ferro Rodrigues, “a partir de hoje, vossa excelência” — virando-se para Marcelo Rebelo de Sousa — “é o nosso Presidente, o Presidente de todos os portugueses. Desejo-lhe as maiores felicidades”.»
Contesto. O que ouvi e vi:
«A partir de hoje, Vossa Excelência, Marcelo Rebelo de Sousa — Ferro Rodrigues vira-se para Aníbal Cavaco Silva, à sua esquerda, minuto 01:25 —, é o nosso presidente, é o presidente de todos nós, o presidente de todos os portugueses.»
Era.

Que tal? 
.  Paulo Portas- literariamente bem escrito 
.  Nuno Rogeiro- literariamente exemplar
.  Diogo Ramada Curto- o que nele mostrou foi um somatório de referências obsoletas, para não lhes chamar bacocas.
.  João Miguel Tavares- Em resumo, foi uma chatice.
. Plúvio, valendo-me de Alexandre O'Neill- Uma coisa em forma de assim, redonda, limpinha, demagógica qb, patrioteira, exaltante, optimista, para agradar a todos, com citações de Mouzinho de Albuquerque, Adam Smith, António Lobo Antunes e Miguel Torga. Atenhamo-nos à parte final:
«Mas a resposta vem de um dos nossos maiores, Miguel Torga. Que escreveu em 1987, vai para trinta anos: 
"O difícil para cada português não é sê-lo; é compreender-se. Nunca soubemos olhar-nos a frio no espelho da vida. A paixão tolda-nos a vista. Daí a espécie de obscura inocência com que actuamos na História. A poder e a valer, nem sempre temos consciência do que podemos e valemos. Hipertrofiamos provincianamente as capacidades alheias e minimizamos maceradamente as nossas, sem nos lembrarmos sequer que [Torga escreveu, e bem, lembrarmos sequer de que] uma criatura só não presta quando deixou de ser inquieta. E nós somos a própria inquietação encarnada. Foi ela que nos fez transpor todos os limites espaciais e conhecer todas as longitudes humanas…
... Não somos um povo morto, nem sequer esgotado. Temos ainda um grande papel a desempenhar no seio das nações, como a mais ecuménica de todas. O mundo não precisa hoje da nossa insuficiente técnica, nem da nossa precária indústria, nem das nossas escassas matérias-primas. Necessita da nossa cultura e da nossa vocação para o abraçar cordialmente, como se ele fosse o património natural de todos os homens." 
Pode soar a muito distante este retrato, quando se multiplicam, na ciência, na técnica, na criação da riqueza, tantos exemplos da inventiva portuguesa, entre nós ou nos confins do universo. [Levemente exagerado. Ou será que a NASA conseguiu identificar num cantinho da A1689-zD1 gases de um tuga que ali se peidou?]
E, no entanto, Torga viu o essencial. 
O essencial, é que continuamos a minimizar o que valemos. 
E, no entanto, valemos muito mais do que pensamos ou dizemos. 
O essencial, é que o nosso génio – o que nos distingue dos demais – é a indomável inquietação criadora que preside à nossa vocação ecuménica. Abraçando o mundo todo.
[Mas que merda de vírgulas são estas, senhor Presidente? Ou esta — "O essencial, é" —, repetida aqui.]
Ela nos fez como somos. 
Grandes no passado. 
Grandes no futuro. 
Por isso, aqui estamos. 
Por isso, aqui estou. 
Pelo Portugal de sempre!»
[Anoto que Marcelo, bailarino, inverteu a ordem por que Torga escreveu os parágrafos: o que começa por "O difícil" pertence à página 216 e o que começa por "Não somos" à página 215 do livro "miguel torga – diário, volumes XIII a XVI"]

11h02- António Costa aperta a mão de Marcelo durante sete segundos à velocidade convulsiva de seis sacudidelas por segundo. Não quero imaginar a entorse de que Sampaio da Nóvoa se livrou...

11h24- Maria Manuel, lady in red, simplex 

Paulo Magalhães, da TVI, agora chefe do gabinete de comunicação da Presidência, realça a presença de «vários dignatários de confissões religiosas».


«É uma encenação de espontaniedade que Marcelo sabe muito bem fazer.»

Foi isto.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Se António Guerreiro não é o melhor, quem é o melhor?


Todos os artigos, inteiros, de António Guerreiro, no Público/Ípsilon
de 08.Ago.2014 a 03.Abr.2015
08.Ago.2014
. O banco secularizado | BES/Novo Banco. «Estávamos nós cheios de fé na História, que é a última religião dos doutos, a assistir, pela televisão e em directo, ao processo de secularização do Banco Espírito Santo, quando começámos a perceber que a boa nova a anunciar um banco bom e novo (termos muito simples e claros, como podemos ver, pois a linguagem secularizada renuncia a toda a obscuridade) era ainda demasiado permeável a um ordenamento divino do mundo — na sua versão maniqueísta, que opera uma nítida separação entre bons e maus — e a uma concepção cultual do capitalismo financeiro.»
. Versos de puro nada | Recensão de "", livro de poesia de Daniel Jonas. «podemos dizer que estes sonetos de Daniel Jonas nos libertam e nos deslocam para paragens bem distantes daquelas em que grande parte da poesia portuguesa contemporânea nos instala.»

15.Ago.2014
. Turistas, mas relutantes | O turista de Lisboa. «cada turista é, para o seu semelhante, um espelho onde este vê reflectida a sua imagem de pessoa caricata, infantil, gregária, rendida a uma alegria imbecil, parodiante de uma mobilização geral.»

22.Ago.2014
. O povo da televisão | «aqueles programas, reportagens e concursos frequentados por pessoas que são submetidas à deformação pelos próprios apresentadores, repórteres e 'entertainers' para satisfazer os ditames televisivos do expressionismo grotesco.»

29.Ago.2014
. Treblinka é já ali | Maus tratos a animais de companhia [Lei n.º 69/2014, de 29 de Agosto] e a invocação do humanismo como legitimação da lei.

05.Set.2014
. E agora? Lembra-me. | O filme de Joaquim Pinto: poesia, mística da imanência, quotidiano.

12.Set.2014
. Sua Majestade, o Cinema | "Os Maias", filme de João Botelho.
. Os novos teólogos | O liberal João Carlos Espada e «as exigências medíocres de uma pequena burguesia intelectual.»

19.Set.2014
. Pedofilia e pedofobia | «será possível falar da pedofilia, como uma questão de enorme complexidade, sem nos limitarmos a proferir interjeições de horror? Tentemos.»

26.Set.2014
. A cidade e o campo | Sobre "Ouro e cinza", de Paulo Varela Gomes. «o campo é hoje, em larga medida, uma produção da Mota-Engil para a RTP, SIC e TVI.»

03.Out.2014
. O Pedro Manuel | Pedro Passos Coelho, «o triste produto do tempo do homem-massa e o engendramento catastrófico do fim de todos os encantamentos políticos, ideológicos e sociais.»
. Ler o que nunca foi escrito | Recensão de "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas", obra póstuma, inacabada, de José Saramago. Manuel Alberto Valente, o editor [o mesmo do último Herberto Helder], apanhado em falso.

10.Out.2014
. O ruído que vem dos livros | Ainda "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas". Porrada no editor. Veremos que chico-espertices industriais vai a Porto Editora perpetrar com o autor morto depois da patifaria que lhe fez com os últimos livros em vida.
. Retrato do cineasta enquanto escritor | Recensão de "Obra escrita", de João César Monteiro, editada por Vitor Silva Tavares.
«— Beijou os rotundos amareliflões melões melicheirões do seu rabicundo, cada um dos rotundos e melonosos hemisférios, no seu rego amareliflão, com uma obscura prolongada provocante melomelidorante osculação.
— Sinais visíveis de post-satisfação?
— Uma contemplação silenciosa; uma ocultação errática; uma degradação gradual; uma repulsão atenta; uma erecção próxima”.
[…]
Ao sr Vasconcelos [António-Pedro Vasconcelos] foram deixadas todas as indicações julgadas úteis para a boa execução do plano, tarefa de que ele se encarregou escrupulosamente, segundo creio, e pela qual lhe estou muito grato. Bem feia acção seria, pois, eu vir agora queixar-me do trabalho generosamente despendido por um colega em proveito de um filme meu, mas lá que o enquadramento é uma boa merda, isso é.»

17.Out.2014
. Homens e animais | Diferendo e litígio, a propósito do abate em Espanha de um cão chamado Excalibur.

24.Out.2014
. A pilhagem fiscal | «um Estado que perdeu a vergonha de se apresentar como agente supremo de uma pilhagem legal.»

31.Out.2014
. As metamorfoses do poder | Recensão de "Massa e Poder", de Elias Canetti, «um dos mais grandiosos ensaios do século XX. […] todas as distâncias e protecções que os homens criaram por se sentirem ameaçados pelos outros e pelo desconhecido são ditadas pelo medo de serem tocados.»
. A ecologia literária | Os 100 000 euros do Prémio Leya e a nova literatura mundial.

07.Nov.2014
. O destino do partido | A natureza dos partidos políticos.

14.Nov.2014
. O escritor e o seu duplo | A paródia e a manha de António Lobo Antunes nas entrevistas, designadamente na que deu a Isabel Lucas no Público/Ípsilon de 07.Nov.2014.

21.Nov.2014
. Letrados e reaccionários | «O reaccionário letrado (do tipo Paulo Varela Gomes) e o letrado reaccionário (do tipo José Pacheco Pereira) […] podem respeitar-se mutuamente mas não pertencem à mesma confraria.»

28.Nov.2014
. Sade, esse sublime energúmeno | «Duzentos anos após a sua morte, Sade continua a visitar-nos como um fantasma que não se extingue, desafiando o nosso tempo com os seus textos, tão difíceis de olhar de frente, em que se faz a apologia do prazer e do vício contra a lei e a ordem.»
. Virar as costas ao presente | «interessante questão formulada por José Pacheco Pereira: uma vez que durante a nossa vida não temos tempo para ler as grandes obras do passado, valerá então a pena ler livros novos?»

05.Dez.2014
. Uma história de fantasmas | sobre o filme "Cavalo Dinheiro", de Pedro Costa. Rememorar.
. A alta tensão timótica | «Muitas vezes, apetece reclamar que se faça tábua rasa, que venha um esquecimento libertador que permita começar tudo de novo. Por exemplo: que nos seja concedida a felicidade suprema de uma profunda amnésia apagar o nome de José Sócrates da cabeça dos seus amigos e dos seus inimigos e passar a residir apenas nos arquivos.»

12.Dez.2014
. Uma paisagem desencantada | Balanço de 2014. «É no ensaísmo e no vasto campo das ciências humanas e sociais que a actual lógica editorial mais danos provocou, limitando assim o debate e a livre circulação de ideias. […] A apresentação desta lista exige um preâmbulo: ela abrange não apenas o ensaio propriamente dito (que, como sabemos sempre se interrogou a si mesmo enquanto género e forma), mas o campo mais vasto dos livros de ciências humanas e sociais, incluindo a filosofia, a estética, a crítica literária e artística. [...]
Por isso, só poderia resultar num conjunto muito ecléctico, à medida das diferentes proveniências disciplinares das pessoas que para ele contribuíram. Se o saber é sempre polémico, um balanço anual que pretende totalizar um tão vasto campo de saberes é, inevitavelmente, um campo de batalha.
»
[Inclui escolhas – ensaio, poesia, ficção – de António Araújo, António Guerreiro, Diogo Ramada Curto, Gustavo Rubim, Hugo Pinto Santos, Helena Vasconcelos, Isabel Coutinho, Isabel Lucas, José Riço Direitinho, Luís Miguel Queirós, Maria Conceição Caleiro, Nuno Crespo e Rui Lagartinho.]
. Palavras que libertam e atraiçoam | Sexo, género, feminino, masculino. «outro termo que tem sido sujeito a um uso inflacionado, e por isso nefasto, é “homofobia”. A palavra “fobia” tem um sentido preciso, muito forte, e convinha não a banalizar.»

19.Dez.2014
. Os nossos queridos Bouvard e Pécuchet | Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi na comissão de inquérito ao BES. «Queríamos escutar as narrações e os argumentos dos dois homens ricos, sumptuosamente ricos, e o que ouvimos foi uns pobres homens: um podia chamar-se Bouvard e o outro Pécuchet. E, tal como os dois homenzinhos de Flaubert, estes também foram vítimas de um espírito enciclopédico e coleccionador, mas de um novo tipo: coleccionaram palavras do jargão financeiro, construíram com elas um sistema que ruiu por todos os lados, mas continuam a debitá-las de maneira incontinente, a mostrar que não conhecem outras.»

26.Dez.2014
. Miguel, porque escreves? | Escritor, escrevente. «Por uma entrevista a Miguel Sousa Tavares, na SIC, feita por Raquel Marinho (e publicada também no site do Expresso com o título: “Porque escreves, Miguel?”), fiquei a saber que o seu último livro começava com uma resposta a esta questão. […] o Miguel, que nestas coisas da literatura é tão ingénuo, nunca perceberá porque é que quanto mais se reivindica como escritor (oportunidades não lhe faltam) mais se enterra como um banal escrevente.»

02.Jan.2015
. O corsário, o profeta, o apocalíptico | Sobre "Pasolini", filme de Abel Ferrara.
. Muito orgulho gay e algum preconceito | «um banqueiro que assume a sua homossexualidade ao mais alto nível é visto como um exemplo. Mas exemplo de quê e para quem? Para quem aspira chegar a banqueiro, para quem deseja mas não ousou assumir a sua homossexualidade, ou para quem acha que não se importaria nada de dizer ao mundo que é homossexual se um dia chegasse a banqueiro, em Londres? Um operário da construção civil que fizesse, na sua aldeia, perante os seus conterrâneos, exactamente o mesmo que fez o banqueiro António Simões, seria sempre um exemplo de muito maior coragem e aquele que importaria de facto mostrar.»

09.Jan.2015
. Sexualidade e política | Ainda a distinção ao banqueiro larilas. «Seja-me permitido retomar e desenvolver o assunto. […] As cerimónias e opções em que a maior parte do activismo gay e lésbico se compraz estão fixadas nas convenções da identidade e do reconhecimento. Daí a glorificação do coming out, como se a liberdade de não declarar publicamente não fosse tão legítima e eventualmente tão portadora de um potencial crítico como a de declarar. […] o discurso e as escolhas de instituições como a ILGA não só nada produzem de relevante no plano político e cultural como se conformaram a um kitsch ideológico cujo brilho resplandece com mais força nos momento de gala.»

16.Jan.2015
. As imposturas da avaliação | «A grande impostura da avaliação enquanto prática e doutrina não está apenas instalada na universidade e na investigação, estendeu-se nos últimos anos a todos os domínios de actividade profissional e a todos os sectores da sociedade. […] A avaliação tem uma natureza e uma função essencialmente estratégicas: nas empresas, está ao serviço da gestão e da disciplina dos “recursos humanos”; na universidade e na investigação, é o “dispositivo” de uma máquina de governo.»

23.Jan.2015
. Se isto é Celan… | Recensão de "Não Sabemos mesmo O Que Importa — Cem Poemas", de Paul Celan. «era com regozijo e expectativa que se esperava a tradução de cem poemas de Celan por Gilda Lopes Encarnação, que tinha feito, entre outras, uma excelente tradução de "A Montanha Mágica" (D. Quixote). Mas o resultado que nos oferece "Não Sabemos Mesmo O Que Importa" (assim se chama a antologia) não é nada satisfatório.»
. Civilização e barbárie | «Tal oposição, hoje tão proclamada, corresponde a uma visão idealista e cumulativa da “história do espírito”, à maneira de Hegel. Mesmo quem, noutras circunstâncias, não quer ouvir falar de dialéctica, surge agora completamente rendido ao processo dialéctico e ao evolucionismo na história das ideias: é isto que significa a afirmação muito comum de que a barbárie — aquela com que fomos recentemente confrontadosé o resultado de duas faltas: a da secularização e a dos valores do Iluminismo (a crítica, a razão, o progresso, a universalidade, o cosmopolitismo). Ora, o que esta maneira de pensar desconhece é precisamente aquilo que o historiador da arte e da cultura Aby Warburg (1866-1929) designou como uma fundamental esquizofrenia: a civilização está continuamente em luta contra o seu pólo demónico (traduza-se assim, e não como “demoníaco”, o dämonisch), num conflito trans-histórico, tipológico.»

30.Jan.2015
. Populismo e demofobia | «Quem, no domingo passado, à noite, seguiu a contagem dos votos, na Grécia, através dos vários canais portugueses de televisão, terá sentido uma enorme impaciência perante as milícias civis de comentadores e “politólogos”, que parecem personagens decalcadas dos aforismos satíricos de Karl Kraus contra os jornalistas do seu tempo: dizem e “comentam” porque não têm nada a dizer, e têm algo a dizer porque a sua tarefa é comentar. No meio de tanta indigência, lá apareceu, brandido por alguns, o fantasma do populismo, seja ele efectivamente encarnado ou tenha a condição de espectro. Estas almas penadas - para continuarmos no mesmo plano semântico - parecem não ter ainda percebido que não têm ao seu dispor nenhuma figura do povo para poderem agitar a bandeira do populismo, que o povo como sujeito político, tal como o conhecemos a partir da modernidade, desapareceu; […] Os actuais denunciadores do populismo, incapazes de entender a política como algo mais do que gestão e método, táctica e estratégia, vêem outra coisa: vêem um papão, sob a forma do povo que já não existe. Lutam contra fantasmas. Eles próprios são mortos-vivos, zombies do comentário e da “politologia” do pequeno ecrã.»

06.Fev.2015
. Eduardo Lourenço, cena primitiva | Recensão de "Obras Completas II – Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista e Outros Ensaios". «Este volume é uma peça importantíssima na bibliografia sobre o neo-realismo, mas também importante para acedermos a um momento fundamental do percurso intelectual de Eduardo Lourenço, para chegarmos, digamos assim, à sua “cena primitiva”.»
. O examinador foi ao exame | Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC). «a crueldade provoca, mas a estupidez desmoraliza. […] O que vemos neste tipo de provas é, mais uma vez, a falácia da máquina da avaliação: ela presume uma cientificidade que de modo nenhum consegue demonstrar que possui.»

13.Fev.2015
. A Grécia como paradigma | «A Grécia é hoje um caso limite de experimentação biopolítica, um país inteiro tornou-se uma forma derivada dos campos, um lugar habitado não já por um povo ou por uma sociedade histórica, mas por uma mera população supérflua. Desapossados de toda a soberania e coagidos a erradicar a política como instância de mediação entre a economia e o social, os gregos estão reduzidos a um projecto de experimentação dos princípios económicos de um biopoder que delimita e designa populações – e segmentos de populações – suspeitas, inúteis e supérfluas.»

20.Fev.2015
. A eloquência patética do presidente | Cavaco Silva. «Quando o Presidente da República, interpelado pelos jornalistas, fala para os microfones e para as câmaras de televisão, é difícil tomar atenção às suas palavras – seja para louvá-las, seja para criticá-las – porque a elas se sobrepõe de maneira enfática o medium corpóreo não verbal: os traços móveis do rosto, o movimento da boca, os lábios encrespados, a disposição do corpo. O significado das suas palavras dissolve-se na mímica facial intensificada e nos aspectos prosódicos do seu discurso (a entoação, o ritmo, os picos de intensidade, etc.) Mas não se trata da gestualidade retórica dos políticos, um dos elementos que lhes conferem aquele quid a que Max Weber chamou carisma. Não, não é gestualidade retórica: é eloquência patética. […] patética porque se manifesta como um espasmo de exteriorização de uma causa interior. Dir-se-ia, na sua mímica intensificada, que ele não é patrão dos seus gestos, do seu olhar, da sua expressão. E, por isso, torna-se transparente, não consegue travar o mau-humor nem controlar os arrebatamentos de homem severo, não consegue mascarar as suas paixões nem desmentir o coração. […] ele fala, mas nós já só conseguimos vê-lo.»

27.Fev.2015
. Só, como Franz Kafka | «A edição dos Diários de Kafka, pela Relógio D’Água, traduzidos com enorme competência por Isabel Castro Silva, é um acontecimento editorial que tem de ser salientado. […] O mistério chamado Kafka está coberto pela película espessa de uma vida banal. […] uma existência marcada por um grandioso falhanço em todos os combates a que se viu obrigado: com o pai (cuja autoridade o assustava tanto que nem sequer era capaz de permanecer em pé diante dele), com a literatura (não acabou nenhum dos seus romances), com o mundo das mulheres.»
. O bom aluno | «O bom aluno é aquele que interiorizou plenamente a moral da culpa e sabe que deve comportar-se como um ser em débito. Haverá algum momento em que a culpa vai ser expiada, isto é, em que o débito vai ser saldado? Evidentemente que não. Por isso é que se criou a figura da “dívida eterna” ou infinita. […] Para se tornar um bom aluno, como lhe é exigido para continuar a dar-lhe crédito, a Grécia não precisa de pagar a sua dívida — que é infinita e eterna. Tem é de dar como garantia do fictício e sempre diferido reembolso um conjunto de virtudes sociais e políticas que são a carne e o sangue da moralidade a que está obrigada. Tem de sujeitar-se eternamente ao performativo da promessa. Não é que as promessas paguem dívidas, mas são um reconhecimentos e uma ritualização da culpa.»

06.Mar.2015
. O poeta sem biografia | «Fernando Echevarría, na semana passada distinguido com o prémio Casino da Póvoa, anunciado e entregue na 16ª edição do festival Correntes d’Escritas, é o autor de uma obra poética grandiosa, que sempre permaneceu impermeável às determinações prosaicas da chamada “vida literária”. […] A obra de Fernando Echevarría, construída de maneira silenciosa, parece um objecto arquitectónico de grande envergadura, em que nada escapa a uma geometria rigorosa e ao primado da dimensão intelectual. […] Pertence nitidamente a uma categoria de poetas que tudo fazem para expulsar a dimensão biográfica, de maneira a que na obra sobressaia uma aguda consciência do acto de escrever e não aquilo que é anterior e exterior a ele.»
. A elite consensual | «Parece um título anódino, mas quando analisado pelo lado de uma psicologia racional e de um realismo político, ambos respeitosos dos grandes equilíbrios, verificamos que é de uma grande envergadura. "Nem mais alemães que os alemães, nem mais gregos que os gregos": eis o título da crónica da semana passada de Francisco Assis, eurodeputado do PS que escreve neste jornal todas as quintas-feiras. […] A encenação de debate cria a aparência de que uns e outros pensam de maneira diferente, mas toda a diferença se anula na mesmidade que brota da linguagem comum do “Nem-Nem”. Como se todos eles, festivos como os saltimbancos e nómadas como os cibernautas, se preparassem diante de um espelho deformador, antes de debitar opinião e analisar a temperatura exterior do ambiente: “Diz-me, espelho meu! Estou em forma? Estou conforme?” […] Empossados como fabricantes de opinião para consumo da população genérica, quanto mais “Nem-Nem” são, mais hipóteses têm de ser aclamados como objectivos e responsáveis. […] Esta elite consensual, resultante de um agregado onde se instalou a maquinaria infernal de produção do “homem médio” ou homo mediocris, reivindica-se como uma maioria moral, na medida em que exerce uma hegemonia da opinião. […] a regra mais importante da elite consensual: nunca oferecer qualquer resistência ao presente.»

13.Mar.2015
. O otium e o lazer | «O tempo do lazer é aquele que resta depois do trabalho, vulgarmente chamado “tempo livre”, o que indica que ele se define não em si mesmo, mas em relação ao tempo de trabalho. Diferente do lazer é o ócio (no sentido do otium latino, não no sentido pejorativo que a palavra adquiriu). É do otium que nascem as artes, as letras e as ciências. O lazer é um tempo de recuperação e de preparação para o trabalho; o otium é o tempo da liberdade e não se deixa apropriar pela lógica mercantil dos tempos livres […] O sobressalário não está dependente da lei do mercado, da oferta e da procura. Trata-se de um salário arbitrário, isto é, dependente de uma arbitragem e de um preço políticos, e não do mercado. Um exemplo: o Lloyds Bank paga mais de uma dezena de milhões de libras, só em prémios e suplementos, ao seu CEO Horta Osório, como ficámos há dias a saber, não porque ele seja o único no mundo a conseguir a performance desejada (que, aliás, depende de uma equipa numerosíssima e não de uma só pessoa), mas porque convém ao Lloyds a operação publicitária que consiste em dizer ao mundo que tem a chefiá-lo um homem superpoderoso, e a medida do seu superpoder é evidentemente aferida pelo dinheiro que ganha. Esta burguesia do sobressalário raramente tem a possibilidade de converter o seu dinheiro em tempo. […] só o otium concede tempo e disposição para ler Guerra e Paz. O lazer, na melhor das hipóteses, satisfaz-se com um item do top Fnac ou com os roteiros da “cultura para o fim-de-semana”.»
Como diria Ana Lourenço: «Vamos fazer agora uma pequena pausa para intervaloEu espero por si.»

20.Mar.2015
. A política virtuosa | «Com a solicitude esclarecida do bom pastor que sabe por onde deve conduzir o rebanho, Francisco Assis, na sua crónica da passada semana ["A difícil moderação", Público, 12.Mar.2015], pôs-me à distância da sua “difícil moderação” e empurrou-me para o lado dos extremismos. […] Eu tinha cometido a indelicadeza de o classificar como representante de uma elite consensual que exibe as virtudes da moderação centrista, mas o centro a que me referia podia não coincidir com o centro ideológico. […] este editorialismo ideológico e generalizado intoxica o ambiente, corrompe a linguagem, asfixia o pensamento e arruína o espaço público. É este contexto que permite a Francisco Assis reclamar como um gesto de coragem e de grande ousadia a sua “difícil moderação”. […] Celebremos a prova de resistência e de luta esforçada pela moderação salvífica, na batalha de Assis da penúltima quinta-feira, em nome de uma coisa que nos esmaga, de tal modo representa o todo da política virtuosa: a “civilização democrática e liberal”. Assim lhe chama Francisco Assis, funcionário político, obreiro intelectual e seu guarda avançado. Esta densa e eloquente elaboração do pensamento político, a que Karl Kraus chamaria “fraseologia”, é uma manifestação gritante do idioma mediático-político, irredutivelmente “nem-nem”. Nem isto nem aquilo, ele é pura tagarelice, uma palavra vazia, insignificante.»

27.Mar.2015
. Ah, a poesia! | «A ampliação, de ano para ano, das manifestações públicas para festejar o Dia Mundial da Poesia é um sintoma (atenção: um sintoma, não uma causa) de que se chegou a um ponto crítico da delapidação da poesia, não sob a forma da violência exercida por um inimigo exterior, bem identificado, mas sob a forma do desastre sereno vindo de tantos lados e impossível de localizar com precisão: é como o tempo que faz, o tempo meteorológico. Estas bem-intencionadas manifestações em sua honra são de facto um sintoma de que a poesia caminha para a museificação, mas perdeu efectualidade social e já nada conta na economia do livro. A esta contingência respondem alguns poetas mais foliões fazendo de jograis intermitentes no palácio quando chega a Primavera.»

03.Abr.2015
. A grande fadiga europeia | Recensão de "Submissão", romance de Michel Houellebecq. França, ano de 2022. «O presidente muçulmano chega serenamente ao topo do poder político em França, à margem das lutas entre o “movimento identitário” e os islamitas radicais. […] por todo o lado são bem visíveis os signos da conversão a uma nova ordem. Por exemplo, as mulheres, antes tão emancipadas e até libertinas, começam a cobrir a cabeça com um véu. Fazem-no porque o novo regime as obriga? Não, fazem-no voluntariamente, escolhendo alegremente a submissão em vez da crítica e da resistência. São os mecanismos da submissão generalizada que Houellebecq transforma em fábula política.»
. A desfiguração do rosto | «Ainda o coro ia no adro e já estava a ser exibida na última edição da revista do Expresso uma iconografia do escritor [Herberto Helder] que sempre tinha dito “não” a álbuns de família e outros bibelots, e que um dia escreveu: “Não me vou deixar apanhar por tentações biográficas.” […] o tempo e a força da sua obra irão novamente fazer desaparecer o rosto, mas por agora o efeito é o de uma desfiguração. […] Porque Herberto sempre esteve do lado da neutralidade da imagem do escritor perante a sua obra, reduzindo-o ao anonimato, o álbum de fotografias de Alfredo Cunha tem o efeito terrível de o fazer aparecer na condição de apóstata. Um fotógrafo à altura da difícil missão poderia ter feito o seu trabalho sem que se quebrasse o pacto que o poeta tinha estabelecido com a esfera pública. Mas as fotos não passam da mais banal reportagem, iconografia lisa e estereotipada de escritor com estantes de livros atrás. Nelas, não se adivinha nenhuma espessura, nada que indicie a presença de Herberto Helder, por mais que nos digam que é dele a figura que elas representam. […] é sempre obsceno, e ninguém deveria ser autorizado a tal, abrir as portas da intimidade num jornal. Tratando-se de Herberto Helder, que levou a vida inteira a fechar todas as portas, não é apenas obsceno, é uma violência.»

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Vitor Silva Tavares

«[...]
Para que é que eu hei-de ir agora ler o [António] Lobo Antunes  se já li o Faulkner?
[...]»
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Vitor Silva Tavares, avive-se«uma das melhores pessoas que existem em Portugal.» - Hélder Macedo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Que faremos quando tudo arder?*

Logo se verá.
Participei hoje num simulacro de incêndio.
As sirenes buzinaram a preceito, a evacuação do edifício foi rápida [ninguém ficou retido nas retretes], o pânico contido; as ambulâncias foram lestas, os bombeiros e o pessoal de enfermagem prontos e eficientes; os feridos portaram-se bem, os dois mortos - foi muito bem feito!, não se tivessem metido no elevador. - mantiveram-se serenos; os extintores funcionaram...
Só não correu melhor porque o fogo não houve meio de pegar.
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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

George Steiner e António Lobo Antunes

na palheta, em Cambridge, 09.Out.2011.
Revista LER | Nov.2011

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

«Desespero fértil»


Eu não conto histórias.

Temos tendência a julgar em vez de entender. A partir da altura que entendemos, deixamos de julgar.

Só escrevi o livro, não o li. Portanto, estou em desvantagem.

«Como é que você, que é tão novo, já fez tão pouco?» [ALA citando Robert Oppenheimer]

Descobri muito cedo que é muito simples darmo-nos com as outras pessoas. Basta tomá-las por aquilo que elas pensam que são e não por aquilo que eu penso que elas são.

Quando o desespero não é fértil, a nossa vida deixa de ter sentido.

Substituímos um horror por outro. Por exemplo, a vida dos casais. Quando vejo um casal num restaurante, uma refeição inteira sem sequer olharem um para o outro, isto é terrível; outra maneira de matar, mas matar pela usura.

O pai é uma instância que existe entre nós e a morte e que em certo sentido nos protege da morte. Depois do pai morrer, se a morte tocar à campainha somos nós que temos de ir abrir.

MC- Que lágrimas são as suas?
ALA- Eu acho que choro para dentro, como as grutas.

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E para resfriar um bocadinho, António Guerreiro sobre “Comissão das Lágrimas”:
«quando lemos “Comissão das Lágrimas”, defrontamo-nos, até à exasperação, com uma espécie de recitativo ou de litania caracterizada pela homogeneidade.
[…]
Aquilo que é prometido como polifonia não passa de uma algazarra de vozes indistintas.»

* Também num exercício de vaidade recíproca, mas isso é sempre e se calhar nem é pecado.