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terça-feira, 24 de novembro de 2020

Para surdas e para surdos de ambos os sexos

«Você esforça-se para ouvir as conversas nos seus encontros e festas? [...] Compre magniEar por apenas 4 euros e 99. Os adaptadores ajustam-se a ambos os ouvidos, para homens e mulheres.[...]»

Nos últimos dois segundos [leu bem, caro visitante: dois segundos cronometrados] do reclamo, depois de o pregoeiro se calar, depara-se-nos um texto de 90 palavras, entre as quais amplificador x 4, dispositivo, discernir, conversação, diagnosticada e reembolso; dois números, um de 9 e outro de 2 dígitos; um endereço de internet.
Quem senão surdas e surdos de ambos os ouvidos e de ambos os sexos alcançaria tão prodigiosa velocidade de leitura e assimilação?

Pois é, não é surdo — ou surda, claro! — quem quer...

Ditoso e magnífico país este, de preços em 9.
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* A despropósito, já cumpriu o seu dever diário de hoje?
Aiaiaiai, temos a burra nas couves.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Saramago e os preços em 9

Por respeito e em homenagem ao sério e austero José Saramago, o Continente decidiu banir uma vez sem exemplo, nos preços de todos e de cada um dos 9 títulos da presente promoção, o dígito 9, dado o seu efeito catalisador da adicção oneomaníaca, de acordo com os estudos mais recentes de universidades e laboratórios de grande reputação científica internacional sobre o comportamento dos mercados.
As capas e o lettering são uma alternadíssima e refinadíssima caca, mas isso é com a Porto Editora.
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Fui salvo in extremis pela minha última reserva diária de discernimento quando estava para intitular o presente verbete de "Saramago e os preços em 9bel". Além de que a grande autoridade na matéria é Dalai Lima.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Porto Editora | Herberto Helder

Em 9 de Junho corrente, na Feira do Livro de Lisboa, testemunhei e deixei-me inadvertidamente envolver no acto principal da encenação reles que vinha constituindo, e prosseguiu, o lançamento pela Porto Editora de "A morte sem mestre", de Herberto Helder, velha e fulgurante galinha-dos-ovos-d'oiro no mercado poético português. *
Acredito, decepcionado, em que Herberto Helder não é alheio a esta nunca vista por cá – enfim, fez-se um ensaio no ano passado com "Servidões" - mescambillha livreira. Por isso, acompanho António Guerreiro, "Herberto e os cálculos editoriais", ou António Araújo,"Herberto, S.A.", entre outros, no que puseram a nu.

O que, aposto, até ao próprio poeta escapou foi o descuido miserável na revisão, com desvios graves, intoleráveis, do original. Confrontei a leitura pelo autor de cinco poemas que integra o pacote de 22,00 € [livro + CD que a Porto Editora, iscando a coisa com engodo rasca comparável ao dos alucinogénios preços em 9, informa ser «de oferta». Não lhes bastava um simples e honesto «Inclui CD»?] com os respectivos textos no livro. Não me restando presumir senão que Herberto Helder lê o que Herberto Helder escreveu, vejam-se as diferenças: 

. HH: «o dia, a noite, o inverno, o inferno»
  No livro: «o dia, a noite, o inferno, o inverno
. HH: «para sempre um jogo ou uma razão,»
  No livro: «para sequer um jogo ou uma razão,»

. HH: «ou mais devagar como sempre acontece a quem espera ainda
  No livro: «ou mais devagar como sempre acontece a quem ainda espera
. HH: «ao vapor de verão no ar onde entram as pessoas,»
  No livro: «ao vapor de verão no ar aonde entram as pessoas,»
. HH: «estio e inverno afora no mundo»
  No livro: «estio e inverno agora no mundo»

. HH: «um pão que se tire do forno e se coma ainda quente por entre as linhas,»
  No livro: «um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre as linhas,»

Sem diferença.

. HH: «não me queixo de nada do mundo senão do preço das bilhas de gás,»
  No livro: «não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,»
. HH: «ou então de já não me venderem fiado»
  No livro: «ou então de mas não venderem fiado»

Se em quatro de cinco poemas é isto, não quero imaginar os atropelos ao original nos 23 que não nos é dado ouvir dizer pelo autor.
Nem a advertência do poeta-energúmeno, conforme António Guerreiro o enaltece, de que «Tudo quanto neste livro possa parecer acidental é de facto intencional.»  ou o pedido no primeiro poema - «peço por isso que um qualquer erro de ortografia ou sentido / seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro.» - livram a Porto Editora de nos fazer suspeitar de que uma coisa são os poemas que Herberto Helder escreve e lê, outra os poemas que saem adulterados do prelo.
Por exemplo, sob que desculpa, no poema a um burro velho dê-se-lhe uma pouca de palha velha, páginas 43/47, se faz supor ter HH escrito «[...] vou-me embora pra Parságada, disse então o Manuel Bandeira; [...] Vou-me embora pra Parságada [...]», se o que Manuel Bandeira escreveu, e disse!, foi Pasárgada? Não nos venham com a justificação de que Parságada é de facto intencional ou, dado o poema, assumida  burrada do nosso poeta. Mesmo que, remotamente, fosse erro de HH, para que raios serve o editor, afinal? Inadmissível, meus senhores!

Tende lá paciência, malta da Porto Editora, de cujas produções até costumo gostar, mas desta vez fizeram merda da grossa, insultando e defraudando o «bom leitor impuro», preparado para a côna, para os pintaínhos, para o sufôco e para inúmeros outros cometimentos ortográficos do actual maior poeta português, mas não defendido, nem HH decerto, da incúria e da incompetência a jusante.
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* Um dia depois, 10.Jun.2014,  vendia-se aqui, a custo justo, com 450% [!] de lucro. O que o desinteressado amor à poesia faz... 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Sou de um país

de estimados clientes e preços em 9 que para todos os efeitos se esmifra a telefonar o dia inteiro a 0,60 cêntimos + iva por chamada para qualquer setecentos e sessenta - ligue!, ligue!, ligue! - que se depare no rodapé da tv e que elegeu cinco vezes para os mais altos cargos da democracia um burgesso e funesto algarvio, sem esquecer, não desfazendo, a polícia gabarola que com brio e perseverança não pára de operar nos principais festejos, e de tal modo eficaz que da Operação Festas Seguras 2013 em curso o saldo não definitivo já vai em catorze.
Isto promete.

sábado, 1 de junho de 2013

Civilização, bom-senso e outras coisas sob o SupInDaCri

Sensivelmente a meio da 2.ª parte do Prós e Contras de segunda-feira passada, 27 de Maio, Pedro Madeira Rodrigues, que tem com a mulher três filhos naturais e um adoptado [Diogo, hoje com 6 anos], contou, na presença de Isabel Moreira [IM]:
«Temos o Diogo em nossa casa há seis anos… Nesta questão de que estamos aqui a falar hoje…, as crianças são muito simples e percebem tudo muito bem. Falei com este meu filho e disse Diogo, hoje vou à televisão e vou falar sobre o tema da adopção. Ele já sabe que é adoptado, ele já sabe isso, falámos com ele, com 5 anos… E dissemos-lhe Vamos falar sobre o tema porque a partir de agora … foi votada uma lei… em que pode haver dois pais ou duas mães…
- Dois pais?! Como, pai?
- Dois homens, com um pai; ou duas mulheres, com uma mãe.
- Ó pai, mas isso é uma estupidez! Não faz qualquer sentido.»

IM esteve anteontem no Inferno do Canal Q -
a partir do minuto 21:00 – à conversa com o competente e divertido anfitrião Guilherme Fonseca [GF], com quem simpatizo, porta-voz de facção tão exuberantemente entusiasmado que quase fez passar a sua convidada por criatura contida:
[…]
GF- Depois, também há o outro lado, que são os Dioguinhos que consideram uma es-tu-pi-dez! essa coisa de haver homossexuais a co-adoptar.
IM- De facto, para quem não viu, houve um interveniente no Prós e Contras que adoptou uma criança, que se chama Diogo, e ele disse «Ó Diogo, o pai vai ao Prós e Contras discutir isto», e ele disse «Que estupidez!».   
[…]
De facto, eu vi e ouvi e acho que IM narrou a reacção do Diogo de modo quiçá simplisticamente elíptico e um bocadinho deformante do contexto.

IM- Eu devo dizer que descambei e desatei a chorar...
Já eu devo dizer que conheço poucos tiques de conversa tão indicadores de personalidade autoritária como devo dizer. Sempre que me devem dizer dou um passo atrás de respeitoso temor.
 
Aludindo ao célebre episódio de 24.Fev.2012 no parlamento, em que a guerreira e inteligentíssima IM prevenira, antes de iniciar a sua declaração de voto, que estava «um pouco drogada», o simpático anfitrião lembra-se de que IM disse que estava sobre o efeito de drogas. GF não é a única pessoa culta do mundo a pronunciar-se sob o efeito da ignorância. De resto, não faltam estudos sobre o efeito dela.
 
Espanta tanta certeza; estonteia-me tanto regozijo gárrulo ungido de superioridade cívica, ética, científica, mas sempre – ai de quem duvide! – no exclusivo Superior Interesse Da Criança, havendo até quem, no SupInDaCri, seja tornado sócio do Sporting à nascença.
Por exemplo e ao acaso, o Nuno Azinheira reputou, na Notícias TV de 24.Mai.2013, a aprovação da co-adopção por casais homossexuais de nada menos do que «
um inevitável avanço civilizacional que mais não é do que o reconhecimento jurídico do bom-senso.» Ah, leão! Como se a bomba atómica não representasse, igualmente, um avanço civilizacional sobre a fisga. Mas OK, esse se calhar era evitável.      
Enquanto o resto da humanidade sofre e o islão medra, Portugal encaminha-se, em alta velocidade civilizacional, para ter a fufaria e a paneleiragem mais felizes do universo. Parabéns, Portugal. E digo-o sem nesga de assombro, eu que amo duas amantíssimas filhas, ambas sexuais, sou filho de casal sexual, adoptado por sexuais vários e aqui me declaro, por via de confusões ou mal-entendidos, homem sexual.
- Homofobia empedernida, senhor Plúvio?
- Jamais. Perplexidade tacteante, talvez.
Entretanto, queremos incesto, queremos poligamia, legalize-se a bestialidade, e o mais que a imaginação consinta ou o desejo reclame! E se de permeio puder ir tudo a referendo, tanto mais decente – como gostam os sábios sem dúvidas de proclamar – ficará o país, já que quem mais ordena há-de sempre ser o povo, não falando do papa Francisco e dos preços em 9, dentro de ti oh sim, dá-lhe!...
PS
Apreciei a relativa ainda que muito cuidadosa "coragem" com que Júlio Machado Vaz, assumido e declarado defensor do casamento homossexual, da co-adopção em casais homossexuais e da adopção plena por casais homossexuais, discorreu nos últimos 25 minutos de "O amor é..." de há oito dias, com Inês Meneses, apaniguada inoxidável da causa, pouco entusiasmada do outro lado, sobre um estudo de 2012, da universidade de  Austin, Texas, tão honesto e sério como os outros,  que, adivinho, nem Paulo Côrte-Real nem Isabel Moreira nem Fernanda Câncio algum dia se empenharão em publicitar. «Cuidado com a euforia ... São necessários mais estudos ...», etc.
Se quiser escutar JMV, faça favor.