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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Sinais dos tempos

Venho do tempo em que na consulta de clínica geral o médico conversava comigo, me observava os olhos, mandava desapertar o cinto, abrir a boca e a camisa, avaliava o pulso, auscultava, palpava, dava umas marteladinhas nos joelhos, espreitava os ouvidos e o nariz.
Pertenço ao tempo em que os médicos, em geral, olham mais para o ecrã do que para mim, falam quase nada e raramente me tocam, cheios de pressa ... "Au suivant!"
Fico decepcionado e não me parece bom sinal.
Calhou ler no mesmo fôlego os artigos que se seguem. Estou com o Henrique Raposo e com a Helena Matos.
Ciente do relativo desajuste de contextos, não resisto à evocação de Abel Salazar: «O médico que só sabe de Medicina nem de Medicina sabe».

sábado, 16 de setembro de 2017

Henrique Raposo | António Guerreiro

Temos a burra nas couves.
«[...]
Comparar o sangue de um animal ao sangue humano é que é desumano, pois rasga a sacralidade da vida humana, dos direitos humanos, do direito natural.
[...]
Comer o que se mata é um acto de seriedade para com a natureza e para com a humanidade, até porque estabelece as devidas diferenças entre os animais tocáveis e os humanos intocáveis.
[...]»

«[...]
No nosso tempo, não é fácil reconhecer um fascista: porque eles não ousam dizer o seu nome ou nem sequer sabem que o são; porque um antifascismo demasiado espontâneo provocou uma inflação demagógica dessa classificação e retirou-lhe todo o rigor.
Com algumas precauções, confirmei na semana passada a existência de um exemplar da espécie: chama-se Henrique Raposo e é cronista do Expresso.
[...]
Na versão kitsch e pindérica de Henrique Raposo (mas não é o kitsch ideológico uma característica do fascismo?) o culto da morte exprime-se desta maneira: “Há qualquer coisa de belo num tiro que é o encontro entre a trajectória da bala e a trajectória da presa; colocar a bala ou chumbo naquele milionésimo de segundo em que as duas linhas, a do tiro e a da presa, se encontram é um desafio belo”.
[...]»

Se, retribuindo a taxonomia, Henrique Raposo, «pequeno fascista piroso e pindérico», vier contar no Expresso que reconheceu em António Guerreiro, porventura, desde 1986 no Expresso e desde 2013 no Público, o melhor e mais bem informado colunista da nossa comunicação social, um «paneleiro marxista e amigo dos animais», quem pode espantar-se?
Onde mora a virtude?
Quem professa os deuses certos?
Que saberá António Guerreiro, que muito estimo, da sensibilidade das alfaces?

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Com que cara | Canavilhas

«Já viram a triste situação em que eu estaria se fosse líder do PSD e estivesse no concelho de Loures a apoiar um candidato que desonra qualquer partido democrático que o possa apresentar às eleições? Com que cara é que eu estava aqui a apoiar um candidato em Cascais com a mesma cara com que tinha tado ontem a apoiar um candidato como aquele candidato que têm em Loures?»

António Costa anatematizava a candidatura pelo PSD de um alienado do Benfica [como ele, AC, de resto] — demagogo e populista, como tantos — que na véspera, em entrevista a Sebastião Bugalho*, no i em papel e no Sol em linha, proferira umas quantas frases pertinentes e incómodas acerca de determinada etnia.

Com que cara, doutor António Costa?
Ora, com a mesma com que estava a animar a candidatura de uma tontinha por José Sócrates [à CMtv em 21.Fev.2015: «Acredito piamente na inocência de José Sócrates.»], a tal que sugeriu há um ano o despedimento da jornalista Clara Viana. **
Com que cara, doutor António Costa? 
Ora, com a mesma com que apoia para Loures uma jeitosa e fraca Paixão. Espremida, ver-se-á quão medíocre é esta Sónia do PS.

- Grandessíssimo cigano me tem saído este secretário-geral do PS...
- Mas ó pai, ele não é monhé?
- Não, filha. Isso é racismo xenófobo.

Em Loures, já decidi: votarei na CDU. Sem hesitar; ninguém os bate nas arrumações.

A propósito de racismo:
Clara Ferreira Alves, sobranceira como sempre, preocupada- Eu devo dizer que o racismo está presente até no humor português. As anedotas que circulam desde a revolução, e já antes da revolução, são anedotas típicas de sociedades não pós-coloniais mas coloniais. Não há casamentos inter-raciais em Portugal
Daniel Oliveira- Começa a haver, começa a haver.
Clara Ferreira Alves- … cada um sabe onde está o seu lugar.

Nada que não se resolva com o REPANUI – Regime da Paridade Núbil Interétnica, a propor, com carácter de emergência social, pelas BEatas.
Assim, o Governo deverá promover e assegurar a realização em território português de casamentos entre indivíduos em idade núbil aqui residentes, nas seguintes exactas quantidades mínimas em cada ano civil:
- cabo-verdianos com ciganos calé, cerca de 103;
- lusocaucasianos com ameríndios, cerca de 37;
- afrodescendentes pretos com chineses amarelos, cerca de 62;
- islamoárabes com judeus de qualquer proveniência, cerca de 211;
- louros nórdicos com toureiros bengalis, cerca de 96;
- indianos com algarvios, cerca de 23;
- esquimós com maoris, cerca de 8.
E assim sucessivamente, mantendo presente que amor é coisa que ocorre não por acaso uma única vez na Constituição da República Portuguesa: na alínea b) do n.º 1 do artigo 293.º.
A título absolutamente excepcional e transitório, admitem-se Casamentos de Santo António.

Henrique Raposo, "Loures" | Expresso, 22.Jul.2017

Quanto a Louçã — "Eu já tive namoradas de todas as cores" | Público, 26.Jul.2017  —, ele que zele por que em casa toda a gente respeite o ordenamento jurídico português e os preceitos consuetudinários locais. De resto, pergunto-me quantas voltas à chave dará o arcediago BEato na porta de entrada quando vai dormir e quando sai…
__________________________________________
** Gabriela Canavilhas — não falo da pianista — merece rodapé.
Falo da inefável e levitante socialista no seu desvelado afã em torno da língua portuguesa
Defensora ultramontana do AO1990, ei-la, em 07.Fev.2017, Palácio de São Bento, na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, presidida por Edite Estrela, inenarrável e histórica videirinha do PS, na audição do Presidente da Academia das Ciências de Lisboa sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa:
A partir do minuto 01:30:57. Que bem fala, senhores! Como persuade a inteligência dos calhaus antiacordistas! Como nos hipnotiza de clarividência! A razão esvoaça!   

Finalmente, pequenina amostra de como escreve Canavilhas.
Nunca deverá ter ouvido falar no vocativo nem faz ideia do uso da vírgula. Escapa-lhe redigir bem coisas como "Obrigada, Mário Soares", "Parabéns, António", "Um abraço, José Lello". 
Do famigerado Acordo Ortográfico, de que é prosélita zonza, nem as regras elementares domina: ainda escreve «acção» e «retractação».
Não consegue escrever sem erro «distinto», «com certeza», «voo», «juízes».
Aprecie-se o chorrilho
Até dói saber que esta senhora pôde ter sido ministra da Cultura [2005-2009, governo de José Sócrates].
Olhem-m' ela no Paradoxo...

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Eu, quem?

Calipto.

«Foram os eucaliptos, propagando o fogo de uns para os outros, de um lado para o outro da estrada, através das suas copas, quem matou aquelas 47 pessoas.»

Ó senhor doutor e ilustre escritor Miguel Sousa Tavares, pelo amor da santa, «foram os eucaliptos quem»? Que prosopopeia é essa? Logo o Miguel, a quem oiço repetidamente confessar que investe cuidado máximo – vigilância do erro, esmero na gramática – na sua lauda semanal do Expresso. 

«De facto, ao contrário do que defende a ignorância urbana e arrogante de propostas tendentes a proibir a caça, vindas do PAN, do PEV ou do BE, a caça (e também por causa da sua íntima relação com a agricultura), é uma das últimas actividades que ainda mantêm os terrenos cultivados, desmatados, e vigiados e preserva o que resta do mundo rural — cujo abandono, todos concordam, é, no fim de tudo, a causa principal dos incêndios.»
Não deixa de me fazer sorrir a objurgatória à «ignorância urbana e arrogante» por parte de um menino-bem, nado, cultivado e vivido na aristocracia citadina, putativo porta-voz da sabedoria rural de caçadeira a tira-colo. E eu pensando que a causa principal dos incêndios fosse a maldade louca... 
Já no Expresso do sábado anterior, 24.Jun.2017, Miguel Sousa Tavares vertera copiosa sanha anti-eucalíptica em "O essencial e o marginal". Gosto da resposta – Meu caro Miguel Sousa Tavares... – que Henrique Raposo lhe deu: "Calitros" | Expresso, 01.Jul.2017".   

Não me vou sem quatro ou cinco quinaus  gamárticos no Expresso e noutras gazetas. Estão a pedi-los.

«Volta Galp, estás perdoada»
«Volta, Galp», se fazem favor. «Volta Galp» é outra coisa, senhores jornalistas.

«têm havido várias reuniões entre os advogados das duas partes»
«tem havido», foda-se. Aprendam. Aprendam. Aprendam.

«Lev Yashin, para muitos um dos melhores guarda-redes da história da futebol, também jogou durante muitos anos, até aos 41. Começou em 1950 e só terminou em 1970, sempre ao serviço do seu Dínamo de Moscovo e da selecção da Rússia, onde venceu os jogos olímpicos em 1956.»
Que merda é aquilo, ó doutor Gonçalo Lopes
«e da selecção da União Soviética que com Lev Yashin na baliza venceu os jogos olímpicos de 1956 em Melbourne», se não se importa. 

«Até sempre Henrique.»
«Até sempre, Henrique.», se faz favor. «sempre Henrique», doutor Eduardo Dâmaso, é outra coisa; sempre Henrique é o que Medina Carreira foi a vida toda.

Irra!
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* Diário de Notícias, o meu DN vai para 47 anos, definhante e desleixado como nunca. Hoje em dia, um jornal sempre disponível e lesto para os arrotos de indignação do príncipe da lisura procedimental infamado e perseguido pela justiça, para estímulo dos idólatras não vá esmorecer-lhes o fervor, mas que foi, relembro, o único diário português em papel a não conceder uma linha a Armando Silva Carvalho por altura da sua morte, no dia seguinte e em todos os seguintes dias seguintes. 
Desleixo, sim. Repare-se no sector "Opinião" da ficha técnica:
André Macedo, a quem Paulo Baldaia sucedeu na direcção, desaparecido desde 23.Mar.2017.
Miguel Ángel Belloso, desaparecido desde 24.Fev.2017.
Yanis Varoufakis, desaparecido desde 30.Nov.2016.
André Carrilho, muito bem, um génio, continua no activo. Mas porque não consta o magnífico José Bandeira, porventura o melhor cartunista de Portugal, que continua a publicar diariamente no DN desde há um milhão de anos?
E João Gobern, que ultimamente se tem desunhado a escrever, porque não consta também?
Enfim, grande tristeza.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

"Esquerda impune" - Expresso, 25.Fev.2017,

de Henrique Raposo para Fernanda Câncio*, com carinho. Na jugular.
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* A quem me liga uma irredimível sicofilia.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O ódio dos animalistas

«[…]
A resposta da animalista fala por si: Mas você prende a sua filha com uma trela?
Como é que se argumenta com estas Estalines do proletariado de quatro patas?
Durante muitos anos, o animalismo não foi levado a sério, era assunto piadético. Julgo que a piada já passou. Se isto continua assim, uma minoria radical de humanos pouco sencientes em relação ao resto da humanidade continuará a impor um modo de vida que tem como meta final o vegetarianismo.
[…]»

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Marcelo Rebelo de Sousa

«Marcelo Rebelo de Sousa está para a gravitas como Jorge Jesus está para a gramática.
[…]
O porreirismo de Marcelo será um problema em Belém, porque ninguém levará a sério um homem que é ontologicamente incapaz de acreditar seja no que for.
[…]»

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

«[...] a cobardia intrínseca desta personagem

[...]
Durante as últimas décadas, Marcelo foi o grande mordomo do regime e um dos responsáveis pela ausência de debate sério sobre os problemas de Portugal.
[...]
O ex-discípulo de Marcello Caetano foi o idiota útil dos donos do sistema, o fala-barato que encheu o ar com pólvora seca.
[...]
uma máquina discursiva sem nada lá dentro.
[...]»  
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A despropósito, o Quim da bomba.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Direita

«Os Intelectuais de Direita Estão a Sair do Armário é o título de uma reportagem de Paulo Moura publicada na revista 2, do PÚBLICO, no passado domingo. Tal título veicula a suposição de que o pensamento de direita foi reprimido ou levado a um regime de auto-limitação, tendo finalmente chegado o momento da sua libertação e afirmação pública. Pensar assim é um equívoco.
[…]
Esta nova direita é, pura e simplesmente, um realismo. Por isso é que não precisa de grandes elaborações teóricas e a sua afirmação, como mostra muito bem a reportagem de Paulo Moura e os depoimentos que recolhe (nomeadamente, os de António Araújo), faz-se privilegiadamente nos media. Esse é o seu ambiente “natural”: o da comunicação, o do divertimento, o da burguesia como classe universal. Ela não precisa de construir um pensamento, só precisa de seguir uma cultura difusa e dispersa, de não interromper o entretenimento, de alimentar o conformismo dos media, de seguir com eficácia a estratégia da sedução, de aproveitar a onda de desculturalização da política que a esquerda superlight decidiu surfar.
[…]
Hoje, a questão verdadeiramente pertinente não é verificar, com algum equívoco, que os intelectuais de direita saíram do armário; é perceber que muito dos intelectuais que se afirmam de esquerda e falam em nome dela se converteram a essa cultura difusa da nova direita e aceitaram preencher as quotas de mediatização que esta lhe concede, aceitando um papel protocolar de “representação”. Também eles glorificam o novo realismo.» 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Henrique Raposo, pai

«Se o apocalipse é às três da tarde, o que me leva a mudar a fralda à minha filha
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A dado ponto da crónica, escreve HR: Se a causa fosse apenas a tesão darwinista, se o motivo fosse apenas a fanguice genética […] até podemos ser os coelhinhos entesuados das Galápagos,
Já em 29.Fev.2012, na página online do Expresso, escrevera – “Os japoneses começam a não gostar de mulheres”: factos simples da vida como a tesão. e, em 14 de Novembro último  - “Sexo e amor: o darwinismo não explica”: Seria mais honesto se reconhecessem que conseguem explicar a tesão, a fanguice femeeira,
O rebuliço que vai naquela cabeça, santo Deus! E não há um revisor prestável no Expresso que ao Raposo lhe conserte a fossanguice e acerte o tesão.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

"O sexo dos católicos"

Gosto desta peça de Henrique Raposo, no Expresso de 15.Dez.2012.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Quando o Estado nos vem ao cu

«[…]
um cronista e comentador político, que tem um gosto especial pela alarvidade, falou mesmo em sodomização*.
[…]
O paradoxo da “pilhagem legal”, formulado por Tomás de Aquino, passou a fazer parte das conversas: na rua, no táxi, no café, nos jornais e nas televisões. Ora, mesmo quem nunca sentiu necessidade de pensar os processos de um Estado fiscal, tem agora motivos urgentes para o fazer, já que o que resta da democracia sofreu um forte embate: o sistema fiscal recorre a práticas absolutistas ‘naturalizadas’ […] Mas essas práticas, ao serem exasperadas, dão-se a ver na sua arbitrariedade e quebram o vínculo necessário entre os rendimentos do Estado e os benefícios que os cidadãos deles extraem.
[…]»
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* «Há dias, quando me disseram que o governo ia extinguir 30 ou 40 fundações, pensei que estavam a brincar comigo. Era mesmo uma boa piada: num país com o Estado falido e com a sociedade sodomizada pelo fisco assim ao estilo Pulp Fiction, [...]»

domingo, 31 de julho de 2011

Concordo com a Fernanda Câncio

«Por que raio os homens de todas as idades, mas sobretudo os mais jovens e até os infantes, deram em andar na praia de calções largos até ao joelho, as mais das vezes com padrões e cores hipergritantes e saloios, fazendo dos areais uma parada de pintos calçudos incompreensivelmente orgulhosos da sua figura?»

Pena que - até a Câncio, habitualmente cuidadosa nestas coisas - tenha cedido ao despautério pestífero da narrativa* - um horror criado pelo meio social e pela narrativa circundante

* Repristinando...
[14.Mai.2011, sábado]
Henrique Raposo no Expresso: «Entre 1976 e 2011, o regime viveu agarrado à narrativa dos direitos adquiridos. Essa narrativa morreu na semana passada.»
O Luís Delgado, entre as 21:40 e as 21:45 de hoje, na SIC N, salivou narrativa por 9 vezes para comentar o debate Louçã/Passos Coelho.
Começa a ficar difícil ter respeito pelo que esta gente escreve ou diz.

[15.Mai.2011, domingo]
«Quase tão daninho quanto o estado das contas públicas é o uso, e brutal abuso, da "narrativa". De repente, no debate político nacional tudo é "narrativa". Candidatos, comentadores, repórteres e, se os deixarem, operadores de câmara, não tiram a "narrativa da boca". Ele é o partido X que carece de uma "narrativa". Ele é o partido Y que recuperou a "narrativa". Ele é a "narrativa" de Fulano que possui contradições. Ele é a "narrativa" de Sicrano que é convincente. Ele é a "narrativa" que Coisinho faz de Beltrano. Ele sou eu que já não aguento a palavra e, a fim de lhe narrar uma ou duas coisas, gostaria de descobrir o sujeito que assim a popularizou. 
Infelizmente, não só é difícil descobrir o primeiro responsável pela utilização destrambelhada da "narrativa" como, no meio de tamanha liberdade lexical, é impossível apurar a respectiva acepção. Significa estratégia? Discurso? Crítica? História? Falsidade? Do "Lorosae" dos timorenses à "Muqata" de Arafat, é conhecida a aptidão dos portugueses para, à imagem das crianças no infantário, repetirem até à exaustão a expressão "gira" que ouviram no dia anterior. Mas pelo menos sabia-se que "Lorosae" era o sol nascente e a "Muqata" um mamarracho de betão. Da "narrativa" sabe-se pouco, excepto o facto de que não se perceber o que alguém diz é um forte indício de que alguém não diz nada que mereça ser percebido.
Se adicionarmos a isto a recente tendência para começar as frases com verbos no infinitivo impessoal, confirma-se que o brilhantismo linguístico dos políticos e adjacências reflecte perigosamente o brilhantismo dos políticos e adjacências no resto. Acrescentar que a "narrativa", seja lá o que isso for, é um mero exemplo.»

[19.Mai.2011, quinta-feira]
Pacheco Pereira, ele próprio vigilante destas modas.

[21.Mai.2011, sábado]
Mário Crespo, Expresso:
«É assim que no País das Maravilhas “quem manda” domina as narrativas inventadas para justificar o passado, alterar o presente e disfarçar o futuro.»
Podia lá o patareco do Crespo escapar à pandémica narrativa? Claro que não podia. Honra lhe seja que não gosta do Aníbal Cavaco Silva, mas isso nem às anémonas está vedado um que outro epifenómeno de bom não-gosto.

[25.Mai.2011, quarta-feira]
«A narrativa, usada e abusada, que ensinava que a crise era resultado do chumbo do PEC IV já não convence ninguém e foi desamparada nos discursos socialistas.»

Concordo: “narrativa, usada e abusada".

[26.Mai.2011, quinta-feira]
A previsibilidade entedia-me. Daí, não ter de estranhar o enfado com que os meus leitores antevêem a razão do link para este pedacinho do Público de hoje.
Nem mais, doutora Teresa de Sousa, constante; uma imarcescível, como diria o outro, constante da vida.
O colunismo português está a ficar inenarrável.

[14.Jun.2011, terça-feira]
Eram exactamente cerca da 22:13 de hoje quando, confabulando sobre o governo que aí vem, o doutor Filipe Santos Costa, jornalista do Expresso, asseverou com ar sério para a lhaníssima doutora Ana Lourenço, na SIC Notícias: Porque há uma narrativa ... há essa narrativa.
Era o sinal. Atirei-me ao pequeno, obsoleto e tresloucado televisor da cozinha, desliguei-o, desumbiliquei-o das tomadas e de um fôlego transportei-o para a rua juntamente com o saco do lixo orgânico.
Chega de narrativa, foda-se!

[12.Jul.2011, terça-feira]
Nem a destravada nada parva da Ana Gomes escapa à contaminação.
Em telefonema dos E.U.A., assegurava ela esta manhã à Antena 1 e aos portugueses, num depoimento do maior interesse ajudando-nos a entender melhor como os américas estão a ver coisa [isto é mesmo «luta de classes», meus amigos]: 
Enquanto nós não percebermos que precisamos de facto de ter uma narrativa no plano europeu …  [minuto 08:05]
Agora, que sabemos finalmente do que de facto precisamos, não sobra desculpa: toca a narrar a todo o vapor nem que para isso, se ao Gonçalo M. Tavares acabar a bateria, o Alexandre Herculano - "Lendas e narrativas" - tenha de ser despertado daquela soneira que nunca mais se lhe acaba lá nos Jerónimos.