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sábado, 19 de dezembro de 2020

Ainda Eduardo Lourenço e a hórrida unanimidade

O JL desta quinzena [comprei e conservo todas as 1310 edições desde a primeira, de 03.Mar.1981; não tarda ponho-as à venda na OLX, ao desbarato, que o metabolismo claudica e o papel estiola] é integralmente dedicado a Eduardo Lourenço [S. Pedro de Rio Seco, 23.Mai.1923 - Lisboa, 01.Dez.2020].

Talvez questão de feitio, a unanimidade e, mas menos, o consenso põem-me geralmente — enfim, rendo-me sem esforço à constatação de que coisas como o ar respirável ou a água potável, os lençóis de flanela no Inverno, o extermínio preventivo do SARS-Cov-2 com sabão macaco ou a sublimidade das guitarradas de Yamandu Costa, não merecem grande discórdia — de pé atrás; enervam-me, eriçam-me a desconfiança, ateiam-me a reserva, escoram-me a prudência.

Em apenas duas(!) das 33 páginas de epicédio hemorrágico lourenciano no JL encontramos desvio do uníssono babado ou basbaque.
Na página do bonzo de Coimbra, ainda assim de raspão:
«[...] A terceira razão para o enigma do consenso é a mais decisiva, a sedução do consenso. De que Portugal e de que portugueses falava tão sedutora como convincentemente? EL não era dado a detalhes e especificações, mas é evidente que o Portugal de que ele falava era uma entidade muito seletiva. Os portugueses do bairro da Cova da Moura ou do Bairro da Jamaica não vivem no Portugal de EL nem são os portugueses imaginados por ele. Estes portugueses, aqui nascidos há duas ou mais gerações, não vivem no labirinto da saudade. Vivem no labirinto da opressão e do racismo. Têm talvez saudade das suas raízes muito longe destes bairros, raízes que nunca tiveram porque lhes foram violentamente arrancadas pelas vicissitudes da violência colonial. Acontece que o Portugal destes portugueses raramente tem voz para confrontar o ensaísta. Nem isso seria uma prioridade para eles, ocupados como estão em confrontar regularmente a brutalidade policial. [...]»

Mas sobremaneira na página de Eugénio Lisboa que nos sacode e desperta da densa glorificação envolvente:
«[...] Quando querem fazer dele o argonauta que “desvendou” Portugal e Pessoa aos portugueses, estão a assassinar os factos eruditos e a cometer uma clamorosa injustiça. Aqui, repito, o pecador não é o autor de O Labirinto da Saudade, mas sim os seus aduladores pouco informados ou muito esquecidos. Todo o excesso de admiração é sempre suspeito e revela, em geral, pouco senso crítico e  péssimo conhecimento da obra idolatrada. André Gide, que era, além de notável ficcionista e diarista, um finíssimo crítico e ensaísta, raramente dado a desmedidos ditirambos, observava, judiciosamente, que, quando se tem pouca coisa a dizer de alguém ou de uma obra, até não calha mal berrar, e que o excesso é frequentemente uma marca de penúria, pois que a verdadeira abundância arrasta consigo uma espécie de ponderação. O excesso, além de normalmente implicar um défice de conhecimento, é, repito, perigoso. O poeta William Blake dizia que o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria. Pode ser que sim: depende de que excesso se trata, porque o excesso de admiração pode levar ao palácio do erro e da injustiça.
PESSOA NÃO PRECISOU DE EL para ser descoberto, lido, estudado, promovido e traduzido. Dizer que Lourenço, por mais admirável que seja a sua sondagem pessoana, “desvendou” Pessoa aos Lusíadas, esquecendo o admirável trabalho de quem, de muito longe, o precedeu é cometer os pecados capitais de ou esquecimento, ou desatenção, ou ignorância ou leviandade. Já em 1925 – ainda Lourenço gatinhava – José Régio arriscava a sua licenciatura, apresentando à conservadora Universidade de Coimbra, uma dissertação sobre as modernas tendências da poesia portuguesa, na qual dava palco generoso aos três argonautas do Orpheu. E aí coroava Pessoa com o estatuto de Mestre. Esta dissertação seria depois publicada, com o título de Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa, em 1941. Nesta altura, Lourenço já não andava de bibe, mas tinha apenas 18 anos e, entretanto vigorara a revista Presença, de 1927 a 1940, a qual deu larguíssima atenção e palco a Pessoa e aos seus principais heterónimos. E ignorar Jacinto do Prado Coelho que, com a sua tese seminal – Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa – deve ter feito solevar mais do que uma perturbada sobrancelha na Universidade de Lisboa, é mais ou menos tão grave como ignorar personalidades como Jorge de Sena, João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Teresa Rita Lopes, David Mourão-Ferreira e tantos outros (perdoem-me se os não cito) a quem a aura pessoana tanto deve.
Do mesmo modo, dar ao autor de Labirinto da Saudade os créditos de pioneiro solitário no desvendar de Portugal aos portugueses é cometer outra injustiça de truz: então o Antero das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, o Eça, que tão bem sondou as misérias, os tiques e as cómicas megalomanias da sociedade portuguesa, com uma arte inigualável, o Oliveira Martins do Portugal Contemporâneo, o Miguel Torga, do belíssimo livro Portugal, dos vibrantes e inesquecíveis 16 volumes do Diário e dos contos admiráveis dos Novos Contos da Montanha ou o António Sérgio, dos oito límpidos e clarividentes Ensaios, além de muitas outras notáveis e corajosas intervenções, não colaboraram nada para desvendar Portugal aos portugueses? Nada disto conta? Lourenço veio pisar terra virgem? (Não foi ele quem o disse, foram os seus intemperados aduladores). Olhem que a injustiça é feio pecado e o autor do admirável Sentido e Forma da Poesia Neorrealista não precisa de favores espúrios.
Outro aspeto que gostaria de aqui sublinhar é este: EL aceitou sempre muito mal e de muito mau humor os raríssimos reparos que, em vida, confrontou. Visou sempre, com prodigioso trabalho de formiga, uma saboreada unanimidade, sem vestígios de contraditório. E conseguiu-o, o que não fica bem a um meio cultural adulto. [...]»

//
«Discordámos sempre. E em quase tudo, da leitura da história de Portugal à interpretação de Pessoa, das bases da sua sui generis psico-análise ao papel do estruturalismo (e em particular da dupla Foucault/Deleuze), do seu enfoque numa certa bipolaridade matricial do "homem português" aos palpites (e foram tantos!...) sobre o período que se abriu em 1974. [...]»

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Clara Ferreira Alves à boleia doutro morto

«Eis como me lembro dele. Uma casa, a minha. Em Lisboa. Um longo corredor cheio de estantes, e lá andava Eduardo Lourenço a cirandar à cata de livros.
Clara Ferreira Alves, sobre Eduardo Lourenço, in Expresso, 4/12/2020*
Nas Olimpíadas que consistem em aproveitar a ocasião do obituário para o exercício da auto-celebração e da afirmação de si próprio**, este “testemunho” de Clara Ferreira Alves fica em primeiro lugar no podium, triunfo tanto mais notável quanto os adversários à sua altura foram muitos e muito combativos. Não é de agora esta falta de pudor: sempre que morre alguém famoso e com obra, os amigos, os que o frequentaram, os que foram seus anfitriões, os que com ele partilharam momentos registados num álbum de vaidades e aspirações, manifestam toda a sua exuberância narcísica, esquecem a obra e reivindicam para si uma afinidade electiva com o notável, sem peceberem o quanto o eu é odioso.»

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Eduardo Lourenço, sejamos justos, não está só

A palavra a João Pedro George:
«[...] Nos últimos anos, sempre que vem à baila a obra de Eduardo Lourenço, parece que toda a gente, tanto à direita como à esquerda, mergulhou numa panela de clorofórmio. Porque, em boa verdade, Eduardo Lourenço pode ser reivindicado por ambos os lados do espectro político. Tanto assim que o mestre de Vence se tornou, hoje, numa espécie de porta-voz do status quo e num senador das letras, investido das funções cardinalícias de administrador não executivo da Gulbenkian.
O pensamento de Lourenço organiza-se em torno de duas ideias. A primeira não é verdadeira e a segunda não é original. [...]»

A palavra a Eduardo Lourenço:
«Por mais maníacos que sejemos, ou megalómanos, nós não somos o centro do universo.» *
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* O professor Eduardo Lourenço não só não é o centro do universo como não está sozinho nele.
A palavra a Bruno de Carvalho:
«já estão a contar que nós sejemos destituídos.»

E nem o doutor Bruno de Carvalho, apesar de ser o centro do universo, está sozinho.
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sejamos, porra!

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domingo, 31 de maio de 2015

Destino, maneiras de o ler

«Num artigo publicado neste jornal a 24 de Maio (Eduardo Lourenço - a crítica como dever), celebrando os 92 anos de Eduardo Lourenço [29.Mai.1923], Guilherme d' Oliveira Martins começava assim o segundo parágrafo: “Na sua análise de Portugal como Destino, Eduardo Lourenço afirma que Garrett e Herculano refundaram a Pátria”. Parece uma frase plenamente consentida pelo subtítulo de O Labirinto da Saudade, que reza assim: Psicanálise Mítica do Destino Português. Na maneira de ler aqui a palavra “destino” reside uma linha que divide duas interpretações completamente diferentes do livro de Eduardo Lourenço. Julgo perceber que Guilherme d' Oliveira Martins a leva demasiado a sério.
[…]
Mas quem mandou Eduardo Lourenço dizer que o seu livro era uma “Psicanálise mítica do destino português?”, insinuando que a História é algo que se tem que sofrer e não algo que se decide? O resultado, como sabemos, é um equívoco monumental. Não estou a dizer que o texto de Guilherme d' Oliveira Martins participa claramente desse equívoco, mas situa-se na zona de risco.
[…]»


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Eduardo Lourenço na coreografia do PS

«Para uma iconologia política, a imagem mais densa de significado fornecida pelas televisões na noite de domingo passado foi aquela em que se viu Eduardo Lourenço, ladeado por Francisco Assis, recém-eleito deputado europeu, e um alto dirigente do PS (Alberto Martins), a ser conduzido a um lugar na primeira fila da plateia que escutava e aplaudia as palavras que António José Seguro dirigia ao país, cumprindo o ritual seguido por todos os partidos. A coreografia tinha sido bem planeada: o intelectual português que mais escreveu — com empenho,  lucidez e elevação — sobre o sonho e a realidade da Europa, enquanto tarefa política e continente espiritual, traria aos seus anfitriões um suplemento de “política do espírito” que eles poderiam assim reclamar e capitalizar, perante as câmaras das televisões, como o nosso bem soberano, como disse Valéry. Mas enquanto António José Seguro reivindicava uma “vitória estrondosa” do PS, Eduardo Lourenço, nas imagens transmitidas, mantinha-se cabisbaixo, parco nos aplausos e nada inclinado a contribuir para a verosimilhança da festa. A coreografia da aclamação intelectual ao mais alto nível ganhou a feição de uma parábola, em registo de farsa, do rapto da Europa, sob a forma de representação de um Eduardo Lourenço confiscado por um aparelho partidário.
[...]
Em vez do intelectual como conselheiro do príncipe, o que as câmaras captaram reiteradamente foi a sua impaciência e a sua melancolia, a incapacidade de representar o papel que lhe tinha sido atribuído com maior ou menor consentimento (não podemos saber nem isso interessa para os nossos argumentos).
[...]
[...]»