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terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Entre hoje e depois de amanhã

Passo Fundo, Brasil, 24.Jan.1980 - Yamandu Costa

Buenos Aires, Argentina, 26.Jan.1983 - Martín Sued

"Clara" - Lisboa, 05.Nov.2022  |  Que delicadeza, céus!

Parabéns.
E muito obrigado.

sábado, 10 de dezembro de 2022

Hinódia no mundial do Catar

A introdução instrumental do hino do Uruguai é a mais longa dos 32 hinos nacionais na competição futebolística: 43 segundos exasperantes, quase tanto como a parte coral que dura 47.

Igualmente desmesurada mas não tanto é a introdução do hino do Brasil que dura 28 segundos antes dos 78 segundos em que se proferem sintagmas como margens plácidas | brado retumbanteraios fúlgidos | penhor dessa igualdade | raio vívido | impávido colosso | fulguras, ó Brasil, florão da América | o lábaro que ostentas estrelado | da justiça a clava forte.
Quero imaginar, por exemplo Raphinha, ou qualquer outro jogador, a explicar palavra por palavra o que acabara de cantar.
Quais egrégios avós, quais quê. Vendo melhor, a linguagem d' A Portuguesa é para pessoas simples.

Lembro-me, a propósito, de como a minha tia Emília, devota de missa diária que recitava o Credo de cor, ficava encalacrada quando lhe pedia que me explicasse o significado de «filho unigénito de Deus» ou o de «consubstancial ao Pai»...

Tudo isto para não falar, mas falo, do hino de Espanha, contido e austero, que vai por ali fora e se finda aos 49 segundos sem que os jogadores tenham oportunidade de abrir o bico. a)  Pois que não tem letra, o que o torna porventura no hino mais asseado do mundo.
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a) Terça-feira, 06.Jul.2021, 20h55. No estádio de Wembley vai começar a primeira meia-final do Euro 2020, procrastinado para o ano seguinte por causa da pandemia, entre a Itália e a Espanha.
Na altura dos hinos, começando pelo de Espanha, o jornalista Óscar Cordeiro, da TVI, diz que os hinos «arrepiam sempre» e passa a palavra a Nuno Gomes, antigo craque da bola, hinologista nas horas vagas:
«Sem dúvida que é um momento arrepiante e para os jogadores com certeza com muito orgulho a cantar os seus hinos. É um momento de grande concentração.»

Pude confirmar o orgulho e a concentração dos jogadores espanhóis. Não sei o que Nuno Gomes achou do momento; por mim, não me lembro de ter ouvido um hino nacional cantado com tanta afinação e dicção tão irrepreensível... 
Viva España!

terça-feira, 19 de abril de 2022

Génio, generosidade

O concerto em Nova Iorque de Yamandu Costa, com Richard Scofan no bandoneão, foi há uma semana, 12.Abr.2022.

Sessenta e um minutos, a roçar aqui e ali a sublimidade, postos à disposição de toda a gente. De graça.

Muito obrigado, senhor Yamandu.
Juro que fiquei quietinho quando me tocaram à campainha.

domingo, 13 de março de 2022

Adenda ao Abrunhosa

Minutos atrás, uma leitora indignada, fã confessa do crooner do Porto, veio ao correio do Plúvio puxar-me as orelhas pela publicação hostil a Pedro Abrunhosa. Acha ela que só por vileza e espírito mesquinho pude apoucar o nome de PA, como se não fosse possível reconhecer «na sua longa intervenção pública inúmeras provas de grande talento e qualidades humanas assinaláveis».

Deixou-me a pensar e fez-me rever toda a memória que tenho de PA.
É pois o momento de ser justo e projectar alguma luz — luz, sempre ... — menos antipática na figura do consagrado artista que há um bom punhado de anos declarara com louvável desassombro:
«Os valores humanos e os princípios não são proporcionais ao meu valor de mercado. São o seu alicerce.»

Valores humanos e princípios antes e acima de tudo. O resto ... é música.

E renegado seja quem achar ensombrada a integridade franciscana do Abrunhosa só porque este arcanjo, fundador e dono do BPP-Banco Privado Português, lhe financiou com 1500,00€ tal proclamação.

A maledicência tem limites, menino Plúvio!

Ucrânia - Abrunhosa em combate

Embirro desde sempre com o sujeito, o que facilita não dizer bem dele.

Na conversa longa publicada em 10 páginas da defunta NS' de 18.Dez.2010, fazia Pedro Abrunhosa [Porto,  20.Dez.1960] 50 anos, a jornalista extasiada, Sónia Morais Santos, apresentava-o assim:
«Pedro Abrunhosa é culto, cultíssimo. Tão depressa cita Borges ou Faulkner, como recorda Rembrandt ou Leonardo da Vinci. Tão depressa compara o panorama político actual com outros períodos da História, que conhece bem e com rigor, como indica as teorias de sociólogos, antropólogos, escritores ou músicos que estudou com minúcia e que lhe enriquecem o discurso. Fá-lo naturalmente, sem pretensiosismos bacocos.» a)
Quanto a «bacocos», concedo; já quanto a «pretensiosismos», duvido. Mas que é «cultíssimo», se calhar é:
Há um epifenómeno sociológico de consentaneidade da identidade nacional política com a identidade sociológica. - id., ibid.

Industrial pró$p€ro do entretenimento, continuo a achar PA um cabotino esperto, pretensioso, exibicionista; compositor e executante medíocre.
A criador com este arcaboiço curricular exigir-se-ia criação mais rica e variada do que a linha isoeléctrica de coração parado donde parecem brotar, com raríssimos fogachos de estro, os sucessivos sucessos dos últimos 30 anos — sucessivos sucessos, Plúvio?!    
É certo que António Carlos Jobim fez "Samba de uma nota só"  ou "Águas de Março", mas só é linear como Jobim quem pode. ACJ podia, PA não.

a) Se Abrunhosa já era tudo isto em 2010, imagine-se 12 anos depois. A cada intervenção sua o firmamento rutila.
Não? Ora vejam.
Guerra na Ucrânia. Pega-se num verso de São João da Cruz, noutro de Dylan Thomas; embrulham-se numa capa de António Lobo Antunes, e vai disto.

"Que O Amor Te Salve Nesta Noite Escura"
Que o amor te salve nesta noite escura,
E que a luz* te abrace na hora marcada,
Amor que se acende na manhã mais dura, 
Quem há-de chorar quando a voz se apaga?

Ainda há fogo dentro!
Ainda há frutos sem veneno!
Ainda há luz* na estrada!
Podes subir à porta do templo,
Que o amor nos salve.
E há uma luz* que chama,
Outra luz* que cala,
E uma luz* que é nossa.

Que a manhã levante a rosa dos ventos
E um cerco apertado à palavra guerra, 
Ninguém nesta terra é dono do tempo,
Não é deste tempo o chão que te espera.

Ainda há fogo dentro!
Ainda há frutos sem veneno!
Ainda há luz* na estrada!
Podes subir à porta do templo, 
Que o amor nos salve.
E há uma luz* que chama
E outra luz* que cala
E há uma luz* que é nossa.
 
O princípio do mundo começou agora,
A semente será fruto pela vida fora.
Esta porta aberta nunca foi selada
Para deixar entrar a última hora.

Ainda há fogo dentro! 
Ainda há frutos sem veneno! 
Ainda há luz* na estrada!
Podes subir à porta do templo,
Que o amor nos salve.
Porque há uma luz* que chama
E outra luz* que é nossa
E há uma luz* que cala.

Ainda há fogo dentro! 
Ainda há frutos sem veneno! 
Ainda há luz* na estrada!
Podes subir à porta do templo,
Que o amor nos salve.
Podes subir à porta do templo,
Que o amor nos salve.
Porque há uma luz* que chama
E outra luz* que é nossa
E há uma luz* que se acende.
PA só sabe fazer assim, clone múltiplo de si mesmo, embora aqui levemente menos genial.
«[...] a forma que encontrei para me salvar, porque me sinto incapaz para ir agir no terreno, é escrevendo canções [...] canção despida para tempos difíceis [...] foi escrita em apenas duas horas [...]»

Não sei se os amáveis leitores conseguem imaginar um sexagenário tripeiro, de óculos escuros e fisga assestada a desbastar russos na noite escura duma pradaria ucraniana...
Eu consigo. Não só consigo como garanto que sou capaz de em menos de duas horas fazer uma cagada com maior qualidade e menor pretensão.

Morte a Putin!

Meu rico Jorge Palma!
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* A propósito, quem mais senão um comerciante talentosíssimo como PA conseguiria com tão esplendoroso brilho pôr à venda de olhos vendados — venda de olhos vendados, Plúvio?! —  a própria Luz?
Até o arlequim compareceu. Isto anda tudo ligado.

Já agora, salvo nos casos de explicação fotossensível e de outra índole sanitária, ou por circunstanciais e estimáveis caprichos de imagem [imagem de marca®  é outra coisa], acho o uso de óculos escuros não só pindérico como má educação não se tirarem quando falamos com interlocutores próximos.
É por isso que me apetece concordar com a proclamação de Joel Neto, sportinguista excelente, em 23.Abr.2011: «Declaro que os óculos escuros são a maior pinderiquice dos séculos XX e XXI

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Arrepio

Autores de "Saudade, saudade": Maro, John Blanda.
Ré bemol maior > Si bemol menor
Db > Bbm

aqui trouxera Maro. Que voz.
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Rita Payés, trombonista e intérprete de jazz, é a que está a cantar com a filha recém-nascida, Juna, no marsúpio.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Disparate truístico

«entrevista... com três tónicas principais»*
25.Jan.2022

Querem ver que a protossocialista Dra. Mafalda Anjos anda a aprender a falar como o seu recém-apaparicado do Dr. PML, conhecido na Bobadela por Posaconazol?...
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* Pior, só mesmo a poderosa e afamada «tónica dominante».

domingo, 9 de janeiro de 2022

O nosso vizinho de Arroios

Não me canso de admirar Yamandu Costa e de espicaçar a atenção para ele. Fi-lo, designadamente,
aqui ou

Pela música, pelo raro génio, pela graça, pela bondade e, não menos importante, pela não-cagança* ligada a isso.

«[...]
A gente passa muito rapidamente pela vida e mais ainda pelas vidas das pessoas. Às vezes uns segundos... Porque não deixar uma impressão agradável, boa e generosa no melhor sentido que isso possa ter?
[...]»
Micro-resenha biográfica e conversa por/com Henrique Mann

Pedem-lhe que crie conta na página?
OK, leia aqui.

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* Ia a dizer pela simplicidade — jamais pela humildade que é coisa bem diversa — , mas até simplicidade poderia suscitar compreensão equívoca do que quero dizer. Assim, na falta de melhor, não-cagança parece-me menos mal.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Caminantes

"Limeña"
Gravado em casa de Yamandu, Arroios, Lisboa. A arte na parede veio de Moçambique.

Yamandu Costa
Luís Guerreiro
Martín Sued
Caminantes [tudo]- capa feliz 

Nestes dias, por aí.
Pena a desgraça do «Ibéro-».
Paciência, não há bela sem.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Bem-vindos ao país cristino [9]

Quando a protagonista é a morte, acho a pornografia uma coisa especialmente indecorosa, repugnante.
Estes 45 minutos de ontem, em Portugal, souberam-me a pornografia da pior.
Que leva um pai enlutado a tal exibição?
Bem sei, ou julgo saber: share, um milhão e setecentos mil espectadores. Incluo-me; ainda tenho bom estômago.

Mas nada como socorrer-me de quem sabe mesmo disto:
«Eu conheço o jogo ... sei o que é preciso fazer, isto é um negócio.»

E não, aquele não foi o momento mais decente na carreira do oficiante comovido, de resto um dos melhores profissionais na indústria televisiva do entretenimento.
Quanto ao Carreira-artista nacional propriamente dito — não, como é evidente, o pai Carreira —, a minha admiração é nenhuma. Ratoneiro de cantigas.

Chamem-me insensível.

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quarta-feira, 12 de maio de 2021

Elogio

«Eu devia trocar de roupa cada vez que te dirijo uma frase, lavar as mãos e lavar tudo por dentro.»
Conheço poucos elogios tão bonitos e merecidos como o de Samuel Úria a Daniel Jonas, a que assisti ontem.
Afinal, duas das mais admiráveis personalidades da cultura portuguesa hodierna.
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quarta-feira, 7 de abril de 2021

«Felicidade, melancolia, força, subtileza»

Como agradecer tamanha generosidade?
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Yamandu Costa, nosso vizinho em Lisboa/Arroios, é um génio extraordinário e contagiante; despojado, sem cagança.

O grande prazer é a viagem, não é a chegada ...»

Conversa com o pai de YC, Algacir Costa [1944-1997], em 1996.

Yamandu Costa: «Meu pai morreu com a carreira limpa. Sempre fez o que quis, nunca se vendeu pra ninguém, nunca ficou pensando na coisa mais comercial, mandou tudo à merda e investiu só no que ele acreditou. Isso eu carrego o tempo inteiro. A dignidade de um artista é o que mais importa.»

domingo, 4 de abril de 2021

Aleluia



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* Quem não assistiu ontem à noite a isto não sabe o que perdeu. Estive lá.
Ou anteontem, a isto. Aquele "Insouciance", céus!, seguido do alvoroço da "Herança russa"...
Se calhar Deus existe.

domingo, 7 de março de 2021

Pouca vergonha, muito descaramento? Viva Portugal.

Em nome de Portugal, a RTP vai levar ao Festival Eurovisão da Canção/2021, daqui a dois meses em Roterdão, uma coisa composta por Tatanka [Pedro Taborda], interpretada pelo grupo português "The Black Mamba", com o título "Love is on my side". Portugalidade ressumante.
Pena que a letra seja uma indigência lírica, escrita e cantada num português liminarmente incompreensível.
Mas o pior nem será isso.

Macy Gray lançou em 2001 uma canção chamada "Sweet Baby", com êxito comercial assinalável.

Escutemos agora a portuguesa "Love is on my side".
E agora, "Sweet Baby".
Que tal?
A obra de Tatanka está em Si maior; a de Macy Gray, em Si bemol maior.
Porém, qualquer ouvido treinado e atento percebe, logo a partir dos primeiros compassos, que a tonalidade está muito, muitíssimo longe, longérrimo, de ser a única diferença... E aí, para vexame de Portugal e atropelo da originalidade, é que talvez a porca torça o rabo.

terça-feira, 2 de março de 2021

«Foda-se!!!»

- Óscar Cardoso, do mar é que eu não saio

Luís Guerreiro, para cima e para baixo


Etc.

Obrigado, senhor Yamandu.
Por favor, não se vá embora.

domingo, 24 de janeiro de 2021

Saravá, mestre dos mestres!

Yamandu Costa
Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil, 24.Jan.1980

Lisboa, Arroios, Março de 2020

Muito obrigado, senhor Yamandu.
Os deuses o preservem.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Bons e maus

Neste início de semana sondei uma dúzia de familiares e amigos acerca de dois atentados sanitários recentes, apetece-me dizer crimes, perpetrados por cá em plena pandemia:
Todos os meus inquiridos, criaturas medianamente informadas, sabiam, mais ou menos horripilados, do banquete ventúrico; apenas um estava ao corrente do protesto «antifascista», sem reparo sanitário digno de apreço.

Acabo de guglar: o arraial da Praça de Luís de Camões devolveu-me 920 resultados, sem nenhuma ou com residual indignação anticovidiana à mistura; a comezaina no "Solar do Paço", 9850 resultados recheados de imprecação e censura veemente.  

A comunicação noticiosa portuguesa merece-me, em geral, pouco respeito.  Fede a selectividade tácita; da isenção faz não mais do que ideia vaga; rege-se por cartilha e agenda doutrinárias; presta favores aos governos de turno; induz no indivíduo necessitado de informação a percepção dos factos à luz da trend ideologicamente correcta ou da conveniência circunstancial do patrão. Enfim, fervor em manobras.

Levemente a despropósito, ocorre-me, não é?, voltar a Mamadou Ba, igualmente presente na Praça de Luís de Camões
Referindo-se a André Ventura e citando apocrifamente o bispo de Leiria, o pesporrente e amabilíssimo doutor tuitou no passado dia 15,
'Será que o charlatão vai enxergar. Noutro dia foi o Marcelo a tirar-lhe Sá Carneiro e João Paulo II, agora é o bispo de Leiria a tirar-lhe a máscara. Mas como não tem vergonha na cara vai seguramente continuar a borregar berros de ódio!',
provando de uma assentada que desconhece o ponto de interrogação [não sei se na gramática senegalesa há, mas admira pouco em falantes que afirmam muito e raramente perguntam] e, sobretudo, que se está borrifando para a autenticidade das fontes, desde que lhe forneçam ladainha ajustada à causa, já que o cardeal António Marto nunca proferiu as palavras, sequer semelhantes, que Mamadou Ba lhe atribui.
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* Assista-se, no quarteirão de vídeos do acontecimento disponibilizados pelo Arquivo Ephemera, de José Pacheco Pereira, à inanidade inflamada de que aquela gente é capaz e à incapacidade liminar daqueles tontos de entoarem razoavelmente afinados o "Grândola, Vila Morena". Metem dó quando tentam a polifonia e tornam-se assustadores na vociferação de putatitvos aerossóis de SARS-CoV-2 na parte em que 'o povo é quem mais ordena'. Bem sei que o "parabéns a você" é muito mais fácilmas o hino nacional é bem mais complicado.

Seria parcial e injusto se fechasse o verbete sem um considerando às práticas artístico-musicais entre as hostes tenebrosas de André Ventura: horror sem nome nem comiseração.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Vírus corona, Sol maior *

Decorreu pelas 13h00 de hoje a 6.ª descontaminação das ruas de Bobadela, por um amola-tesouras. [fase 1]   [fase 2]

5.ª, Senhora

4.ª, Resssuscitado  -  3.ª, Crucificado

2.ª, Senhora da limpeza  -  1.ª, José operário
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* É mesmo, garanto,
 a gaita do amolador
estava armada em Sol maior.

Ré menor

«Fiz essa música quando conheci minha mulher Elodie, estávamos no início da relação e a composição mostra esse clima de incerteza, comum no início dos relacionamentos. [...]»
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Esta guitarra nova, construída em 2020 por Vicente Carrillo para Yamandu Costa, tem uma sonoridade de outros mundos. Fará quando envelhecer...

domingo, 10 de janeiro de 2021

Canções de Lisboa

«Lisboa, menina e moça vai passar a ser a canção oficial da capital portuguesa. É a homenagem da cidade ao fadista Carlos do Carmo, que morreu na sexta-feira, aos 81 anos.
Foi uma decisão unânime dos vereadores da autarquia, de todos os partidos, num gesto inédito, revelou esta manhã o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina. No fundo, é tornar oficial aquilo que o povo há muito já fez.»

Não sei a quem, e quando*, ocorreu o inspirado trocadilho "Lisboa, Medina e ma" com que acabo de me deparar num tuíte de Rodrigo Moita de Deus, de 04.Jan.2021. Na circunstância da notícia supra, não poderia ser mais oportuno e apropriado. Parabéns, Rodrigo.

Desta vez, não é para importunar Fernando Medina que aqui venho, muito menos contrariar — ai de mim! — o povo.
É de supor a trabalheira de pesquisa e cotejo por parte dos denodados vereadores, até chegar à decisão, ponderando democrática e igualitariamente, sem preconceito estético ou ideológico, sobre o acervo imenso de cantigas com Lisboa por tema ou fundo — de que aqui, por exemplo, vai sumária mas significativa amostra — , não fosse escapar-lhes algum título porventura mais adequado a hino da capital.

O povo oficializou, a vereação decidiu, Medina promulgou, proceda-se em conformidade.
Mas sempre direi que se, por loucura ou descuido dos deuses, tivesse voto na matéria, a minha escolha iria para uma deslumbrante, falo a sério, e obscura** composição de José Cid, de 1971, com arranjo magnífico de José Calvário, que nasce em «Lisboa ...» e desagua num proceloso «... autoclismo»:  
«Lisboa tem um Tejo de ilusões
[...]
Reparem no pregão desta varina,
no fado em dó menor mas incompleto,
na ponte, no castelo, no deserto,
neste tremor de terra, cataclismo,
quiçá um maremoto de autoclismo.»

Repare-se na subida às alturas, de Ré menor para Mi menor, ao fim de três segundos de silêncio. A voz de José Cid fresca como nunca.
Que tal, ãi?
Só oponho uma pequenina reserva à pronúncia pouco canónica de José Cid da palavra «maremoto». Mas isso remediar-se-ia na gravação do hino oficial de Lisboa por um intéprete de melhor dicção. No impedimento de Carlos do Carmo, ausente em parte incerta, estava capaz de sugerir o Frei Hermano da Câmara, se bem que Medina preferisse sempre o Camané que fez parte da célebre comissão dos arquitetos, e coisas dessas retribuem-se.

Outras versões de "Lisboa perto e longe" que não troco, qualquer delas, pela original de 1971:
Tonicha [1972]Curiosa e estranhamente, Tonicha, a terminar, também canta «maremoto» com o 'e' aberto de «maré»;
José Cid, com Waldemar Bastos [2001]. Cedendo, apetece dizer Cidendo, à conveniência comercial de uma putativa maior suavidade metafórica, José Cid substituiu — estragou lastimavelmente —, nesta versão,  o fantástico último verso «quiçá um maremoto de autoclismo» por um anódino «e ao longe o mar e mais ao longe o abismo». Contrafacção imperdoável. Já vi chamar a ASAE por menos.
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* Vejo que é usado desde pelo menos 2018.

** Quando revia o verbete, ao passar pela «obscura composição» lembrei-me deste «Disco obscuro editado em 1974 ...».
Está à venda na net por 24,99 €. Embora reconheça a pechincha jamais o compraria. Abomino preços em 9 ... e peço humildemente perdão pela invasão na minha gloriosa biografia.
Ahahah.