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domingo, 27 de fevereiro de 2022

Azar de Gonçalo M. Tavares?


«pediu ao motorista para parar o carro junto a um dos penhascos. De seguida, saiu e atirou-se ao mar.»

Uma semana depois, raiando o admirável como quase sempre, Gonçalo M. Tavares escreve:
«[...]
O embaixador aproxima-se do precipício, e este chama-o com a voz que a tristeza ouve; a voz que só uma certa tristeza limite consegue ouvir.
[...]
Que sabemos dos humanos?
Sabemos pouco.»

No mesmo dia da publicação de Gonçalo M. Tavares dizem-nos que
«[Oliver Antić, 1950-2022*] era um apaixonado pela fotografia e estava a fazer um vídeo ... para enviar aos netos, que vivem nos Estados Unidos, quando escorregou numa rocha e caiu ao mar. ... Estava a filmar de costas para o mar.»
Azares destes, e quero crer que Gonçalo M. Tavares foi tão induzido no engano como eu, sucedem aos melhores. Sobretudo quando não se controlam todas as fases da cadeia de produção...
Posto o que, Gonçalo M. Tavares talvez devesse tentar uma conversa com o motorista antes do próximo episódio de "Os cadernos e os dias - História fragmentada do mundo". 

Quando olhas longamente para um abismo, também o abismo olha para dentro de ti.
- Friedrich Nietzsche, no capítulo IV de "Para além do bem e do mal", 1886,  que li aos 19 anos.
Ainda hoje não olho de cima para baixo a mais de 10 metros de altura que não me lembre disso.**
Aos 68 apetece pensar que tenho resistido com castidade heróica à sedução do precipício.

Sim, Gonçalo, sabemos pouco dos humanos. Quase nada. Se calhar, nada.
_____________________________

** - Mas, ó Plúvio, isso não é a VPPB? E se te deixasses de enredos literários da treta?...

domingo, 3 de maio de 2020

Gonçalo M. Tavares e outros

Reconheço-me leve e acentuadamente louco, obstinada e moderadamente compulsivo.
Da primeira, 06.Jan.1973, à mais recente, 01.Mai.2020, comprei e li todas as 2479 edições do Expresso. Por maior discordância ou desapontamento que ao longo destes 47 anos o semanário de Francisco Pinto Balsemão frequentemente me suscitou, julgo ter conseguido recolher de cada número proveito equivalente, no mínimo, ao dispêndio. Às vezes por uma única página, um determinado artigo. 
Não fosse por mais, e desta vez, como felizmente quase sempre, é por mais [basta não faltar, por exemplo, o "In memoriam", obituário semanal pela pena prodigiosa de José Cutileiro*], as duas páginas do  "Diário da peste - Dois séculos tem este século**" que Gonçalo M. Tavares vem assinando na E, revista do Expresso, desde 04.Abr.2020, resgatam com rendimento milionário, tornando quase simbólicos, os 4,00 € do jornal. Na edição de anteontem:
«[...]
Dois humanos não podem olhar para o céu ao mesmo tempo. Em alguns momentos, o céu é demasiado pequeno para dois, quanto mais para muitos...
[...]
Alguém leva uma pedra para espancar o mar porque a filha se afogou ali.
[...]
A Europa está mudada.
Em pouco tempo o medo põe o humano a aceitar a pergunta: para onde vai?
Temos todos de novo 5 anos.
A até alguém com mais de 90 anos está na rua como se perdido do pai.
Pode ser mais tarde ou mais cedo.
Mas toda a gente se perde do pai.
Pelo menos uma vez.
[...]»

E daí, Plúvio?
Nada. Compre e leia.
____________________________________
Também li. Concordo incondicionalmente com Miguel Esteves Cardoso.

** «[...]
O segundo século XXI começou em Wuhan.
O primeiro, nas Torres Gémeas, 2001.
[...]»
Crónica de 25.Abr.2020

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

«Hoje já disseste alto o nome dos teus mortos?»


Digo-os por dentro a toda a hora.
Quase nada seria sem os que me morreram, antes e ao lado de mim.

terça-feira, 21 de março de 2017

Sobre a Poesia*

«[...]
o pó que o tempo traz, que o desastre traz, que os vários fracassos ou mesmo o sucesso trazem, que os vários actos mais ou menos reles de uma vida, conscientes ou não, trazem, tudo isso vai cobrindo de pó espesso as pessoas, as pessoas mais brilhantes ficam apenas pó e por vezes um pedido de socorro. E é isso que o artista faz: atende ao pedido de socorro debaixo do pó: não inventa, limpa. 
Não vai buscar a outro mundo o que é incrível e cria estupefacção. É neste mundo que o artista e o poeta trabalham e pesquisam. Tiram o pó das coisas, dos homens e das mulheres; tiram o pó de cima dos animais e da montanha. E lá de baixo, por vezes, sim, de novo, surge uma certa luz original, um brilho antigo que parece afinal uma invenção, uma descoberta. Mas não. É limpar, limpar.
[...]
Ler poesia, como toda a boa leitura, é uma forma de deslocação. Nos olhos, desde há muito se sabe, é que estão localizados as maiores das viagens. Com os pés avança-se de forma quantitativa, metro e mais metro, quilómetro e mais quilómetro. De cavalo, de carro, de comboio, de avião – eis outras formas quantitativas de viajar. Mas a qualidade essencial da viagem ali está, noutro lado, muitas vezes parada. Toda a viagem é um processo óptico; nada mais. Daí que ler poesia e ler grande literatura seja o verdadeiro processo de deslocação, não no espaço exterior medido com régua, mas no espaço do imaginário – espaço medido pela quantidade de imagens estimulantes que se produzem por minuto (unidade rigorosa: estímulo por minuto). Há versos, bem o sabemos, que multiplicam o número de imagens que um homem ou uma mulher têm na cabeça. E tal efeito de explosão; tal efeito de fazer de um verso muitas imagens, é um efeito muito químico, muito impossível e muito humano. Somos humanos também por isto. Somos humanos também para isto.
[...]»
________________________________________
Soa-me a que onde está «Ficar agora, então, nas frases que pelo início jamais adivinharemos itinerário e meta.» — 4.º parágrafo do ponto 1. — devesse estar «Ficar agora, então, nas frases de que pelo início jamais adivinharemos itinerário e meta.»

terça-feira, 22 de julho de 2014

Selfie

Declaro por minha honra que não pedi nem paguei o retrato que Gonçalo M. Tavares me tirou.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2013 e limítrofes, incluindo 1953, no balancé do meu capricho.

. Melhor post não escrito por Plúvio. 
. Melhor blogger– Táxi Pluvioso. 

Blogue estimável com o título mais pífio e o subtítulo mais fatela.

. Melhor jornalista de TV– Luís Gouveia Monteiro, apresentador, perdão, anfitrião no Canal Q do melhor título de informação, "O que fica do que passa", com um impagável e delicioso marginal ameno açoriano. 
Melhor entrevista. 
. Melhor humorista– Alberto Gonçalves. [Não? Experimente, só para lhe tomar o gosto, “Turismo macabro”, de 19.Dez.2013, entre as 11 crónicas publicadas na Sábado, de 24.Out. a 31.Dez.2013, acerca deste “Paralelo 38” na RTP.] Tirando o horror ao comunismo, ao socialismo, ao Estado e à Constituição, e o ódio cego e descabelado, beirando vez por outra o desconhecimento altivo, ao engenheiro Sócrates, o sociólogo Alberto Gonçalves, que também actua aqui e aqui, passa bem por um fabuloso cómico progressista à esquerda de quem vem, em sentido contrário. Insisto: poucos são os que escrevem por aí tão bem e com tanta graça.
. Pior cronista– Celeste Cardona, no DN.
. Melhor cronista-  Pedro Mexia, no Expresso, na Ler e onde quer que tenha escrito.
. Pior político– Catarina João Martins Semedo
. Segundo pior político ligeiramente mais indigesto do que João Catarina: Marisa Matias
Pior político, para nosso grande azar,  no sítio onde talvez devesse estar o melhor
Mais sabido e perigoso dos troca-tintas demagogos
Pior e mais ominoso dos políticos
. Melhor ex-primeiro ministro
. Pior primeiro-ministro, timoneiro dos pinículos
. Melhor comentador político- Augusto Santos Silva
. Momento político do ano- Pelas 18:00 de 12 de Setembro, a sempre aflita da respiração co-coordenadora do BE, veio ao Metro de Odivelas caucionar nada menos do que 130 propostas justas e sensatas para a governação do concelho que a multidão presente – era humanamente impossível arranjar assento para todos - haveria de acolher com entusiasmo efusivo. Duas semanas depois e embriagados de fé no partido que naquele heróico 23 de Março de 2011, dia de São Turíbio de Mongrovejo, mundial da Meteorologia e nacional da Cáritas, ajudou, para redenção de Portugal, a derrubar José Sócrates e a levar mais depressa ao pote Passos Coelho, os odivelenses – perdão, as odivelensas e os odivelensos - não se fizeram rogados: 5% dos votos, nenhum dos 11 vereadores eleitos.  
. Melhor livro [é preciso uma ganda lata para vir aqui falar de melhores livros quando nem duas dúzias se leu dos cinco mil publicados]– Atlas do Corpo e da Imaginação
. Melhor romance de que ninguém falou– O Reino.
. "Melhor livro de 2013" de Alberto Gonçalves
. Melhor programa televisivo que ainda dura– Ponto Contraponto.  
. Melhor programa televisivo que durou pouco– Odisseia
. Melhor programa televisivo razoável com o título mais piroso– Baseado numa História Verídica, Canal Q.

E rádio, pá? E teatro? E concertos? E bola, pá?

. Melhor guarda-roupa- O de Inês Meneses, sem nada por baixo.
. Terceiro melhor Papa. Frente a episódios de fundamentalismo violento que nos preocupam, o afecto pelos verdadeiros crentes do Islão deve levar-nos a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência. - Exortação Apostólica "A Alegria do Evangelho", 253. Este Bergoglio é de uma bondade e ingenuidade desarmantes. Sorte dele é Alá ainda usar fisga.
. Segundo melhor Papa.
. Primeiro melhor papa, o único dos três que não se fia na virgem. 
. Palavra mais feia– ajustamento.
. Redundância mais insuportável– desonestidade intelectual. Como se houvesse outras.
. Eufemismo mais execrável- colaborador em vez de trabalhador.
. Tique mais irritante– Dito isto.
. Quem, dito isto, mais hemorrágica e irritantemente praticou o irritante tique “dito isto”: Pedro Rolo Duarte. Até o bom do Pedro Mexia já está contaminado. [minuto 15:25]
. Mais ubíquos– José Tolentino Mendonça* e Joana Vasconcelos, ex aequo com o Ademar Costa da Póvoa de Varzim, campeoníssimo da epistolografia em todos os jornais e revistas do país [“Cartas ao director”, “A carta da semana”…, via e-mail que é mais depressa e poupa selo], que conseguiu 711 publicações dos seus sábios considerandos. O Tomaz Albuquerque de Lisboa, vice-campeoníssimo, nem aos calcanhares do Ademar chegou, com apenas cerca de 403 publicações dos seus considerandos sábios. Eu acho que o azar do Tomaz é que o nome do outro começa por a logo seguido de d, e nisso os directores e editores de imprensa são muito criteriosos. 
Mistério mais misterioso- zona mista. [Como vês, pá, também se fala de bola neste balanço.]
. Segunda melhor frase– Sempre que mudamos uma pedra de um lado para outro, isso é arquitectura. – Farrokh Derakhshani, director do “Prémio Aga Khan para a Arquitectura 2013”, no Castelo de São Jorge.
. Melhor e mais comovente frase- Não me deito nunca sem dar banhinho à minha mãe.Arlete, empregada de refeitório.
. Melhor café– Delta.
. Melhor fruto, em 2013, desde sempre e para sempre- azeitona.
. Melhor morto- Impossível eleger. Todos eram pessoas excelentíssimas.
. Melhor obituário– o de António Ramos Rosa, apesar da maior audiência do de Manuel António Pina.
. Melhores dos melhores- as minhas filhas, os meus irmãos, outros queridos familiares e os meus amigos – pudera! -, Gonçalo M. Tavares, António Guerreiro, Bach, a Margarida e o senhor Moreira.
. A quem me compararam– Frank Zappa, aos 23 anos, a tocar bicicleta
. Melhor filme de sempre em 2013- Viagem a Tóquio [1953].

Etc.

_______________________________

* Hei-de escrever, não tarda, uma carta aberta ao padre Tolentino, em meia dúzia de linhas, a dizer mais ou menos:

«Bobadela, tantos do tal

Reverendo padre, lídimo poeta, prosador fecundo, sensível e decerto justa pessoa,

Venho interpelá-lo na sua qualidade de vice-reitor da excelentíssima Universidade Católica que tantas fornadas de altos-quadros tem posto a gerir,  a governar e a aconselhar Portugal e parte importante das suas instituições e empresas, para que, por favor, nos elucide, nos informe, nos diga que merda de orientação se inculca, se é que alguma, nas cabecinhas dos seus alunos, designada e principalmente dos cursos de Gestão, Economia e Direito, acerca das duas seguintes singelas coisas: escrúpulo e ganância.

Grato e com os cumprimentos da praxe,

Plúvio.»
- x - 

[Texto reeditado em 05.Jan.2014. Como apodreço em aparente seriedade, céus!]

Língua e fala, voz e ouvido

«[…]

Há sons que acalmam e sons que excitam, e uma língua é o infinito espaço que existe entre esses dois pontos. Cada palavra, cada som, provoca uma mudança no mundo. Nenhum som é neutro. A língua falada é, então, uma forma física de tocar no outro.

[…]

Uma canção toca no corpo que a ouve. Uma canção não fica num ponto e o ouvido noutro ponto, afastados entre si, com um intervalo no meio. Não há intervalo, não há espaço vazio entre uma canção e o corpo que a ouve, não há espaço vazio entre a voz na nossa língua e o nosso corpo. Somos tocados pela língua materna, e isto é uma evidência corporal – não intelectual, insistimos. É uma questão de pele.

[…]»

Gonçalo M. Tavares, “Aprende / a não esperar por ti pois não te encontrarás* | DN, 29.Dez.2013

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* Versos de “Elegia”, poema de Sophia de Mello Breyner Andresen.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Gonçalo M. Tavares | Atlas do Corpo e da Imaginação

«[…]

Há algo que é uma constante em mim: pensar muito na morte. É mais do que ter a morte presente, é uma constante enquanto ponto de partida. […] A pergunta certa não é o que fazemos; é o que fazemos enquanto estamos vivos. Essa pergunta coloca responsabilidade nas coisas. Por outro lado, tudo fica mais fácil. Há problemas que parecem importantes que ficam irrelevantes. Ao responder à pergunta “o que é que faço enquanto não morro?” dirijo a energia para o que acho essencial e não me disperse.
[…]
Por exemplo, a palavra “contemplar”. Ganhou uma conotação quase negativa de tão desvalorizada. “Lá estás tu a contemplar”, ou seja, “lá estás tu a não fazer nada”. Era uma palavra grandiosa. Uma das origens etimológicas é “estar com o templo”. Contemplar era decisivo, estar ali com o espaço mais sagrado a tentar perceber o que está e o que vai acontecer. Hoje se alguém estiver a contemplar corre o risco de estar a ser insultado como preguiçoso.
[…]»
Gonçalo M.Tavares entrevistado por Isabel Lucas
_____________________________ 
«[…]
É um empreendimento monumental, aquele a que Gonçalo M. Tavares deu o nome de Atlas, mas que é no fundo inclassificável quanto ao género e, até, quanto à matéria literária e de pensamento que ele expõe.
[…]
Este Atlas é uma grandiosa montagem e colagem de fragmentos, uma máquina de distribuir começos, de disseminar pensamento.
[…]
Mas que saber é aquele que nos fornece o Atlas de Gonçalo M. Tavares? Um saber indefinido, heteróclito, díspar, onde tudo se pode constituir como objecto de pensamento.
[…]
O Atlas do Corpo e da Imaginação não só convida o leitor ao passeio errante, à flânerie no seu imenso território, como é ele próprio um exemplo da arte de passear enquanto algo consubstancial ao pensamento. Ele caracteriza-se pelo pensamento que deambula, por aquilo a que Ernst Bloch chamou “pensar efabulante”.
[…]
Ler o mundo é ligar as coisas do mundo. Tudo pode então ser posto em relação com tudo, não há senão conjunções, mesmo que sejam disjuntivas. Daí o facto de estarmos sempre a deparar com pensamentos paradoxais, hipóteses bizarras, proposições que desafiam o senso comum. Este é um Atlas do Corpo e da Imaginação, não podemos esquecer. Aqui, a imaginação não é tanto a faculdade da fantasia, aquilo que não podemos ver nem sentir, mas uma operação com valor epistémico.
[…]
Se tivéssemos de decidir qual é o grande tema deste Atlas, a sua “matéria de Bretanha”, diríamos que é o pensamento, o pensar. Trata-se de uma espécie de dança com o que vem à cabeça e se oferece à reflexão. Pensar é sempre um gesto de auto-consciência e de consciência da linguagem. Isso mesmo, que é praticado, em acto, ao longo de todo o Atlas, é anunciado de maneira programática logo no início: Porque pensar também é mudar de posição relativamente à própria linguagem. Não olhes sempre da mesma maneira para as palavras (pág. 46). Olhar para as palavras com insistência, até que por fim são elas que olham para ele, eis o método de Gonçalo M. Tavares. Não é muito diferente da experiência do espanto de onde se originou a filosofia.»
António Guerreiro, “O mundo é feito para resultar num atlas

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Consumir cultura

«Segundo os dados do Eurobarómetro, divulgados pelo Público no passado domingo, os consumos culturais em Portugal sofreram uma forte redução relativamente aos resultados anteriores, de 2007. Estes inquéritos informam-nos sobre a evolução dos consumos das commodities culturais, mas deduzir dessas medições um teor e um estado geral da cultura é uma enorme falácia. A noção de "consumo" é cheia de equívocos quando aplicada ao campo da cultura, desde logo porque é meramente quantitativa e preenche essa forma de niilismo que se traduz no princípio de que tudo se equivale: não há hierarquias, qualquer coisa é agenciada com outra coisa e dirige-se, sem distinção, a qualquer pessoa. Todos conhecemos o pietismo das boas intenções culturais que faz da leitura uma moral e multiplica as campanhas filantrópicas a favor dos livros. Como se os livros, os filmes, os espectáculos e tudo o mais — muito mais, porque o universo da cultura é enorme e está sempre em expansão — não pudessem ser, não fossem efectivamente na sua maioria, e sem deixarem de ser produtos culturais, meios de produção da imbecilidade.
[…]
Esta ideologia que tem como modelo a homogeneidade do mundo da economia produziu também uma equivalência entre "excelência estética" e "excelência económica". A lógica económica das indústrias culturais requer a transformação do artista, do escritor, do agente cultural, em empreendedores de si próprios. A nostalgia da grande arte, dos grandes artistas e dos grandes intelectuais é um tropismo fundamental de todas as políticas culturais, do passado e do presente. Mas a grandeza mede-se agora pelo critério da "excelência", que se tornou uma "palavra-maná", um signo mágico que faz recuar as águas do mar e abre uma passagem para a terra prometida.»
___________________________________
A propósito, a Leya ou a Caminho, por exemplo, vendem, em nome da Cultura, livros péssimos, maus, medíocres, satisfatórios, bons, muito bons, óptimos. 
"Atlas do Corpo e da Imaginação" é e há-de ser por décadas um dos melhores entre os melhores. Por isso, não me parece pecado que tenham estado aqui, ontem, Gonçalo M. Tavares, autor, e António Guerreiro, seu "padrinho", ao balcão, a ajudar a vendê-lo, para nosso consumo e cultivo. «Uma obra de arte total», como ali se disse. Concordo.
Alice disse o quê?

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Gonçalo M. Tavares

faz-nos o grande e impagável favor de dizer.

«[…]
Tenho um fascínio pelo "e" e um grande desinteresse pelo "ou". […] Desvalorizo o "ou" porque remete para isto ou aquilo. Há um texto muito bonito de Kierkegaard que tem a ver com isso. Mas se escrevesse um livro semelhante, o título seria “e e e e”. Porque o que quero fazer como escritor é isto e aquilo e aqueloutro. […] No limite, o “ou” é de exclusão definitiva, remete para uma espécie de inimizade, para dois campos. O “e”, pelo contrário, remete para as ligações, o que me interessa muito mais. […] Tudo está ligado *.
[…]
Com muitas excepções, é muito raro uma pessoa estar duas ou mesmo uma hora seguida concentrada num único objecto. […] Há obras de arte que só podem aparecer se uma pessoa estiver uma, duas, três, quatro, cinco horas em frente delas, sem mudar a sua atenção para outro lado. E este tempo prolongado com o mesmo objecto,  concentrado, é qualquer coisa que as tecnologias  e o mundo contemporâneo estão a perturbar.
[…]
a questão da cidade, tema absolutamente importante para mim. A cidade tem a ver com a tentativa de organizarmos e limitarmos a possibilidade de violência. Também o amor e o desejo. Pense-se numa paragem de metro. A carruagem pára e sai uma multidão. E é muito bonito ver a máquina da cidade a funcionar: saem mil pessoas da estação e começa logo a divisão, 500 para um lado, 500 para outro. E assim sucessivamente, 200 para aqui, outras para acolá. A lógica da cidade é que os mil vão-se dividindo até no final serem duas pessoas que entraram no Rossio e saíram no Lumiar. No limite uma delas vai para o segundo andar e outra para o prédio ao lado. A cidade é um tema que atravessa todos os autores, não é de engenharia, mas absolutamente literário e filosófico. […] As ligações evitam que uma pessoa chegue ao isolamento final da cidade e que de certa maneira não se atire do 8.º andar. Há uma frase do Novalis de que gosto: “Estamos sós com tudo aquilo que amamos”. A nossa solidão tem o tamanho das nossas ligações.
[…]
Gosto muito de pintura e uma das coisas que mais me fascinam é perceber que, nela, uma pessoa não entra na página um. A escrita é muito condicionante do olhar. […] O olhar é livre, não é domesticado pela leitura. […] gosto da ideia de o leitor entrar em qualquer página [do Atlas], sem perguntar o que estava a acontecer.
[…]
O mundo do pensamento e da leitura é um mundo de ligações, de diálogos e isso agrada-me. Há outra ideia muito clara: desde os filósofos da antiguidade clássica até ao Martim Amis ou Philip Roth, todos os autores, escritores e cientistas também estão a falar do mesmo, da morte, do medo e do desejo. E o mais surpreendente são as infinitas possibilidades, as variações. Daí que no Atlas tenha tentado colocar ao mesmo nível um verso e um texto do Walter Benjamin, uma frase da Clarice Lispector ou um verso da Sophia de Mello Breyner ou um texto do Vergílio Ferreira e do Wittgenstein. A poesia argumenta tão bem e convence sobre determinados temas como a Filosofia. […] Não separo entre as pessoas que andam à procura do belo e as que procuram o verdadeiro. As coisas estão misturadas.
[…]
Tenho um pensamento espacial e sou sensível à ideia de que a escrita e o desenho são do mesmo mundo, o do traço. Até a Matemática. Escrevo e desenho com os mesmos traços. E com eles faço uma casa ou um sete.
[…]
É a ideia de partir alguma coisa respeitosamente que me interessa. O que partimos ou fragmentamos é que permite a nossa acção. De outra forma o nosso martelo não acertava em nada.
[…]
interessa-me cada vez mais de que forma um texto pode ser todo ele imagem. Pura descrição, sem raciocínio. A racionalidade pode ser instintiva, por imagens. Mas espero ser um autor racional, sim. É indispensável fazer pensar, a literatura não é um passatempo. Desde o início que digo isto. Sei que pode não ser muito popular dizê-lo, mas a literatura é um espaço de uma certa dureza, que exige um certo esforço dos leitores. […] Acredito na escrita que dá prazer aos leitores, mas está ligada à reflexão, à imaginação, à criação de um mundo próprio. […] O leitor é um emissor. A partir da frase que lê vai criando imagens  que não estão no que lê, mas à volta. E isso é a imaginação. Uma das tarefas mais bonitas da leitura é baixar o olhar sobre o livro e levantar a cabeça. É aí que começam a aparecer dezenas de imagens.
[…]
A minha idade [Luanda, Agosto de 1970] começa a ser suficiente para ser sensato e tranquilo.»
Se o freguês deste blogue é dos que não passam sem dar presentes de Natal, e pode, este Atlas será o melhor deles. «Pode encomendá-lo aqui», citando a recomendação de bolo-rei afixada na Pastelaria Mena desde meados de Outubro, sim, que o Natal estava à porta. Pró réveillon é que ainda falta; pró carnaval é capaz de ser um bocado cedo mas o São Valentim, ai de mim, também vem aí.

E este presentinho, hã? Chiu.
________________________________
* ... de tal modo que Gonçalo M. Tavares usa 15 vezes, nas 4 páginas de conversa, a expressão «tem a ver com».

domingo, 20 de outubro de 2013

temos medo e está escuro

«[...]
tudo o que é importante acontece em pouco espaço. O corpo abre os braços e depois fecha-os. Abre e fecha os olhos. As pernas podem andar, muito ou pouco, mas depois param.
Nunca se morre em grandes espaços, por exemplo. A morte é uma coisa minúscula. Mesmo quem morre no grande deserto morre no corpo e este é sempre o oposto do largo e complicado mundo, é simples, modesto e pequeno; uma coisa que respira e come e fala e, depois, a partir de um certo momento, já não respira e já não come e já não fala.
No fundo, temos medo e está escuro, e nunca nos aproximaríamos dos outros se o ponto de partida não fosse já esta derrota.»

domingo, 15 de setembro de 2013

43

"Pessoas na cidade: 1, 2, 3, 4"

terça-feira, 28 de maio de 2013

Nada dura tanto como o tempo, nem tão pouco.

«[…]
Damos por nós ofegantes, fazendo por fazer, atropelados por agendas e jornadas sucessivas em que nos fazem sentir que já amanhecemos atrasados.
[…]»
- x -
«[...] o direito de sermos lentos. Que é um direito que deveríamos exigir ser quase constitucional. [...]»

Devagar, uma arte e um direito; isso.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

John Le Carré, alguma gamártica...*

Cristina Margato foi a Londres conversar com John Le Carré a propósito do seu novo livro, "Uma verdade incómoda". Entrevista suculenta. Escusava, ou alguém por ela, era de ter traduzido “audience” [público, espectadores, plateia] por “audiência”.
_____________________________
* … e outras aparentes aparências.  
Com o Expresso da Margato ainda fresco nos escaparates, vem o à última da hora Nuno Artur Silva, pelas 00:04 de 28.Abr.2013, dizer de Lisboa «Muito bem, então, aparentemente parece que o Partido Socialista está unido», replicando-lhe de Santa Maria da Feira, dois minutos depois, o a-be-so-lu-ta-men-te** Pedro Marques Lopes «A união do partido que aparentemente parece grande…» [Eixo do Mal, SIC Notícias, 28.Abr.2013]
Uma semana volvida, na Revista do Expresso e sem sair do eixo, é a Clara Ferreira Alves do brinco direito** que não sabe – “O novo e os velhos do PS” - que é «preferir receber a reforma a receber o salário» e não «preferir receber aquela do que este», e o eis que senão** Luís Pedro Nunes a confessar – “Acabou a sida!” - que «sou dos que me safei» em vez de «sou dos que se safaram».
Não bastando, até o excelso Gonçalo M. Tavares escreve na NM de ontem – “Obediência, miocárdio e medicina” -  o contrário do que queria, que era «ir ao encontro da sua ética» e não «de encontro a ela»…
E andamos nisto.
** Tiques. Desta vez, só escapou, basicamente, o Daniel Oliveira.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Cag

«[...]
- […] Aquele é um caga-na-saquinha. Aquele outro também. E assim sucessivamente.
- Não me parece utilizável nos salões com tectos altos.
- E apanhar uma caganeta.
- Apanhar uma caganeta?
[…]»
 
Ride, pessoas, ride!

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Coisas que a gente sabe, perdão, sente.

Nunca achei Rão Kyao - acompanho-o regularmente desde que, ainda João Ramos Jorge, tocava jazz num sax tenor nos anos 70 do século passado - um músico genial, sequer excepcional ou mesmo muito bom. Digamos que era um saxofonista tecnicamente limitadíssimo e ele saberia; tanto que se virou para os pífaros.
- E pífaro, Plúvio, toca ele bem?
Benzinho, mas, convenha-se, nada de génio ou sublimidade.
- E como compositor, Plúvio?
Bom, como compositor tudo muda de figura: Rão Kyao é provavelmente o pior músico do universo.
Aí o temos de novo, tónica-dominante-dominante-tónica-vira-o-disco-e-toca-o-mesmo*, autorizando que, ouvido a seguir, Quim Barreiros soe a puro Bach.
- Mas ó Plúvio, nem excelente pessoa?
Lá isso é. E traja a preceito.
Agora, bom, bom, genial é Gonçalo M. Tavares. Por exemplo:
- Finalmente, ó Plúvio, que credibilidade, digamos, têm os teus gostos? Ou saberes, vá.
Ahahahahah! Há quem ria hahahahaha!, mas não é o mesmo riso. E pode tratar-me por você. 
_______________________________
* Enfim, isso era no vinil, que hoje é mais muda de coiso e toca o mesmo.  

domingo, 4 de março de 2012

O Gonçalo M. Tavares é bom

 «[...]
- É um material intranquilo, a ideia.
- Eis uma excelente definição. Um material intranquilo, a ideia.
[...]
- [...] E a questão é a seguinte: quanto tempo leva uma ideia a espalhar-se desde a cabeça até ao resto do corpo?
[...]»
Gonçalo M. Tavares, "Como eliminar ideias num século tão limpinho? - eis a questão" | Notícias Magazine, 04.Mar.2012