Mostrar mensagens com a etiqueta PCP. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta PCP. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 2 de março de 2022

Sérgio Sousa Pinto

Tenho Sérgio Sousa Pinto — colono permanente da placenta socialista, versão soarólatra*, desde os 23 anos**, um dos deputados mais cultos e bem articulados no parlamento português, autor de livros, colunista do Expresso, comentador residente na TVI/CNN Portugal, que acompanho com admiração e reserva em proporção homeopática; no Expresso é onde mais o aprecio — por mais credível quando explana a partir de lucubração própria do que quando cita Churchill.

Por exemplo, gostei de SSP, e achei-lhe graça, no confronto com Maria de Lurdes Rodrigues, a falar das virtudes e desvarios da época geringôncica.

Ou no confronto de há dias com o comunista António Filipe, em que gostei ainda mais:
«Não estou habituado a que me chamem mentiroso. [...] O Partido Comunista Português, durante a Guerra Fria, era vassalo, era um abjecto vassalo da União Soviética e hoje é um vassalo do senhor Putin, esta é que é a verdade! [...] o Partido Comunista Português converteu-se num vassalo do senhor Putin.»

Mau é quando SSP cita:
«O Churchill dizia com muita graça que leis e salsichas é melhor que não saibamos como são feitas.»

Sucede que, azar de SSP, Winston Churchill [1874-1965] nunca disse tal coisa. Se SSP atribuísse o gracejo a Otto von Bismarck [1815-1898] ainda vá que não vá, já que a creditação ao prussiano vigorou, e vigora, com populoso consenso, até à investigação de Fred Shapiro, publicada no New York Times em Março de 2009, que deslindou o pai do dito [bela ambiguidade, Plúvio]: John Godfrey Saxe [1816-1887], poeta-jurista norte-americano.     

É sempre a mesma merda. 
______________________________
* A propósito..., não me diga, dona Teresa, que não cumpriu hoje?! E não me venha cá com a desculpa da quarta-feira de cinzas... Mire-se no Amílcar, nunca falha.  

** Lisboeta de berço [19.Jul.1972] e circunscrição, eleito deputado pelo Porto para na VII legislatura [1995>1999]; eurodeputado [1999>2009]; deputado por Aveiro nas XI e XII legislaturas [2009>2015]; eleito por Lisboa para as XIII, XIV e XV [2015>2026?].
Faz-se pela vida, nada contra.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Legislativas de 30.Jan.2022 - Resultado

Aviso
42 links.
Favor clicar sem luvas.

Portugal, domingo, 30.Jan.2022
11h00
Hábitos apalhaçados e cidadãmente pouco recomendáveis do arlequim.
Por falar nele, ou me engano muito ou, na nova conjuntura, Marcelo Rebelo de Sousa tenderá nos próximos quatro anos para uma espécie de corta-fitas, diferenciando-se do Cabeça de Abóbora em pouco mais do que no talento e no frenesim. Não acrescentei na natação por me lembrar de que o outro era almirante. Mas vendo bem, Marcelo é seguramente melhor nadador já que o outro, homem da Marinha, nem precisava de saber nadar. Afinal, para que servem os barcos?

19h54
Fico a saber que o biólogo sportinguista Vasco M. Barreto, por quem nutro antiga admiração e com quem tenho afinidades avulsas, desde logo na música, possui uma presumível cadela Olívia. Confessando certo e inesperado desapontamento, aposto em que nenhuma sua amiga próxima, parente até ao 4.º grau da linha recta ou 3.º da colateral, ou nenhuma pessoa que ele verdadeiramente estime, se chama Olívia. Olívia na minha terra é nome de mulher, por sinal, bem bonito.
Amigo dos animais tem as suas lérias...
Bem sei, sou um humanista radical. Vá, ria.   

20h00

//
Resultado
22h10
Jerónimo de Sousa, titubeante, lendo: «O resultado obtido nas eleições de 30 de Janeiro de 2022 traduz uma queda eleitoral com significativa perda de deputados, incluindo a representação institucional do PEV. Um resultado que, ficando aquém do trabalho realizado e do notável contributo ..., representa um elemento negativo no plano da vida nacional.»
Caras trágicas do serão: Jerónimo e José, não eleito, inquilino de S. Bento desde a idade média.

22h30
Catarina Martins, sob jubiloso aplauso: «O resultado do Bloco de Esquerda é um mau resultado, é uma derrota, e neste partido encaramos as dificuldades tal como elas são. ... É por isso um dia difícil e um mau resultado com que saberemos viver ... Este é também um mau resultado por causa do resultado que teve a extrema-direita e o Chega, e devemos abordar isso também com clareza. É verdade que o Chega fica aquém do que teve André Ventura nas eleições presidenciais.*»
Catarina não aprendeu nada com o resultado radiante de Marisa Matias em 24.Jan.2021.
Na configuração anterior no hemiciclo, duas Mortáguas entre 19 BEatos ainda vá que não vá; a sororidade passava diluída. Doravante, com duas gémeas entre cinco BEatos, 40% da bancada, convenhamos que aquilo fica um bocado deprimente, consaguinidade excessiva. 
* Que desplante, que desonestidade, doutora Catarina Martins! Avalie bem as suas e as perdas de AV e, por favor, não compare o incomparável. Ou quer que volte às presidenciais de Marisa? Fixe-se nas legislativas, seja asseada.

23h15
Rui Rio: «Toda a gente que me conhece sabe que é importante isto que eu vou dizer. Nós ficámos com um resultado eleitoral substancialmente abaixo daquilo que pensávamos que íamos ter.»

Rente à meia noite
Rui Tavares, 'esquerda verde europeia no parlamento português', em abaritonado Lá bemol maior: «Bem unidos façamos esta luta final, uma terra sem amos, A Internacional!»
RT, insisto, não engana. Mais bem dito, engana e não é pouco. Vejamos:
Que credibilidade pode inspirar este doutor bem-falante, sabedor e muito articulado — como os devotos urbanos usam referir-se-lhe — se, até no próprio hino em que se lhe subsume a alma, troca o correcto «nesta» pelo disparatado e sem  sentido «esta»?...

00h35, 31.Jan.2022
Francisco Rodrigues dos Santos: «Sobre o resultado eleitoral desta noite, ele é mau em dois sentidos, é mau porque confirma o caminho do socialismo para Portugal»

01h00, 31.Jan.2022
Inês Sousa Real, metralhadora daquilo que é, sob aplauso estentóreo de 20 segundos: «Este resultado, que é um mau resultado não só para o PAN mas para a democracia ... a direcção terá que fazer a sua reflexão interna em relação àquilo que é a estratégia ... É um mau resultado que assumimos ... mas também é um resultado mau para a democracia.»

Conclusão do resultado
Pelo que se ouviu, ninguém teve pior do que um mau resultado.
Só posso admitir que os dicionários de Catarina Martins, Francisco Rodrigues dos Santos, Inês Sousa Real, Rui Rio e Jerónimo de Sousa foram adquiridos na mesma livraria. Em todos falta este superlativo absoluto sintético que, em o havendo e se o empregassem, com maior verdade teriam falado aos portugueses daquilo que todos os portugueses viram. E se calhar falta este substantivo e também falta este
Dêem-se ao respeito, bolas! As palavras contam.

//

Não gosto da Iniciativa Liberal.
- ... do Iniciativa Liberal,  Plúvio.
Ai é? Não gosto na mesma. E decidam-se, foda-se: o ou a?

//
Subvenção
Vá lá saber-se porquê, fala-se pouco dela. Por exemplo, e é só um exemplo que não traduz qualquer obsessão pessoal pelo sujeito — ai de mim! :) —, alguém acredita que o fervor de Rui Tavares em campanha fosse o mesmo sem o apetecível comburente da subvenção?
Sem prejuízo da comparticipação específica legal nas despesas de campanha, e de outros financiamentos, o partido que no conjunto dos círculos eleitorais tiver obtido um mínimo de 50.000 votos receberá anualmente uma subvenção de 2,95€ por cada voto, independentemente de eleger deputados, neste caso desde que a requeira ao Presidente da Assembleia da República. Assim, no total dos 4 anos da XV legislatura [2022-2026] a organização partidária contemplada sacará do Orçamento do Estado 11,80€ por cada voto
Ante os resultados nesta altura sabidos [magnífico 'site', diga-se, que o Plúvio não chove só vitupérios...], os mealheiros ficarão arredondada e aproximadamente assim:

PS- 26.550.000€
PPD-PSD- 17.700.000€
CHEGA- 4.555.000€
IL- 3.174.000€
BE- 2.832.000€
PCP- 2.797.000€
CDS-PP- 1.030.000€ 
PAN- 968.000€
LIVRE- 814.000€
É cacau e viva o pluralismo democrático! Muito mais caro nos ficaria se não vivêssemos nele.

//

Meus pequenos desgostos
- não eleição de João Oliveira. Faz falta. Excelente operário parlamentar;
- eleição de Inês Sousa Real. Medíocre e medonha.

Meus pequenos contentamentos
- lição do país ao BE, seita de 'meninos de família', arrogantes, trotskistas disfarçados, perigosos. Discípulos de Boaventura Sousa Santos, o bonzo de Coimbra. Sempre prestaram para pouco. Nem uma aldeia de Portugal se lhes confia para a governar. O povo às vezes tem intuições acertadas;
- derrota de Rui Rio, um tiranete vingativo, pouco culto e mal educado, que estava a deixar os habituais inimigos do Ministério Público, com Pedro Marques Lopes a timoneiro, salivantes de esperança em que RR, uma vez primeiro-ministro, haveria de frenar de vez a sanha justiceira dos senhores procuradores da República; derrota deste PSD, uma confraria de lambe-botas de RR, toscos em geral;
- PCP ter ficado com um grupo parlamentar maior do que o do BE. Por mim, contribuí para que na minha freguesia ficasse em 3.º lugar, à frente do CHEGA, da IL e do BE;
- maioria absoluta do PS, por tornar dispensável o PAN e por reduzir o LIVRE a uma inutilidade redundante e balofa. Faço de Rui Tavares — e eu chame-me Deniz Costa se me anima alguma embirração particular por RT :) —, outro trotskista encoberto, em registo suave cosmopolita, que defende a independência da Catalunha e o Acordo Ortográfico de 1990, a ideia de um narcisista pesporrente eleito no Twitter e pelo eixo Lux Frágil-Bairro Alto-Campo de Ourique-Telheiras.

Espanto do dia
Nem pequeno desgosto nem pequeno contentamento; talvez Uma coisa em forma de assim, valendo-me de Alexandre O'Neill:
- 12 deputados do CHEGA.
Pelo menos garantem uma coisa à melancolia lusitana: circo em S. Bento. Sem a Joacine, o João Oliveira, a Cecília Meireles e o Ascenso Simões, aquilo vai precisar de animação.

//

Cá vamos de pesadelo em pesadelo.

Foi assim.

domingo, 30 de janeiro de 2022

sábado, 29 de janeiro de 2022

Acordo Ortográfico - Catarina Martins inventa e aldraba

Para que conste.

A fechar o "Debate da Rádio", de 20.Jan.2022, Judith Menezes e Sousa, da TSF, inquiriu os sete líderes partidários intervenientes — PSD e CHEGA não compareceram — acerca do AO1990, para uma resposta simples, "sim" ou "não" [protesto e acho mal que havendo simples não haja nãoples]. 

Judith- Revisão do Acordo Ortográfico, sim ou não?

Inês Sousa Real, PAN- Sim. Ou seja, acho que tem havido um grande desacordo em relação ao Acordo. E portanto, sim, acho que esse debate deve ser reaberto.

Francisco Rodrigues dos Santos, CDS-PP- Sim, está no nosso compromisso eleitoral rever o Acordo, claro.
Verdade.
«Compromisso Eleitoral do CDS-PP - Legislativas/2022
[...]
COMPROMISSO CULTURA E PATRIMÓNIO
[...]
MEDIDAS:
Reverter o Acordo Ortográfico de 1990;
[...]»

João Cotrim Figueiredo, Iniciativa Liberal- Sim, rever o Acordo.

Rui Tavares, LIVRE- Bem, é um tratado internacional. Pode sempre ser revisto, pode ser melhorado, mas acho que Portugal e o Brasil, e os outros países de língua portuguesa devem preocupar-se com a promoção da nossa língua no estrangeiro e o facto de por exemplo nos leitorados poder haver..., não haver professores que ensinem uma ortografia e outra ortografia é importante para a divulgação da língua portuguesa no exterior.
Rui Tavares raramente desperdiça uma oportunidade de pesporrência. Apreciem-se os quilómetros de lixo que usou para dizer «Não». 

João Oliveira, PCP: Por nós, há 16 anos que estava revisto, não só o tratado mas o conteúdo do Acordo que é sobretudo isso que interessa.

Catarina Martins, BE- Há questões de sim ou não que na verdade…, a resposta de sim ou não pode enganar. O Acordo prevê ele próprio que haja estudos e revisões ao longo do tempo e, portanto, se algum de nós estiver a dizer que não quer essa revisão está a dizer que não quer o próprio Acordo [!?!?!?]. Ou seja, se calhar estamos a enganar-nos uns aos outros. O Acordo prevê que se perceba como é que ele foi implementado, que seja estudado e que seja melhorado.
O caso da BEata Catarina é mais sério. A coordenadora do Bloco de Esquerda não sabe o que diz. Inventa e aldraba.
Explique-nos por favor em que passagem do mostrengo se prevêem estudos e revisões; explique-nos sobretudo em que ponto da aberração criminosa se prevê que se perceba como foi implementada, que se estude ou que se melhore.
Fico à espera.
Não se admire se Deus — sim, esse, o do Papa Francisco — lhe der amanhã uma valente coça...  

António Costa, PS: Acho que o Acordo deve fazer o seu caminho.
Judith- Portanto, quando for altura de o rever, deve ser revisto…
António Costa: Como todos os acòrdos.
Pronúncia correcta de «acordos».
Mimetizando o narcisista messiânico do LIVRE, o Primeiro-Ministro aproveita todos os ensejos de falar ao país para reforçar o prestígio, aliás robustamente consolidado, de torcionário da língua portuguesa. António Costa não desilude.
__________________________________________________
Já que estou com a mão na massa,
«Programa Eleitoral do PSD - Legislativas/2022 [redigido em acordês] 
[...]
A língua
O Português é a expressão da nossa identidade coletiva e da presença de Portugal à escala global, sendo que as diferenças no uso da língua portuguesa não a empobrecem, mas antes revelam as diferentes dinâmicas culturais de cada país na sua apropriação. A tentativa da uniformização ortográfica não constituiu qualquer vantagem face ao mundo globalizado, pelo que o PSD defende a avaliação do real impacto do novo Acordo Ortográfico.
[...]»

Nos outros programas eleitorais, incluindo o de João Cotrim Figueiredo [redigido em acordês], nem uma linha acerca de ortografia.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Miau béu-béu, pozinhos de Inês, declaração de voto

Tenho igual respeito bíblico e o mesmo olhar de maravilhamento, (in)compreensão e espanto por todos os bichos, dos que mato para comer aos de que fujo para não me matarem, dos que me divertem ou com que me divirto, dos que me proporcionam sensação de bem-estar aos que aspirjo diligentemente

Dito o que, me encanita — olha o étimo, Plúvio... — o uso de repertório antroponímico para o chamamento de animais e sou preconceituoso o bastante para não votar num candidato pela razão singela de chamar Camões ao gato. 
É o caso de Rui Tavares. Cumpre acrescentar que, para piorar o apreço pela humanidade, RT tem ainda um Leôncio e um Emílio e que um vate felídeo está longe de ser o único motivo da minha embirração pelo pai do LIVRE, esquerda verde europeia, cruzes canhoto. 
Mas Camões tira-me do sério. Acho um insulto de lesa-pátria.
Sabendo nós que o mais próximo que Camões está de miar n' Os Lusíadas é na estrofe n.º 153 do canto X,  
«[...]
De Formião, filósofo elegante,
Vereis como Aníbal escarnecia,
[...]», 
apetece-me dizer a Rui Tavares: Vá chatear o Cam..., perdão, o camandro!

Recapitulando,
Rui Rio tem um Zé Albino
André Ventura, uma Acácia,
Luís Pedro Nunes, um Rufino, além de uma Melancolie, belo nome, 
Daniel Oliveira, um Tobias e um Simão, além de uma Bica, nome aceitável para cadela, 
Ricardo Araújo Pereira, uma dona Custódia, entre outras humanizadas criaturas,  não constando que, ao baptizar de Custódia a cadela, RAP pretendesse homenagear a mãe, alguma avó ou parente próxima. 
De resto, não conheço ninguém que ponha nomes da sua família ou de amigos a bichos seus e que dando aos animais nomes de gente queira com isso homenagear pessoas que estima. Porque será?...
Assim, hei-de reconhecer critério asseado a António Costa, que tem uma Naná e um Docas, ou a João Cotrim Figueiredo que tem uma Bala.

No entanto, o que me encanita — olha o étimo, Plúvio... — ainda mais, muito mais, é, no seguimento dos nomes próprios, a alucinante antropomorfização da bicheza pela aplicação à dita cuja, nos usos e costumes dos "amigos dos animais", do preceituário consignado na Subsecção V ("Lei reguladora das relações de família", artigos 49.º-61.º) da Secção II do Capítulo III do Título I do Livro I do Código Civil português.

Observo na rua uma exemplar de "homo sapiens" falando com o cão: Venha cá à mãe!  
Estremeço.

Estupefacto, acompanho numa rede social planetária a conversa pública de uma das mais graduadas jornalistas portuguesas em actividade com uma deputada municipal do Bloco de Esquerda [ex-militante do CDS-PP] de que a jornalista se intitula chocarreiramente «mãe», falando dos dois gatos da «filha» bloquista:
Que lindos os meus netinhos ... Quem é que lhes explica que não sou mãe deles? ... Ai estão tão lindos os meus netinhos. Que pena ir deserdar a mãe deles ... Gosto que lhes preserves as carinhas do olhar do público. Privacidade para as crianças, sempre. ... Não quero expor os meus filhos tão novos. Quando crescerem, logo decidem. ... As crianças estão saudáveis, a crescer bem ... É a menina ou o menino? ... O menino.
Sei que brincam. Mas se não há por ali evidência de degradação civilizacional, digam-me o que há.

Enquanto isso, Marco Paulo foi avô. Com muito orgulho.

//

Agora, Inês, metralhadora daquilo que é, a quem, se pudesse, atribuiria desde já o óscar da melhor máscara do mundo no sub-ramo "Prosa ensaística".   

Na existência longa que levo de espectador de congressos, não me lembro de nenhum com tantas interrupções para aplausos. Como se a cada 30 segundos ISR emitisse uma ideia nobelizável. 
Ouvi bem; leu bem, caro(a) leitor(a) - Inês disse «dignidade». 

«protecção de todos os animais* e não apenas de alguns»
* Confio em que Inês não se estava a esquecer da vespa asiática.

«pelo menos uma pequena vila canadense foi inteiramente consumida pelas chamas»
No que dá um copipeiste de notícia brasileira...

Enfim, admirável mundo novo...

//

Razões estritas de educação impedem-me, nesta altura, de votar no PS ou no CHEGA.
Ciente do arcaísmo político que representa o Partido Comunista Português que, em indetível declínio de representatividade deixou definitivamente de poder integrar qualquer comité governativo do país ou de influir nos destinos do mundo — e daí nenhum mal advirá —, votarei depois de amanhã, 30, na CDU | PCP-PEV.  Há causas pontuais avulsas em que me revejo no entendimento do PCP, designadamente na prudência com que encara a biosfera ou na perseverança com que defende — é a única organização partidária parlamentar a fazê-lo coesa e consistentemente desde o início — a sanidade da língua, contra o Acordo Ortográfico de 1990 - PCP!, PCP!, PCP! Além de que, detestando João Ferreira, simpatizo há muito com a pessoa de João Oliveira.
Voto hormonal, pois.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Rita Rato, caso recorrente de ignorância concreta

Rita Rato, licenciada pela Universidade Nova de Lisboa, comunista, ex-deputada, directora do Museu do Aljube - Resistência e Liberdade, lá posta pela filha de Ana Gomes:
O que perspassa muito é a importância do amor incondicional.
"Os filhos da madrugada" | RTP, 05.Abr.2021

– Como encara os campos de trabalhos forçados, denominados gulags, nos quais morreram milhares de pessoas?
Não sou capaz de lhe responder porque, em concreto, nunca estudei nem li nada sobre isso.
Rita Rato | Visão, 18.Jan.2020
Vitória final de quem? Contra quem?
Acudam-nos!

perpassa, menina, perpassa! Não seja burrinha.
_______________________________________
"Historiadores contra escolha de Rita Rato para dirigir Museu do Aljube: É uma vergonha"
Observador, 09.Jul.2020

sexta-feira, 5 de março de 2021

«Eu não sou comunista.»

O que o comunista Daniel Oliveira [02.Jul.1969] talvez nos quisesse dizer, no centenário do PCP [06.Mar.1921], é que não é, já não é, militante do Partido Comunista Português.
Ripostará DO que aquilo que ele é ou deixa de ser saberá dizê-lo ele e não eu. Ao que Plúvio redarguirá:
- Decerto, meu caro senhor, mas o que você é é o que você parece.
E não se fala mais nisso.

«Os meus parabéns e o meu agradecimento ao Partido Comunista Português.»
_______________________________________
Declaração de interesses
Para o poder autárquico, voto regularmente na CDU.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Parlamento dividido e um ministro no quadro

«O avanço na vacinação é, aliás, um dos elementos mais relevantes para que os portugueses possam encarar o futuro com maior confiança. O que vai o governo fazer face à falta de vacinas por incapacidade de produção e recusa de suspensão de patentes por parte das farmacêuticas com quem a União Europeia fez os contratos que neste momento amarram o nosso país? Vai ou não o governo avançar com medidas para a diversificação da aquisição de vacinas garantindo a sua disponibilidade em condições de segurança e eficácia de forma a que se cumpram os objectivos definidos no plano de vacinação?»

«A confiança dos portugueses por causa da vahcinação aumentou. Mas as doses já pagas teimam em não chegar. Aumentou a confiança dos portugueses na vahcina, mas para o cumprimento exemplar do plano de vahcinação é necessário que todas as doses de vahcinas já pagas cheguem ao país. Que as condições para a aplicação da vahcina aos portugueses sejam planeadas região a região envolvendo se preciso for as autarquias para o contacto com as populações. E é preciso ainda mais que Portugal avalie a possibilidade de comprar mais vahcinas e a outros fornecedores e deixe de estar dependente apenas das decisões e das opções políticas de Bruxelas.»

Não me lembro de ter ouvido o PEV, organização de representatividade democrática artificial — veríamos o que vale se alguma vez fosse sozinho a votos... —, demarcar-se tão audivelmente da barriga de aluguer, PCP, em que sobrevive.
Quem sabe se para, uma vez sem exemplo, fazer jus à causa ecológica em que alicerça o nome, o PEV profira «vahcina» e «vahcinação» com respeito prístino pela proveniência vacum das ditas cujas. 

Entretanto, oiça-se como demarco, Plúvio por antonomásia, leiriense não comunista nascido 240 km a sul da vimaranense Mariana, diz «vacina» e diz «vacinação» à maneira do PCP.

Nisto da vaca, ia-me esquecendo do Cabrita: 
«E temos vindo aqui desde o início de Novembro a apreciar sucessivas declarações do estado de emergência que têm vindo a ser prorrogadas no quadro daquilo que é* a maior pandemia global, no quadro daquilo que é* uma epidemia que marca hoje no quadro europeu já mais de 20 milhões de pessoas, já cerca de meio milhão de cidadãos só dos países da União Europeia e dos estados associados. É por isso que neste momento, quando verificamos a adequação das medidas tomadas no quadro da resposta ao mês mais difícil desta pandemia em Portugal ...»

___________________________________________

sábado, 23 de janeiro de 2021

Voto em V

  • Ana Maria Rosa Martins Gomes [do Partido Socialista]- Demagoga, arrivista, populista, espalha-brasas instalada. Pelas minhas sofisticadas e auditadas contas facturará mil votos por cada minuto em que o seu director de campanha não apareceu diante das câmaras. Nisso foi sábia e prudente, convenhamos. Já com Pedro Silva Pereira, n.º 3 da lista do PS nas eleições de 2019 para o Parlamento Europeu, fora o mesmo. O delfim perpétuo de José Sócrates mal se deixou ver. Esta gente será tudo menos estúpida e percebe bem quando há míldio na vinha. 
  • André Claro Amaral Ventura [do Chega]- Demagogo, oportunista, populista. O menos recomendável, a par de Marisa Matias. Não menos alucinado do que quem o apupa de fascista. Convém algum tento na língua, na história e nos conceitos.
  • João Manuel Peixoto Ferreira [do Partido Comunista Português]- Totalitário. Marxista-Leninista-Estalinista. Arqueologia ideológica.
    JF em Alverca do Ribatejo, 22.Jan.2021: «[...] aquilo que tem reconhecidamente sido uma marca desta campanha, que é a Constituição da República Portuguesa. Conhecer a Constituição é a melhor vacina contra aqueles que querem subverter a Constituição e com ela (sic) subverter o regime democrático. [...] Não pode haver maior consenso do que a lei fundamental do país. [...]»
    Importa ter presente que sendo certo que o PCP votou favoravelmente, em 01.Abr.1976, a 1.ª versão da CRP que apontava Portugal ao radioso e redentor sol do socialismo comunista, nas sete revisões — 1982, 1989, 1992, 1997, 2001, 2004 e 2005 — da sua tão acarinhada e consensual «lei fundamental» o partido de João Ferreira votou contra nas primeiras seis, abstendo-se na de 2005. Enfim, JF, sex-symbol sedutor dos crédulos e das alminhas desmemoriadas, mal informadas ou desprevenidas que não sabem, nem JF lhes diz, que parte substantiva do livrinho/texto com que esgrimiu na campanha não é benquista pelo partido a que pertence. Oportunismo e hipocrisia.   
  • Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa [PSD/CDS]- Tudo e o seu inverso; o arlequim a quem Posaconazol Metenamitoso Latanoprostático presta adulação ditirâmbica. Não sei de pior abono.
  • Marisa Isabel dos Santos Matias [do Bloco de Esquerda]- Marx, Trotsky, 4.ª Internacional, Mao, Enver Hoxha, etc., contra a Europa, contra o Euro, contra a Nato, contra a América, contra Israel, contra a Banca, contra o Privado. Pastorinha do bonzo de Coimbra. A pior candidata, a par de André Ventura. Não menos alucinada do que aqueles que acusa de fascistas. Convém algum tento na língua, na história e nos conceitos. 
  • Tiago Pedro de Sousa Mayan Gonçalves [da Iniciativa Liberal]- Inexistência incorpórea e abstracta de morfologia levemente gaseiforme.
  • Vitorino Francisco da Rocha e Silva [do Reagir, Incluir e Reciclar]- Chamam-lhe cromo, simplório, sem estaleca, sem cultura e línguas para a função. A intelligentsia urbanóide lisboeta arrogante e sobranceira de que, entre tantos, Miguel Pinheiro, director executivo do Observador, demonstrou no acompanhamento jornalístico da campanha ser o expoente, desclassifica-o, ridiculariza-o, despreza-o, ignora-o. Cidadão de segunda? Pergunto-me, por exemplo, que têm os cromos institucionais de Arraiolos, a que podemos juntar a rainha de Inglaterra e o monarca sueco, especialmente de virtuoso ou qualificador que Vitorino Silva não possa ter? Confesso que nada anteciparia de aberrante numa República, a portuguesa, eventualmente chefiada por este decente, simpático e respeitável compatriota*. Para o ajudar na função não faltariam decerto pessoas capazes, sem vergonha para Portugal. Tenho em mente uma que lhe proporcionaria óptima assessoria jurídica ou de relações públicas: Marcelo Rebelo de Sousa; além do mais, com experiência de cinco anuidades no cargo.
É assim que, convicta e inconsequentemente, votarei amanhã, domingo, 24.Jan.2021, no mesmo V e com a mesma esferográfica com que votei em 24.Jan.2016, domingo.   
________________________________________
* Dias atrás, na investidura da nova presidência, Amanda Gorman declamou na tribuna da América o poema, sofrível, "The Hill We Climb" que compôs expressamente para o acto, de que extraio, em tradução de Agostinho Pereira de Miranda no Público, esta passagem: 
 
«[...] Nós, os herdeiros de um país e de um tempo
em que uma pequena rapariga negra descendente de escravos
e criada por uma mãe solteira pode sonhar ser presidente
e logo ver-se a declamar para um. [...]»

De imediato, nunca falha, o fervor em manobras da leitura correcta do tempo e do mundo determinou que o que quer que ali se dissesse, dado o sexo do poeta, a suas circunstâncias biográficas mas, quero crer, sobretudo a cor da pele, haveria de soar por cá a, no mínimo, arrebatador e sublime. E de tal modo soou que até Posaconazol, o próprio, lacrimejou de emoção: Prontus, já chorei a minha lagriminha
Por isso, sonhe Amanda com o que sonhar — ser astronauta, coleccionadora de algas ou campeã universal de xadrez — quem se atreverá a objectar-lhe a mínima implausibilidade? No caso, calhou vir-lhe ao devaneio a possibilidade real, efectiva, facultada por uma democracia igualitária, de um dia ser presidente dos EUA. E porque não? Aplauda-se. Oxalá nenhuma razão espúria a cerceie apesar de ser um bocadinho mais escura do que Obama.
Mas isso é quando sonha uma mulher-negra-descendente-de-escravos-filha-de-mãe-solteira [para santo graal da perfeição antropológica só lhe falta, que eu saiba, ser fufa e mãe em regime de esperma comprado].
Já se for um simples e honrado calceteiro branco de Rans a sonhar, e a insistir no sonho, a discriminação da cidade, como talvez descrevesse Valupi, estala como sal no lume, Ó Tino, és um gajo porreiro e engraçado, está bem que voltaste a arranjar as 7500 assinaturas legais mas enxerga-te, pá, cada macaco no seu galho, presidente da junta de freguesia não é o mesmo que da República, não tens aquela classe, falta-te condição, trapioFaltam-lhe auctoritas e gravitas, explicariam os exegetas do "perfil adequado". 
Fosse Vitorino, por exemplo, muçulmano, preto, paneleiro ou habitante da Cova da Moura e imagino o chinfrim de entusiasmo no eixo culto progressista Lux Frágil-Campo de Ourique, nos tuítes das Câncios desta vida, nas redacções do Público, do Diário de Notícias ou mesmo do Observador, no comentariado televisivo. Nem precisava da bela parábola das pedras ou de ter proferido a mais certeira, engraçada e lúcida afirmação na campanha presidencial dos sete candidatos, a respeito de um deles.
Merece reflexão que em Portugal nenhuma figura pública da cultura, da socialite, da política, do desporto ou do entretenimento surja em seu apoio. Pois se até João Ferreira tem um Toy e um João Malheiro... Para Tino de Rans nunca haverá lágrimas de Posaconazol ou êxtases da mulher do brinco: «Agora vou ter o meu momento de elevação, quero falar da América. [...] E portanto vivi o dia da tomada de posse do presidente Biden com uma grande emoção [...] E claro que volto à poeta Amanda Gorman. Foi um momento..., tem havido poucos momentos de felicidade e daquilo que eu prezo mais que é o poder das palavras, e aquela rapariguinha que tem 22 ou 23 anos a dizer o seu poema com aquela elegância, parecia um pássaro a esvoaçar [...]» - CFA, 21.Jan.2021.
//
Obtive de Alexandre Homem Cristo, criatura de encadernação esmerada e com este aparato académico-profissional, a seguinte apreciação das perspectivas eleitorais de André Ventura, V, diga-se de passagem, em que jamais votaria: 
«[...] Se nós tentássemos extrapolar a percentagem para umas legislativas, estaríamos a cometer um erro porque de facto para obter os 10% numas legislativas [...] serão necessários muitos mais votos do que aqueles que André Ventura potencialmente teria se, por exemplo, obtesse 10% nas próximas eleições.»

Estamos nisto.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Contre fectos não há ergumantos. Tá?

«todos os dias somos confrontados com esses númaros [...] Ou seja, o crescimento a ser mais lento [...] tempo em que esses númaros duplicam [...] númaro muito animador relativamente ao combate que se a fazer à covid-19.»

Não consegui perceber se Luís Oriola disse «número» ou «númaro», mas tenho a certeza de que disse «está».

domingo, 6 de setembro de 2020

Rumo ao futuro,


No momento em que rabisco, chega ao fim a "Festa do Avante!" de 2020, com a actuação do conjunto de músicos mais medíocres e sobrevalorizados no hemisfério norte desde a invenção da guitarra eléctrica.  

«Não se faz a festa para garantir o privilégio ou ganhos financeiros*, como caluniosamente se insinua.»
Talvez por e para isso, insinuo agora eu calpluviosamente, os bilhetes foram postos à venda em finais de Novembro de 2019, com nove meses de antecedência. Preços

Vivam o churro, a bifana e a imperial!... Sem IVA

____________________________________
* Vivam a sinceridade e a transparência!

quarta-feira, 25 de março de 2020

Relatório da virose

Quarta, 18 de Março
Com um bom discurso de João Oliveira, o Partido Comunista Português abstém-se no estado de emergência; a "Festa do Avante!" (ainda) não foi cancelada. Faz sentido.

1.ª Descontaminação das ruas de Bobadela, por José operário.

Quinta, 19
Dia do pai
A minha filha mais velha deu-me "A Sociedade do Cansaço", de Byung-Chul Han, de 2010, editado em Portugal em 2014, que começa deste modo, negrito meu:
«Cada época tem as a suas doenças paradigmáticas. Podemos, assim, dizer que existe uma época bacteriana que só durou, porém, quando muito, até à descoberta dos antibióticos. Apesar do medo descomunal de uma pandemia gripal, não vivemos presentemente na época viral. Graças ao desenvolvimento da técnica imunológica, já a conseguimos ultrapassar. [...]» - Página 9 
Se calhar piou cedo demais. *

«Quando se tratam de casos isolados, obviamente tudo se torna mais complicado. Até agora já assegurámos o repatriamento de cerca de 408 portugueses vindos de mais de quatro continentes.» -António Costa
Nada como um primeiro-ministro rigoroso e exacto. Ficamos mais descansados.
Já agora, «se trata de casos isolados», s.f.f.

Sábado, 21
Dia Mundial da Poesia
Não me atrevo a dizer que José Jorge Letria é melhor poeta do que Manuel Alegre. Não nutrindo especial estima por qualquer deles — tenho-lhes a poesia por igualmente sofrível e a eles por diversamente videirinhos —, acho que os versos de JJL, "A vida triunfa em casa", dão uma cabazada de qualidade e de carpintaria aos do impante cagão de Águeda, "Lisboa ainda". Do poema do Letria ninguém falou; as redes emprenharam com o do Alegre. É do share.

«[...] Vivemos a céu aberto como garimpeiros depois dos aluviões [...]»
Alguém avise sua eminência reverendíssima de que aluvião é um substantivo feminino. 

Assisti na RTP 2 a "Linhas Tortas", financiado pelo ICA, produzido por Paulo Branco, escrito por Carmo Afonso, realizado por Rita Nunes, com cameo da guionista acompanhada de Fernanda Câncio na plateia, felizes. 
A advogada Carmo Afonso, autora da história, que até nem escreve mal, veste António Almeida, protagonista, de escritor e jornalista. É em tal conformidade e tendo em conta a porrada de gente culta envolvida na urdidura da fita que se torna indesculpável aquele «Tenho de ir Luísa» sem a obrigatória vírgula na Luísa. Cambada de disléxicos!
Nunca falha. O putedo é coeso e solidário, raramente deslassa. Comem e dançam nos mesmos sítios.**

Domingo, 22
«nossas desculpas», o caralho!

Terça, 24
«Sei que isto não é apenas geracional, é também “de grupo”, mas a mim, quando estou distraído e oiço “segundo a DGS”, toca-me ainda uma certa “campaínha” histórica.»
Com tantos e lustrosos leitores, espanta que ainda ninguém tenha alertado o doutor Francisco Seixas da Costa para o acento espúrio com que de há muito faz tinir as campainhas.

Entre as 15h11 e as 15h15, durante exactamente 3 minutos e 54 segundos, a CMTV, a propósito da Covid-19, manteve em oráculo «2362 mortos em Portugal».
Tratava-se, claro, do número de infectados - mortos eram 33, mas insistiram sem corrigir. Distracção e incompetência intoleráveis. Mesmo sem querer, a CMTV não engana: sangue e morte pecarão sempre por defeito.

Quarta, 25
2.ª Descontaminação das ruas de Bobadela, pela Senhora da limpeza.

Entretanto, o doutor André Gonçalves Pereira, falecido em 09.Set.2019, continua a pontificar no Conselho Consultivo do Público e o doutor Miguel Esteves Cardoso, casado com Maria João Pinheiro há 20 anos, continua a viver com a Maria João «há quase 13 anos».

É do corona.
___________________________________________
* Acompanhemos Byung-Chul Han:
«[...]
Na China e noutros Estados asiáticos como a Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura, Taiwan e Japão, não existe uma consciência crítica diante da vigilância digital e do big data. A digitalização embriaga-os directamente. Isso obedece também a um motivo cultural. Na Ásia impera o colectivismo. Não há um individualismo acentuado. O individualismo não é a mesma coisa que o egoísmo, que evidentemente também está muito propagado na Ásia.
Ao que parece o big data é mais eficaz para combater o vírus do que os absurdos fechamentos de fronteiras que hoje estão a ser feitos na Europa. Graças à protecção de dados, entretanto, não é possível na Europa um combate digital do vírus comparável ao asiático. Os fornecedores chineses de telemóveis e de Internet compartilham os dados sensíveis de seus clientes com os serviços de segurança e com os ministérios de saúde. O Estado sabe, portanto, onde estou, com quem me encontro, o que faço, o que procuro, em que penso, o que como, o que compro, aonde me dirijo. É possível que no futuro o Estado controle também a temperatura corporal, o peso, o nível de açúcar no sangue, etc. Uma biopolítica digital que acompanha a psicopolítica digital que controla activamente as pessoas. [...]
Na verdade, vivemos durante muito tempo sem inimigos. A Guerra Fria terminou há muito tempo. Ultimamente até o terrorismo islâmico parecia ter-se deslocado para áreas distantes. Há exactamente dez anos sustentei no meu ensaio "Sociedade do Cansaço" a tese de que vivemos numa época em que o paradigma imunológico perdeu a sua vigência, baseada na negatividade do inimigo. Como nos tempos da Guerra Fria, a sociedade organizada imunologicamente caracteriza-se por viver cercada de fronteiras e de vedações que impedem a circulação acelerada de mercadorias e de capital. A globalização suprime todos esses limites imunitários para dar caminho livre ao capital. Até mesmo a promiscuidade e a permissividade generalizadas, que hoje se propagam por todos os âmbitos vitais, eliminam a negatividade do desconhecido e do inimigo. Os perigos não espreitam hoje da negatividade do inimigo, e sim do excesso de positividade, que se expressa como excesso de rendimento, excesso de produção e excesso de comunicação. A negatividade do inimigo não tem lugar na nossa sociedade ilimitadamente permissiva. A repressão a cargo de outros abre espaço à depressão, a exploração por outros abre espaço à auto-exploração voluntária e à auto-optimização. Na sociedade do rendimento guerreia-se sobretudo contra si mesmo. [...]
O vírus não vencerá o capitalismo. A revolução viral não chegará a ocorrer. Nenhum vírus é capaz de fazer a revolução. O vírus isola-nos e individualiza-nos. Não gera nenhum sentimento colectivo forte. De alguma maneira, cada um preocupa-se somente com a sua própria sobrevivência. A solidariedade que consiste em guardar distâncias mútuas não é uma solidariedade que permita sonhar com uma sociedade diferente, mais pacífica, mais justa. Não podemos deixar a revolução nas mãos do vírus. Precisamos de acreditar que após o vírus virá uma revolução humana. Somos NÓS, PESSOAS dotadas de RAZÃO, que precisamos de repensar e de restringir radicalmente o capitalismo destrutivo, e também a nossa ilimitada e destrutiva mobilidade, para nos salvarmos, para salvar o clima e o nosso belo planeta.»
"A emergência viral e o mundo de amanhã" | El País, 22.Mar.2020

** A propósito e a despropósito, faz hoje dois anos...
Aqui se repristina o memorial.