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segunda-feira, 22 de agosto de 2022

«A questão dos meios aéreos»

Rita Rodrigues- Miguel Cabral, boa tarde. O fogo está activo...
Miguel Cabral- Boa tarde. O fogo permanece activo há mais de 24 horas.

«Neste momento são perto de 450 operacionais no terreno auxiliados por diversas viaturas e há também a questão dos meios aéreos; são sete meios aéreos no terreno, aliás, andam pelo ar — ahahahah — e está agora a sentir-se a presença, a chegada de um meio aéreo precisamente aqui ao teatro de operações. A vinda para o terreno demora algum tempo.»

Nenhum jornalista terá alguma vez condensado tão certeira e completamente a retórica dos incêndios em tão poucas palavras. Felicite-se, pois, Miguel Cabral, carteira profissional n.º 3893A.  
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domingo, 21 de agosto de 2022

Patrícia Gaspar, uma espécie de dispositivo

Bát€gas de milhõ€s no combate. Negócios multimilionários em meios, os mitificados aéreos e os, menos conspícuos, terrestres. Legiões de operacionais, espectáculo, pornografia no terreno, emoção ao rubro [literalmente], auditórios salivantes do teatro de operações — não saia do seu lugar, anunciam-se novas e fulgurantes projecções. Tudo isto enquanto o bicho lavra.
Na prevenção e na detecção precoce quanto gasta ou investe o doutor Costa?
Pois, não é grande negócio, visibilidade nula, espectáculo nenhum. 

Ao serão de anteontem, 19, com Portugal a arder mais do que nunca, a secretária de Estado Patrícia Gaspar respondeu durante 18 minutos a Rodrigo Pratas, mui codicioso jornalista que aprecio.
Falou muito, sem explicar grande coisa - «esse momento vai chegar». 
Ontem, Augusto Madureira apresentou um resumo da conversa. Respigo:
«[...] Se considerarmos aquilo que é a severidade meteorológica, os dados, os algoritmos e as contas feitas dizem que a área ardida que deveríamos ter devia ser 30% superior, ou seja, ardeu 70% daquilo que era suposto arder face às condições de severidade meteorológica que temos. Isto significa que, apesar da complexidade, o dispositivo tem estado a responder bem e tem estado a conseguir debelar grande parte das ocorrências, mais de 90% das ocorrências nos primeiros 90 minutos. Este reforço o que vai permitir é garantir que temos mais pessoas no dispositivo [...] Estas novas 100 equipas aquilo que nos garantem é uma primeira linha de confiança porque estas vão garantidamente estar 24 horas disponíveis.» 

Oiça-se — e aprendamos — como Patrícia Gaspar informa a população de que a vegetação está muito seca e que não se deve fazer lume perto de arbustos ou de árvores:  
«temos ainda níveis de secura dos combustíveis que poderão em caso de ignição dar origem a ocorrências mais complexas de incêndios florestais e portanto convém e importa manter a adequação dos comportamentos junto aos espaços florestais»

E se um Verão mais frio e húmido do que o costume está menos propício a ignições?
Patrícia Gaspar responde na esteira de Jorge Coelho; a escola é a mesma. Caprichos de São Pedro? Mérito da governação: 
PG- «há aqui uma dimensão de tempo [...] felizmente nós estamos com resultados este ano, eu diria, simpáticos...
Rosa Pinto, jornalista- O tempo também tem ajudado.
PG- O tempo tem ajudado mas o dispositivo também, e não é este ano, estamos a falar ao longo dos últimos 10 anos.»

Pergunto-me amiúde se esta prolixa criatura consegue agir com outro propósito que não o de propaganda.  

- Confessa aqui, Plúvio, um fraquinho pela Patrícia...
- Bom, não diria tanto, até porque a resposta aqui é bicéfala. - 29.Ago.2019

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Aquilo que é

Ao início da tarde de ontem, naquele que é o dia anterior ao dia de hoje, André Filipe Gomes Ramos Macedo Fernandes, formado em Geografia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa,  comandante nacional daquilo que é a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, leu o seguinte aranzel que por estar escrito agravou a gravidade daquilo que são as coisas enquanto a serra arde:

«O que está a ser feito e planeado para os próximos dias, a começar também já neste dia de hoje, é priorizar a zona de Seixo Amarelo até Gonçalo, garantindo aquilo que é uma consolidação eficaz e um rescaldo eficaz nesta frente que está virada àquilo que é o concelho da Guarda. Em simultâneo também, já no município da Covilhã, e portanto consolidado tudo aquilo que é a zona desde a Atalaia à Quinta da Mourata, portanto estamos a falar da estrada nacional n.º 18, e aquilo que é a colocação e o garante da manutenção dos meios de vigilância activa na estrada municipal 501 que liga Teixoso a Verdelhos, de forma a impedir que aquilo que é um ponto quente, que é o que está identificado e que causa também mais preocupação, caso durante a tarde o vento vá rodar agora para o quadrante Nordeste, portanto Este, e é possível, há aqui um potencial de poder haver aquilo que é um reavivar, uma reactivação do incêndio e portanto garantir aquilo que é a vigilância activa neste sector e sobretudo garantir que qualquer reactivação que haja seja prontamente combatida pelos meios que estão neste sector.»


Doutor André, aquilo que é.
 
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sábado, 31 de agosto de 2019

«Boas notícias», os tomates

«O início de Setembro vai trazer boas notícias com as temperaturas a manterem-se altas».
CMtv, notícias, 31.Ago.2019  

«[...] O inferno de uns é o paraíso dos outros. Para os que procuram o paraíso do sol e do céu azul, sem constrangimentos, este clima é o “bom tempo”, como dizem os mensageiros desta monotonia meteorológica. O “bom tempo” serve na perfeição a economia actual, o turismo, a indústria do lazer. O homem da cidade vive numa ficção climática para crianças e já não sabe quando e quanto deve chover. Ele acha, aliás, que nunca devia chover nem fazer frio. E que o céu devia ser azul para sempre. Ao serviço do homem da cidade, da sua ignorância e irresponsabilidade nesta matéria, estão os jornais, a televisão, a rádio, a publicidade, toda a informação, os poderes públicos, o poder político. Todas estas vozes — unânimes — o persuadiram de que um mundo feliz é aquele em que nem uma gota de água cai do céu e nem uma nuvem o escurece para vir perturbar os momentos de lazer ou dificultar a chegada ao emprego. [...]»

sábado, 26 de agosto de 2017

O bispo das grandes causas e o tempo quente

Oleiros, ontem à noite
«Ainda no outro dia, e muito bem, um senhor bispo, o bispo de Viana do Castelo, dizia: Esta é uma grande causa nacional e o Presidente da República está certamente atento a ela. E eu telefonei ao senhor bispo de Viana do Castelo a dizer: Olhe, senhor bispo, ainda bem que percebeu, ainda bem que apoia aquilo que é fundamental.»

Uns espalham brasas no «teatro de operações», o presidente-arlequim pulula fogoso de teatro em teatro.

Livre-nos a Senhora d'Agonia, que dom Anacleto trata por tu, de que o bispo de Viana se lembre de falar na Xylella fastidiosa*. Ainda haveríamos de perder o amado professor no imenso olivedo...
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* Não confundir  com Patriccya gasparosa
Carnaxide, sábado, 26.Ago.2017, 9 da manhã
PG1- «Então muito bom dia a todos. Agradecer desde já a vossa presença em mais um brífingue operacional sobre a situação do país em matéria de incêndios florestais.»
Hoje em dia todos os políticos e preopinantes de pacotilha gorjeiam como Patrícia Gaspar. A retórica enfunada fá-los incapazes de coisas simples como «Agradeço», «Quero agradecer» ou «Muito obrigado».

PG2- «Temos pequenas ocorrências em curso sem qualquer, para já, expressão de preocupação, designadamente quatro incêndios em despacho operacional de meios.»
Praticante de língua campanuda, Patrícia Gaspar tem um expressivo fraquinho pela expressão.
Nos mais recentes cerca de 97 brífingues, Patrícia perpetrou, que eu tenha contabilizado, 300 ocorrências de "expressão"/"expressivo".

PG3- «Relativamente à meteorologia, mantém-se a previsão, para já, ... uma alteração que se começa já a fazer sentir hoje mas com maior expressão a partir de amanhã e nos dias de segunda e de terça-feira caso não haja nenhuma evolução em contrário.»
Nem Raul Solnado, na sua mítica previsão meteorológica na RTP — «Amanhã talvez chova, talvez não chova; talvez esteja frio, talvez faça calor.» — acertara tão certeiramente.

«... muito fogo para um homem só ...»

domingo, 20 de agosto de 2017

Patrícia certa no lugar errado

Que faz esta mulher no estúdio?
Ponham-na nas «frentes activas» e verão se o lume não recua.
Só com «homens no terreno» e «meios aéreos» não vão lá. Disso é que os lavradores gostam. 

Por que espera, ministra Constança, arre!?
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Patrícia Gaspar, da Autoridade Nacional de Protecção Civil:
Hoje, 1 - Acompanhamos com particular destaque as ocorrências activas e os incêndios dominados.
Hoje, 2 - Vento muito forte e três «frentes activas» no «teatro de operações».

Isto é espectáculo, senhores, isto é propaganda, isto é cagança, isto é pornografia.

Para o que der e vier mantenho o manómetro no verde.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Rebranding* do incêndio

Patrícia Gaspar, da Autoridade Nacional de Protecção Civil [ANPC], é incapaz de abandalhar a conversa. Conforme anotei, esmera-se no rigor neurocirúrgico das quantidades. Assim, não espanta que, seguidora das melhores doutrinas, também contabilize feridos em vez de simplesmente os contar. Ainda ontem de manhã, dada a «dimensão mais expressiva das ocorrências, a contabilidade estava a ser feita».
Não se bastando na alta precisão aritmética, a façanhuda Adjunta de Operações Nacional da ANPC emprega tal sofisticação na linguagem que, de um tiro, pôs o país de António Costa, que não quer bombeiros a confundir o povo, nos píncaros do progresso comunicacional. Cada ponto da situação — briefing, diria Sá de Miranda — costurado pela doutora Patrícia é um banho de elegância estilística. Por exemplo, e é só um exemplo, atente-se no lavrador de Louriçal do Campo que «ao final da tarde ganhou contornos de maior complexidade» e «onde temos não só combate mas também as defesas perimétricas dos aglomerados populacionais».
Eia! Que vai ser de nós quando os lavradores chegarem à vizinhança das casas?

Confesso, no entanto, um estranho fenómeno psicossensorial, um aflitivo receio recorrente sempre que, duas vezes ao dia, Patrícia Gaspar vem brifar os fogos: a qualquer momento vão irromper detrás dos estandartes, dos logótipos, das siglas e de todo aquele intimidante aparato heráldico o bigode de Pinochet num canto, o bigode de Estaline noutro, o bigode de Kadhafi noutro e o bigode de Maduro noutro. O que, convenhamos, com crianças ou humanos mais sensíveis na sala assumiria proporção suficientemente avassaladora para, sei lá, obrigar o presidente-arlequim a montar-se de novo no falcão.

Patrícia Gaspar, ontem, no justo instante em que um acto terrorista na SIC lhe dava cabo da protecção.
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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Idiossincrasia da combustão

Por razões de segurança esta chamada vai ser gravada.
- Boa noite. É dos fogos?
Florestal, fátuo e de santelmo, marque zero; pirotécnico e de artifício, marque umjeitomanso; circo, marque marcelo; outros, markzuckerberg
- Boa noite, o meu nome é hipocorístico mas pode tratar-me por Elisabete Vil de Moinhos sem acento. Em que posso ser-lhe útil?
- Boa noite, Betty, desculpe, por acaso tem uma frente activa que me dispense?
- Vem buscar ou quer que leve a casa?
- Pode ser, obrigado. Já agora, desculpe, quantos operacionais no terreno têm?
- Cerca de 344. Mas se precisar de meios aéreos, podemos fazer uma atençãozinha...
- E lavra bem?
- Desculpe. Lavra quem, o quê?
- O fogo. Pergunto que tal lavra ele.
- Meu caro senhor,
do melhor que há no mercado,
quais charruas, qual tractor,
quais bois, qual arado!?
- Então pode trazer-me um com a frente activa.
- Juntos ou em separado?
- Se, parando, não vier a polícia, pode ser juntos.
- Bombeiras e bombeiros, se quiser, temos uma promoção...
- Foda-se, Betty, não me dilga que também é da iga.
- Quer-me parecer que quis dizer diga que também é da ilga. Em qualquer caso, desculpe, sou apenas simplesmente correcta.
- Politicamente correcta, terá querido dizer.
- Ou isso.
A1 cortada na Mealhada, teatro de operações em curso.


- Sim, quem fala? 
- Betty. Desculpe, desde há bocadinho. Fiquei a pensar... Você por acaso não é o Plúvio?
- Ai o caralho. Como descobriu?
- Pela pronúncia e por como virgula

Psitacismo semântico, propaganda, pornografia, negócio

Fogo em Abrantes, 09/10.Ago.2017

«É verdade, foi um incêndio que começou por volta das seis e um quarto e rapidamente tomou proporções avassaladoras.»

«É verdade, quatrocentos e setenta e oito operacionais que estão no teatro de operações; cento e cinquenta viaturas; tiveram durante o final da tarde três meios aéreos; estão neste momento seis máquinas de rastos»

E a detecção precoce? Que é da guarda florestal? Que é da vigilância?
A gente sabe: filhos de um deus menor. 

Insisto: não sei de labareda grande que não comece por lume pequeno.
Não sejamos ingénuos: o combate é que rende.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Descoincidências

Rabisquei "Quando tudo arde na minha terra" ao início da madrugada de hoje, 27.
António Louro, a personagem do texto, interviera duas vezes no "Expresso da meia-noite" de 30.Jun.2017, na SIC Notícias.
Apetecia-me ilustrar o lado pesporrente e fanfarrão da criatura — paraninfo da melhor filosofia e do melhor sistema, da galáxia e arredores, de prevenção e combate de fogos, como com fulgor acabamos de comprovar —  face ao desastre que, nem um mês decorrido, haveria de lhe desabar à porta a foder-lhe a paisagem toda. Para tanto servi-me de coisas que ele dissera na segunda intervenção no programa, do minuto 29:30 ao 36:00.

Esta manhã, pequeno-almoço tomado, depararam-se-me no Observador o título e a extensa peça "O concelho-modelo no combate aos fogos ardeu. O que falhou?". Achei graça e deixou-me a pensar Rita Tavares, remetendo para a participação de António Louro, ter puxado, a abrir, pelo lado presciente e profético do autarca social-democrata de Mação. Para tanto serviu-se de coisas que ele dissera na primeira intervenção no programa, do minuto 07:45 ao 12:25.

Nada de surpreendente: o Plúvio segue uma agenda, o jornalismo do Observador segue outra. Francisco Seixas da Costa, que sabe muito e se move em meandros onde se sabe tudo, explicita-a muito bem no seu "Observemos, pois" de hoje. Afinal, parece que o Observador tremelica...
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Não é por isto se chamar Chove que qualquer fogueira deixará de vicejar aqui. Nem, apesar da chuva, se desrecomenda protector solar.

Quando tudo arde na minha terra


«Para este programa convidámos António Louro ... vereador da protecção civil de Mação, um concelho que tem sido dado como exemplo, primeiro por ter sido, e de que forma, fustigado por grandes fogos florestais, mas que hoje tem aquele que é considerado um dos melhores sistemas de prevenção e de combate do país, para nos contar o que é que se faz em Mação que podia de alguma forma servir de exemplo, ou não, para o resto do país.» 

«Mação percebeu em 2003 que o problema é paisagem e paisagem só se resolve com gestão, gestão com escala. Para termos escala em minifúndio temos que agregar propriedades.
...
Nós desenvolvemos uma ferramenta informática que monitoriza o desenvolvimento do fogo transformando aquela complexa situação num desenho simples ... Qualquer pessoa olha p'rà'quilo e percebe quais são as decisões a tomar.
...
Outra coisa que fizemos ... Capacidade de autoprotecção.
Depois fizemos uma série de faixas de baixa densidade ... Melhorámos os pontos de água de grande dimensão. Temos uma política de utilização das "bulldozers" de combate aos fogos que é praticamente pioneira.
...
Com a ajuda do MacFire nós conseguimos maximizar a sua eficiência.
...
Em Mação trabalhamos ao contrário.
...
A nossa ideia foi usar a comunidade humana ...Vamos resolver o vosso problema. Já chega, já ardeu três vezes!
... 
Gerir paisagem e minifúndio, só agregando as pessoas.»

Problema resolvido. O resto é paisagem, ardida 27 dias depois [Mação, manhã de quinta-feira, 27.Jul.2017].

terça-feira, 25 de julho de 2017

Cerca de 882

«Nós temos neste momento cerca de 882 operacionais no terreno distribuídos pelas três frentes.*»
Autoridade Nacional de Protecção Civil
25.Jul.2017

Entontecem-nos de exactidão.
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* Ou seja, cerca de 293 por frente; com maior rigor, aproximadamente 295. Uf!

PS
Falta resolver cerca de quantos mortos houve em Pedrógão Grande.
E não se pense que a  empresária Isabel Monteiro é a única a contabilizá-los.
Não faltam por aí craques na matéria.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Morreram 64?

«Isso* é muito grave. Olhe, eu cá por mim já fiz a minha escolha da companhia que utilizo.»

António Costa não olha a meios.
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Continuo sem um pingo de admiração pelo pinículo Pedro Passos Coelho. O pobre diabo não enxerga que a persistência ridícula do broche pátrio na lapela é motivo directo do seu estertor público.

* «houve algumas [operadoras] que conseguiram manter sempre as comunicações e houve outra que teve [sicmuito tempo sem conseguir manter comunicações nenhumas.»

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Eu, quem?

Calipto.

«Foram os eucaliptos, propagando o fogo de uns para os outros, de um lado para o outro da estrada, através das suas copas, quem matou aquelas 47 pessoas.»

Ó senhor doutor e ilustre escritor Miguel Sousa Tavares, pelo amor da santa, «foram os eucaliptos quem»? Que prosopopeia é essa? Logo o Miguel, a quem oiço repetidamente confessar que investe cuidado máximo – vigilância do erro, esmero na gramática – na sua lauda semanal do Expresso. 

«De facto, ao contrário do que defende a ignorância urbana e arrogante de propostas tendentes a proibir a caça, vindas do PAN, do PEV ou do BE, a caça (e também por causa da sua íntima relação com a agricultura), é uma das últimas actividades que ainda mantêm os terrenos cultivados, desmatados, e vigiados e preserva o que resta do mundo rural — cujo abandono, todos concordam, é, no fim de tudo, a causa principal dos incêndios.»
Não deixa de me fazer sorrir a objurgatória à «ignorância urbana e arrogante» por parte de um menino-bem, nado, cultivado e vivido na aristocracia citadina, putativo porta-voz da sabedoria rural de caçadeira a tira-colo. E eu pensando que a causa principal dos incêndios fosse a maldade louca... 
Já no Expresso do sábado anterior, 24.Jun.2017, Miguel Sousa Tavares vertera copiosa sanha anti-eucalíptica em "O essencial e o marginal". Gosto da resposta – Meu caro Miguel Sousa Tavares... – que Henrique Raposo lhe deu: "Calitros" | Expresso, 01.Jul.2017".   

Não me vou sem quatro ou cinco quinaus  gamárticos no Expresso e noutras gazetas. Estão a pedi-los.

«Volta Galp, estás perdoada»
«Volta, Galp», se fazem favor. «Volta Galp» é outra coisa, senhores jornalistas.

«têm havido várias reuniões entre os advogados das duas partes»
«tem havido», foda-se. Aprendam. Aprendam. Aprendam.

«Lev Yashin, para muitos um dos melhores guarda-redes da história da futebol, também jogou durante muitos anos, até aos 41. Começou em 1950 e só terminou em 1970, sempre ao serviço do seu Dínamo de Moscovo e da selecção da Rússia, onde venceu os jogos olímpicos em 1956.»
Que merda é aquilo, ó doutor Gonçalo Lopes
«e da selecção da União Soviética que com Lev Yashin na baliza venceu os jogos olímpicos de 1956 em Melbourne», se não se importa. 

«Até sempre Henrique.»
«Até sempre, Henrique.», se faz favor. «sempre Henrique», doutor Eduardo Dâmaso, é outra coisa; sempre Henrique é o que Medina Carreira foi a vida toda.

Irra!
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* Diário de Notícias, o meu DN vai para 47 anos, definhante e desleixado como nunca. Hoje em dia, um jornal sempre disponível e lesto para os arrotos de indignação do príncipe da lisura procedimental infamado e perseguido pela justiça, para estímulo dos idólatras não vá esmorecer-lhes o fervor, mas que foi, relembro, o único diário português em papel a não conceder uma linha a Armando Silva Carvalho por altura da sua morte, no dia seguinte e em todos os seguintes dias seguintes. 
Desleixo, sim. Repare-se no sector "Opinião" da ficha técnica:
André Macedo, a quem Paulo Baldaia sucedeu na direcção, desaparecido desde 23.Mar.2017.
Miguel Ángel Belloso, desaparecido desde 24.Fev.2017.
Yanis Varoufakis, desaparecido desde 30.Nov.2016.
André Carrilho, muito bem, um génio, continua no activo. Mas porque não consta o magnífico José Bandeira, porventura o melhor cartunista de Portugal, que continua a publicar diariamente no DN desde há um milhão de anos?
E João Gobern, que ultimamente se tem desunhado a escrever, porque não consta também?
Enfim, grande tristeza.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Chispas

Melhores textos * 
«[…]
A economia daquilo a que chamam tragédias é favorável à comunicação social. Enquanto nos períodos normais a televisão e a imprensa vivem de luzes, música, plumas, comentadores e lantejoulas, que têm de ser pagos e custam muito dinheiro, um acontecimento imprevisto fornece grandes cenários naturais e humanos a baixo custo. A consequência evidente para quem presta atenção a esses acontecimentos é a atenção extraordinariamente demorada a tudo aquilo que sai de graça. Num barranco em chamas, e entre blocos de publicidade, o mesmo jornalista improvisa infinitamente sobre o barranco em chamas; e quando escasseiam imagens variadas de barrancos em chamas, o mesmo jornalista improvisa infinitamente sobre as mesmas imagens. O seu género é a stand-up tragedy.
[…]
são eles que mobilam com conteúdos o que de qualquer maneira os jornalistas nunca conseguiriam por si só imaginar: um cão, um filho, um tractor, uma mala de roupa. Visto o que se tem visto, os acontecimentos recentes sugerem que nem sempre será boa ideia não matar o mensageiro.»
- x - 
«[…]
A nauseabunda estetização da catástrofe servida ao espectador — o “belo” cenário trágico resultante das montagens e encenações feitas nos estúdios das televisões — também mostra que alguém, certamente uma equipa, rejubilou com os seus belos alvos que lhes fornecem matéria para uma grande produção a baixo preço, para um filme-catástrofe que não precisa de efeitos especiais, só precisa de uma montagem bem ornamentada e música a condizer. Tudo devidamente sublinhado por textos, legendas e designações (por exemplo, “a estrada da morte”) que remetem para as grandes ficções de Hollywood. Às vezes, sobre essas imagens sobrepõe-se uma voz-off que lê um texto a imitar qualquer coisa de literário, a sublinhar a operação que reduz a tragédia real a uma opereta obscena. A estetização é uma violência exercida sobre as vítimas da catástrofe e, paradoxalmente, tem o efeito de uma anestesia aplicada ao espectador.
[…]»
- x - 

Nota
Espanta-me como tanta e tão bem informada gente caiu na esparrela do Canadair.
Nessa não caí eu, que mantenho permanentemente ligado [há uma moda tinhosa nos canais de notícias a dizer «em permanência»] desde há um ano e picos o detector "presidente-arlequim". Raramente falha.
Nas quase duas horas em que o avião esteve despenhado, com Miguel Sousa Tavares em zapping frenético à cata dos destroços, desconfiei serenamente: não havendo sinal ou notícia de que Marcelo estivesse a caminho, de que Marcelo já estivesse junto da carcaça fumegante ou até de que Marcelo tivesse chegado instantes antes do despenhamento — sim, antes; é preciso não saber nada da idiossincrasia presidencial-arlequineira para julgar Marcelo incapaz de estar nos sítios e nas coisas antes de haver sítios ou de as coisas acontecerem… —,  a probabilidade de nova desgraça era altamente remota. 
Certo é que na tarde de terça-feira passada, 20 de Junho, não houve sinal ou notícia de Marcelo em trânsito. Por isso, não acreditei no desastre e tinha razão.
Senhores jornalistas da LUSA, e outros, e Miguel Sousa Tavares, aprendam de vez para não tornarem a espalhar-se ou a embarcar em boatos: detector "presidente-arlequim" sempre ligado!

Nem eu resisto a molhar o bico no fogo
Não pára de medrar, em mim que não sei de labareda grande que não comece por lume pequeno, o convencimento teimoso de que a detecção precoce de um incêndio — vigias, guardas — não é coisa que interesse por aí além ao negócio e à propaganda do combate, mormente à coreografia estapafúrdia, jactante e ultracara dos famigerados «meios aéreos» contratados pelo Estado.
Quanto vale no mercado pornográfico da emoção ou na mobilização de massas uma imagem destas? Nada.
Quatro meses de kamovs disponíveis para aspergir árvores, apenas em horário diurno e desde que os meteocaprichos consintam, pagariam quantas torres de vigilância com 24 horas diárias de salário o ano todo? Expliquem-me.  **
Não sejamos ingénuos: o combate é que rende. Chego a ter vergonha de ser humano [algum outro bicho se envergonha?] ao pensar na floresta de negócios perdidos por cada fogueira na floresta apagada à nascença. Não falando das mortes evitadas. 
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* Sem surpresa, o pior texto é d' o comunitário, "Uma culpa antiga", no DN de ontem, 25.Jun.2017, que passo a resumir, ipsis verbis e na ordem por que está redigido:
Não sei / Sei / Julgo saber / Estou mesmo convencido / Não sou capaz de saber /
o que fazer para que, no mínimo, se remedei. [sic] /
Sei bem / Julgo saber / Estou mesmo convencido / comunidade / comunidade / Não sou capaz de saber / Sei / Suspeito / Não ignoro / Sei o mesmo que o leitor sabe / Sei de forma bem mais informada / comunidade / não desconheço /
Concelhos que há quarenta ou cinquenta anos tinham o dobro ou o triplo das pessoas que agora têm e que os que ainda lá estão são na sua esmagadora maioria velhos, muito velhos. [sic] /
Era capaz de apostar / comunidade /
Existe uma cultura de desprezo por o mundo rural. [sic]

Nas oito vezes em que se refere ao interior do país, Pedro Marques Lopes escreve com maiúscula, vá lá saber-se porquê, «o Interior». Bacoco. 
"À Procura", coluna d' o comunitário, é um penoso repositório semanal de ortografia deficiente, dislexia sintáctica, discordâncias grosseiras [estou em condições de mostrá-lo com abundância], a carpinteirar a pasmada obviedade de ideias que Pedro Marques Lopes vende habitualmente, as mesmas, em duplicado na SIC e no DN. Atente-se, por exemplo, em como no Eixo do Mal de anteontem, do minuto 07:45 ao minuto 13:35o comunitário replicava antecipando-a, parágrafo a parágrafo, a crónica de ontem, "Uma culpa antiga".
Chamem-lhe parvo.
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**
«DIRETIVA OPERACIONAL NACIONAL N.º 2 – DECIF ***
DESPACHO
No âmbito das competências que me foram delegadas pela Senhora Ministra da Administração Interna pelo Despacho n.º 181/2016, publicado na 2.ª série do Diário da República n.º 4, de 7 de janeiro, alterado pelo Despacho n.º 8477/2016, publicado na 2.ª série do Diário da República n.º 124, de 30 de junho homologo a Diretiva Operacional Nacional, que visa estabelecer, para o ano de 2017, o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF), conforme proposta da Autoridade Nacional de Proteção Civil.
Lisboa, 30 março de 2017.
O Secretário de Estado da Administração Interna,
Jorge Gomes****»

***
130 páginas, incluindo 41 anexos.
Compêndio abrasivo das causas e das finalidades com abordagem teleológica do "porquê?" e etiológica do "para quê?"; ou talvez ao contrário, o que vem dar no mesmo:
- a expressão «postos de vigia» ocorre 10 vezes,
- a expressão «meios aéreos» ocorre 66 vezes.

****
Jorge Gomes que o presidente-arlequim abraçou ... «O que se fez foi o máximo que se podia fazer. Não era possível fazer mais».

domingo, 8 de abril de 2012

Noticiário dos fogos

«[...]
Eis-nos, portanto, perante o duelo entre a estética do momento e o dever de informar. A imagem que vale por mil palavras, o instantâneo assombro das labaredas, fala, fala, fala - mas não dá a notícia. Esta está no arvoredo destruído, no chão calcinado, na vida carbonizada. A notícia do incêndio não é o fogo - é o carvão.
[...]

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Que faremos quando tudo arder?*

Logo se verá.
Participei hoje num simulacro de incêndio.
As sirenes buzinaram a preceito, a evacuação do edifício foi rápida [ninguém ficou retido nas retretes], o pânico contido; as ambulâncias foram lestas, os bombeiros e o pessoal de enfermagem prontos e eficientes; os feridos portaram-se bem, os dois mortos - foi muito bem feito!, não se tivessem metido no elevador. - mantiveram-se serenos; os extintores funcionaram...
Só não correu melhor porque o fogo não houve meio de pegar.
__________________
*

sábado, 19 de novembro de 2011

Premir a alavanca da válvula

é pura lascívia, alucinação de ser
é frémito de vulva, picha sédula
desejo e amor, ai isso é que é
ai é, ó se é,
fogo-cardo sem se ver!