terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Em defesa da autenticidade e do respeito por Sophia, recorro da Relação

Com chamadas na primeira, Luís Miguel Queirós encheu três páginas do Público — duas em 04.Fev.2019, "Um falso poema de Sophia que se tornou viral", mais uma em 15.Fev.2019, "O poema que uma juíza escreveu e Sophia celebrizou" —  com a historieta de um poema apócrifo de Sophia de Mello Breyner Andresen disseminado no ciberespaço sob o título de "O mar dos meus olhos".
O poema é de Adelina Barradas de Oliveira, juíza-desembargadora no Tribunal da Relação de Lisboa.
Entre outros, aludiram ao caso o Espalha Factos, o Observador, o Correio da Manhã e o Governo Sombra [Ricardo Araújo Pereira, a abrir, minuto 02:00].

Em 1996, o meu querido cunhado Armindo, falecido recentemente, rabiscou uns versos com o título «Gosto de estar no cais quando chove». Rogério Martins Simões, seu colega e amigo, deu-lhes publicidade em 26.Out.2004 no blogue "Poemas de amor e dor", com atribuição correcta da autoria, o que não obstou à subsequente difusão dos ditos [ainda assim muito longe de viral, haja Deus...], iniciada sabe-se lá por quem,  como se pertencessem a Sophia de Mello Breyner Andresen.  
Não consigo chegar à maternidade da impostura mas apurei — coisa não lobrigada por Luís Miguel Queirós — que a juíza-desembargadora, amante de poesia e de Sophia, e será de esperar que da verdade e do rigor, contribuiu prodigamente, sei que sem dolo, para a sustentar, com atrevido enquadramento bibliográfico e ilustrações, no seu estaminé "Cleopatra Moon":

«Gosto de estar no cais quando chove [...]»
Créditos: «Sophia de Mello Breyner Andersen *, "Dia do Mar no Ar". **  fotografia: Christophe Jacrot»

«Gosto de estar no cais quando chove [...]»
Créditos: «Sophia de Mello Breyner Andersen *, "Dia do Mar no Ar". **  fotografia: Christophe Jacrot»

Em 10.Mar.2014 o meu cunhado interveio na caixa de comentários à publicação de 28.Mai.2013 a reclamar a autoria, sem reacção da meritíssima blogueira.

Visto o que,  é atónito, no mínimo, que leio a seguinte passagem no Público de 15.Fev.2019, negritos meus:
«[…] De resto, percorrendo o seu blogue – também gere páginas relacionadas com a sua profissão de juíza, mas Cleopatra Moon é o seu refúgio poético –, constata-se que todos os poemas alheios são devidamente creditados e que assina sempre com as suas iniciais os que são da sua própria lavra. 
“Diga que os tais versos fraquinhos, que nunca poderiam ser da Sophia, são da Adelina Barradas de Oliveira” e que foram “escritos há 10 anos, no dia da morte de Sophia e na data do aniversário da filha da autora do blogue onde os encontrou”, sugeriu a juíza ao jornalista. “A César o que é de César, a Sophia o que na realidade é dela e a mim o que é meu”, acrescenta. “Assim, ficamos todos descansados e termina o mistério.” […]»

Quando chove, é comigo.

Perdoem-me a profusão de hiperligações.
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* Andresen, s.f.f. A propósito, ó Carlos Vaz Marques, que é isso da «Casa Ândersen» e da «Sophia de Mello Breyner Ândersen?
Governo Sombra, 08.Fev.2019   |    Governo Sombra, 15.Fev.2019
Percebi mal?

** "Dia do mar no ar" é apenas um dos poemas de "Coral", terceiro livro de Sophia de Mello Breyner Andresen, publicado em 1950. Nem esmifrando a alucinação se encontra lá «Gosto de estar no cais quando chove».