À medida em que fui repassando o vídeo foi-me curiosamente ficando mais nítida a percepção de que entre os 50 preopinantes encartados que entretanto li e escutei acerca da entrevista, muito mais tolhidos no discernimento ficaram, desta feita, os execradores de Sócrates, que não conseguem vislumbrar nele um resquício de virtude do que os seus sequazes, que não lhe conseguem descortinar uma pontinha de defeito.
Por mim, não morrendo de amores pelo homem, continuo a achar que o Portugal pós-“25 de Abril” ainda não teve primeiro-ministro melhor. Outras coisas boas não se lhe devessem, e devem-se-lhe muitas, a par de alguns desvarios, bastaria o que fez pelo tratamento do nosso lixo.
Há vários traços de personalidade que me desgostam em JS que não vêm agora ao caso. Vem no entanto uma qualidade política que lhe vejo raramente reconhecida e que creio não lhe faltar: José Sócrates é um genuíno patriota.
Um momento da conversa:
JS- O discurso político vale muito […]
Vítor Gonçalves [VG], entrevistador- Não está a sugerir, engenheiro Sócrates, que o governo deve vender ilusões ao país?...
JS- O que está a reproduzir é a crítica que me faziam […] diziam que eu estava a vender ilusões; essa era a crítica que me faziam. Pois eu digo-lhe uma coisa: um político que desiste da confiança, de puxar pelas energias do seu país, que desiste do futuro, é um governante que não está à altura das suas responsabilidades.
VG- Não pondo em causa a verdade…
JS- Com certeza! Mas a política faz-se com construção.
[…]
Um dos problemas deste governo é ter matado qualquer expectativa. Eu percebo que o governo quando chegou não quisesse ter as mesmas prioridades do governo anterior. O governo disse que não gostava do investimento nas escolas nem das energias renováveis nem das novas oportunidades nem das barragens nem do Magalhães nem de nada. O governo tem o direito de dizer isso, mas tem de responder a uma pergunta: afinal de que é que gosta? E não há país que possa ser governado sem uma esperança, sem vontade, sem ambição. O dever da política, o dever dos governantes é traçar um rumo. Sabe o que me faz lembrar o governo ao longo deste dois anos? Faz-me vir ao espírito a frase da Divina Comédia, do Dante; quando se entra no Inferno, quando o personagem entra no Inferno, “Vós que entrais, abandonai toda a esperança”. Este governo foi o que fez. […] O que parece o discurso deste governo é um discurso de expiação, de punição; isso é um erro.
Em resumo e finalmente, a conversa começou assim:
VG- Porque é que José Sócrates, que esteve os últimos dois anos em Paris, decidiu regressar à política através do comentário político?
JS- Em primeiro lugar, há um tempo para tudo na vida. […] Este é o tempo para tomar a palavra. É isto que desejo fazer. […] Tomar a palavra.
Por outro lado, entendi também que era o momento de falar.
Falou e disse.
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* Acusam Sócrates de ter estado, como sempre, arrogante, desabrido, mal-educado. Foi?
É certo que disse 16 vezes repare, escaparam-lhe quatro Eh pá, um chocarreiro O que lhe posso dizer é o seguinte, pá… e até um Oh homem!, para Paulo Ferreira. Mas, e as 76 vezes em que pediu desculpa [desculpe(m)-me, desculpar-me-á(ão)…]? E as 68 em que pediu licença ou permissão [se me dá(ão) licença, se me permite(m)… deixe(m)-me dizer-lhe(s)…]?