foda-se!
sábado, 24 de março de 2012
Ben Marcus
«[…]
A aparência de um folclore inventado é alcançada com recurso a uma das técnicas de desfamiliarização mais antigas e fiáveis da literatura, uma técnica inventada por Montesquieu nas Cartas Persas, e que foi sendo apropriada até aos nossos dias por poetas da escola marciana de Craig Raine, autores de livros infantis, e críticos de televisão: adoptar a pose de um embaixador alienígena e escrever sobre aquilo que vemos todos os dias como se nunca o tivéssemos visto antes.
[…]
Marcus tem um claro fraquinho pela especificidade retórica da não-ficção: a prosa técnica, de manual escolar, com a sua falsa autoridade semântica, a sua capacidade para articular qualquer disparate sem embaraço. (Alguns parágrafos do livro são reciclagens de artigos de enciclopédia, com ligeiras mas letais alterações). Num dos glossários colocados no fim de cada secção encontramos a seguinte definição do acto de "comer": "Técnica de resgatar objectos, salvando-os da luz e colocando-os no interior. Uma vez dentro da cavidade, o objecto é permanentemente inscrito com as resoluções do corpo e pode assim ser considerado um aliado da pessoa".
[...]»
Rogério Casanova, “O Algoritmo de Ben Marcus”, sobre Ben Marcus e, em particular, The Age of Wire and String | Público/Ípsilon, 23.Mar.2012
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Rogério Casanova
quinta-feira, 22 de março de 2012
Por caridade
Arménio Carlos, electricista da Carris, cujo discurso não me suscita um pingo de admiração [a propósito, tiquetagem actualizada], continua a dizer e a repetir - tal como seguramente escreve - precaridade. [Às 20:07 de hoje]
Estou convencido de que não tardará que algum letrado do Comité Central lhe aplique um caridoso e solidário torque de gramática para que na próxima vez, se não for antes, já possa dizer ié, resgatando o orgulho do povo culto que o admira e dos habituais 3 milhões de holográficos* trabalhadores e trabalhadoras que fazem a glória da CGTP e enchem de substância o êxito do substantivo "greve". O êxito do adjectivo "geral" garante-o a malta filiada em sindicatos comunistas, com mais de 15 anos no quadro permanente das empresas públicas de transporte; malta briosa e lutadora que, bem vistas as coisas, nunca perde muito quando pára a carroça e pouco mais perde quando a carroça pára.
Tudo isto dá, somado,
uma vida de eterna feliciedade,
sendo aí que, bem rimado,
acaba de vez a precariedade.
____________________________
* Quando, pelas 21:15 na RTP Informação, a Cristina Esteves [por quem sinto um fraco, mas isso não é para dizer] insistia com o secretário-geral da CGTP para que informasse - sim ou não - se a greve geral de hoje teria tido o sucesso das greves gerais anteriores, os tais três milhões de aderentes em 24.Nov.2010, e mais de três milhões na greve geral de 24.Nov.2011, Arménio Carlos lá foi debitando, sem se rir nem corar de vergonha: ... ainda não temos os dados finais apurados mas sim, os números da greve geral de hoje são dessa mesma ordem de grandeza ...
Que confiança pode oferecer gente deste jaez?
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Arménio Carlos,
Gamártica
Alberto Gonçalves,
o melhor cronista português de actualidades da actualidade, seria talvez ainda mais o melhor, não fosse um bocadinho tão faccioso. Enfim, admito, se não parecesse um bocado faccioso.
«[…]
Bin Laden e Saddam Hussein partilhavam a afeição por Whitney Houston e por essa atrocidade intitulada I Will Always Love You. Slobodan Milosevic ouvia repetidamente My Way, um embaraço que o próprio Sinatra detestava e que nunca interpretava sem antes o enxovalhar com uma graçola qualquer. E Kim Jong-il, fanático de Elvis Presley, engolia acriticamente a produção integral do cantor, incluindo as misérias feitas para embalar filmes também miseráveis.
[…]
a relação entre o bom gosto e a sensatez parece ser igualmente verdadeira. O mais lúcido estadista europeu das últimas décadas, Vaclav Havel, era fã dos Velvet Underground. Margaret Thatcher possuía uma predilecção especial por Telstar, dos Tornados, uma brincadeira deliciosa que, à imagem da ex-primeira-ministra britânica, é pirosa e admirável em doses idênticas. E a canção da vida do velho Churchill era o prodígio satírico Mad Dogs and Englishmen, de Nöel Coward.
No que respeita aos nossos líderes actuais e passados, reina o vazio: ou fingem ouvir música erudita ou, o que condiz com a sua estatura histórica, não ouvem nada de nada. Mas há indícios acerca dos nossos líderes futuros, perdão, do nosso anunciado líder futuro. De repente, toda a gente resolveu achar inevitável que António Costa seja o próximo Presidente da República. E embora conheça poucos méritos do dr. Costa, além de uma carreira partidária indistinta e de dois mandatos autárquicos que me garantem fraquinhos*, sei que em 2009 escolheu Carlos do Carmo para mandatário da candidatura à Câmara de Lisboa. Caso a escolha decorra das preferências melómanas do dr. Costa e caso as preferências recaiam especificamente sobre Os Putos ou as Canoas do Tejo, não faltam razões para termos medo** ou, no mínimo, tampões nos ouvidos.»
_________________________________
* Quem pôde garantir-lhe isso, caríssimo Alberto? O que é um mandato fraquinho?
** Julgando entender bem o justificado medo, para não dizer pavor, que as preferências melómanas do dr. António Costa inspiram ao dr. Alberto Gonçalves, membro da Comissão de Honra da reeleição, em 2011, de Aníbal Cavaco Silva, aqui lhe trago de presente e consolo uma Rosa Vermelha, escrita, tal como Os Putos, pelo irreformável comunista Ary dos Santos e interpretada pela Mandatária para a Juventude na eleição, em 2006, do professor Cavaco, cujas indiciadas preferências melómanas já na altura faziam antever, sem razões para medo ou desconfiança, os tempos de prosperidade que a sinérgica relação entre o bom gosto e a sensatez não pára de tão abundantemente proporcionar a Portugal.
E só não estamos mais felizes porque à dra. Manuela Ferreira Leite, em quem o dr. Gonçalves, de tanto a incensar, mal consegue ver um pixel defeituoso, nunca lhe deu para cantar o fado. Pelo menos, em público.
quarta-feira, 21 de março de 2012
21 de Março de 1685
Bach.
Tobias Volkamer, ser que vale a pena.
Na aventura do carbono morno acontecem gratificantes coisas.
terça-feira, 20 de março de 2012
Pró que me dá este equino ócio *
Anúncio:
«JAZIGO VENDE-SE CEMITÉRIO DOS PRAZERES - 10 lugares. Bem posicionado. Totalmente reconstruído. Edifício, vitrais, porta de bronze sólida. Como novo. Trata o proprietário. 968 12 …»
«JAZIGO VENDE-SE CEMITÉRIO DOS PRAZERES - 10 lugares. Bem posicionado. Totalmente reconstruído. Edifício, vitrais, porta de bronze sólida. Como novo. Trata o proprietário. 968 12 …»
Num tempo em que o consumidor está cada vez mais bem informado e exigente, não espanta que, dada a crise e apesar dos atractivos apregoados, o edifício tarde em ter comprador. Então, que é do aquecimento central, águas correntes, TV por cabo fibra, net wireless, intercomunicador de porta, etnia, nível cultural e hábitos da vizinhança, mas, sobretudo, da licença de habitação? E caixas de correio, tem?
A si, plácido leitor, e à sua estimada família, desejo um santo Natal e boas entradas, azeitonas de Elvas, presunto com melão, umas gambinhas e assim.
*
A si, plácido leitor, e à sua estimada família, desejo um santo Natal e boas entradas, azeitonas de Elvas, presunto com melão, umas gambinhas e assim.
*
segunda-feira, 19 de março de 2012
Muda-se o ser, muda-se a confiança?
«Mesmo que mudem as opiniões, os tempos, as vontades, o ser, a confiança e os governantes, a extorsão e as regras da extorsão nunca mudam. Nem se renovam.»
E ainda - idem, ibidem, mas não online - "Os mártires de Beverly Hills"
Diz-nos cá, Luís.
Mostra aí, José.
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Alberto Gonçalves
Ecce homo cavaquensis
«[…]
todos sabemos que o tão comentado prefácio do dr. Cavaco a um livro que ninguém irá ler não tem qualquer fundamento político, constitucional ou histórico, mas apenas reflecte a sua inextinguível sede de vingança pela revelação do que foram as relações entre o BPN e o homem que é tão sério que é preciso alguém nascer duas vezes para se lhe poder comparar. Todos já vimos demasiado Cavaco para poder ignorar a sua biografia. Este é o homem que não é “político profissional” e que nada mais faz do que política há trinta anos, mas apenas a pensar em si próprio. Este é o homem que teve sempre a arte de aparecer nos momentos fáceis (dinheiros europeus ou vitória eleitoral garantida) e desaparecer nos momentos difíceis (a morte de Sá Carneiro, o primeiro resgate do FMI). O homem que nunca enfrenta os adversários em terreno aberto, mas só quando os sente enfraquecidos ou derrotados. O homem capaz de patrocinar, tolerar ou calar uma conspiração montada no seu palácio contra o primeiro-ministro em funções e depois vir queixa-se de deslealdade deste. O homem que protege os seus aliados, mas só enquanto eles não se lhe tornem inconvenientes. Um homem que, de facto, Sócrates não respeitava. Como Soares não respeitou, como não respeitam Passos Coelho ou Paulo Portas.
Se quisermos olhar para trás, para percebermos o que nos aconteceu, seria bom que o fizéssemos com um mínimo de seriedade. Mas era mais importante olhar para a frente e cobrar de quem agora manda.»
A propósito ...
«[…]
Uma análise imanente desse discurso encontra algo muito mais essencial, que motiva as perguntas: que pensamento (político ou outro) emerge de uma tão pobre redacção escolar?, que densidade pode ter a sintaxe e o vocabulário daquele prefácio?, não é uma tal incapacidade de ir além da redacção escolar uma prova de que as palavras do Presidente são uma expropriação da política?»
Acordo Ortográfico [55]
«O Acordo Ortográfico, assinado em 1990 por Portugal, Brasil e os países africanos de língua oficial portuguesa e a que Timor-Leste aderiu em 2004, tem concitado, desde o início, e agora ainda mais, críticas e ataques de grande intensidade. Não sendo filólogo, não me cabe pronunciar sobre o seu rigor científico, embora não concorde com algumas das soluções e saiba que os próprios filólogos se acham divididos.
[…]
torna-se imperioso reagir contra os atropelos que [a língua portuguesa] vem sofrendo, entre os quais:
- discursos de altas figuras do Estado, no exercício dessas funções, em língua estrangeira;
- subalternização da língua portuguesa em reuniões e em atos da União Europeia;
- ensino em escolas públicas por professores portugueses para alunos portugueses em inglês (coisa diferente são os cursos por professores estrangeiros);
- a internacionalização das nossas universidades é bem necessária e conveniente, mas internacionalização não pode significar desnacionalização;
- reuniões até de conselhos científicos dessas escolas, que são órgãos da Administração Pública, sem se usar o português;
- ofícios de serviços do Estado sem ser em português;
- relativa frequência com que as conservatórias do registo civil aceitam nomes próprios de outras línguas;
- alastramento das denominações comerciais de empresas portuguesas operando em Portugal em inglês (coisa diferente é o inglês ser hoje língua franca);
- menosprezo do estudo da literatura de língua portuguesa (portuguesa, brasileira, africana) no ensino secundário;
- em geral, erros de gramática na construção do discurso indireto e ignorância do uso do conjuntivo após conjunções concessivas, do pretérito mais que imperfeito e das preposições.
Perante este panorama, fico espantado com a desatenção dos críticos do Acordo Ortográfico, em nome da pureza do português. Não seria mais curial e mais premente que os defensores do português (ou do português europeu) concentrassem as suas energias na reação contra os fenómenos acabados de descrever? Por maiores vícios que o Acordo Ortográfico tenha, ameaça muito menos a língua do que estes.»
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Acordo Ortográfico
quinta-feira, 15 de março de 2012
Biltres
«Por uma incrível coincidência ou desígnio celestial, é frequente os piores biltres verem a luz mesmo antes de a sua longa incursão pelas trevas os habilitar a um fim triste.»
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Alberto Gonçalves
segunda-feira, 12 de março de 2012
Mário Crespo | Expresso
1- «[…] Não tenho dúvidas de que Luís Marinho continua fiel ao seu roteiro, tendo assim servido o governo Santana Lopes, o governo Sócrates e agora o governo Passos Coelho/Relvas – e sempre a subir. […]»
2- «Surpreendeu-me este teu tão oportuno "acesso de memória". Quando li o que escreveste sobre mim no último sábado, não quis acreditar. […] Como me consideras um jornalista menor, vou ter de te explicar o que fiz para verificar os factos e, obviamente, responder-te. E provar que estás a mentir. […]»
4- «[...] achei deplorável a maneira como este jornal não cumpriu o 'Dever de Resposta' a que Luís Marinho tinha direito. [...] É uma obrigação editorial. Sem ela, um jornal de referência transforma-se num blogue de maledicências e arruaça.»
- Mário Crespo, "Os comediantes"
«[...] A atitude de Mário Crespo revela má-fé e configura uma deslealdade surpreendente. [...]»
- Direcção do Expresso, "Uma questão de rigor"
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José Sócrates,
Mário Crespo,
Miguel Sousa Tavares
Obrigatório ler
«[...]
A crítica de um livro que não suponha a inteligência e a soberania intelectual do leitor entra imediatamente numa outra categoria: a do marketing, a da difusão, a da propaganda. Não há nada a difundir, nada a aconselhar, nada que seja obrigatório. Presumir o contrário é entrar fatalmente no discurso da estupidez que se manifesta em injunções deste tipo: “Este livro faz-lhe falta, aceite o meu conselho.” Conseguir, no entanto, que alguém sinta, por si, em total soberania, uma falta que não sentira antes, isso sim, é a única tarefa capaz de nos salvar da horda triunfante de defensores dos livros e da literatura, dos quais, todavia, ela precisa de ser salva.»
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António Guerreiro
sexta-feira, 9 de março de 2012
The Art of Video Games *
«[…]
É certo que não podemos usar uma tripla combinação de botões para fazer Raskolnikov matar mais velhinhas, mas, noutras formas artísticas mais aceites, a participação do público (no teatro burlesco ou em certas instalações de arte conceptual, por exemplo) é encorajada. O jogo de computador exige escolhas do jogador que o filme e o romance não exigem do espectador e do leitor; mas a imaginação que concebe essas escolhas e as respectivas consequências não abdica necessariamente do seu controlo autoral.
Parte da dificuldade em resolver adequadamente o debate reside na instabilidade dos termos utilizados. Alguns milhares de anos e milhares de páginas depois de Aristóteles, uma definição clara do que constitui uma "experiência estética" ou uma “obra de arte” continua a ser inalcançável.
[…]
talvez as definições de "experiência estética" tenham de sofrer mais uma desestabilização, passando a incluir desidratação, ressaca e o atirar de uma consola contra a parede debaixo de uma chuva de impropérios.»
Rogério Casanova, "Game over. Restart." | Público/Ípsilon, 09.Mar.2012
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