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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Gusón Benítez, investigador da reprodução do touro bravo por partenogénese e da cravagem de bandarilhas sem mãos


Deparou-se-me no Público de anteontem, 31.Jul.2017, a cara risonha de uma luso-palestina em que nunca antes reparara.
Julgo tratar-se da primeira página de opinião que Shahd Wadi assina no diário de Belmiro de Azevedo, de David Dinis (medíocre), do Bloco de Esquerda e do "fervor em manobras" em geral; de há muito a esta parte o melhor diário português, que compro e leio, sem falhas, desde o começo em 05.Mar.1990, e vai para 15 anos assino. Deus guarde e conserve, muito mais do que ao Amorim, o senhor engenheiro Belmiro.

"O que aconteceu em Jerusalém?" abre assim: «Milhares de palestinianos e palestinianas* encheram as ruas de Jerusalém na sexta-feira passada».
Cheirou-me logo a esturro, mas resisti até ao fim. Na única ocorrência do adjectivo «extremista» e na única ocorrência do adjectivo «terrorista» era a dois judeus que a doutora Shahd se referia. Só depois de saber o que entretanto apurei, percebi que lhe estaria geneticamente vedado escrever «assassínio de dois agentes de polícia» em vez do que escreveu, «morte de dois agentes de polícia».
Enfim, sinais mais do que bastantes para não me resignar à etiqueta sumária, neutra, com que o Público introduzia a articulista — «Investigadora em Assuntos Palestinianos e Feministas» — e ter de ir googlar a criatura.
É certo que o Público não mente mas poderia ter ajudado o leitor a entender melhor o que iria ler, e ao que vinha a autora, ainda por cima sendo a primeira vez, se a tivesse apresentado assim, mais coisa menos coisa: «Feminista e activista da causa palestina, candidata pelo Bloco de Esquerda ao Parlamento Europeu em 2014».
É que "investigadora das causas" não tem de, necessariamente, ser "praticante das causas". A maioria das vezes, aliás, não será.
Por outras palavras, os "fervorosos" do Público sabem muito e não andam a pé... 

A propósito e antes de que me esqueça, Gusón Benítez não é campino nem toureiro. Trata-se de um simples cientista.

Pesquisando sobre Shahd Wadi, dá-se com ela, entre variadas paragens mais ou menos recomendáveis ao asseio mental, aqui e aqui
Incluo-me nos que intuem insanável, desde o início e pelos milénios fora enquanto esta merda não estoira de vez, a desavença entre os netos e os terabisnetos de Abraão. 
Na parte genealógica que me toca nauseia-me o bedum mas a ter de ser por um lado serei, sem alternativa, por Israel. Já os palestinos são, como se sabe, malta meiguinha, inofensiva, civilizada, democrata e fixe, sempre por Alá. Mas também há por cá. No Público, por coincidência — coincidência com quê, Plúvio? — o mais aguerrido bastião antitourada entre os grandes órgãos da imprensa nacional, adoram-nos.
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* Se o ridículo matasse … 

Por exemplo, Isabel Moreira. 

Concedendo à irrequieta colunista da Visão que frases como 
«Sendo evidente que todas e todos queremos cuidados paliativos de qualidade e abrangentes», 
«o seu compromisso não é com os valores da Constituição laica que dá a cada uma e a cada um a possibilidade de fazer as mais íntimas escolhas pessoais»
ou 
«ignorando a autonomia de cada uma e de cada um para encher de sentido o conceito de "valor da nossa própria vida"», 
constituem padrão aceitável de redacção — t'arrenego! —, então tem de se admitir que a senhora deputada do PS, jurista, Mestre em Direito Constitucionalex-professora universitária, é uma deficiente a escrever.

Assim, onde na crónica em apreço  escreveu …,  deveria ter escrito … :

sessão legislativa sobre os direitos dos doentes em fim de vida / 
sessão legislativa sobre os direitos das doentes e dos doentes em fim de vida

Transcreve para um diploma todos os direitos dos doentes em fim de vida que já se encontra consagrados / 
Transcreve para um diploma todos os direitos das doentes e dos doentes em fim de vida que já se encontram consagrados 

única alternativa do doente / 
única alternativa da doente e do doente 

impor um único modelo de cidadão / 
impor um único modelo de cidadã e de cidadão 

os democratas-cristãos sabem por todos o que é melhor para todos / 
as democratas-cristãs e os democratas-cristãos sabem por todas e por todos o que é melhor para todas e para todos 

dom de Deus à imagem do qual fomos criados / 
dom de Deus à imagem do qual fomos criadas e criados 

argumentos que têm a humanidade de descerem à terra / 
argumentos que têm a humanidade de descer à terra 
Uf!


Por exemplo, Sandra Cunha, deputada BEata.
«Um Estado democrático tem de garantir a igualdade de direitos a todos e a todas»

«Mais de 67% das pessoas não revelam a sua orientação sexual** no trabalho» 
Oh admirável e BEndita precisão

Se o ridículo matasse
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** Como se qualquer "orientação sexual" não fosse, per se, uma desorientação...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Rescaldo dum serão — Todos, todas, tudo e o mais

Fervorosas e extraordinárias coisas se disseram e gritaram.
O Bloco de Esquerda anda alucinado e tentou atirar-nos poeira aos olhos.
Marcelo cantou.
António Costa, feliz, proferiu um dislate afrontoso.
Maria de Belém sem lepra nem lepro. 

20h06 [José Gusmão, direcção da campanha de Marisa Matias, inebriado]— Um resultado que será de longe certamente o maior resultado alguma vez obtido em eleições presidenciais de uma candidatura desta área política.* […] A candidatura da Marisa foi a candidatura que mais espaço político conquistou durante este processo eleitoral. Foi uma candidatura que conquistou dezenas de milhares de eleitores à abstenção.

20h13 [Correia de Campos, mandatário nacional de Sampaio da Nóvoa]— Os primeiros resultados que foram divulgados com base em sondagens à boca da urna manifestam que existe ainda uma grande incerteza sobre o resultado final.
Homem de fé.

20h41 [Maria de Belém, candidata vencida]— Boa noite a todos. […] Saúdo todos os portugueses, designadamente os cidadãos eleitores.
Felicite-se, desta vez, a candidata libelinha videirinha que poupou o auditório à lepra do gargarejo "politicamente correcto".

- Doutor Manuel Alegre, ficou desiludido?
- Doutor Manuel Alegre, como é que fica o Partido Socialista?
- Esperava uma vitória à primeira volta do professor Marcelo Rebelo de Sousa, senhor doutor?
- Quem é que fez essa campanha [Manuel Alegre acusara indeterminados de "uma campanha ignóbil" contra Maria de Belém], senhor doutor?
Esperar-se-ia que o barítono de Águeda, cuja habilitação escolar completa é o antigo 3.º ciclo liceal, pedisse ao repórter da SIC qualquer coisa como Por favor, não me trate por doutor!, mas o mais perto que andou disso foi Não me empurrem, por favor! - 00:12

21h16 [Marisa Matias, candidata vencida, levitante] Em democracia, o mais precioso que temos é mesmo a decisão dos portugueses e das portuguesas

21h31 [Edgar Silva, candidato vencido]— É meu dever agradecer a cada um dos portugueses e a cada uma das portuguesas […] Saúdo cada um dos portugueses e cada uma das portuguesas.

21h46 [Sampaio da Nóvoa, candidato vencido]— Boa noite e obrigado a todos e a todas. [...] Nesta noite, tenho apenas duas mensagens para os portugueses e para as portuguesas. [...] A segunda palavra é para me dirigir a todos e a todas que fizeram esta campanha extraordinária. [...] Peço a todos e a todas que apoiaram esta candidatura [...] A todos e a todas, muito e muito obrigado.

21h53 [Catarina Martins, porta-voz do BE, em evidente estado de alucinação]— É o maior resultado numas presidenciais à esquerda*. O maior de sempre da área política do Bloco de Esquerda*. A Marisa Matias mobilizou da esquerda à direita, mobilizou na abstenção, mobilizou todas as pessoas que mesmo sofrendo tanto não desistem do país. Mobilizou quem nunca soube o que era um contrato de trabalho mas luta por um futuro com dignidade no nosso país.
Se o ridículo matasse... [...] Parabéns, Marisa Matias, que grande campanha!
Se a pastorinha do venerando Boaventura mobilizou tanto e em tanto lado, como conseguiu perder mais de 80 000 votos dos que o Bloco de Esquerda obtivera em 04.Out.2015? Nas 10 presidenciais desde 1976, só numa 2011, reeleição de Cavaco Silva , a abstenção, 53.48%, foi superior à desta eleição, 51.16%. Isto é que foi mobilizar, doutora Marisa!

22h11 [Marcelo Rebelo de Sousa, candidato vencedor, presidente eleito, num discurso razoavelzinho], a abrir— Portuguesas e portugueses […] Não há portugueses vencedores ou vencidos. Não há vencidos nestas eleições. [...]portuguesas e portugueses sem excepções nem discriminações.
Lérias, conversa de sempre; claro que há vencedores e vencidos. Neste caso, uma candidatura e os seus eleitores venceram, nove foram vencidas.
[...] Serei a partir de agora o presidente de todas as portuguesas e de todos os portugueses. [...] Saúdo igualmente os meus oponentes** nesta eleição, que nunca foram meus adversários.
Foram adversários, ai isso é que foram! 
[...] Portuguesas e portugueses, [...] não deixarei de ser em termos sociais empenhado e actuante olhando preferencialmente para […] os que vivem nas periferias da sociedade, de que fala o Papa Francisco.
Gritou-se na Faculdade de Direito de Lisboa «Viva o Papa!». Receei que o professor puxasse do terço. O doutor Mário Soares há-de ter gostado.
[...] Confio nas portuguesas e nos portugueses.


22h34 [António Costa, primeiro-ministro, não disfarçando o regozijo pela eleição de Marcelo]— Quero formular votos sinceros — Nunca António Costa terá sido tão sincero. — dos maiores sucessos no exercício do mandato que hoje lhe foi conferido pelas portuguesas e pelos portugueses. [...] Ao Presidente da República ora eleito quero reafirmar o compromisso da máxima lealdade e plena cooperação inchtucional.
22h35 [O doutor António Costa, num desconchavo grave e insultuoso]— Quero congratular-me muito em especial pelo facto de, ao contrário do que vem acontecendo em outros países europeus, os portugueses terem rejeitado claramente as candidaturas populistas e que se apresentavam como sendo anti-sistema, o que revela uma saudável confiança de que é no quadro democrático e só no quadro democrático que encontramos respostas para as ansiedades, os desgostos e os problemas que temos pela frente [...]
'candidaturas populistas' ainda é o menos; no fundo, todas têm disso. Agora, 'anti-sistema', fora do quadro democrático?! A quais, destas 10 pessoas, se referia? Que candidaturas, das 10, se «apresentavam» em tais preparos? A República Portuguesa deverá exigir à presuntiva limpidez e frontalidade democráticas deste primeiro-ministro que diga de quem falava.  
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* Mentira, mentira. É consultar a história. Desde o bambúrrio de 4 de Outubro, que fica a dever a Ricardo Salgado [deixem-me imaginar como estaria hoje o BE, não fosse a tranquibérnia do BES], o Bloco de Esquerda anda numa BEbedeira pegada. Nem para administrar um pequeno condomínio confiaria nesta BEatífica, arrogante e alucinada gente. 

** «[...]
Tal como Marisa Matias, (Marcelo Rebelo de Sousa) elogiou a democracia e os “oponentes” (substantivo deselegante) que o elegeram.
[...]»
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Insisto: o resultado destas presidenciais só poderá ser tomado por correcto e definitivo depois de dilucidado o escrutínio da mirabolante secção de voto n.º 27 da União das Freguesias de Santa Iria de Azóia, São João da Talha e Bobadela.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Maria de Belém

Por estes dias li e ouvi encómios ao discurso; parece que fora coisa densa e poética. «O discurso dela é um discurso muito forte.», exarou o doutor Alberto Martins
Fui ver. Transcrevo:
«[...]
Sinto que o meu primeiro dever é o de enunciar de forma sucinta e clara as razões políticas da minha candidatura à Presidência da pública, dando assim resposta à pergunta legítima que todas e todos* têm o direito de fazer. Porque é que decidi candidatar-me à Presidência da pública?
[...] 
Candidato-me à Presidência da pública porque estou convicta que posso ** dar um contributo pessoal e político para a melhoria das condições de vida dos meus concidadãos… 
[...]
Candidato-me à Presidência da pública porque pretendo dar um sentido de unidade e de pertença, assente na dignidade da pátria e no orgulho de ser português, a todas as portuguesas e portugueses* espalhados pelo mundo.
[...]
Caras amigas, caros amigos, caros concidadãos*, numa pública democrática não há coroação nem nomeação para a presidência.
[…]
Olho para o meu país e vejo o talento das portuguesas e dos portugueses*, uma nação valente que não se vêrga às adversidades.***
[…]
Caras amigas, caros amigos, caros concidadãos*,O meu compromisso éo de realizar uma presidência das pessoas, uma presidência para as pessoas, uma presidência pelas pessoas, uma presidência com as pessoas.
[…]
É minha convicção que Portugal deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para manter, completar e aprofundar o proto de integração europeia. Este proto de realizar uma união política europeia é absolutamente vital... 
[...]
Portugal que todas e todos* queremos e que só com as palavras de um poeta podemos atrever-nos a descrever: 'O teu destino é nunca haver chegada / o teu destino é outra Índia e outro mar / e a nova nau lusíada apontada / a um país que só há no verbo achar.

Maria de Belém citou explicitamente Amayrta Sen e — podia lá faltar!?,  ainda por cima com dois padres a bordo... — o Papa Francisco. Não se entende porque não identificou Montesquieu [«nas palavras de um grande pensador da liberdade e da democracia, 'desse amor à igualdade que é o amor à pátria'».], mas entendo que nomear o bardo de Águeda, ali presente e abençoador, pudesse soar a demasiado putedo ou a concubinato poético ["Portugal"].

- Candidato-me à Presidência da pública... 
Caras amigas, caros amigos, caros concidadãos...*
- Olho para o meu país e vejo... 
Nos 20 minutos e 35 segundos que a arenga redonda durou, deram-se 16 efusões de aplauso. Na sala Sophia de Mello Breyner do CCB, em 13 de Outubro de 2015 repleta como nunca de gente moça, ninguém contudo superou o estrídulo empolgamento do jovem sentado na ponta direita desta fotografia

Admito que foi discurso para valer mais do que um peido furado; mas não mais do que uma unha roída.

Uma coquetezinha, betinha, videirinha, catolicazinha, tagarelazinha na Presidência?
*** Força na verga e viva a Nação!
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Discurso integral [vídeo amador].
Outros vídeos com partes da apresentação da candidatura:
Este - este - este - este

** Já agora, «estou convicta de que posso»; diz ela de que.
demarco, Masculino de Portugal:
- república
- não se verga
- projecto

quinta-feira, 26 de junho de 2014

sobre o tremor do maremoto

«estava o rei em suas câmaras, mandou que lhe trouxessem as
                                                                                  fêmeas,
disse:
entre os sete e os setenta, ineptas, hábeis,
de ao pé das águas,
e lhes imitem o movimento,
ou ásperas, ou raparigas que se desfaçam quase
de serem súbito tocadas,
inacessíveis no sentido mais recôndito,
fúlgidas, frígidas,
fêmeazinhas de cândido repouso carnal,
e então o demónio as possua e elas subam acima de
                                                        qualquer linha,
que em eu, rei, as tocando, logo soçobrem,
logo tremam, gritem, se desfaçam e refaçam e subam
como se Deus as tocasse entre o cu e a côna,
oh fêmeas ininterruptas,
quero-as de todas as raças, longilíneas, espessas, sedosas,
                                                              árduas, amaras,
bravas debaixo das minhas unhas,
ou humílimas como cadelas domésticas domadas pelas
                                                                   palavras,
ou subtis movidas lunaticamente pela forma poética
— quero ser confirmado,
intrínseco,
tornado vasto como dez campos de aveia compacta,
rio fantasista concorrido por outros mais pequenos,
disse: vão à caça e tragam-mas:
nuas, vestidas, violentas, descalças, catorzinhas, inspiradas,
revôltas, ou como óleo entre os dedos,
e que cheirem ou a cabra ou a jasmim 
lírico, difuso, suprarreal, nocturno,
estava o rei em suas câmaras dolorosas e ordenou as
                                                                  músicas,
e perguntou alguém: ¿Salomé, a cabeça de S. João Baptista
sangrando numa bandeja de ouro?
(não a cômo! — gritou ele),
ou a teoria dodecafónica,
ou uma frauta cabreira,
ou a voz acerbadamente fugida da Dietrich,
ou esse fantasma de voz quebrada pelo soluço da Marylin*,
ou Mahala** Jackson,
para ele, rei em suas câmaras, morrer durante a noite
                                                                     inteira?
— só lhe falta a rapariga esquiva que ele pense que é um
                                                                        enigma,
só lhe falta saber tudo,
só lhe falta a mulher para morrer com ele,
a mulher que só há nele, no fundo,
a morta nele que de noite ressuscita,
e pelo dia todo de cada dia da terra
lhe rouba a alma,
o ceptro,
o segredo de ser senhor de tudo
(menos dela que é pensamento sensível
dos elementos juntos dois feito como do mundo,
etc.)
tragam-ma —
e vão trazendo mas nunca lhe trazem a mulher que está nele,
e ele não lhe toca nem de olhos nem de boca nem do nó de
                                                                      um só dedo
da mão que firma o ceptro sobre a terra,
o rei sòzinho no meio das mulheres menos a outra
(que é mãe e filha de todas),
e que pode um rei assim fazer senão deixar que as águas o
                                                                            subam
pelas câmaras acima e afoguem tudo,
como o mundo está sempre à espera que aconteça,
pois está escrito nos livros,
está marcado a fogo nas cabeças,
treme em todos os sentidos de quem vive nas câmaras,
ela nas altas montanhas ele ao rés das águas baixas,
sobre o tremor do maremoto,
sobre a ameaça maior do desejo do seu corpo pelo corpo
                                          que está selado dentro dele,
porque ele é rei apenas no fundo dos espelhos que
                                estremecem cheios de água,
— levem (lavem) a minha cara, eu sou outro,
levem a minha alma,
levem a minha amante e troquem-ma por outra,
outra mais conforme à mulher que não existe,
e ponham tão baixo a música que deitado no chão estreme
só eu a ouça, a música escrita apenas
para a minha loucura, a paixão, a aflição, a explicação
da minha biografia irónica e sensível:
e não se esqueçam: as putas todas e as virgens todas nas
                                                   minhas câmaras vazias,
manda o rei terrífico com voz política,
aquela voz de muito falar já treme um pouco,
que eles não saibam sobretudo que já estou demente
(mas toda a gente sabe),
tragam-me as putas todas, religiosas, profanas ou outras,
o meu pénis tem o tamanho de um ceptro
(e ergue o ceptro que tem cerca de metro e meio,
e na verdade o sexo dele é até maior um pouco),
traspasso-as da côna ao coração
(e que mulher não tremeria de pânico e oculto gozo?),
e assim passa ele o tempo e o medo e o mundo»

Trasladado de "A morte sem mestre", de Herberto Helder
[Páginas 34/38]
Porto Editora
1.ª edição: Maio de 2014
[À venda desde 09.Jun.2014]

«Reservados todos os direitos. Esta publicação não pode ser reproduzida, nem transmitida, no todo ou em parte, por qualquer processo electrónico, mecânico, fotocópia, gravação ou outros, sem prévia autorização escrita da Editora.»
© Porto Editora, 2014

Sou um delinquente.
____________________________________
* A senhora chamava-se Marilyn. *** 
** A senhora chamava-se Mahalia.
Responderá a PE, limpando as mãos à parede da cagada que fez: «não alteramos a intenção do poeta».
Fodam-se.

*** Leitor bem mais atento do que eu, e não menos indignado, vem hoje, 27, chamar-me a atenção para o erro em Marylin, que ontem me escapara. Agradeço-lhe.
Não alcançando com que espécie de intencionalidade poderá HH ter gralhado dois nomes próprios em dois versos consecutivos da página 36, avoluma-se-me penosa dúvida alastrada às 64 páginas da obra: que confiança textual pode merecer esta edição? Pelos vistos, pouca.
A propósito de "A morte sem mestre", começa a impor-se a pertinência de novo livro da Porto Editora. Não direi 2.ª edição  Herberto Helder proíbe-as , mas uma urgente sequela: o Livro de Reclamações. Por mim, dispenso CD de oferta.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Mário Soares enlouqueceu? *

«O mundo está cada vez pior. A natureza está a revoltar-se contra as agressões sobre a Terra que os mercados usurários lhe estão a causar. O que se passou recentemente no Chile é um exemplo de grande gravidade. Mas não só no Chile, também agora no Nepal, com repercussões na Índia, China e Bangladesh, onde um sismo de grande proporções vitimou milhares de pessoas. Não podemos ver estes factos como meros fenómenos naturais. Mas atenção, se não se agir contra, a Terra, a nossa Casa Comum, corre grandes riscos...»
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*- Mas, ó Plúvio, loucura, ok, todos temos um pouco. E santo, o Marocas, nada?
- Muito:
«A chanceler Merkel, invocando o dinheiro alemão e impondo a política dita de austeridade aos Estados vítimas dessa mesma palavra, que mata, como disse o bom Papa Francisco»
06.Mai.2014
«a austeridade que mata, como diz o Papa Francisco.»
27.Mai.2014
«há personalidades excepcionais que se impõem hoje no mundo, como amantes da paz, da democracia social, dos direitos humanos e do respeito pela natureza. A principal, sem dúvida, é Sua Santidade o Papa Francisco, o amigo dos pobres. Digo-o com total independência porque, como se sabe, nunca fui religioso. Não é só por ser amigo dos pobres e por falar, por igual, com crentes e não crentes, sejam de que natureza for. Mas também por procurar a igualdade entre homens e mulheres e ser contra o domínio dos mercados usurários que hoje controlam a política e estão a destruir o mundo, em busca dos negócios, que lhes tragam cada vez mais dinheiro, mais petróleo, mais gás, mais ouro e outras riquezas e, por outro lado, a destruir perigosamente o ambiente. O Papa Francisco é contra o negocismo, em especial no Vaticano, mas não só, e deplora a austeridade, que, segundo ele, mata.
[…]
Voltando ao Papa Francisco. Na noite de sexta-feira 13 de Junho, Portugal assistiu, através da SIC, a uma entrevista feita por um jornalista judaico, Henrique Cymerman. O Papa respondeu-lhe muito bem e com grande paciência e bondade. O jornalista nem sequer falou uma só vez da Palestina...»
17.Jun.2014
«A Troika é quem manda e a austeridade que, como disse o Papa Francisco, mata, continua a mandar.» 
07.Out.2014
«como disse Sua Santidade o Papa Francisco, a austeridade mata.
[…]
Não sendo religioso tenho seguido com muita atenção tudo o que tem defendido o grande Papa Francisco. É alguém que tem vindo a dar à Igreja um novo rumo de grande importância. Nos últimos dias bem o demonstrou com a abertura de espírito que sempre se tem imposto.»
21.Out.2014
«Os discursos a que me referirei a seguir, de Jean-Claude Juncker e de Martin Schulz, são a prova de que tudo está a mudar, mesmo a austeridade, que mata, como escreveu o Papa Francisco.» 
28.Out.2014
«Um Governo que depende da Troika e que mantém ainda agora a austeridade, que conduz, como diz o Papa Francisco, ao pior.»
04.Nov.2014
«O EXCEPCIONAL PAPA FRANCISCO
Uma edição especial sobre o Papa Francisco foi publicada agora na revista francesa Le Figaro. Vale a pena lê-la porque se ocupa das lições a tirar do Sínodo, de como se governa a Igreja, da visão que tem do Mundo, das reformas que tenciona fazer no Vaticano e, finalmente, de quem é Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco. Não sou religioso, como se sabe, mas não deixo de ter por este Papa um enorme apreço e admiração.»
18.Nov.2014
«No dia em que este texto for publicado, Sua Santidade o Papa Francisco irá falar no Parlamento Europeu, a convite do Presidente Martin Schulz. Será um excepcional e único acontecimento para a União Europeia.»
25.Nov.2014
«SUA SANTIDADE O PAPA FRANCISCO
Nunca o Vaticano teve um Papa com a bondade, a generosidade, a dignidade e a capacidade de falar com toda a gente e de correr o Mundo dialogando com católicos e não católicos e crentes e não crentes. Não sou religioso, como se sabe. Não obstante conheci pessoalmente vários Papas, de grande valor, que tive a honra de visitar no Vaticano e que nos anos em que fui primeiro-ministro e presidente da República me visitaram. Mas devo reconhecer que nenhum se pode comparar ao Papa Francisco que, infelizmente, não conheço. A minha Mulher, que se tornou católica desde que o nosso Filho João esteve a morrer e se salvou, é desde então crente e já foi a Roma ver este Papa. O discurso que o Papa Francisco fez no Parlamento Europeu a convite de Martin Schulz, um excelente Presidente do Parlamento, foi notabilíssimo. Condenou as práticas tecnocráticas e economicistas da União Europeia e apelou ao humanismo da acção e ao reforço da dignidade das pessoas. Com uma reacção impressionante e positiva de todos os Grupos Parlamentares. Foi inédita a ida do Papa Francisco à Turquia, onde foi recebido com todo o respeito pelos mais altos dignitários da Igreja Ortodoxa, que têm tomado consciência do papel do Papa Francisco em prol da paz e da dignidade da pessoa humana.
[...]
Só duas pessoas têm criticado a nível mundial o pior: o Papa Francisco e o Presidente Barack Obama, que sabem os perigos do futuro e têm feito tudo para o tornar melhor. Que sejamos capazes de lutar pelo que nos ensinam. Visto que ambos, crentes ou não, se compreendem bem.»
02.Dez.2014
«O PAPA FRANCISCO
Os portugueses, em geral, sabem que não sou religioso. Mas num país de gente católica e dadas as funções que exerci, conheci alguns Papas que vieram a Portugal - e em especial a Fátima - e eu tive que os acompanhar, e um pelo menos levei à Madeira e aos Açores. Outros como João Paulo II, visitei no Vaticano quando fui a Assis. O meu Pai foi padre - mas conseguiu casar religiosamente com a minha Mãe - que não era especialmente religiosa ou, como dizia o meu Pai: "Só se lembrava de Santa Bárbara quando trovejava..." Vem isto a propósito do actual Papa Francisco que eu considero alguém de muito excepcional qualidade ética e que muito admiro. Há um livro intitulado "A Revolução suave do Papa Francisco" da autoria de Victor Manuel Fernández em conversa com Paolo Rodari, de tradução portuguesa, que diz: "Para o Papa Francisco, a Igreja deve saber adiantar-se, tomar a iniciativa sem medo, sair ao encontro, procurar o que está longe e ir às encruzilhadas dos caminhos, convidar os excluídos". É o que tem feito de uma forma extraordinária. Sua Santidade o Papa Francisco na mensagem que enviou à vigésima Conferência sobre o clima, que terminou no dia 12 no Peru disse - cito: "O tempo para enfrentar as mudanças climáticas está a esgotar-se". É em absoluto verdade. Cito: "As consequências das alterações climáticas, já se sentem de forma dramática... Lembram-nos da gravidade da incúria e da inacção". Honro-me de ter dito isso mesmo no ano passado quando as ondas enormes destruíram parte das areias de toda a costa portuguesa. O Papa Francisco é um homem invulgar que fala com toda a gente, sobretudo os mais pobres e mais necessitados, que vai a todo o lado e que dialoga com os crentes e os não crentes e toda a espécie de religiosos: ortodoxos, judeus e islamitas. E é acima de tudo um verdadeiro Santo.
[…]
Falo da mudança de clima como referiu o Papa e do que já escrevi em textos anteriores, mas que de novo vai acontecer, como ou pior, do que no passado inverno, quando destruiu muitas das nossas praias.»
23.Dez.2014
«impuseram-se duas personalidades de excepção, que sendo muito diferentes, se evidenciaram em defesa de causas da humanidade, sobretudo dos mais pobres, doentes, velhos e jovens, e se bateram contra o endeusamento dos mercados. São eles o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama e o Papa Francisco.
[…]
Quanto ao Papa Francisco, pode considerar-se verdadeiramente excepcional visto que está a transformar, no plano da igualdade democrática, o Vaticano. Mas não só. No plano internacional, tem percorrido o Mundo e, por onde passa, propõe activamente a paz, a luta pela dignidade das pessoas e dos seus direitos, destacando especialmente os que mais sofrem. Fala com católicos e seguidores de todas as outras religiões, crentes e não crentes. Por isso as pessoas de todos os Continentes o respeitam e os que acreditam nos direitos humanos, o admiram.»
30.Dez.2014
«O PAPA FRANCISCO
«Na época natalícia o Papa Francisco não se cansou de defender os pobres onde quer que existam. Mas a mensagem papal no início do ano — 1 de Janeiro de 2015, também o Dia Mundial da Paz — foi excepcional, evocando "a luta contra as formas modernas de escravidão". Na União Europeia, desde a sua fundação, nunca se pensou em qualquer forma de escravatura. Talvez porque todos os Estados tinham uma forma aberta de democracia social e de liberdade. Que desapareceu em Portugal na actualidade. Mas os mercados usurários, não só criaram grandes problemas à Terra, a ponto de a poder destruir, como através da globalização tentaram criar na União Europeia crises, em vários Estados, de forma a destruí-los através da chamada austeridade, que segundo o Papa, mata e que o Governo português desgraçadamente continua a manter. Talvez, por isso, na Mensagem do 1º de Janeiro, o Papa Francisco pediu — e muito bem — que se lute "contra as formas modernas de escravatura".
[...]
milhares de portugueses foram obrigados a emigrar por falta de trabalho, além de muitos outros terem visto serem reduzidas as suas pensões, a ponto dos filhos e eles próprios passarem fome. Não será isto, como disse o Papa Francisco, "uma forma de opressão moderna"? Ou seja, volto a citá-lo: "a corrupção de quem está disposto a fazer qualquer coisa para enriquecer". Não há qualquer oportunidade para trabalhar em Portugal e por isso há tanta escravidão e servidão. Há imensa corrupção e, como disse o Papa na sua Mensagem de Ano Novo, "A corrupção acontece no centro de um sistema económico onde está o deus dinheiro e não o homem, a pessoa". E acrescentou: "as formas de escravidão modernas são a prostituição e o tráfico de órgãos", tendo também destacado "o direito de toda a pessoa a não ser submetida à escravidão nem à servidão". Por fim, referiu "os conflitos armados, a violência, o crime e o terrorismo", ou seja, outras formas de escravatura. O Vaticano está de parabéns com este extraordinário Papa.»
06.Jan.2015
«UM PAPA ADMIRÁVEL
Apesar de não ser religioso, como os portugueses sabem, por dever de ofício tive a honra de conhecer vários papas inteligentes e extremamente correctos. Mas nunca nenhum como o Papa Francisco, que admiro imenso, apesar de nunca ter tido a oportunidade de o conhecer pessoalmente. A minha mulher sim, foi a Roma especialmente para o conhecer e, no meio da multidão, beijou-lhe as mãos. E não o esquece e admira-o, tendo lido quase todos os livros publicados sobre o Papa. No último domingo, o Papa Francisco esteve nas Filipinas e não deixou de criticar "as escandalosas desigualdades sociais do país e a necessidade de dar combate às corrupções". Disse-o numa missa com sete milhões de pessoas. Situações que não existem só nas Filipinas mas também em alguns Estados da União Europeia, como por exemplo em Portugal, devido também à austeridade que tem vindo a destruir o nosso pobre país, desde que existe o actual governo. Austeridade, diga-se, que o Papa Francisco diz — e muito bem — "que mata". O Papa Francisco disse nas Filipinas que "a corrupção é endémica e atravessa todos os sectores da economia, da administração pública e do sistema judicial, através de aliciamentos, subornos, desfalques, negócios paralelos, nepotismo e favorecimento". E acrescentou que "em 2008, o Banco Mundial considerou este país o caso mais grave de corrupção da Ásia". Pensei em Portugal e perguntei-me: se o Papa vier um dia a Fátima e compreender o que se está a passar no nosso querido país, o mais pobre da União Europeia, sem que o patriarca lhe diga nada sobre a situação do nosso povo, tão amargurado e exaurido e que levou tantos portugueses ao exílio, o que irá pensar e dizer? Nada de bom, seguramente.»
20.Jan.2015
«Austeridade que mata, como disse o Papa Francisco com a sua sagacidade.»
27.Jan.2015
«há duas figuras exemplares que tudo têm feito para mudar a situação deste nosso planeta, que pode desaparecer de um momento para o outro. Refiro-me ao Papa Francisco e ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.
[…]
(Pedro Passos Coelho) considerou a vitória de Tsipras como uma brincadeira de crianças e pretende manter a austeridade que, segundo o Papa Francisco, mata.»
03.Fev.2015
«E que deixe cair a austeridade, que mata, como disse o Papa Francisco.»
10.Fev.2015
«Como o Papa Francisco com a sua visão vem dizendo: "a austeridade mata".»
17.Fev.2015
«a austeridade que mata, como diz o Papa Francisco, mantêm-se inalterável.
[…]
ministros gregos, que entendem como necessário para os Estados democráticos e de direito acabar em absoluto com a austeridade que, como tão bem disse o Papa Francisco, mata.»
24.Fev.2015
«o Papa Francisco, que tem tido uma extraordinária importância na relação entre o que pensa e diz e as pessoas que, por todo o mundo, o ouvem. Por mim, que não tenho qualquer religião, mantenho por ele uma grande admiração.»
24.Mar.2015
«Os contactos que António Costa teve com o Papa Francisco, bem como com os socialistas espanhóis e italianos, foram importantes.
[…]
também contam a inteligência do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e todas as importantes acções do grande Papa Francisco, sempre ao lado dos pobres.»
31.Mar.2015
«(António Costa) conheceu e falou com o Papa Francisco, amigo dos pobres e dos que defendem a democracia e a liberdade.
[…]
Toda a gente sabe que não sou religioso, de nenhuma religião. Mas nestes últimos dias decidi ler alguns textos do Papa Francisco de grande sensibilidade humanística. Fala com toda a gente e sobretudo com os mais pobres e necessitados, tendo na Páscoa visitado presos de uma cadeia italiana e denunciado o massacre contra católicos no Quénia. Essa característica fez que eu, talvez pela primeira vez, tenha respeitado a Quinta-Feira Santa, que, fiquei a saber, foi o nome dado ao dia em que Jesus celebrou a Páscoa judaica com os seus 12 discípulos. Evento também conhecido como a Última Ceia. Mas também segui a Sexta-Feira Santa como uma festa religiosa cristã, que relembra a crucificação de Jesus Cristo e a sua morte no Calvário. E ainda a comemoração da fé cristã, a crença de que Jesus morreu e ressuscitou ao terceiro dia, que culmina no domingo de Páscoa. Claro que nos tempos que correm não se pode invocar tão-só a fé cristã, porque há outras religiões que se impõem, particularmente a religião muçulmana, que, porventura num futuro próximo, terá mais seguidores do que a cristã. Num mundo em crise, em que há tantas guerras e conflitos, pobreza e outras desgraças, é importante ter em conta as diferentes religiões. Tendo o Papa Francisco apelado ao espírito de solidariedade que, como diz "... constitui um fermento de esperança".»
07.Abr.2015
«antes do [de o, s.f.f., senhor doutor] actual governo ter iniciado as suas funções, aderindo à austeridade que mata, como diz o Papa Francisco
[…]
sempre considerei o presidente Barack Obama um político excepcional, só igualável ao Papa Francisco»
14.Abr.2015
«O Papa Francisco pronunciou-se com muita inteligência sobre o assunto e fez um apelo veemente à União Europeia para que se encontrem soluções para a tragédia a que se tem assistido»
21.Abr.2015
«como o Papa Francisco diz, a austeridade mata, e tem vitimado muitos portugueses. É preciso acabar com ela.»
28.Abr.2015
- Palavras de Mário Soares, negritos meus, recolhidas aqui e aqui, do seu apostolado no Diário de Notícias dos últimos 12 meses, de Maio de 2014 a Abril de 2015 -

Com três padres a jantar lá em casa e o bordão Papa Francisco a formigar-lhe a prosa, não espanta que Mário Soares, "apanhado do clima", rume agora para a santidade, desacreditando e borrifando-se no entendimento do mundo físico do seu proto amigo fraterno Mário Ruivo. A esta hora da madrugada e ante a insânia dos elementos, não consigo confirmar se o emérito cientista e conselheiro vitalício da fundação epónima perfilhou entretanto, igualmente, alguma explicação sócio-económico-político-financeira do ciclo das marés e da direcção dos ventos.

Apetece dizer que a natureza é humana.

Contra terramotos e vulcões, marchar, marchar!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Rescaldo dum serão eleitoral

um lustro certo depois deste.

Domingo, 24.Jan.2021 - Eleições presidenciais 

«Agradeço, do coração, a militantes do Volt e a tantos e tantos cidadãos e cidadãs independentes que trabalharam para eu estar hoje aqui. A minha candidatura fez-se, desde a primeira hora, do empenhamento de milhares de socialistashomens e mulheres, mais velhos e jovens, que de norte a sul, da beira às regiões autónomas dos Açores e da Madeira me apoiaram e ajudaram decisivamente a aqui chegar hoje. A todas e todos, eles e elas, o meu fraternal reconhecimento, com especial destaque para os membros do governo, os deputados e deputadas, os autarcas que deram a cara e estiveram ao meu lado.»
Mandariam a congruência linguística e as melhores práticas que tivesse dito «tantas e tantos», «socialistas e socialistos»,  «membras e membros», «as autarcas e os autarcos», «a cara e o focinho».

A glória inoxidável da derrota
«Estou convencido de que Ana Gomes fica 2% à frente de André Ventura quando encerrarmos as votações.»

«O resultado não é o que eu desejava. Não é o que mereciam as pessoas que me acompanharam, que me deram força e que estiveram comigo. Este resultado não é também uma falta de comparência. Hoje como ontem, amanhã como hoje cá estarei para todas as lutas, para ganhar e para perder como fiz sempre e como faz toda a minha gente.»

«A Marisa Matias foi a candidata que fez o discurso claro contra o racismo e a xenofobia. Foi a candidata que fez o discurso claro em nome da igualdade e contra a violência contra as mulheres num país onde tristemente as mulheres são assassinadas quase uma por semana em tantos dos anos*. Essa coragem da Marisa Matias inspira muita gente, inspira-me a mim seguramente e estou-lhe muito grata. As noites eleitorais, umas são melhores, outras são piores, mas há uma coisa que nós sabemos: é a firmeza daquilo em que acreditamos e a justeza daquilo em que acreditamos que abre caminhos para o dia seguinte. E é isso que faz a Marisa, abrir caminhos, fazer pontes** muito para lá de qualquer resultado. A Marisa estava cá antes do dia antes das eleições a fazer a luta dos cuidadores informais, a fazer a luta do Serviço Nacional de Saúde, a fazer a luta pelos direitos de quem trabalha, a fazer a luta pelo bem-estar animal***, a fazer a luta pela igualdade por inteiro sem pôr nenhuma luta em lista de espera. A Marisa é essa força grande pela dignidade e por um país melhor e eu tenho o enorme privilégio de saber que vamos continuar a lutar as duas juntas já amanhã.»
[Olh'o Luís Oriola! Pensava que só trabalhasse para o Estado. Afinal, é geringôncico.]
Aqui chegado, convido o paciente freguês do Chove a deter-se por segundos nestes dois instantâneos da ágape coimbrã do Bloco de Esquerda festejando e agradecendo à pastorinha do bonzo de Coimbra a vantagem heróica de 1,01% sobre os 2,94% obtidos pelo probo calceteiro de Rans em quem repeti o meu voto de 2016. É da minha vista, perdão, é do meu ouvido ou vai por ali  uma desavença insanável entre os intérpretes de língua gestual? Quando uma aponta para cima a outra aponta para baixo, quando o Oriola ergue a mão ela baixa-a... Em que ficamos? Que dizem, afinal, Marisa e Catarina? Não nos baralhem a surdez, porra, entendam-se!  

* Catarina a esticar-se, fervor em manobras. A própria Marisa não vai tão longe:
«[...] A eurodeputada lembrou os números: a cada semana uma mulher é assassinada ou vítima de tentativa de homicídio [...] Um a um, Marisa Matias leu o nome das mulheres assassinadas em Portugal em 2020. Leu 27 nomes [...]»
Ora bem. Nos últimos 17 anos, de 2004 a 2020, foram assassinadas 561 mulheres em Portugal, em contexto familiar violento. Como recomendava o outro, é fazer a conta.
Esta gente não poupa esforços, raiando a manipulação e a mentira, para ajustar os factos ao seu evangelho.
Não precisaria de o dizer: um assassínio que fosse seria demais. 

** E consertar autoclismos? Estou a precisar. 

*** Estava a ver que não, béu-béu, miau.

Minhas adoradas filhas, que tencionavam votar em Marisa Matias — quem sai aos seus... — e à última hora se inclinaram para Ana Gomes, não fosse o «fascista-racista-xenófobo» ficar em 2.º:
- Pai, porque dizes tão mal do Bloco de Esquerda?
Porque o Bloco de Esquerda não presta, filhas. E ai de nós quando prestar ou precisarmos de que preste antes de, como determina a ordem natural das coisas, se extinguir. O BE dá-me ares de confraria religiosa de meninos-bem, arrogante, perigosa e meio tonta.
Senão, vejam:

Quinta-feira, 29.Out.2015
No quadro, citando Eduardo Cabrita, da derrota de António Costa nas legislativas de 04.Out.2015 e da urdidura, por esses dias em curso, do entendimento PS-PCP-BE que Paulo Portas, adaptando metáfora de Vasco Pulido Valente no Público de 31.Ago.2014, crismaria de «geringonça», Mariana Mortágua, a deputada-estrela que deve a BEatificação a Ricardo Salgado, veio à Bobadela para «falar das nossas vidas» pós-PàF e do paraíso celeste [não é redundante, Plúvio?] que se adivinhava.
Fui assistir para tomar o pulso à coisa.  
MM chegou num carro velho conduzido por uma rapariga que se pôs tão perto de mim que me foi impossível não reparar no "wallpaper" da ardósia que ia consultando e manteve aberta durante toda a sessão: o carão intimidante deste teólogo prussiano. Mulher de muita fé, a chofer de Mariana.
MM entrou e disse «Boa noite a todas e a todos» num momento em que ainda só havia uma mulher na audiência. Se o ridículo matasse...
No meio da conversa, um camarada, decerto dos ingénuos e puros que há sempre nestes núcleos locais, sensível ao inchaço populoso do parlamento, interpelou:
- Ó Mariana, o Bloco tem alguma proposta no sentido de reduzir o número de deputados na Assembleia da República, como prevê a Constituição 
Mariana Mortágua ia fuzilando o rapaz com o olhar:
- De todo, não! Há estudos acerca da eficiência dos parlamentos europeus que mostram que... 
Como a entendo, parva é que esta Mortágua não é. À saída troquei com ela um aceno. Tem um sorriso bonito. 
Por mim, fiquei faladoconversado.    

BEm-vinda, BEm-vindo, BEm-vindas, BEm-vindos
Se esta gente, a minha gente de Marisa, um dia mandasse — por enquanto não manda em nada, felizmente; nem uma, uminha, das 3092 freguesias do país se deixa governar por esta gente; **** sim, sei de Salvaterra de Magos —, imagine-se a desgraça nas tesourarias e a perturbação da paz social de todos estes rudes e retrógrados sítios e entidades, a remodelar placas e a reconformar a linguagem para os pôr consonantes com o asseio da "ideologia de género".  
Lembro-me sempre da solução picaresca e ridícula que o PS engendrou — et voilà, «género» — para sossego canónico das Isabéis Moreiras,  Catarinas Marcelinos, Tiagos Barbosas Ribeiros, Elzas Pais, Joões Galambas, Edites Estrelas, Pedros Nunos Santos, Sónias Fertuzinhos,  Pedros Delgados Alves, Marias Antónias de Almeidas Santos, Marias Begonhas e Duartes Cordeiros desta vida, no XXI Congresso, em Junho de 2016: Bem-Vindo por uma porta, Bem-Vinda por outra.


Não desgostei do discurso do presidente
No da eleição, em 24.Jan.2016, Marcelo falou durante 16 minutos. Começou por «Portuguesas e portugueses ...» e foi por aí fora, cedendo sempre ao código ridículo do politicamente correcto. Terminou com palmas e hino nacional.
No da reeleição, em 24.Jan.2021, falou durante 17 minutos. Começou por escorreito «Portugueses ...», cedendo aqui e ali, mas pouco, à novilíngua dos devotos. Esteve sério. Terminou sem aplauso nem hino. Muito bem.
«[...] Portugal que, como escrevia o saudoso Eduardo Lourençoé uma nação piquena que foi maior do que os deuses em geral permitem. Tenho a exacta consciência de que a confiança agora renovada é tudo menos um cheque em branco. [...]»
foi onde borrou a escrita. Mas alguém tem exacta consciência? Como pode ser exacta a coisa menos exacta do mundo? Forte, firme, convicta, enraizada, vá que não vá. Mas exacta? Livrem-nos os deuses de consciências que tais, sem esquecer nunca as consciências tranquilas.
Já o «piquena», nada de muito grave, é da filogénese de Cascais, cercado das tias e dondocas de que nunca se livrará.

A propósito de Cascais, onde Marcelo Rebelo de Sousa mora há séculos, sempre me pareceu palhaçada e afronta grosseira da morigeração cívica que continue recenseado numa vilória minhota aonde se desloca para votar, sob pretexto de ali ter sido autarca [autarca volante e volátil...] e dali serem naturais familiares antigos que muito prezava e quer homenagear. Olha se o exemplo pega... Até eu tenho ancestrais na Etiópia a quem devo muitíssimo.
Li isto no Nascer do Sol, li isto e depois isto no blogue do professor Vital Moreira, mas continuo a achar que faz falta um jornalista de voz grossa, testículos negros ou ovários valentes, que frente às câmaras em horário nobre convoque nos olhos o nosso arlequim
- Senhor presidente, não lhe parece insolência ou insulto aos cidadãos, que fazemos por cumprir as regras, essa farsa de, residindo em Cascais, votar em Celorico de Basto?

A despropósito, mas apetece-me,
«A resposta certa é Marcelo Rebelo de Sousa. [...] O Marcelo é em geral uma boa fonte [...] Eu não estava à espera, no caso de Marcelo Rebelo de Sousa, de uma espécie qualquer de lealdade porque não é o forte dele. Eu costumo dizer que ele é filho de Deus e do Diabo. Deus deu-lhe a inteligência, o Diabo deu-lhe a maldade. [...]»

Coda
De eleição para eleição recorre o mito de que, por falta de limpeza nos cadernos de recenseamento, há mortos que votam. Se calhar há.
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**** «[...] Sabemos que temos muito a aprender ainda no trabalho autárquico, e muito a fazer. [...]
Mais eleitos e eleitas em todo o país [...] O Bloco de Esquerda tem acrescidas responsabilidades depois destas eleições autárquicas. [...] Há alguns indicadores dessa crescente responsabilidade. Aproveito para vos dizer — soube mesmo antes de vir para aqui — que o Bloco de Esquerda ganhou uma freguesia em Braga e portanto as responsabilidades do Bloco de Esquerda vão sendo crescentes em mais sítios do país.» - Catarina Martins, 01.Out.2017
Ejaculação precoce, não ganhou freguesia nenhuma. Como digo e redigo, fervor em manobras.