quinta-feira, 8 de março de 2012

Género e génera, perdão, Génera e género

«Para ficar por alguns exemplos simples, o Guia propõe utilizar "pai e mãe" em vez de "pais", "filhas e/ou filhos" em vez "filhos" e "vive só" em vez de "vive sozinho". Para irmos aos exemplos complicados, o Guia arrisca sugerir "a/o cidadã/o" em vez de "o cidadão", "A/O(s) utente(s)" em vez de "O utente" e "o/a beneficiário/a" em vez de "o beneficiário".
Se a dona Graça ganhasse à comissão mediante o uso de barras e parêntesis, a coisa entendia-se. Mas suspeito que a senhora, à semelhança dos primitivos, apenas se convenceu de que as palavras convocam a realidade desejada. E se não convocarem, não importa, que em tempos amalucados a realidade irrompe à força: na segunda-feira, a Comissão Europeia anunciou querer fixar quotas para as mulheres nas administrações das empresas. Em qualquer dos casos, comprova-se que a Grécia é o caminho a seguir, primeiro na economia, depois no combate à discriminação e, um belo dia, na língua. A nossa já roça o incompreensível.»

quarta-feira, 7 de março de 2012

«Nessa noite,

deitei-me nas ruínas do meu corpo, era já só ossos, os malares cavados, a carne ressequida. Ventava na arcada das costelas e o ruído desse vento perpétuo não me deixou adormecer. A morte pesou-me mais do que a vida.»

Lugar vazio

Quando o autocarro ou a carruagem trazem todos os conjuntos de dois lugares ocupados com uma só pessoa, o que vou escolher é uma pessoa e não um lugar; não onde me sento mas com quem me sento.
Como sou um misantropo heterossexual, não podendo sentar-me ao lado de ninguém escolho óbvia e invariavelmente uma mulher.
Se lá para com os seus botões ela vocifera com tantos lugares vazios porque veio este marmanjo sentar-se aqui?, isso já não é comigo.
É com a humanidade.
Próxima paragem: Oriente.

Acordo Ortográfico [54]

«[...] o AO é um crime contra a língua portuguesa, mas o facto é que está a ser aplicado e portanto o crime está a ser cometido. Simplesmente, também não se pode ignorar que a suspensão dessa aplicação acarretaria, no plano escolar, um considerável prejuízo para um país que está completamente falido como o nosso.
Vai portanto ser necessário optar entre continuar a cometer o crime, poupando os custos muito elevados que a correcção do presente estado de coisas acarretaria, e ter a coragem de lhe pôr cobro de vez, salvando a língua que as gerações futuras vão falar e aceitando suportar esse forte agravamento das despesas. [...]»

Referendo, VGM? Por amor da santa.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Berardo e o secretário

Precisaria de instrumentos de medida mais sofisticados do que os de que disponho [ouvido, olho nu, etc.]  para afirmar, sem hesitação, que, na conversa que esta noite travou com o Mário Crespo, o comendador não disse mais vezes por minuto a palavra viegas do que as vezes por minuto que a jornalista Teresa de Sousa disse esta manhã a palavra narrativa. Mas estou capaz de apostar em como a jornalista Teresa de Sousa não consegue, por mais que se esmifre na política internacional, dizer tantas vezes por minuto a palavra narrativa quantas as vezes por minuto que o comendador diz a palavra cultura. O que jamais saberei, nem que dispusesse da ultra-sofisticada capacidade de contar da GfK, adquirida «num bazar oriental» é se, na conversa com o Mário Crespo, o comendador disse mais vezes cultura do que as vezes que não disse viegas. Citando a doutora Teresa de Sousa, há uma coisa que é certa: «secretário de estado da cultura, doutor francisco josé viegas» - cáspite! - é que o comendador nunca disse. O Joe é um rato. 

A diegese de Putin

«Creio que Putin terá muito rapidamente, e ele próprio se deve ter apercebido disso, de mudar a sua narrativa, a narrativa que lhe serviu tão bem durante os seus dois primeiros mandatos. Essa narrativa era muito simples: foi ele que devolveu a ordem ao caos herdado da era Ieltsin. […] Esta narrativa já não serve; já não serve porque a própria Rússia se desenvolveu. […] Há uma coisa que é certa: a narrativa anterior nesta Rússia já não cola.»

domingo, 4 de março de 2012

O Gonçalo M. Tavares é bom

 «[...]
- É um material intranquilo, a ideia.
- Eis uma excelente definição. Um material intranquilo, a ideia.
[...]
- [...] E a questão é a seguinte: quanto tempo leva uma ideia a espalhar-se desde a cabeça até ao resto do corpo?
[...]»
Gonçalo M. Tavares, "Como eliminar ideias num século tão limpinho? - eis a questão" | Notícias Magazine, 04.Mar.2012

Os quatro dedos de testa do Pedro Marques Lopes


Clara Ferreira Alves, ao minuto 49:59 do “Eixo do Mal” de 19.Fev.2012:
- Não há ninguém com dois dedos de testa

Acordo Ortográfico [53]

«O senhor professor doutor (de Coimbra, Deus magnânimo e todo poderoso!) Carlos Reis, uma das sumidades enigmáticas que conspiraram o Acordo Ortográfico, protestou veementemente as recentes declarações do secretário de Estado da Cultura, segundo o qual cada cidadão é livre de seguir ou não as regras do dito Acordo, aliás susceptível a "ajustamentos" até 2015.Assim de repente, o único ajustamento que me perece adequado seria a anulação de tamanha vergonha. Quanto ao livre-arbítrio, não preciso que o Francisco José Viegas, que de resto muito estimo, me conceda autorização para escrever a língua que aprendi e não a mistela apátrida agora implantada.Naturalmente, o prof. Reis discorda, quer da liberdade, quer dos ajustamentos. O sábio acha absurdo que se profane o português de "forma unilateral e casuística", excepto, claro, quando semelhante forma está do lado dele e o português em causa é a desgraça que ele ajudou a criar. Conheço poucos processos tão unilaterais quanto o AO, não só porque alguns dos países envolvidos se recusam a aplicá-lo, mas sobretudo porque se trata de uma invenção de emproados com demasiado tempo livre e de uma imposição política e postiça. Quanto à "casuística", julgo que a palavra ainda designa o tratamento de um assunto através de subtilezas e artifícios, a definição perfeita dos meandros do AO, uma fraude erguida pelos autores a missão das suas vidas. Há vidas tristes, uma tristeza que deveríamos lamentar mas não expiar.»
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«É bom quando isto acontece: o país discute a sua Língua.
[…] convém sublinhar a importância de reunir e integrar diferentes contributos que visem a melhoria das bases que sustentam o AO. Esse trabalho compete aos estudiosos e investigadores e não, em circunstância alguma, ao poder político*.
[…] O poder político não porá em causa esse esforço* que visa a afirmação de uma identidade ortográfica comum entre os países unidos pela língua portuguesa.
[…]
Não se trata, ao contrário do que supõem algumas vozes pouco familiarizadas com o debate (ou que fazem dele motivo de escândalo), de pôr em causa o AO; trata-se, isso sim, de incorporar sugestões e melhorias ao corpo dessa reforma negociada entre os vários países subscritores. As minhas declarações sobre o assunto (e sou insuspeito, como autor da primeira coluna diária da imprensa portuguesa conforme às regras do AO) vieram nesse sentido. É claro que eventuais alterações muito pontuais não podem ser definidas unilateralmente, mas no contexto multinacional de que o AO resulta. Seria absurdo que não se conseguisse esse consenso quando se trata do nosso idioma, um bem inestimável que identifica milhões de falantes e que pode abrir as portas a um maior entendimento entre eles.»
Francisco José Viegas, secretário de Estado da Cultura, “Valorizar o Acordo Ortográfico” | Expresso, 03.Mar.2012

* O contorcionismo a que um político se vê forçado, santo Deus. Como se o esforço de incrementação do disparate, em má hora embrionado e em pior parido, não tivesse sido sempre uma mal informada obstinação do poder político, primeiro - mata! - do PSD, depois - esfola! - do PS.

Amor é

quando no meu pulso bate o teu coração.

Acordo Ortográfico [52]

Francisco Miguel Valada, “Dermatologia e resistência silenciosa” | Público, 29.Fev.2012

sexta-feira, 2 de março de 2012

Rogério Casanova

na LER de Março de 2012.

"Pastoral Portuguesa", em português actual:
«Algures nos anos 50, depois de combater na Segunda Guerra Mundial, fazer um filho e escrever um livro que cativaria grande parte do mundo, ].D. Salinger (1919-2010) decidiu que a única prova de masculinidade moderna que lhe faltava superar era contrair uma dose cavalar de religião. Tal como Tolstói e L. Ron Hubbard antes dele, depressa percebeu que nenhuma religião disponível cumpria os requisitos mínimos para fazer justiça às suas necessidades e foi forçado a improvisar uma nova: uma miscelânea caótica de dinduísmo, cristianismo e budismo zen, temperada com uma maluquice muito própria e copiosas citações de William Blake, Flaubert, Nietzsche e Kafka.
[…]
a saga da família Glass permite um vislumbre fascinante de um fenómeno muito particular: permite-nos ver quão longe o talento pode fugir na direcção errada.
[…]
Num certo sentido, os Glass são a extrapolação lógica de Holden Caulfield; são Holdens ao cubo. Desesperam, classificam, julgam, sentenciam. São autodidactas éticos. Numa corrente de raciocínio moral menos tributária de qualquer religião do que da psicanálise, as intenções por detrás de cada gesto, mesmo o mais inócuo, são submetidas a um exigente escrutínio, à procura de indícios de corrupção ou “falsidade”. Extremamente bonitos, extremamente inteligentes, extremamente engraçados, extremamente afluentes, e permanentemente paralisados pelas suas sensibilidades hipertróficas, experimentam sucessivas crises de autenticidade (tudo é uma farsa) transmutadas, pela alquimia especial de uma narração indulgente, em crises de identidade.[…]»
- “Franny Glass não come a papa”, sobre Franny e Zooey, de J. D. Salinger
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«[…] Dou-lhe, no entanto, dois conselhos práticos. Comece com David Copperfield, onde o anão é na verdade uma anã, a “volatile” Miss Mowcher: a descrição da mesma a desaparecer debaixo do seu guarda-chuva é um dos grandes momentos de nanismo ilusionista na literatura. […]»
- Consultório literário - “Anões, venham eles”

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«[…] Um novo desenvolvimento surgiu na interseção da física com a disciplina designada como “teoria da informação”: começou a sugerir-se uma partícula elementar de natureza diferente - insubstancial, abstrata, porém talvez “mais substancial que a própria matéria”. John Archibald Wheeler, antigo colaborador de Einstein e Bohr (e o homem responsável por cunhar a expressão “buraco negro”) articulou a sugestão de forma memorável: “it from bit”. Na sua essência, esta doutrina defende que a informação é a substância básica do Universo, e que portanto o funcionamento do mesmo pode ser descrito através de unidades que quantificam informação: aquilo que conhecemos como bits.
[…]
como Shannon admitiu, qualquer comunicação bem-sucedida representa também o necessário triunfo da redundância sobre a ambiguidade. É por esse motivo, já agora, que o facto de qualquer língua escrita estar pejada de redundâncias - consoantes mudas, etc. - não é particularmente problemático de uma perspetiva utilitária: quando a compressão não é um fator determinante, um excesso de sinais reduz a probabilidade de o ruído no canal (uma gralha, um solecismo) corromper a mensagem *. A Wikipédia, que tem direito a um capítulo do livro, é outra ilustração deste princípio contraintuitivo: na maioria dos casos, o processo excruciantce de revisões e correções, transformando cada facto num palimpsesto de percussões tribais, acaba por tornar cada mensagem menos ambígua, mais próxima da realidade. […]»
* Ouviram, seus acordortograficofílicos? Para que saibam.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O último livro do Harry Porter

Mário Crespo- Aqui fica ...
Miguel Relvas- ...Tenho saudades, sabe de quê? Do minuto, pelo apelo à criatividade, em que nos permitia falar tanto da política internacional como do Harry Porter, do último livro do Harry Porter...
Hoje, na SIC Notícias, Jornal das 9 - a partir do minuto 32:10 

Criatividade é com ele.

das coisas que me aborrecem

«[…] Enquanto houver conversas sobre adopções, feiras de enchidos, convenções de columbófilos e futebol, há a prova de que o País mantém um esboço de normalidade.
Assim, aproveito a oportunidade para declarar aqui o meu sincero apoio à adopção por homossexuais, à fecundação de homossexuais e, dê lá por onde der, à procriação entre homossexuais. Aproveito também para acrescentar diversas maleitas sociais que urge corrigir antes que a penúria absoluta nos reduza à mera luta pela subsistência.
Certos deputados parecem dedicar a função exclusivamente às questões de "género". Estou com eles, mas acrescento outro género de questões cuja resolução é essencial a uma sociedade mais livre, justa, democrática e progressista. Falo, claro, das coisas que me aborrecem, as quais, só por existirem, constituem uma violação grave dos meus direitos, uma agressão à minoria formada por mim próprio e uma discriminação intolerável da minha pessoa humana (a desumana está trancada na cave). Seguem-se alguns exemplos.
Gente parada em escadas ou tapetes rolantes sem compreender que estes são um auxílio à locomoção, não um convite à imobilidade radical. Adultos que se vestem como crianças mal vestidas, para cúmulo com T-shirt dotada de frase espirituosa. "Artistas" sem talento nem serventia que fazem questão de me informar dos "projectos" que têm "em mente". Sujeitos que demoram sete minutos e meio a girar o copo de vinho, na esperança de convencer os restantes comensais de que são escanções eméritos ou de me fulminar de embaraço. A imensa quantidade de cidadãos que, à revelia de qualquer lei, substituiu o verbo "estar" pelo verbo "ter" *. Aguardo subida dos temas em causa à AR e, dadas as previsões para a economia, peço especial rapidez.»
Alberto Gonçalves, “Discutir o que importa” | revista Sábado, 01.Mar.2012
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* Terá AG querido dizer "tar"?...

«Em Março

tanto durmo quanto faço.»
- 'O verdadeiro almanaque Borda d'Água - Reportório útil a toda a gente para 2012'
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