domingo, 27 de julho de 2014
sábado, 26 de julho de 2014
"Sendo que"
«[…]
Trata-se, digamos com ênfase e presunção, de isolar uma praga da linguagem, um apêndice sintáctico "duro e resistente como o granito", para utilizarmos as palavras que serviram a Hannah Arendt para definir a estupidez. E agora que a "coisa" já começou a ganhar alguma dignidade, por via da citação culta, é altura de nomeá-la: trata-se da conjunção "sendo que", em regime de proliferação desde há já bastante tempo no medialecto, isto é, no dialecto próprio dos media em sentido lato (na imprensa, na rádio e na televisão).
[…]
Em todos os casos, agora que entrou no medialecto e ganhou a condição de um espasmo colectivo, ["sendo que"] não consegue ser mais do que um tique gerundivo que se apanha por mimetismo.
[…]
"Sendo que" é uma forma torpe, equivale a uma injunção mecânica e a um reflexo mimético, abre um espaço liso no momento em que surge, contamina tudo à sua volta e torna-se motivo para uma suspeita mais funda: a de que não é uma pequena anomalia, um momento pontual em que sucumbe o discurso e é rasurado qualquer vestígio de algo a que possamos chamar ideia ou pensamento. Pelo contrário, o "sendo que" torna plausível a suspeita de que a anomalia pode estar por todo o lado, antes e depois. O tique correspondente ao “sendo que” é como um esgar lançado ao leitor, ao espectador, ao ouvinte, ao interlocutor, e funciona como o estereótipo, é dotado de uma forma de vida parasitária, expande-se e multiplica-se por incrustação. A longa vida do "sendo que" e a sua capacidade de se difundir encerram um mistério: porque é que há palavras e expressões que "pegam" e se tornam uma praga? Onde está a origem, a fonte do caudal que vai engrossando? O que há nessas palavras e expressões que as torna tão obrigatórias e faz com que elas passem a ser repetidas sem moderação?
[...]»
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Ainda de António Guerreiro, no Público/Ípsilon de hoje:
"A filosofia como filologia" - Recensão de As Nuvens e o Vaso Sagrado, de Maria Filomena Molder, Relógio d'Água, Maio/2014
«Dois nomes centrais do cânone filosófico e do cânone literário [Kant e Goethe] lidos por uma autora que sempre se moveu em zonas de confins. [...]»
sexta-feira, 25 de julho de 2014
Saramago e os preços em 9
Por respeito e em homenagem ao sério e austero José Saramago, o Continente decidiu banir uma vez sem exemplo, nos preços de todos e de cada um dos 9 títulos da presente promoção, o dígito 9, dado o seu efeito catalisador da adicção oneomaníaca, de acordo com os estudos mais recentes de universidades e laboratórios de grande reputação científica internacional sobre o comportamento dos mercados.
As capas e o lettering são uma alternadíssima e refinadíssima caca, mas isso é com a Porto Editora.
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Fui salvo in extremis pela minha última reserva diária de discernimento quando estava para intitular o presente verbete de "Saramago e os preços em 9bel". Além de que a grande autoridade na matéria é Dalai Lima.
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Preços em 9
quinta-feira, 24 de julho de 2014
Em família,
estive a ver ao serão o "Frente-a-Frente" em que Catarina Martins, com a acutilância que lhe é peculiar, enervou mais do que nunca, sabe-se lá porquê, o habitualmente plácido Diogo Feio, a propósito da constituição, hoje, de Ricardo Salgado como arguido no caso "Monte Branco".
Catarina Martins [BE]- Há portanto um buraco que tem de ser pago e veremos quem o paga. É bom que seja a família que o criou. […] Aliás, o CDS não tem dito nada sobre isto, o que também registamos.
Diogo Feio [CDS/PP]- Não esperem de mim que num debate político como este, por muito atractivo que isso pudesse ser, faça aqui julgamentos e linchamentos públicos em relação a pessoas. Esse género eu deixo para outros.
Por mim, que não sou de intrigas nem mal-intencionado, jamais arriscaria a possibilidade de o nome de Teresa Caeiro, madrasta da nora Rita de Ricardo Salgado, ter pairado no misterioso "inuendo" do debate. De resto, escutando e lendo regularmente o que Miguel Sousa Tavares diz e escreve sobre o assunto, sinto-me cabal, profunda e pormenorizadamente elucidado, actualizado e tranquilo, acerca do BES, sem necessidade de mais informação.
Pelas 21:55, quem sabe se para aliviar a fervura, Ana Lourenço proferiu a frase do dia: Fazemos agora uma pausa para intervalo.
Eu tenho a minha consciência completamente tranquila.
Finalmente, que preciso de arejar, sobre a "tranquilidade da consciência" remeto para o que o excelente Jorge Calado escreveu em 17.Ago.2013 a propósito de políticos. Tratando-se de banqueiros, acho que o «completamente» não só nos deve deixar em sobressalto como julgo prudente chamar a polícia.
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terça-feira, 22 de julho de 2014
Clara Ferreira Alves, perigo tóxico [1]
A jornalista Clara Ferreira Alves [CFA] não merece apenas que se lhe preste atenção. Precisa de que mantenhamos olho nela.
Quando CFA aprontou e entregou a abjecta, ignominiosa e miserável crónica, a que nem uns laivos de racismo faltam,
contra a TAP Portugal — admitamos que, avareza minha, ao fim de terça-feira,
15.Jul.2014, para ir a tempo da sua "pluma caprichosa" no Expresso/Revista de sábado, 19.Jul.2014
—, tinha mais do que obrigação de
conhecer o essencial técnico da ocorrência com o voo TP85 na manhã do sábado anterior, 12.Jul.2014, tal era já a
informação idónea e autorizada disponível.
Por maioria de razão, não se lhe desculpa o descalabro assanhado e a confissão involuntária de autodesleixo jornalístico com que
interveio em "O que fica do que passa" gravado no Canal Q na manhã de
18.Jul.2014 e emitido [1.ª de várias sucessivas emissões ao longo do
fim-de-semana] às 23:05 dessa mesma sexta-feira*:
Luís
Gouveia Monteiro- O que é que fica da semana
que passou, Clara?
CFA, depois de comentar o
"caso BES"- Para terminar e muito
brevemente, só em Portugal é que um quase acidente mortal da TAP em que
primeiro a PSP diz que explodiu um reactor, depois a TAP diz que não explodiu
um reactor, não sabemos exactamente o que é que se passou, foi aberto um
inquérito, houve um grande silêncio da administração na primeira fase – a TAP tá com grandes problemas mas
isto é encarado como um fait-divers em Portugal, sabendo nós que temos um
aeroporto no centro da cidade! Qualquer coisa que aconteça aqui, mesmo que seja
uma peça que cai!... – foram só danos em viaturas, mas podiam ter morto pessoas. Mas isto praticamente
foi ignorado nos telejornais, na imprensa, como se fosse uma coisa normal.
Curiosamente, os primeiros três minutos e vinte
segundos desta edição, a 91, de "O que fica do que passa" não constam
do vídeo disponibilizado pelo Canal Q a meio da tarde de hoje, 22 de Julho, no
YouTube e no SAPO.
Foi justamente nesse tempo, amputado no vídeo, que CFA bolçou a
supratranscrita dose de sapiência aeronáutica e aeroportuária e nos fez saber
que a jornalista, que ela é, afinal não vira nada, não ouvira nada, não lera nada da copiosa informação, esclarecimentos e comentários sobre o incidente vertidos nos seis dias precedentes nas
televisões, rádios, jornais e redes sociais. Tivesse, por exemplo, dado atenção ao pedido de desculpa e às explicações pormenorizadas que o competente e bem-educado Fernando Pinto, com proverbial bonomia e uma paciência de Job, formulara e dispensara entretanto à comunicação social, quem
sabe não asneasse tanto.
Pelo que deduzo e decorre do seu vómito no Expresso, CFA está incapaz de distinguir a guitarra da palheta, um borborigmo de uma explosão ou — mas isso seria demasiada areia para a camioneta da jornalista — um reactor de uma turbina.
CFA
sabe quase nada de aviação mas dá a entender, a leigos e a incautos, que
sabe muito. E, ai de nós!, o que ela sabe é sempre com certeza absoluta [Não tenho qualquer dúvida; devo dizer; e portanto; etc.], arrogância de cátedra.
Esta
sua crónica é um chorrilho de asneiras, sobranceria e subtexto, incluindo uma
contradição patética.
CFA
sabe pouco de aviões. CFA baralha A330 com A340, não obstante este ter o dobro de motores daquele.
CFA
não sabe o que é desligar um motor e voar em segurança com o outro. Faz lá ela ideia do que seja ETOPS!?
CFA
não sabe nada de segurança aeronáutica. CFA desconhece o excelente e invejável perfil de segurança, histórico e actual, da nossa companhia que voa ininterruptamente
desde 1945, vai para 70 anos. Anoto: um único sinistro com mortes — Funchal, 19.Nov.1977 —, causado pela
obstinação humana e pelo mau-feitio conjunto e sincronizado de Éolo, Thor e Tlaloc.
CFA
não sabe nada da idade média da frota da TAP e muito menos da idade de cada
avião, nomeadamente do A330-202, matrícula CS-TOO, de seu nome próprio "Fernão de Magalhães", protagonista do incidente, que leva pouco mais de seis anos a voar na TAP desde que a
Airbus lho entregou e cuja manutenção de motores, para provável azar
de CFA, é assegurada pelo fabricante, General Electric. Temos pena, doutora CFA, de que o avião de
que se soltou uma palheta da turbina de alta, sendo um avião inequivocamente jovem,
não dê grande jeito ao reles guião de desastre que improvisou para o "grand
finale" [aquele «extraordinaire», que ainda
me faz cócegas, estava a pedi-las...] da sua biliosa e bacoca diatribe: «a TAP… deve adquirir aviões novos que voem em condições e não deixem cair peças de
reactores a arder sobre a cidade de Lisboa», mas não temos culpa.
CFA, como eu, não gosta deste governo, de Miguel Relvas, de José Luís Arnaut [CFA, rigorosa e
perfeccionista, trata-o por "António Arnaut",
assim metendo e submetendo o inocente, desprevenido e indefeso pai do nosso precioso Serviço Nacional de Saúde ao barulho atroador de aeronaves podres a despenharem-se…], não gosta da Goldman-Sachs
nem do BES; e, evidentemente, não
simpatiza com o «abutre» Efromovich [CFA, rigorosa e perfeccionista, grafa sempre «Efromovitch»]. Lá com ela, mas é, no mínimo, leviano e desconchavado estribar nos seus desamores, na pontual escassez de aviões ou nos atrasos de horário e em dois ou três incidentes operacionais de que nada compreendeu porque não quis ou se calhar não atinge, o perigo
de viajar na companhia de bandeira portuguesa, razão da sua lauda miserável cujo garrafal título, "lead" e primeiro parágrafo me recuso a reproduzir aqui por asseio e profilaxia do
contágio público.
CFA
acha — perdão, ela não acha, ela tem sempre a certeza — que «estrategicamente
mais interessantes» do que África ou o Brasil são os «destinos asiáticos». "Eureka"!, temos a receita para a prosperidade da TAP. Os segredos e as coisas que CFA
sabe, céus! «Não se trata de um palpite.», diria, perdão, asseveraria ela.
CFA odeia a TAP. Nada, pois, obsta à sua venda,
antes pelo contrário, «privatização desejável se feita em condições de
transparência e competência». Que tal vendê-la — avanço eu imaginando-me a
perguntar por ela — ao «cavalheiro americano com quem falei num voo da TAP de
Nova Iorque para Lisboa, especialista de aeronáutica e dono de empresas
internacionais do sector»?
[Como CFA acabara de proclamar categoricamete — tudo
em CFA é categórico —, dois parágrafos antes, «Para voar de um continente para
outro, há muito que deixei de usar a TAP», presume-se que a conversa tenha
ocorrido, no mínimo, no milénio passado… A menos que Lisboa fique na América, Nova York na Europa e
vice-versa reciprocamente ao contrário…]
Vendendo-se a companhia ao tal cavalheiro empresário, para este seria apenas mais
uma em carteira e para a TAP o ensejo de integrar finalmente a companhia de «companhias
sérias como a Emirates, a Lufthansa e outras», para orgulho de Portugal. Vamos até que o tal «cavalheiro americano» ronda por aqui?… E não, não é
insinuação ou suspeição; é minha mera suposição.
Talvez importe dizer que, faz um ano e picos, comecei a desconfiar da pouca exigência, agora
abundantemente revelada, de CFA no que toca a aviação comercial.
Então não é que esta distinta plumitiva — «uma marca/estrela que muito valoriza
a constelação jornalística do Grupo Impresa», segundo Francisco
Pinto Balsemão em "O futuro do jornalismo e o jornalismo do futuro", no Expresso/Revista de 04.Jan.2014 — assinou
uma página, por sinal interessante e engraçada, mas nisso é ela competente,
na revista de bordo de uma companhia aérea do «Terceiro Mundo», mais
precisamente «uma companhia africana com aviões em segunda mão», «na penúria», em «decadência», onde voar se torna cada vez mais perigoso, conhecida por sucessivas «avarias
técnicas», «aterragens de emergência», que vem continuadamente perdendo, em
«hemorragia», «pilotos, pessoal de bordo e técnicos para companhias melhores e
mais ricas»; que enfrenta prolongados «problemas de manutenção técnica e de
escassez de aviões» — «aviões pequenos e poucos e preços ridículos» — e por
isso tenta remediar-se com aviões «obsoletos» alugados a companhias mais
manhosas ainda!?...
É certo que se tratava de um texto pago, mas isso não desculpa a cumplicidade com indigentes. E não é certo que o
doutor Balsemão tenha tido conhecimento, senão bem que se arriscaria a um valente puxão de orelhas do patrão amigo: A menina Clara não vê que ao assinar coisas assim, com fotografia e tudo, para uma
companhia merdosa e decadente como essa, está a afectar o bom-nome e a idoneidade das minhas publicações?
Dá-se o caso de a revista em que Clara Ferreira Alves assinou em Junho de 2013 a dita página, "O lisboeta bem temperado", ser a
melhor revista de bordo do mundo. Mas isso é um daqueles irónicos paradoxos de
que o mundo está cheio...
//
Os deuses sabem da indignação, do custo e da mágoa com
que escrevo isto, não só porque conheço bem e gosto da TAP, que servi durante
33 anos, mas também porque nas três décadas há que acompanho a intervenção
jornalística de CFA não raro me tenho revisto na sua opinião e é grande o meu apreço
por tantas prosas que assinou, tantas coisas que lhe tenho ouvido, tantas
outras que lhe tenho escutado e visto fazer na sociedade e na comunicação pública.
Desculpe, senhora doutora, mas com peças como a que
agora redigiu contra a TAP Portugal, você só pode ter-se tornado
numa jornalista repulsiva e pouco recomendável.
Ficava-lhe tão bem, cara doutora Clara Ferreira Alves,
pedir desculpa à TAP e aos muitíssimos milhares de leitores que a estimam e se
habituaram a confiar no jornalismo que a senhora pratica; ficava-lhe tão bem,
Clara!
Mas então ó Plúvio, corre tudo bem na grande e magnífica companhia que a TAP é?
Não, em várias coisas — ainda, às vezes — não. É da vida.
___________________________________________
* Na indústria de entretenimento de Nuno Artur
Silva [Produções Fictícias: Canal Q, “Eixo do Mal, "Inimigo Público",
etc., citando CFA], amor à camisola parece não ser simples retórica. CFA comprova-o.
PS
É sempre interessante rever a doutora Clara Ferreira Alves a falar de si, mais ainda por ser coisa que raramente acontece.
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Nuno Artur Silva,
TAP
Selfie
Declaro
por minha honra que não pedi nem paguei o retrato
que Gonçalo M. Tavares me tirou.
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Gonçalo M. Tavares
domingo, 20 de julho de 2014
Abatimento
«Desconhece-se se alguém mexeu nos destroços do avião ou se removeu algo ao longo das 48 horas em que os separatistas estavam a controlar o acesso ao terreno. A versão do abatimento do avião terá que ser provada oficialmente pela equipa de investigadores internacionais apenas três dias depois da catástrofe.» - RTP Informação, 20.Jul.2014
Se tivesse aprendido português numa escola de São Pedro do Sul em vez de numa universidade de São Petersburgo, Evgueni Mouravitch, de quem esta tarde ouvi na RTP as últimas sobre o abate criminoso do avião malaio, não teria decerto um falar tão deliciosamente impreciso.
O resto é tragédia absurda, civilização em estado pouco recomendável, aventura grotesca do protoplasma, como dizia Jean Rostand, a que nenhum antidepressivo pode, pelo que se vê, valer.
«transferências recambolescas»
Se
Rui Pedro Antunes e Sílvia Freches - “Os braços dos negócios”, DN, 20.Jul.2014 -, empenhados e buliçosos jornalistas do
Diário de Notícias, onde o ganha-pão vai sendo cada vez menos seguro, se derem ao trabalho de pesquisar “Rocambole”, talvez percebam melhor o jeito que lhes daria terem por perto um bom revisor.
Mas, infelizmente, há muito que deixou de haver dinheiro para tal luxo.
Googlar
«[…]
pela primeira vez, o mar completamente liso, contínuo e horizontal, que era o modo como se apresentava a Internet, foi reconfigurado pelo Google numa hierarquia dinâmica, baseada na visibilidade e na importância de cada site. Cada página web é classificada e o seu valor é determinado pelo número e pela qualidade das ligações (links) que ela obtém. Mais precisamente, uma ligação vinda de um site com uma classificação elevada tem mais valor do que uma outra ligação vinda de um site com uma classificação mais baixa. O Google explora assim o saber humano; de cada vez que clicamos, estamos a alimentá-lo com a nossa inteligência (e, pormenor a não esquecer, estamos a deixar Brin, Page e todos os investidores um pouco mais ricos). O algoritmo PageRank, na medida em que calcula automaticamente o “valor” de cada ligação na web e decide sobre a importância e a visibilidade de um determinado documento em função do número e da qualidade das ligações que remetem para ele, pode pois ser descrito e analisado como a representação empírica da produção e da acumulação de valor — esse conceito fundamental da economia política, aqui transposto para o centro do “capitalismo cognitivo”. O Google transforma portanto a inteligência em riqueza. Analisando-o, mostrando como ele gera valor sem produzir um único conteúdo, mas capturando os milhões e milhões de sites da web, comportando-se como o mais poderoso parasita que alguma vez existiu, somos levados a entrar na questão mais geral do modo como o capitalismo cognitivo extrai mais-valia. Lendo e ouvindo as reacções à avaliação dos centros de investigação, podemos concluir que ela exige em primeiro lugar produção de valor do capitalismo cognitivo. É a vingança do algoritmo.»
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António Guerreiro
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Avulsas ociosas da minha fraca resistência ao despotismo da actualidade
. Doutor
João Galamba, ontem, 17, na Assembleia da República, na audição da doutora
Maria Luís Albuquerque:
«Como
é possível, tendo estado Portugal sobre apertadíssimo escrutínio, […] pouco
tempo depois do fim do ajustamento venham agora à tona todas estas dúvidas?» - 00:06:15
. Professor Doutor Rui Ramos, cavacólatra eminente que vai de encontro a quando quer ir ao encontro de, em "O que fica do que passa", Canal Q, 11.Jul.2014:
«Este é um país que esteve durante três anos sobre vigilância de um comité internacional, a troika: Banco Central Europeu, Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional.» - 4:35
. Doutor José Magalhães interpelando esta tarde o doutor Paulo Portas no Parlamento:
«A
sua explicação anterior não nos permite perceber porquê este ênfase nas
contrapartidas, nas condições que estão na resolução.» - 02:16:00
. Faz três dias, no Malomil, o prodigioso cavacófilo doutor António Araújo, filou a doutora Isabel Moreira, por quem não morre de amores, desmanchando-lhe o Apátrida com a eficácia, a gula e o gozo de um jaguar famélico, muito me tendo divertido sem prejuízo da concordância que me merece o comentário anónimo das 12:50 de 15 de Julho de 2014.
Sucede
que o escrupuloso blogger escreve «o autoritarismo é metonimicamente denunciado através
da transnomição onomatopaica chiiiiiiiiiiiiiiiiiiu» e também
escreve «obra vulcânica, sulfurosa, que surge caracterizada por uma
cadência torrencial de palavras, aluvião semântico de frases despojadas de
sentido», quando deveria ter escrito transnominação e semântica não obstante a complacência
de um dicionarista manhoso que há tempos passou a acolher o masculino da enxurrada.
. Ferreira Fernandes, o melhor, no DN de anteontem, "Português consegue reestruturar a dívida":
«A
televisão (leiam acima) talvez tenha morto o ciclismo escrito.»
. No caderno de Economia do Expresso de 12.Jul.2014 fala-se – fossem eles a falar, o mais certo é que dissessem falam-se… - de ingredientes odoríferos que «vão ser proibidos utilizar».
________________________________________
Doutor Plúvio:
sob escrutínio
sob vigilância
esta ênfase
transnominação
aluvião semântica
tenha matado
ingredientes que vai ser proibido utilizar
sexta-feira, 11 de julho de 2014
A devoção de Assunção Esteves à poesia
«Nada contra a pantheonização (palavra bárbara, que nem
um h consegue salvar) de Sophia de Mello Breyner Andresen, mas a cerimónia não
deve ser poupada a uma reclamação: exceptuando o discurso de José Manuel dos Santos, com a sua dose equilibrada de justeza e de tom enfático adequado à circunstância, tudo o resto decorreu por conta do demónio do kitsch. Ele espreitou por todo
o lado, até nos ornamentos artísticos que acompanharam a pompa. Com
grandiosidade estática, ele foi a figura de invocação – a suprema musa – do
discurso de Assunção Esteves, que podemos definir como um extracto farmacêutico, quimicamente depurado, do kitsch resultante da síntese de dois elementos: a “sensibilidade poética” em estado de exaltação e a moral da responsabilidade cívica dos poetas, a que a presidente da Assembleia da
República deu o nome de “ética”, ou seja, nada mais nada menos do que aquilo
que dantes, a léguas da Igreja de Santa Engrácia, se chamava ideologia.
“Sublime” foi a palavra que mais vezes repetiu, até fazer dela um ritornelo.
Tão altas foram as suas palavras que a vertigem das alturas atingiu muitos dos que fizeram o esforço de a ouvir. Aos cumes do sublime e do inefável não se chega sem entusiasmo místico e
neles não se permanece sem cortes na respiração. A poesia nunca foi boa coisa
para o pneuma, por isso é que a tuberculose foi a doença por excelência de quem
elevou a poesia ao absoluto: os românticos. Mas a inclinação de Assunção
Esteves para as alturas estonteantes do cliché e da vazia eloquência teve
correspondência em lugares mais rasteiros e fez coro com uma legião de devotos,
formada por jornalistas e comentadores, que pudemos ouvir nos vários canais de
televisão. De onde vem tanta devoção? Qual a origem desta ideia fanática da
poesia como uma religião civil que, na circunstância presente, encarnou, no seu
grau máximo de evidência, na figura de Sophia?
[...]»
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António Guerreiro,
Fervor em manobras
quinta-feira, 10 de julho de 2014
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Evocação de Sophia de Mello Breyner Andresen,
por José Manuel dos Santos
«Minhas senhoras e meus senhores,
Estamos aqui para dar à memória de Sophia de Mello Breyner Andresen altura que ela deu à vida e à poesia que dela foi o centro e o sentido. Estamos aqui porque reconhecemos na sua voz a voz que continua a dizer o que é preciso ser dito. Estamos aqui porque ouvimos essa voz dizer: O poeta escreve para salvar a vida. Acredito que a poesia se opõe por sua própria natureza à degradação. Estamos aqui para lembrar o que Sophia lembrou num tempo subjugado e entregue à ameaça como também é o nosso. Não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas somos por direito natural herdeiros da liberdade e da dignidade do ser. Aqui olhamos o rosto da sua ausência e dizemos o nome lhe foi dado como uma predestinação: Sophia, Sabedoria. Afirmo de novo: não são os poetas que precisam de nós; somos nós que precisamos deles e das suas palavras de vida e de morte. Não é Sophia que precisa de nós; somos nós que precisamos dela como se nesta hora ela fosse o nosso Orfeu e nós dela a Eurídice.
Estamos aqui para dar à memória de Sophia de Mello Breyner Andresen altura que ela deu à vida e à poesia que dela foi o centro e o sentido. Estamos aqui porque reconhecemos na sua voz a voz que continua a dizer o que é preciso ser dito. Estamos aqui porque ouvimos essa voz dizer: O poeta escreve para salvar a vida. Acredito que a poesia se opõe por sua própria natureza à degradação. Estamos aqui para lembrar o que Sophia lembrou num tempo subjugado e entregue à ameaça como também é o nosso. Não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas somos por direito natural herdeiros da liberdade e da dignidade do ser. Aqui olhamos o rosto da sua ausência e dizemos o nome lhe foi dado como uma predestinação: Sophia, Sabedoria. Afirmo de novo: não são os poetas que precisam de nós; somos nós que precisamos deles e das suas palavras de vida e de morte. Não é Sophia que precisa de nós; somos nós que precisamos dela como se nesta hora ela fosse o nosso Orfeu e nós dela a Eurídice.
A concessão das honras de Panteão Nacional a Sophia de Mello
Breyner Andresen por decisão unânime da Assembleia da República faz da sua
memória um símbolo colectivo mas não faz, nunca fará, de Sophia um escritor
oficial ou um poeta de regime, mesmo daquele, o nosso, que a reconheceu e que
ela reconheceu. Assim é e assim será sempre, porque a poesia de Sophia torna
impossível a sua apropriação, a sua expropriação. Há nela a liberdade livre, a
vida viva, a grandeza nua, o fogo firme que a não deixa ser senão de quem nela encontra
o que ela é. Como se avisasse, Sophia disse: Os centenários, as
homenagens, as comemorações não me parecem muito importantes. A poesia, porque
é real, não precisa de ser oficial; porque é sagrada, não precisa de ser
consagrada; porque é uma necessidade quotidiana, não precisa de dia de anos. É por isso que a entrada de Sophia neste templo em que os
altares dos deuses deram lugar aos túmulos dos homens, é rito, símbolo e sinal.
Tem aquela solenidade, irmã do silêncio e da solidão, que é o contrário da
pompa e da propaganda. Por isso, este acto que celebramos aqui reconhece o que,
com Hölderlin, Sophia afirmava: Aquilo que
permanece os poetas o fundam. Sophia falou da sua poesia como se
marcasse as idades da sua vida. Disse ela: Na minha infância
nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram
consubstanciais ao Universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste
mundo dito por ele próprio. (...) Sempre a poesia foi para mim a perseguição do real.
E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu
sempre dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a
árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o
anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele
que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso
sofrimento do mundo. (...) A poesia pede-me que arranque da minha vida que se quebra,
gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. A poesia de Sophia, que deu à língua
portuguesa a soberania da sua exactidão, é uma arte do ser, uma mnemónica do
mundo, um vértice da vida. O fio que a percorre, feito de claridade e de
assombro, tem três nós de escuridão: o nó da noite, o nó do nada, o nó do não.
Podemos dizer dela o que ela disse de Cesário Verde: Às vezes, algo de rouco, de alucinado
e de visionário atravessa a lucidez dos seus poemas. Na vida de Sofia, os livros sucederam-se como as sílabas da
primeira palavra dita no mundo. Foi dessa palavra que ela fez nascer todas as
palavras da sua poesia. Com Homero, Sophia aprendeu a ver, com Dante, a
imaginar, com Shakespeare, a perscrutar, com Hölderlin, a sagrar; com eles
aprendeu a ser ela. Esta poesia acredita nos poderes da poesia. É medida e
fúria, ânsia e serenidade, evidência e decifração. Procura a unidade e a
inteireza, afronta a excomunhão e a divisão, a fractura e a falha. Liga, religa
e comunga. Alia o caos e o cosmos, o mundo antigo e o mundo moderno, Ulisses e
Cristo, o mito e a realidade, a gravidade e a graça, a claridade e o mistério,
a felicidade e o terror.
No canto de Sophia, há o grandioso encontro de uma grande
cultura com as suas origens e os seus ocasos, com as suas restituições e as
suas rasuras, com os seus crimes e os seus cumes. Neste canto, o passado é a
grande pergunta do futuro. No século XX português, Sophia e Fernando Pessoa são
o verso e o reverso da moeda com que os deuses vendem o que dão. Com Pessoa ela
travou um magnífico duelo que é um dos mais violentos diálogos da nossa
cultura. Os poemas, os ensaios, o conto inacabado que tem Pessoa como centro,
são o grande frente-a-frente de Sophia com esse Édipo que decifra os enigmas
fazendo deles o espelho que nos rouba o rosto. Ela invectiva Pessoa: Pudesse o instante da festa romper o
teu luto, ó viúvo de ti mesmo!, mas num texto que está entre os seus papéis figura-o. Pessoa surge, diz ela, discreto, tímido,
solitário, embiocado, meticulosamente delicado, racional e visionário,
escondendo um duplo pudor, a lúcida consciência do seu próprio génio e a sua
humanidade desmantelada pelas fúrias.
Minhas senhoras e meus senhores,
Sophia contou assim: Em 25 de Abril de 1974, às quatro e meia da manhã, um amigo telefonou-me dizendo que abríssemos o rádio, pois havia uma revolução. O quarto em que ouvíamos o rádio tinha uma porta de vidro que dava para o jardim e à medida que víamos a revolução avançar, e construir-se, víamos crescer a claridade do dia e sentíamo-nos emergir das trevas e do opaco. Foi para nós mais do que uma revolução; foi uma ressurreição. Era Páscoa, vi um povo inteiro habitar a transparência, vi multidões dançar de liberdade. Às vezes, olhávamo-nos uns aos outros e perguntávamos uns aos outros "Será que estamos a sonhar?" E um amigo disse "Mesmo que esta revolução falhe, mesmo que tudo acabe em desastre, nós vivemos isto". Pois o 25 de Abril era para nós mais do que uma libertação política; era a libertação da vida, a renovação do mundo. Por isso escrevi
Há nestas palavras a veemência de um começo, a vontade de um recomeço. Sophia, a Antígona portuguesa, cita a Antígona grega fazendo dessa citação um selo com o mundo: "Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres". Por isso, no país do medo, os seus poemas não tinham medo e, no tempo da cobardia, a sua coragem não aceitou o inaceitável. Por isso, na Assembleia Constituinte a sua voz ergueu-se e falou do que permanece. Por isso, ela disse um dia: Aos pobres de Portugal é costume dizer "Tenham paciência.", mas na verdade devemos dizer-lhes "Não tenham paciência!".
Agora lembro, oiço, vejo. Olho-a desenhada pelos seus próprios gestos e pela elegância deles. Oiço-a a falar de Pascoaes, de Torga, de Eugénio de Andrade, de Vieira da Silva, de Menez, de João Cabral de Melo Neto, de Manuel Alegre. Vejo-a na casa da Travessa das Mónicas, aqui bem perto, a mostrar-me os azulejos do filho Xavier com uma alegria sem recuo. Oiço-a citar Maria Velho da Costa quando ela falava dos "visionários do visível", e Eduardo Lourenço — aqui presente, que saúdo —, citando também: "em sentido radical, não há nada a dizer de um poema, pois é ele mesmo dizer supremo". Lembro os passos da sua dança sobre o mundo e por isso esta cerimónia vai ser atravessada pelo voo dos bailarinos que a deslumbrava. Há uma carta dela à mãe a falar do "Lago dos Cisnes", que veremos a seguir, como de uma felicidade. Recordo a sua arte de contar histórias e a malícia com que as contava. Oiço-a dizer com magnífica ironia: Não fazer nada exige muito tempo, pois fazer nada é uma coisa que não se pode fazer depressa. Lembro a sua distracção de tudo menos do que valia a pena. Oiço Agustina falar dela com um louvor tão raro que era quase uma rendição. Vejo Cesariny a visitá-la, quando o fim se aproximava, e a falar-lhe com um silêncio tão puro que se podia respirar. Lembro Ruy Cinatti a contá-la como quem conta um segredo. Vejo-a iluminada pela amizade e pelos relâmpagos da raiva de Jorge de Sena. Evoco Francisco Sousa Tavares, aquele que lhe ensinou "a coragem e a alegria do combate desigual". Lembro-a, lembro-os, e digo com ela, e digo por ela:
Assim pudesse o tempo regressar
Recomeçarmos sempre como o mar.
Minhas senhoras e meus senhores,
Sophia contou assim: Em 25 de Abril de 1974, às quatro e meia da manhã, um amigo telefonou-me dizendo que abríssemos o rádio, pois havia uma revolução. O quarto em que ouvíamos o rádio tinha uma porta de vidro que dava para o jardim e à medida que víamos a revolução avançar, e construir-se, víamos crescer a claridade do dia e sentíamo-nos emergir das trevas e do opaco. Foi para nós mais do que uma revolução; foi uma ressurreição. Era Páscoa, vi um povo inteiro habitar a transparência, vi multidões dançar de liberdade. Às vezes, olhávamo-nos uns aos outros e perguntávamos uns aos outros "Será que estamos a sonhar?" E um amigo disse "Mesmo que esta revolução falhe, mesmo que tudo acabe em desastre, nós vivemos isto". Pois o 25 de Abril era para nós mais do que uma libertação política; era a libertação da vida, a renovação do mundo. Por isso escrevi
Há nestas palavras a veemência de um começo, a vontade de um recomeço. Sophia, a Antígona portuguesa, cita a Antígona grega fazendo dessa citação um selo com o mundo: "Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres". Por isso, no país do medo, os seus poemas não tinham medo e, no tempo da cobardia, a sua coragem não aceitou o inaceitável. Por isso, na Assembleia Constituinte a sua voz ergueu-se e falou do que permanece. Por isso, ela disse um dia: Aos pobres de Portugal é costume dizer "Tenham paciência.", mas na verdade devemos dizer-lhes "Não tenham paciência!".
Agora lembro, oiço, vejo. Olho-a desenhada pelos seus próprios gestos e pela elegância deles. Oiço-a a falar de Pascoaes, de Torga, de Eugénio de Andrade, de Vieira da Silva, de Menez, de João Cabral de Melo Neto, de Manuel Alegre. Vejo-a na casa da Travessa das Mónicas, aqui bem perto, a mostrar-me os azulejos do filho Xavier com uma alegria sem recuo. Oiço-a citar Maria Velho da Costa quando ela falava dos "visionários do visível", e Eduardo Lourenço — aqui presente, que saúdo —, citando também: "em sentido radical, não há nada a dizer de um poema, pois é ele mesmo dizer supremo". Lembro os passos da sua dança sobre o mundo e por isso esta cerimónia vai ser atravessada pelo voo dos bailarinos que a deslumbrava. Há uma carta dela à mãe a falar do "Lago dos Cisnes", que veremos a seguir, como de uma felicidade. Recordo a sua arte de contar histórias e a malícia com que as contava. Oiço-a dizer com magnífica ironia: Não fazer nada exige muito tempo, pois fazer nada é uma coisa que não se pode fazer depressa. Lembro a sua distracção de tudo menos do que valia a pena. Oiço Agustina falar dela com um louvor tão raro que era quase uma rendição. Vejo Cesariny a visitá-la, quando o fim se aproximava, e a falar-lhe com um silêncio tão puro que se podia respirar. Lembro Ruy Cinatti a contá-la como quem conta um segredo. Vejo-a iluminada pela amizade e pelos relâmpagos da raiva de Jorge de Sena. Evoco Francisco Sousa Tavares, aquele que lhe ensinou "a coragem e a alegria do combate desigual". Lembro-a, lembro-os, e digo com ela, e digo por ela:
Assim pudesse o tempo regressar
Recomeçarmos sempre como o mar.
Minhas senhoras e meus senhores,
A entrada de Sophia no Panteão Nacional, nos dez anos da sua morte e nos quarenta anos do 25 de Abril, confirma as palavras que dizem a sua vida — poesia, liberdade, justiça — como três razões para que os homens se possam olhar nos olhos. Para Sophia, os poemas, mais do que para ser lidos, são para ser ditos. Assim, penso que não diminuo a solenidade e o sentido desta cerimónia, antes os acrescento e reforço, se vos convidar a que digam comigo o poema "Coral", que é uma das insígnias da sua arte poética:
Ia e vinha
E a cada coisa perguntava
Que nome tinha.
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Manuel Alegre
domingo, 6 de julho de 2014
Ao que um estimado cliente se sujeita
Da "coima" podada com
primoroso cinzel não culpo a CP; mas não se perdoa à CP o
indisposto dispôr.
Street art, arte estrita ou lá que é.
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