quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Acordo Ortográfico [48]

«O que é que haverá de comum entre personalidades tão diferentes como Pedro Santana Lopes, Jorge Bacelar Gouveia, José António Saraiva e Henrique Monteiro? Face aos jornais das últimas semanas, a resposta é muito simples: todos defendem o Acordo Ortográfico, todos discordam das posições que tenho sustentado, todos, pelos vistos, entraram em alerta vermelho com os textos publicados no Jornal de Angola [1 - 2], e todos evitam tomar posição sobre questões que são essenciais.
[…]
A resolução do Conselho de Ministros do Governo Sócrates (n.º 8/2011, de 25 de Janeiro) raia os contornos de um caso de polícia correccional: produz uma distorção ignóbil * da verdade ao afirmar, no preâmbulo, que adopta "o Vocabulário Ortográfico do Português, produzido em conformidade com o Acordo Ortográfico". É falso.
[…]
Acrescento que estou um tanto ou quanto farto de ter de voltar a estas coisas com alguma frequência. Mas tenho mais apego à minha língua do que a muitos outros interesses pessoais. E voltarei ao assunto as vezes que for preciso.
Para já, trata-se de instar quatro pessoas que considero e com quem tenho uma relação cordial, a que respondam aos pontos que levantei e aproveitem para ponderar as judiciosas considerações que sobre o assunto o Jornal de Angola tem publicado. Não perdem nada com o exercício.»
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* Pena que ao VGM nunca sobre, para falar do seu venerável e impoluto Aníbal e de outros abencerragens da escória "social democrata" com que sempre amesendou, nenhum dos adjectivos do labéu de delinquência, ignobilidade e vesânia com que incontinentemente usa recobrir não digo tudo o que lhe cheire a socialista mas tudo [chega a parecer o cão de Pavlov] o que lhe soe a Sócrates.
Vale, por incrível ou contranatura que pareça, que ainda vai havendo gente boa no PSD e, de facto, mal consigo acreditar em que acabei de escrever que no PSD ainda vai havendo gente boa.

Nem por gostar muito da palavra supérstite a irei usar

«Duas guerras mundiais, na mesma geração, deram a vítimas e sobreviventes a convicção de que a solidariedade atlântica era também um fortalecimento do conceito de ocidente [...]»

Não fosse a ‘convicção’, estaria capaz de entender ‘mortos’ no lugar de ‘vítimas’ – “mortos e sobreviventes”. Como convencer um morto seja do que for não se vislumbra cometimento fácil, fica o enigma sobre a espécie de vítimas a que se refere o professor. Aos feridos? Nesse caso, ‘sobrevivente’ é, para o professor, apenas quem atravessou a guerra sem uma beliscadura. Encurtando razões, acho que  o professor se excedeu na saliva; «deram aos sobreviventes a convicção» chegava. Mas o Adriano Moreira é sempre assim; gosta de escrever extenso, longo, prolixo e perifrástico.
O que me contive, céus, para não escrever a palavra supérstite.

Já agora …,

«- Mas porque raio tens interesse em que seja eu a comandar?»
... só para dizer ao senhor Comendador, Henrique Monteiro, Petit Larousse e paladino do novortografês que, nos quase 30 anos que levo de o ler e apreciar, sempre lhe tenho visto o erro “porque raio … ?” em vez do correcto “por que raio … ?”.
Enfim, nada de muito sério mas que talvez fique mal ao consumado jornalista que é e que, vez por outra, até manda uns bitaites sobre língua.
Pelos vistos, nem a mulher o corrige.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Narrativa

«A tentativa de isolar o Irão tem obrigado o regime a projectar poder na região (Bahrain, Síria, Líbano, Gaza, Iraque e Afeganistão), a endurecer a narrativa [...]»

Por este andar, não faltará muito para chegarmos à narrativa liquefeita, penúltimo passo antes da apoteose: a narrativa a vapor.

Faz mal beber

em demaresia.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Acordo Ortográfico [47]

No Público de ontem.
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«No passado dia 3, este jornal surpreendeu os seus leitores com a manchete "Vasco Graça Moura dá ordem a serviços do CCB para não aplicarem Acordo Ortográfico". O destaque dado à notícia, que reavivou de imediato a polémica em torno das novas normas ortográficas, foi objecto de um protesto do leitor Sebastião Lima Rego, desaprovando a sua escolha para título principal do PÚBLICO nessa sexta-feira. Na sua opinião, […]»
“A querela ortográfica em manchete” - José Queirós, provedor do leitor
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«O recente episódio da proibição de seguir a nova norma ortográfica por parte do novo diretor do CCB, Vasco Graça Moura, veio relançar, e incendiar, o debate sobre o Acordo Ortográfico (AO). Debate esse, em boa verdade, escasso, dado que, com honrosas exceções, apenas ouvimos as vozes dos detratores. […]»
“Acordo Ortográfico: prós e contras” * - Helena Topa, professora de Português, tradutora e revisora de texto
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«O título deste texto são as coordenadas do quartel-general da resistência ao Acordo Ortográfico de 1990 (AO/90). Muitas pessoas já por lá passaram e assinaram a petição em curso, contribuindo para engrossar as fileiras da resistência activa contra a prepotência e o disparate que é a implementação do AO/90.
[…]
Mas faltam ainda muitas assinaturas, por isso este apelo que hoje faço a toda a gente que acha que tirar o acento ao cágado ** é humilhante para a criatura […]»
“ilcao.cedilha. net” - Manuel Luís de Bragança
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** Verdade que se previu a supressão do acento gráfico nas esdrúxulas no Protocolo do Encontro de Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, rubricado em 12 de Maio de 1986 no Rio de Janeiro, mas a controvérsia e a discussão subsequentes acerca dessa e de outras alterações foi, na altura, suficientemente dissuasora para que o AO de 1990, sobre o qual agora se brande,  tenha deixado cair tal temerario atrevimento.
Assim, uma de duas: o Manuel Luís de Bragança esgrime contra o que não conhece ou, conhecendo, bem que podia poupar os leitores do Público à patranha desonesta, atirando lama à ventoinha. Em qualquer caso, o cagado não ajudará muito ao asseio desta “Iniciativa Legislativa de Cidadãos” e, fosse vivo o seu admirável pai, talvez não se livrasse de merecido puxão de orelhas. E quem diz pai diz mãe.
No resto, que é quase tudo, é capaz de ter razão.

Acordo Ortográfico [46]

«Eu, que não sabia o que era o salamim e do socialismo só julgava saber, tenho essa história demasiado presente quando leio os jornais portugueses a debater o Acordo Ortográfico. Escreve-se sem alma nem raízes, longe da coisa salamim e enrolados em vazios como "implementação" e "modus operandi" - os jornais não se leem porque são escritos sobre Unimogs - mas sufoca-se com o "p" mudo perdido. Prefiro o luandense do "çapato" e os erros de concordância de Nelson Rodrigues.»
Ferreira Fernandes, “Vocês sabem o que é o ‘modus operandi”? | DN, 20.Fev2012

Esperemos que chova

«Esta ideologia meteorológica ao serviço do lazer do homem urbano é também uma manifestação da racionalidade técnica, que Spengler caricaturava nestes termos: “o homem moderno não pode ver o curso de um rio sem o transformar logo mentalmente em produtor de energia eléctrica”. A distância que se criou em relação aos fenómenos naturais, como está patente no analfabetismo urbano em relação à chuva, é uma tragédia.»

Bom tempo, os tomates!
Ah grande António Guerreiro.

Acordo Ortográfico [45]

«Dedicado a Vasco Graça Moura e a todos os opositores do Acordo Ortográfico
A minha adesão pessoal ao Acordo Ortográfico (AO) tem a ver simultaneamente com confiança e humildade. Confio na sabedoria de quem o fez (não na sua infalibilidade) e sou suficientemente humilde para reconhecer que muitos aspetos que dizem respeito à etimologia e à fonética, tais como outros menos relevantes para este caso, me escapam.
[…]
o AO é importante porque aproxima da fonética uma série de palavras. E fá-lo, pela primeira vez, em função de um idioma que, sendo português, é também propriedade, matriz e identidade de outros povos e de outras latitudes. Cedemos? Não sei, nem me importa. Não quero uma língua para me distinguir do Brasil. Prefiro uma que me aproxime.
[…]
não aceito que uma lei discutida durante mais de 20 anos seja constantemente colocada em causa. Ou que os opositores do AO esqueçam sistematicamente que a forma como escrevem resulta também de um AO imposto por lei. Não vale a pena pensarmos que cada geração tem a pureza da grafia. O que pensar de Marco Túlio Tiro que, para poder transcrever os discursos de Cícero, abreviou diversas palavras com sinalética que até hoje usamos (etc., v.g., e.g.). Talvez o mesmo que muitos pensam das abreviaturas feitas pelos jovens nos telemóveis e redes sociais. E, no entanto, é a grafia que tem de estar ao serviço da comunicação - não o contrário.»
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«E agora, Miguel Sousa Tavares? E agora, Pedro Mexia?»

Ser Ana, Ana serena, serana

Boa, bonita, 55 quilos, honesta, 1 metro e 66, sensata, simples, 36 anos, complexa, divertida, bom garfo, sábia, rigorosa, prestável, perfeccionista; não fumas, não perguntas "tudo bem?", não votas no PSD, detestas a Celeste Cardona; humor refinado, inteligente, talentosa, sem tiques nem manias; competente em tudo incluindo na costura, no sexo, nos arranjos, no canto, no desenho e na cozinha; afável, culta, aberta, versátil, criativa; gosto do que vestes, de como te despes, de como te vestes, de como caminhas; generosa, anarca, justa, a voz mais bonita do mundo; escreves muito bem, falas com encanto; morena.
Pode alguém ser quem não é?
Tu és Ana.
- Foda-se, mas o que é que a canção do Sérgio Godinho tem a ver?
Mais: gosto dos teus amigos.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Efeitos secundários de viver

Passei ontem 4 horas e meia, sem me levantar do sofá nem mudar da CNN, nas exéquias de Whitney Houston.
Pela enésima vez neste fadário de descrença, espanto e deslumbramento, voltei a sentir que há:
- uma aparente diferença entre estar vivo e estar morto, ser vivo e estar morto, estar vivo e ser morto, ser vivo e ser morto, etc.;
- uma óbvia diferença entre ter fé e não tê-la, etc.
[Para FAQ sobre a matéria, favor dirigir-se a
este guichê.]

Apreciei muito a Alicia Keys e, não tanto mas não menos,
a persistência indiscreta do debrum da sua lingerie. As lágrimas e o preto ficam-lhe a matar. “Send me an angel”, a Alicia é linda.
Também gostei de conhecer a
família Winans.
O pastor Marvin canta, o pastor Marvin toca, o pastor Marvin
fala. Este pastor é um eyjafjallajökull.

Enfim, mais uma prova de que na América é tudo em grande. Só estranho como ainda não usam caixões a motor.
Let the church say amen. Seja.
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A propósito…
Oração fúnebre
Imagino o íntimo gozo, levemente sádico – gerundial, parentético, travessonado, pontovirgúlico e apneico - do velho doutor Kotter, a desafiar semanalmente à descodificação do genoma sintáctico do primeiro parágrafo os leitores fiéis dos seus defuntos.
Confesso que me estimula. Venha de lá o morto seguinte!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Da sabedoria - jaula, capoeira

31.Jul.1977, Alberto sapiens     |     16.Fev.2012, Ana sapiens

Miguel Portas, porrada neles

estamos a bater no milhão de pessoas sem emprego

Vale ao doutor Miguel Portas, e à humana gente em geral – pena que o Jorge Jesus seja muito mais escutado -, ter uma compreensão iluminada e simplificadora das coisas, e soluções fáceis e prontas a servir:

isto quer dizer uma coisa muito simples

isto acontece obviamente porque

e porquê? Basicamente por uma razão muito simples

só há uma resposta para o desemprego e a resposta é

a razão para isto é muito simples

caso para dizer uma coisa tão simples como isto

é muito mais barato nacionalizar

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Oficiais, sargentos e praças

No DN de ontem – “De camuflado só os argumentos legais” -, o magnífico Ferreira Fernandes trata do queixume sedicioso que vai engrossando nos quartéis com, a meu ver, inesperada candura e benevolência.
Insisto, «Para que serve, afinal, a tropa?» e continuo a não ver senão um modo de resolver o assunto: extinguir as Forças Armadas e reciclar toda a cangalhada com que parasitariamente se entretêm, dos pára-quedas aos submarinos,  removendo – para já, em Portugal, tanto mais que não precisamos de exércitos para nada e mesmo que precisássemos, ai de nós, de pouco nos serviriam, morigerando os costumes e dando exemplo ao Mundo [como fizemos, sei lá, com a pena de morte], - essa milenar chaga de civilização, ominosa engrenagem de morte que só pode envergonhar o ser humano. Sim, eu sei que o MAL nos é talvez endócrino e que, às vezes, nada como uma granada à mão e um soldado que a maneje com eficácia – de preferência, do nosso lado – para evitar males maiores.
Ainda assim, julgo que estamos em boa altura e com pretexto razoável para pensar a sério no assunto. O senhor doutor Pedro Passos  Coelho, oferecendo o peito às balas, sempre aproveitaria para exibir a coragem de que tanto se ufana; o senhor doutor Vítor Gaspar haveria de, com vénia, dizer, como usam do Ambiente rematar os beatos da Quercus, «o Tesouro agradece.»; por fim, que não benefício menor, o senhor dom Januário teria de ir pregar para outra freguesia.

Alberto Gonçalves | Rúben de Carvalho

«existe por aí uma notável quantidade de criaturas que não acredita só nas capacidades retóricas dos cadáveres: acredita que o destino de cada um de nós se encontra condicionado pela data de nascimento, a distribuição dos planetas ou o boneco extraído de um baralho de cartas. Resta apurar se uma inclinação colectiva para engolir patranhas é consequência da penúria ou explica a penúria.»
- “Fantasmas de sábado à noite”

«Em geral, os indignados protestaram a subserviência do dr. Gaspar ao sr. Schäuble. Alguns protestaram com particular detalhe: o deputado comunista Rúben de Carvalho* e pelo menos mais um comentador lamentaram a postura física do português, inclinado perante um alemão que nem sequer teve a decência de se levantar. Dado que após uma tentativa de assassínio em 1990, o alemão em causa ficou paraplégico e anda de cadeira de rodas, os críticos exigem que o dr. Gaspar realize milagres triviais e cure aleijados.»
- “O dr. Gaspar não faz milagres”
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* Rúben Luís Tristão de Carvalho e Silva, em 10.Fev.2012 na SIC Notícias, numa inteiramente inadequada e decerto das mais infelizes intervenções públicas da sua vida:
«Há duas ópticas, a meu ver, em relação àquilo que aconteceu …  A [óptica] que é proporcionada pelas imagens faz-me vergonha e deprime-me profundamente. Acho inqualificável, quer dizer, aquela imagem, enfim, se servilismo é uma palavra excessivamente violenta - não é? -, eu não hesito em utilizar uma palavra igualmente violenta: arrogância, em relação ao outro interlocutor que fala com o seu par em termos de hierarquia governamental, dentro da União, sentado na cadeira sem ter a gentileza de … Inclusivamente volta-se de costas, uma coisa verdadeiramente lamentável, digamos, o que ainda torna mais chocante – não é? – o agradecimento do senhor Ministro da Finanças. Há, aliás, um comentário que eu li hoje num jornal que eu acho que é de uma grande crueldade mas é inteiramente adequado, que é um comentário do coiso [sic] que diz “Verificaram se ele estava assente num joelho ou em dois?” – não é? – porque de facto [Risada abundante de RC] a imagem que aparece…»
Todavia, o que Rúben de Carvalho disse no «seu minuto inicial», acerca do Acordo Ortográfico, parece-me da maior acuidade e pertinência.

PS
Tendo a achar mais inaceitável que o Alberto Gonçalves desconheça que o Rúben de Carvalho não é deputado [foi-o na VII Legislatura, de 1995 a 1999] do que o desconhecimento, por parte do RC, do problema de locomoção do governante teutónico. De resto e pelo que se infere das reacções e apartes dos parceiros de conversa, nem  o Mário Crespo nem o Nuno Magalhães sabiam do ministro entrevado.

Em tempo
Informam-me de que, no Jornal das 9 seguinte - segunda-feira, 13 -, o Mário Crespo pediu desculpa em seu nome e no de Rúben de Carvalho. Fez bem.