quarta-feira, 4 de abril de 2012

Alberto Gonçalves acha que

Alberto Gonçalves acha que Portugal precisa de um PS.
Continuo, apesar disso, a achar Alberto Gonçalves uma das pessoas mais ajuizadas deste país, entre as que acham coisas em público.

O PS vai *

«[…] Estamos, sobretudo, a subverter o próprio conceito de identidade, e obrigados a desfazer-nos da narrativa** que nos diferenciou.
O PS, por seu turno, ainda não encontrou o enquadramento ideológico que forneça ao debate público um interesse sobrelevante de questões insignificantes. Seguro entrou na questiúncula provocada pelo Marcelo, que teceu, na TVI, uma teia reticular de intriga, tão ao seu gosto e estilo. E o secretário-geral socialista, em vez de resolver o berbicacho com um displicente: "Não comento o que dizem os comentadores", embrenhou-se em explicações desnecessárias. Logo o Marcelo ameaçou responder, no próximo domingo.
Que interesse tem isto para as pessoas?»

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«[…]
o dr. Seguro precisa de um milagre, os saudosistas do eng. Sócrates precisam de uma esperança, nós precisamos de paciência e o País precisa de um PS com juízo [não esquecerei tão cedo o que o Alberto Gonçalves acaba de dizer que o País precisa], por oposição a um bando de histéricos cuja abstinência aguda de poder os convenceu de que as causas da crise são o remédio da crise. Caso contrário, espera-nos o destino dos alienígenas de que descendemos.»

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«António José Seguro está reduzido a uma espécie de Mário Castrim: como não consegue lutar contra o programa da troika, dedica-se a lutar contra um programa de televisão.»
No editorial da Sábado de hoje.
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Votar como tenho, em quase todos os sufrágios desde 1975, votado no Partido Socialista [os outros, mas sobretudo o PPD/PSD, o BE, o CDS/PP e o PCP são muito piores] não me inibe de ver que, por exemplo, o Tozé Seguro é uma coisa tão má que nem pesadelo chega a ser; que o Carlos Zorrinho não presta ou que a diáfana tagarela, perdão, tagarêla, Maria de Belém Roseira não presta, perdão, prêsta. E assim sucessivamente.

Quanto ao Marcelo Rebelo de Sousa, diria que continua o rico e jorrante palhaço talentoso de sempre, em moto perpétuo, invariavelmente próximo da invertebrabilidade e do seu quase contrário.
Mas, lá está, nada nos próximos séculos podendo vir a ser pior do que o Cavaco, não hesitaria na cruzinha se tivesse de votar no pândego professor Marcelo para evitar o funesto dr. da Silva.
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* Ia para pôr “O PS vai seguro e não formoso” quando me ocorreu a alta eventualidade de que outros tivessem já glosado, por hipérbato, o clássico e célebre mote. De modos que googlei – o Google é um motor de prudência –, encontrando 6 ocorrências de vai seguro e não formoso, ainda assim bem menos do que seria de esperar. Três delas aludem ao soturno Tozé:
- em 05.Out.2009, uma tal bulimunda em comentário no blogue “A Educação do meu Umbigo”;
- em 17.Jul.2011, Alberto Gonçalves, voilà!, intitulando "Vai Seguro e não formoso" um naco da sua sumarenta prosa dominical no DN;
- em 09.Nov.2011, José António Abreu comentando comentários no “Delito de opinião”.

** Não que Baptista-Bastos não escreva bem, amiúde muito bem, e até que não diga, como na presente lauda, coisas assisadas; mas, por amor da santa, narrativa?
Ainda hoje o Nuno Azinheira, “Vitórias e esperanças”, ibidem, «[…] Ao fim de duas semanas de exibição, Ídolos mantém as características que fizeram dele um grande programa de televisão. Do ponto devista técnico, é irrepreensível: muitíssimo bem montado, segue uma narrativa bem construída […]»

Atrelam o pensamento ao psitacismo gárrulo da preguiça e depois querem que os levemos a sério. Porra que é demais! Não se importam de mudar um bocadinho a narrativa do discurso? Só para desenjoar.

Suicídio, modo de usar *

Ontologia a abrir a manhã, na praça Syntagma?
Nada a que os atenienses não devessem estar mais habituados do que os estudantes doutras praças.
«Um septuagenário disparou sobre si próprio em pleno centro de Atenas, à hora de ponta, provocando um vaga de emoção nos transeuntes, indicou a polícia.
O homem que se alvejou na cabeça na praça Syntagma, próxima do Parlamento, teria 77 anos e a sua morte foi imediata.
O macabro acto sucedeu pouco antes das 09.00 da manhã, quando os atenienses convergem para os seus empregos e se prepara a abertura das lojas.
Segundo algumas testemunhas oculares**, o idoso terá gritado que agia assim para não deixar dívidas aos filhos, uma tese*** que a polícia não confirmou oficialmente.[…]»

Também gosto muito da do velhote que, há uns 35 anos, mais minuto menos minuto, no átrio do instituto de medicina legal de Paris, respondeu ao que ia:
- Venho entregar o meu corpo à ciência.
Acto contínuo, abafando e sobrepondo-se ao «Hã?!» do porteiro atónito, tudo isto em francês, desfechou um tiro sabedor e eficaz na têmpora direita.
É altamente remota a probabilidade de que fosse canhoto.
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* Li, faz mais de 20 anos. Garanto que se sobrevive; no mínimo, 20 anos.
** Fico a congeminar sobre testemunhas não oculares.
*** A hipótese, quiçá frenológica, de que os polícias gregos têm mais queda para a filosofia do que os outros não se afigura nada negligenciável.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Em louvor de Álvaro Domingues,

que muito merece.

Os ingleses «[…] sentem a cidade como um desvio, sentem o deslocamento com culpa, sentem a falsa nostalgia de uma relação simbiótica com a ‘terra’ - a terra que Ihes serve de sinédoque para tudo: pátria, antepassados, independência, simplicidade, autenticidade. Esta ilusão pastoral não é, como é óbvio, uma idiossincrasia britânica.
[…]
É essa romantização e essa dualidade que se pretende desconstruir em Vida no Campo (Dafne), o mais recente livro do geógrafo Álvaro Domingues.
Já a sua obra anterior - o maravilhoso A Rua da Estrada, de 2009 - partira de um impulso semelhante: dissolver as distinções teóricas redutoras entre centro urbano e subúrbio, entre rota e residência, ao demonstrar que a paisagem nacional já se encarregara de as dissolver na prática.
[…]
Álvaro Domingues serve como antídoto uma anti-promoção. Ao contrário da pitoresca campanha inglesa, que explica às pessoas que o rural pode matar, Vida no Campo vem explicar-nos que o rural já morreu, mas nunca foi enterrado.
[…]
Vida no Campo, um livro extravagantemente bem escrito
[…]
Sensivelmente a meio do livro, temos direito a quatro soberbas páginas daquilo que, à falta de melhor alternativa, apenas podemos chamar ‘Crítica de muros’ (deste outro muro pode dizer-se quase tudo o que se diz acerca de muros, salvo que o único material é o granito, etc).
A prosa de Álvaro Domingues padece de uma condição pouco comum na sua área: é original e terrivelmente apelativa - e teme-se que seja uma questão de tempo até o expulsarem da Ordem. Há boas razões profiláticas para que o estilo não seja uma prioridade em ciências sociais, e os perigos dessa abordagem estão aqui em plena evidência. Das páginas de Vida no Campo emerge inconfundivelmente uma personalidade (no sentido literário), que corre o risco de mobilizar a atenção do leitor com mais urgência do que o tema. O presente leitor, embora nunca se tenha permitido dispersar do objetivo, deu por si a anotar com mais entusiasmo os pequenos triunfos de prosa do que os pontos-chave na linha argumentativa. Por outras palavras, termina-se o livro com menos vontade de continuar a refletir sobre a vida no campo do que de continuar a ler Álvaro Domingues - e é uma questão de tempo até que a especialização do autor (que é, enfim, um geógrafo, e não o nosso escritor de estimação) comece a produzir ressentimentos pela monopolização que impõe aos seus consideráveis talentos. A esperança é de que se reforme em breve, e se retire para uma cidade que saiba ser cidade, longe dos diabólicos perigos rústicos do campo, para escrever o resto dos livros que queremos que ele escreva.*»
Rogério Casanova, “Portugal em campo”, sobre Vida no Campo, de Álvaro Domingues | LER – Abril de 2012
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* Tenho saudades do tempo, 2002-2006, em que era pela crónica do Álvaro Domingues que abria o Público. Agora é pelo Miguel Esteves Cardoso mas não é o mesmo deleite.

Última hora: o Rogério Casanova fuma.

«[…]
Quando Alexandra Solnado nos revela que, ao passar por um período difícil na sua vida, começou a receber telefonemas de Jesus, suspeito que o factor mais determinante na nossa natural resistência é a forma como a revelação foi transmitida. Nestas matérias, somos todos críticos literários.
[…]
O autodidacta e o místico alucinado costumam partilhar uma triste característica: ambos procuram, não uma educação (intelectual ou espiritual), mas uma resposta - o instrumento que permita ligar todas as pontas soltas, para não ser preciso aprender mais nada.
[…]»
- "Experiência '2-3-74'", sobre Philip K. Dick
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«[…] o fumador ficcional por excelência é alguém cujo maior desejo é tornar-se não-fumador: o inevitável Zeno Cosini, de Italo Svevo, teórico do ‘último cigarro’, que marcava repetidamente datas simbólicas para deixar de fumar, na esperança de que o simbolismo ajudasse a cumprir a decisão. Não funcionou com Zeno, mas funcionou comigo: fumei um cigarro no dia em que li as últimas páginas de A Consciência de Zeno, e posso afirmar com orgulho que desde então não voltei a ler uma página de A Consciência de Zeno.»
- “Consultório literário – Cigarros clássicos”

Revolta | Revolução

«[…]
a revolta é a suspensão do tempo histórico e tem um valor em si mesma, independentemente das suas consequências e das suas relações com a historicidade; pelo contrário, a revolução implica um cálculo estratégico de longa duração, visa transformações no tempo histórico. Quando deixa de haver lugar para a revolução, mas apenas há para a revolta, é porque a única experiência do tempo é a do quotidiano e não a da história, é a do vivido e não a do que há-de vir.
[…]»

sábado, 31 de março de 2012

Emídio Rangel,

assinatura ilegível, estilo acutilante e correspondentes desculpas
- à Isaura Madeira e ao Nelson Delgado, 26.Mai.2011
e
- ao Manuel Alegre, 31.Mar.2012

sexta-feira, 30 de março de 2012

Wolfgang Beltracchi,

Gostos

Abomino o Parabéns a você, adoro a Patética do Tchaikovsky, detesto a Roberta Medina, gosto da palavra infame, gosto do João Paulo Guerra e da voz da Lara. Li esta manhã a Ana Bacalhau a dizer no DN «Os animais são seres vivos e têm sentimentos, só quem não convive com eles é que acha o contrário». Pois eu convivo com, entre outros animados e heteróclitos seres, várias torneiras de água, uma tartaruga e um frigorífico que faz ronrom e não acho o contrário apesar dos sentimentos contraditórios oriundos de ter almoçado hoje bacalhau à Zé do Pipo.
Ah, como é linda a chuva!
E daí? Daí, nada; no máximo, muito pouco.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Alberto Gonçalves

«[…]
Recusar o TGV implicaria recusar os “fundos” europeus destinados a financiar um pedacinho do TGV, corrente de pensamento segundo a qual é preferível incendiar a casa a desperdiçar o seguro.
[…]»
Alberto Gonçalves, “Na morte do TGV” | revista Sábado, 29.Mar.2012

«O dia mais triste das frases em português»

Há um comentário do José Bandeira.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Tal como o magnífico Chico Anysio, quatro dias antes,

o grande, grande Millôr Fernandes morreu, ontem, de pleonasmo, circunstância que recomenda e me impele a uns minutos de recolhida leitura da Bíblia – acresce estarmos na Quaresma -, na, pelos cânones da mais exigente exegese hermenêutica hodierna, melhor das versões que algum dia se publicaram e que tenho a suma felicidade de possuir na estante.
Felicidade é comigo.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Democracia, demofobia, tagarelice

«[…]
A demofobia, bem visível em todas as circunstâncias da prática democrática da governação e não apenas no momento das greves, mostra que aquilo a que chamamos democracia releva de uma profunda ambiguidade, que um lúcido filósofo italiano definiu nestes termos: ela é, por um lado, uma racionalidade político-jurídica e, por outro, uma racionalidade económico-governamental. O problema é que estas duas racionalidades se tornaram completamente heterogéneas, opostas, de tal modo que aquilo que política e juridicamente é legítimo e constitui a democracia acaba por ser negado no plano económico-governamental.* Num momento como o que vivemos, em que esta última é a regra e o critério de tudo, a democracia, como já todos percebemos, não passa de tagarelice.»
António Guerreiro | Expresso/Atual, 24.Mar.2012
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* Talvez por sobrestimar os seus leitores, António Guerreiro se tenha dispensado de informar que o lúcido filósofo italiano é Giorgio Agamben que, a dado passo deste livro, escreve:
«[…] Il sistema politico dell’occidente risulta dall’articolazione di due elementi eterogenei, che si legittimano e danno consistenza a vicenda: una razionalità politico–giuridica ed una razionalità governamentale, una ‘forma di costituzione’ e una ‘forma di governo’ […]»

Bandex

Como no Ponto Contra Ponto diria José Pacheco Pereira, bom trabalho.
Muito bom.

Acordo Ortográfico [56]

«[…] O Estado deu licença a uns quantos académicos para nos imporem uma ortografia comum com o Brasil. Falharam. O acordo não unificou as grafias do português. Aproximou-as, quando muito. A humidade ainda não é umidade em Portugal. A aproximação, todavia, resultou nisto: onde antes havia duas ortografias, haverá agora três – a brasileira, a portuguesa e a do acordo. E como o actual governo já admitiu uma reforma do acordo, poderá ainda aparecer uma quarta: a do acordo revisto. […]»
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 «[…] Face aos embaraços constatados no novo acordo, não só em Angola, mas também em Portugal, no Brasil e em outros países da Comunidade, só os asnáticos fogem para a frente e procuram impor pela força o que não conseguem convencer pelo uso da argumentação. O jeitinho do “tomem lá o Acordo e não piem” é uma forma muito pouco urbana, democrática e sensata de tentar resolver o problema. Assim, dificilmente, em português, seremos capazes de nos entender.»