sábado, 5 de julho de 2014

Clara Ferreira Alves, porta-voz de Carlos Cruz

… e está no seu direito.
A jornalista Clara Ferreira Alves [CFA], que admiro moderadamente e em cuja opinião não raro me revejo, foi à cadeia conversar com um condenado por abuso sexual de menores: "Carlos Cruz - Eu perdi a cidadania| Expresso/Revista, 28.Jun.2014.

CFA faz questão em informar, talvez para sossego do leitor, que não conhecia pessoalmente o indivíduo. E só não nos recorda de que é amiga próxima de Ricardo Sá Fernandes, advogado de Carlos Cruz [CC]*, por muito provavelmente isso não ter nem jamais ter tido a mínima interferência no que ela acha desde sempre deste processo que e sobre que, como eu, leu pormenorizada e exaustivamente.
O 'caso Casa Pia' tira-a do sério; a mim também.

CFA pergunta, comenta, esclarece, delibera; CC anui, corrobora, reitera. E não se sai disto ao longo de 5 páginas de palratório em que, não fosse o negrito a distinguir entrevistadora de entrevistado, mal se perceberia quando fala ela e quando fala ele.

Um pormenor.
Diz CC, ou fá-lo CFA ter dito: «Tenho a consciência tranquila. Estou condenado por um crime de abuso sexual de menores e não por pedofilia […]»
Algum rigor, já agora: CC está condenado por dois crimes de abuso sexual de menores. Não é por nada, mas dois é o dobro de um.

Enfim,
«Uma entrevista que pretende demonstrar a visão da entrevistadora sobre determinado assunto (no caso, coincidente com a do entrevistado) não é bem uma entrevista: é um embuste.» - Ilídio Martins, jornalista, 03.Jul.2014
Concordo. 
_________________________________________
CC- «Os meus advogados são espectaculares. O Ricardo Sá Fernandes, que não conhecia, é hoje um amigo. E é um homem de causas.» CFA há-de sentir consolo - quem não sente? -  em que lhe falem assim dos amigos. 
CC- «Quando ele [Ricardo Sá Fernandes] teve a certeza absoluta da minha inocência […], viu a monstruosidade disto tudo.»
Ricardo Sá Fernandes não é apenas de causas. É também de certezas absolutas. Por exemplo, Camarate foi – ele tem a certeza absoluta – atentado.
_________________________________________
CFA- «Estou convencida, pela leitura do processo e do acórdão, de que não devia ter sido condenado.» - Expresso, 28.Jun.2014
Antes de chegar a esta convicção declarada, que não questiono, é curioso verificar como a jornalista veio nos últimos 4 anos, apesar de tudo e ainda que com mal dissimulada prudência, usando "ses" na retórica do seu ponto de vista:
CFA, excitadíssima- Sobre a Casa Pia, queria dizer que, retomando tudo o que já foi dito, que é um processo que assenta em prova testemunhal [cara de enjoo] numa falabilidade [sic] absoluta e que, sem querer de maneira nenhuma minorar o sofrimento das vítimas … As vítimas e as alegadas vítimas também se enganam às vezes nessa prova testemunhal; e repito apenas aquilo que o Daniel disse: "e se estiverem inocentes?" Há um princípio básico no Direito Penal; chama-se “in dubio, pro reo” [batendo, furiosa, com a mão na mesa]Se houver dúvida!, temos que absolver. Se houver dúvida, temos que absolver. E eu tenho muitas dúvidas neste 'caso Casa Pia', muitas dúvidas.

CFA- É evidente que seria muito bom que todos nós pudéssemos pensar que ele [Carlos Cruznão é a vítima de um monstruoso erro judiciário e que é culpado porque isso sossegaria as nossas consciências. Acontece que a minha consciência não está sossegada com a condenação de Carlos Cruz. E porquê? […] Eu fui ao site de Carlos Cruz e fui ver inconsistências. E estão lá as inconsistências para quem as quiser ler. Aquelas inconsistências preocupam-me. A fundamentação da acusação vem aí – atrasada, mas vem – e eu vou lê-la [o ar de CFA é o de quem ameaça que vai lê-la!]. Porque se Carlos Cruz de facto está inocente, então a seguir ao grandioso crime que foi esta rede pedófila que se aproveitou e abusou destes miúdos durante anos […], então há um segundo e monstruoso crime que é termos colectivamente condenado um inocente. É bom que o país pense sobre isto veramente em vez de fazer linchamentos apressados baseados em sentimentos, impressões e emoções. É evidente que estamos todos revoltados com o 'caso Casa Pia' e todos nos sentimos vagamente cúmplices […] de coisas que toda a gente sabia que se passavam e ninguém fez nada.

CFA- Como não é possível dar voz às centenas, milhares [esgar enfático] de pessoas provavelmente injusticiadas [sic]vítimas de erros judiciários, etc., de facto não é possível nem nunca vai ser possível… É bom que haja um caso que lance luz sobre as iniquidades no sistema. E se Carlos Cruz estiver a ser vítima de um erro judiciário e puder através disso ajudar a melhorar o sistema, ele será o porta-voz de todos aqueles que não podem, não puderam, não poderão fazer... […] Temos que ter algum equilíbrio no modo como analisamos as coisas. [Olha quem fala.]

. «O que aconteceu ao Carlos Cruz, se ele estiver inocente, é uma violação de direitos humanos. Acho admirável que ele não se tenha suicidado.»
A propósito,
CC- «Eu já tive uma grande depressão, já me zanguei com a vida. Carreguei a pistola, e não aconteceu porque um amigo evitou. […] Tinha 50 anos. Recuperei.» - Expresso, 28.Jun.2014

CFA, assanhada e ululante, expondo à câmara o livro "Inocente para além de qualquer dúvida", brandindo-o e propagandeando-o com veemência de megafone dos feirantes de banha-da-cobra- Queria falar deste livro, do Carlos Cruz, cujo julgamento está neste momento em recurso e a ser avaliado pelos tribunais, e é impossível — o livro tem o prefácio do Miguel Esteves Cardoso —, é impossível ler este livro sem ficar com enormes dúvidas, não sobre a inocência de Carlos Cruz, que essa tem sido a base de tudo isto, mas sobre a culpabilidade de Carlos Cruz. Este processo [CFA com ar de troça] não deixa qualquer dúvidas [sic] de que há dúvida sobre a culpabilidade de Carlos Cruz e há um princípio-base no Direito Penal: chama-se “in dubio, pro reo” —em caso de dúvida, absolve-se; em caso de dúvida, absolve-se. Não é um juízo subjectivo, é um juízo objectivo, é a base de todo o Direito Penal [CFA gesticula, sentenciosa]. Além de que, como dizia um amigo meu, não é só da liberdade de Carlos Cruz que estamos a tratar; é da nossa própria liberdade. Este processo é terrível. É dreyfusiano e deixa-me assustada. Que ele tenha sido conduzido, investigado e tenha chegado a este ponto deixa-me muito assustada sobre a democracia portuguesa e sobre as instituições de defesa em Portugal.

. «A ideia de que o Carlos Cruz possa estar inocente – aquela prova testemunhal não tem nenhuma fiabilidade – e foi sujeito a isto é repugnante e assustadora. A liberdade está acima da propriedade. Tem outras implicações filosóficas, ontológicas, éticas. Não estamos a falar de um pequeno negócio entre amigos, mas de valores fundamentais.»
- CFA à conversa com Anabela Mota Ribeiro, no Jornal de Negócios de 07.Dez.2012, disponibilizada na página de AMR em 11.Set.2013

sexta-feira, 4 de julho de 2014

De 1 a 10, qual o seu grau de satisfação?

«Somos constantemente solicitados a contribuir para a audit society em que vivemos: fazemos uma operação bancária mais complexa, recorrendo aos ofícios de um “gestor de conta”, e ao fim de alguns dias recebemos um telefonema a pedir para avaliarmos o banco e os seus funcionários, segundo parâmetros de satisfação que vão de um a dez; pomos o carro na oficina, para uma revisão, e mal o retiramos somos contactados por um profissional de relações públicas que nos pede para fazermos uma avaliação dos serviços prestados, incluindo a solicitude com que fomos atendidos, usando mais uma vez a canónica tabela de um a dez; usamos os serviços técnicos da companhia que nos fornece telefone, Internet e tutti quanti (companhias especializadas em vender-nos o que não queremos comprar), e haveremos de ser convidados, por telefone, a fazer a avaliação quantitativa do “desempenho” dos anjos cibernéticos que são verdadeiros ministros de um poder executivo oculto. Sempre que respondemos a estes inquéritos, estamos a participar num sistema de controlo exercido em cadeia: cada um controla o próximo, através dos métodos policiais da avaliação, e é estimulado a exercer formas de auto-controlo e auto-avaliação.
[...]
Hoje, a verdadeira arte política dos governos democráticos, do poder cibernético-governamental, é a estatística. Daí, a orgia de números no discurso público que somos obrigados a atravessar, todos os dias, em todo o lado. Os centros de decisão do poder político são centros de cálculo e de tradução estatística. E o nosso horizonte está preenchido pela aritmética política, por um governo planetário dos números. A avaliação, ferramenta primeira da actual técnica gestionária, pode ser definida como um poder regulador e uma polícia científica.
[...]»

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Nada como realmente

Eu não suporto os advérbios de modo.
- Ferreira Fernandes, o melhor, à conversa por tu com a excelente Ana Sousa Dias.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O lugar do adjectivo

Pressinto sempre certa impropriedade em «filho único» para se dizer «único filho». Como se não fôssemos todos filhos únicos, pais únicos, pessoas únicas; como se não fossem filhos únicos todos os filhos que nos morrem; como se a morte de cada único filho acarretasse dor mais insuportável do que a morte de um filho entre outros; como se um filho sobrevivo pudesse suavizar a única tragédia única da morte e da vida*; etc.
Isto a propósito, se calhar pouco ou nenhum, da dor mediatizada de uma mãe importante que perdeu o seu importante filho; na piscina, abandonado..., o menino da sua mãe.
_______________________________________
* E de facto, dizem-me, suaviza. Merda!

James Rodríguez, alegre e genial moribundo

Momento memorável do Mundial foi, pelas 23:00 de sábado passado, a intervenção na RTP Informação de dois catedráticos a propósito do melhor futebolista da Via Láctea que acabara de marcar o golo mais fabuloso do 3.º milénio.
- Eu gostaria de salientar aqui a zona do terreno onde o James vai fazer o golo, porque ele acaba por neste jogo aparecer moribundo em situações. E esta equipa realmente deixa muito para análise porque toda ela é uma alegria a jogar. Anarquiza um pouco o jogo na forma como se coloca em campo.
- O Domingos salientou ali… O estilo vagabundo do James Rodríguez é aquilo que traz a surpresa, é aquilo que traz o absolutamente inesperado, e no caso de James, que traz aquilo que há de génio.

sábado, 28 de junho de 2014

Acordo Ortográfico [89]

08.Jun.2014 - Saramago traduzido para português | Nuno Pacheco

18.Jun.2014 - 'Abrir mão' ao descalabro ou do descalabro? | vários

27.Jun.2014 – A velhíssima mãe e os seus diferentes filhos | Nuno Pacheco
                   - Língua portuguesa, recurso fabuloso | José Ribeiro e Castro

28.Jun.2014 [online] – Conversor ortográfico Lince: uma estranha forma de estar
                                  na vida pública portuguesa
 | Ivo Miguel Barroso

No Público.

Escritores

«[…]
as entrevistas aos escritores são um campo fecundo de tropismos e tendências. De um modo geral, elas tornaram-se um discurso de complacência e satisfazem as solicitações fúteis do género people: o escritor fala de si próprio e do seu trabalho literário em registo de autopromoção e aceitando que tudo seja focalizado na periferia, que o texto seja um pretexto. Geralmente, o escritor aceita sem reservas nem desvios falar do modo de produção e escrita dos seus livros, dos seus gostos, das circunstâncias em que decorre o seu trabalho. A questão mais recorrente é a de como “surgiu” o livro, como é que tudo começou, como se deu o processo de “criação”. E, necessariamente, a partir daí tende-se para uma concepção quase teológica da “criação”: o escritor entrevistado é elevado naquele momento à condição laicizada do “criador”.
[…]
tornaram-se um género retórico, com os seus códigos: implicam um conjunto de obrigações e estereótipos aos quais tanto o entrevistado como o entrevistador respondem quase automaticamente. As entrevistas aos escritores mais novos — que são as maiores “vítimas” destas entrevistas, já que elas têm quase sempre um objectivo de apresentação — revelam ainda uma outra característica que pode ser também confirmada noutras circunstâncias: escrever, ser escritor, não requer ter lido muito e ter uma relação forte com a história e a tradição literárias. Esta ausência de um vínculo memorial com a literatura é um fenómeno completamente novo.
[…]
há hoje um fenómeno novo que é o dos escritores que não parecem estabelecer um vínculo com o que veio antes deles, que parecem escrever sem ter verdadeiramente lido. Por isso, mas também por outros motivos (faltam os espaços para publicar e desapareceram as solicitações), é cada vez mais rara a crítica de escritores, isto é, os textos de escritores sobre os livros de outros escritores.
[…]»
___________________________________________________
Ainda no Público/Ípsilon de 27.Jun.2014, por António Guerreiro, 
«Uma poesia de alcance intempestivo, que salta para fora do seu tempo de maneira a interrogá-lo e a resgatar o que nele se perdeu.
[…]
quase uma aposta de um místico sem mística, como se o poeta carregasse consigo o destino da humanidade e sofresse, de maneira mais trágica do que qualquer outro indivíduo, o golpe de “misericórdia dos mercados”. Se tudo isto fosse declinado de maneira ingénua, à maneira de uma celebração da transcendência da palavra poética e do canto dos poetas, seria insuportável. Mas o que aqui temos é outra coisa, onde não falta a consciência de si. E o resultado tem algo de intempestivo, na medida em que se projecta, implicitamemente, contra a poesia do desencanto do mundo e de si mesma, contra o ascetismo prosaico que suspendeu toda a crença no “estado de poesia” — uma versão profana do “estado de graça”.
[…]»

quinta-feira, 26 de junho de 2014

sobre o tremor do maremoto

«estava o rei em suas câmaras, mandou que lhe trouxessem as
                                                                                  fêmeas,
disse:
entre os sete e os setenta, ineptas, hábeis,
de ao pé das águas,
e lhes imitem o movimento,
ou ásperas, ou raparigas que se desfaçam quase
de serem súbito tocadas,
inacessíveis no sentido mais recôndito,
fúlgidas, frígidas,
fêmeazinhas de cândido repouso carnal,
e então o demónio as possua e elas subam acima de
                                                        qualquer linha,
que em eu, rei, as tocando, logo soçobrem,
logo tremam, gritem, se desfaçam e refaçam e subam
como se Deus as tocasse entre o cu e a côna,
oh fêmeas ininterruptas,
quero-as de todas as raças, longilíneas, espessas, sedosas,
                                                              árduas, amaras,
bravas debaixo das minhas unhas,
ou humílimas como cadelas domésticas domadas pelas
                                                                   palavras,
ou subtis movidas lunaticamente pela forma poética
— quero ser confirmado,
intrínseco,
tornado vasto como dez campos de aveia compacta,
rio fantasista concorrido por outros mais pequenos,
disse: vão à caça e tragam-mas:
nuas, vestidas, violentas, descalças, catorzinhas, inspiradas,
revôltas, ou como óleo entre os dedos,
e que cheirem ou a cabra ou a jasmim 
lírico, difuso, suprarreal, nocturno,
estava o rei em suas câmaras dolorosas e ordenou as
                                                                  músicas,
e perguntou alguém: ¿Salomé, a cabeça de S. João Baptista
sangrando numa bandeja de ouro?
(não a cômo! — gritou ele),
ou a teoria dodecafónica,
ou uma frauta cabreira,
ou a voz acerbadamente fugida da Dietrich,
ou esse fantasma de voz quebrada pelo soluço da Marylin*,
ou Mahala** Jackson,
para ele, rei em suas câmaras, morrer durante a noite
                                                                     inteira?
— só lhe falta a rapariga esquiva que ele pense que é um
                                                                        enigma,
só lhe falta saber tudo,
só lhe falta a mulher para morrer com ele,
a mulher que só há nele, no fundo,
a morta nele que de noite ressuscita,
e pelo dia todo de cada dia da terra
lhe rouba a alma,
o ceptro,
o segredo de ser senhor de tudo
(menos dela que é pensamento sensível
dos elementos juntos dois feito como do mundo,
etc.)
tragam-ma —
e vão trazendo mas nunca lhe trazem a mulher que está nele,
e ele não lhe toca nem de olhos nem de boca nem do nó de
                                                                      um só dedo
da mão que firma o ceptro sobre a terra,
o rei sòzinho no meio das mulheres menos a outra
(que é mãe e filha de todas),
e que pode um rei assim fazer senão deixar que as águas o
                                                                            subam
pelas câmaras acima e afoguem tudo,
como o mundo está sempre à espera que aconteça,
pois está escrito nos livros,
está marcado a fogo nas cabeças,
treme em todos os sentidos de quem vive nas câmaras,
ela nas altas montanhas ele ao rés das águas baixas,
sobre o tremor do maremoto,
sobre a ameaça maior do desejo do seu corpo pelo corpo
                                          que está selado dentro dele,
porque ele é rei apenas no fundo dos espelhos que
                                estremecem cheios de água,
— levem (lavem) a minha cara, eu sou outro,
levem a minha alma,
levem a minha amante e troquem-ma por outra,
outra mais conforme à mulher que não existe,
e ponham tão baixo a música que deitado no chão estreme
só eu a ouça, a música escrita apenas
para a minha loucura, a paixão, a aflição, a explicação
da minha biografia irónica e sensível:
e não se esqueçam: as putas todas e as virgens todas nas
                                                   minhas câmaras vazias,
manda o rei terrífico com voz política,
aquela voz de muito falar já treme um pouco,
que eles não saibam sobretudo que já estou demente
(mas toda a gente sabe),
tragam-me as putas todas, religiosas, profanas ou outras,
o meu pénis tem o tamanho de um ceptro
(e ergue o ceptro que tem cerca de metro e meio,
e na verdade o sexo dele é até maior um pouco),
traspasso-as da côna ao coração
(e que mulher não tremeria de pânico e oculto gozo?),
e assim passa ele o tempo e o medo e o mundo»

Trasladado de "A morte sem mestre", de Herberto Helder
[Páginas 34/38]
Porto Editora
1.ª edição: Maio de 2014
[À venda desde 09.Jun.2014]

«Reservados todos os direitos. Esta publicação não pode ser reproduzida, nem transmitida, no todo ou em parte, por qualquer processo electrónico, mecânico, fotocópia, gravação ou outros, sem prévia autorização escrita da Editora.»
© Porto Editora, 2014

Sou um delinquente.
____________________________________
* A senhora chamava-se Marilyn. *** 
** A senhora chamava-se Mahalia.
Responderá a PE, limpando as mãos à parede da cagada que fez: «não alteramos a intenção do poeta».
Fodam-se.

*** Leitor bem mais atento do que eu, e não menos indignado, vem hoje, 27, chamar-me a atenção para o erro em Marylin, que ontem me escapara. Agradeço-lhe.
Não alcançando com que espécie de intencionalidade poderá HH ter gralhado dois nomes próprios em dois versos consecutivos da página 36, avoluma-se-me penosa dúvida alastrada às 64 páginas da obra: que confiança textual pode merecer esta edição? Pelos vistos, pouca.
A propósito de "A morte sem mestre", começa a impor-se a pertinência de novo livro da Porto Editora. Não direi 2.ª edição  Herberto Helder proíbe-as , mas uma urgente sequela: o Livro de Reclamações. Por mim, dispenso CD de oferta.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Porto Editora | Herberto Helder

Em 9 de Junho corrente, na Feira do Livro de Lisboa, testemunhei e deixei-me inadvertidamente envolver no acto principal da encenação reles que vinha constituindo, e prosseguiu, o lançamento pela Porto Editora de "A morte sem mestre", de Herberto Helder, velha e fulgurante galinha-dos-ovos-d'oiro no mercado poético português. *
Acredito, decepcionado, em que Herberto Helder não é alheio a esta nunca vista por cá – enfim, fez-se um ensaio no ano passado com "Servidões" - mescambillha livreira. Por isso, acompanho António Guerreiro, "Herberto e os cálculos editoriais", ou António Araújo,"Herberto, S.A.", entre outros, no que puseram a nu.

O que, aposto, até ao próprio poeta escapou foi o descuido miserável na revisão, com desvios graves, intoleráveis, do original. Confrontei a leitura pelo autor de cinco poemas que integra o pacote de 22,00 € [livro + CD que a Porto Editora, iscando a coisa com engodo rasca comparável ao dos alucinogénios preços em 9, informa ser «de oferta». Não lhes bastava um simples e honesto «Inclui CD»?] com os respectivos textos no livro. Não me restando presumir senão que Herberto Helder lê o que Herberto Helder escreveu, vejam-se as diferenças: 

. HH: «o dia, a noite, o inverno, o inferno»
  No livro: «o dia, a noite, o inferno, o inverno
. HH: «para sempre um jogo ou uma razão,»
  No livro: «para sequer um jogo ou uma razão,»

. HH: «ou mais devagar como sempre acontece a quem espera ainda
  No livro: «ou mais devagar como sempre acontece a quem ainda espera
. HH: «ao vapor de verão no ar onde entram as pessoas,»
  No livro: «ao vapor de verão no ar aonde entram as pessoas,»
. HH: «estio e inverno afora no mundo»
  No livro: «estio e inverno agora no mundo»

. HH: «um pão que se tire do forno e se coma ainda quente por entre as linhas,»
  No livro: «um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre as linhas,»

Sem diferença.

. HH: «não me queixo de nada do mundo senão do preço das bilhas de gás,»
  No livro: «não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,»
. HH: «ou então de já não me venderem fiado»
  No livro: «ou então de mas não venderem fiado»

Se em quatro de cinco poemas é isto, não quero imaginar os atropelos ao original nos 23 que não nos é dado ouvir dizer pelo autor.
Nem a advertência do poeta-energúmeno, conforme António Guerreiro o enaltece, de que «Tudo quanto neste livro possa parecer acidental é de facto intencional.»  ou o pedido no primeiro poema - «peço por isso que um qualquer erro de ortografia ou sentido / seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro.» - livram a Porto Editora de nos fazer suspeitar de que uma coisa são os poemas que Herberto Helder escreve e lê, outra os poemas que saem adulterados do prelo.
Por exemplo, sob que desculpa, no poema a um burro velho dê-se-lhe uma pouca de palha velha, páginas 43/47, se faz supor ter HH escrito «[...] vou-me embora pra Parságada, disse então o Manuel Bandeira; [...] Vou-me embora pra Parságada [...]», se o que Manuel Bandeira escreveu, e disse!, foi Pasárgada? Não nos venham com a justificação de que Parságada é de facto intencional ou, dado o poema, assumida  burrada do nosso poeta. Mesmo que, remotamente, fosse erro de HH, para que raios serve o editor, afinal? Inadmissível, meus senhores!

Tende lá paciência, malta da Porto Editora, de cujas produções até costumo gostar, mas desta vez fizeram merda da grossa, insultando e defraudando o «bom leitor impuro», preparado para a côna, para os pintaínhos, para o sufôco e para inúmeros outros cometimentos ortográficos do actual maior poeta português, mas não defendido, nem HH decerto, da incúria e da incompetência a jusante.
______________________________________
* Um dia depois, 10.Jun.2014,  vendia-se aqui, a custo justo, com 450% [!] de lucro. O que o desinteressado amor à poesia faz... 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Direita

«Os Intelectuais de Direita Estão a Sair do Armário é o título de uma reportagem de Paulo Moura publicada na revista 2, do PÚBLICO, no passado domingo. Tal título veicula a suposição de que o pensamento de direita foi reprimido ou levado a um regime de auto-limitação, tendo finalmente chegado o momento da sua libertação e afirmação pública. Pensar assim é um equívoco.
[…]
Esta nova direita é, pura e simplesmente, um realismo. Por isso é que não precisa de grandes elaborações teóricas e a sua afirmação, como mostra muito bem a reportagem de Paulo Moura e os depoimentos que recolhe (nomeadamente, os de António Araújo), faz-se privilegiadamente nos media. Esse é o seu ambiente “natural”: o da comunicação, o do divertimento, o da burguesia como classe universal. Ela não precisa de construir um pensamento, só precisa de seguir uma cultura difusa e dispersa, de não interromper o entretenimento, de alimentar o conformismo dos media, de seguir com eficácia a estratégia da sedução, de aproveitar a onda de desculturalização da política que a esquerda superlight decidiu surfar.
[…]
Hoje, a questão verdadeiramente pertinente não é verificar, com algum equívoco, que os intelectuais de direita saíram do armário; é perceber que muito dos intelectuais que se afirmam de esquerda e falam em nome dela se converteram a essa cultura difusa da nova direita e aceitaram preencher as quotas de mediatização que esta lhe concede, aceitando um papel protocolar de “representação”. Também eles glorificam o novo realismo.» 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sandro William Junqueira, marido de sua mulher

«[…]
Durante semanas, com a anuência da mulher, fechou-se a escrever durante nove a dez horas por dia.
[…]
A minha mulher diz que nas alturas de trabalho intensivo fico assombrado, parece que trago da escrita os fantasmas atrás de mim.
[…]»
José Mário Silva conversa com Sandro William Junqueira a propósito de No céu não há limões, seu 3.º romance, depois de O caderno do algoz e de Um piano para cavalos altos.

Antevejo o título do 4.º romance: O dedo asfixiado ...

sexta-feira, 13 de junho de 2014

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Islão, eis a questão.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Populismo | cultura popular vs. cultura de massas

«[…]
A reacção ao resultado das eleições tinha acabado de mostrar que estas ora fabricam legitimidade, ora fabricam vencedores, consoante as necessidades, as argúcias e o jogo das aparências. Por efeito de um relato jornalístico conformado às regras actuais do storytelling, toda a disputa política a que estamos assistindo no interior do PS decorre em termos de competição desportiva ou de novela. Até ao limite do nauseabundo. O sucesso de Marcelo Rebelo de Sousa deve-se precisamente ao facto de ele entrar sem pudor nesta linguagem, “naturalizando-a” para consumo das massas. Ele é o mais alto representante do populismo cultural (algo que devia ser radicalmente incompatível com a função de professor universitário), um conjunto de procedimentos e convenções vindos precisamente daqueles que acenam com o perigo do populismo político e que se encontra sediado nos media. Este aparente paradoxo de um populismo cultural que se instalou sem resistência por intermédio daqueles que não parecem alimentar simpatias pelo populismo político diz-nos que toda a questão do populismo (ou do conjunto de fenómenos que a palavra hoje designa, no discurso corrente) precisa de ser vista de outra maneira. Precisa, em primeiro lugar, que se observe e analise esta regra geral: sempre que há uma intenção populista, é o povo que falta. Por isso é que se revela tão necessária uma distinção, em que Hannah Arendt insistiu, entre cultura popular e cultura de massas. Outro paradoxo deste populismo cultural (observável hoje até nos modos de circulação e legitimação de muita da cultura erudita) reside no facto de ele, nos momentos em que se entrega a arremedos de reflexão, gostar tanto de denunciar a “decadência” e a “crise moral”, ou dos “valores”. Sempre que alguém fala desta maneira, sempre que alguém apela aos “valores”, podemos ter quase a certeza de que está a reivindicar um novo conformismo, uma ideologia kitsch reactiva e restauradora, inimiga de todo o pensamento. A reivindicação dos “valores” segue a par de uma ideologia ética que se tornou sinónimo de moralidade e se satisfaz com todos os retornos.
[…]»

- x -

Ainda António Guerreiro, no Público/Ípsilon de hoje,
«Evitando cair nas questões mais controversas da historiografia judaica, Simon Schama empreendeu um trabalho de grande ambição.
[…]
A história que este livro nos dá a ler abrange um período de dois milénios e meio: começa por volta do ano 1000 a.C., trazendo à luz o mercenário Shalomam, ao serviço do exército da Judeia em Elefantina, uma ilha do Nilo, e acaba em 1492, com a expulsão dos judeus da Península Ibérica.
[…]
Uma tese fundamental atravessa esta História dos Judeus: a de que eles não se auto-segregaram, por rigidez e puritanismo cultural e religioso, e sempre tiveram ao longo da sua história uma atitude favorável à miscigenação; nunca quiseram ser uma parte separada do mundo em que viviam e, por isso, misturaram-se com os canaanitas, os egípcios, os persas, os gregos, os romanos, os árabes, etc. A segregação foi-lhes infligida: o pluralismo judeu é uma das linhas de sentido desta história de Schama.
[…]»