«Jantava, lavava a louça e colocava-se a escrever.»
Abrenúncio!
«a morte iniciava a rondar-lhe os passos»
Abstruso.
«Ao que parece, durante anos, o compositor John Cage sondou a possibilidade de elaborar uma obra completamente silenciosa, mas impedia-o duas coisas: [...] Contudo, encorajado pelas experiências que se realizavam já nas artes visuais, construiu a sua peça intitulada 4’33’’»
ou se o encontro com estas
nos inicia
«O mais provável é que tenham perecido a uma doença»
perecido de uma doença
«Aquilo que Durkheim chamava "as formas elementares" do fenómeno religioso podem encontrar-se, sem grandes contorcionismos simbólicos, no entusiasmo colectivo que o desporto-rei desperta.»
aquilo ... pode encontrar-se
«O pássaro domesticado vivia na gaiola e, o pássaro livre, na floresta […]
Meu amor voemos para o bosque»
Terá sido por
esta tradução ou por
esta, ambas brasileiras, que Tolentino se conduziu. Adaptou uma ou outra frase, como «
Vem antes ter aqui comigo» ou «
não podiam voar alinhando as suas asas», cumpliciando-se desleixadamente na pontuação desastrosa. Deixasse-se guiar por
esta tradução, igualmente brasileira, e não se espalharia tanto. Ou então, o mais avisado, traduzisse ele.
«[...]
The tame bird was in a cage, the free bird was in the forest.
They met when the time came, it was a decree of fate.
The free bird cries, "O my love, let us fly to wood."
[...]»
Só mais uma, doutra monta.
O hábito de o ler diz-me que Tolentino é artista na ocultação das gárgulas de que bebe.
«[…]
No pólo oposto, o poeta Rainer Maria Rilke ajuda-nos a pensar a ideia de aberto**** como projecto. E o aberto o que é? É a possibilidade de cada um viver em abertura fecunda ao real, resumida assim: "A nossa tarefa consiste em impregnar esta terra, provisória e perecível, tão profundamente em nosso espírito, com tanta paixão e paciência que a sua essência ressuscita em nós o invisível."
[…]»
**** «O termo “Aberto” foi criado por Rilke para exprimir essa abertura do ser para a vivência fecunda do real.»
- Nota de Alexandre Bonafim Felizardo, da USP (Universidade de São Paulo), no artigo "Dora Ferreira da Silva, leitora de Rainer Maria Rilke: aspectos intertextuais", publicado na revista "FronteiraZ"***** n.º 5, de Agosto de 2010, pp 156-165, isolado aqui. No mesmo artigo escreve ABF:
«[…]
Esse trabalho transmuta as coisas, torna-as interiores a si mesmas e a nós, torna-as invisíveis. Conforme as palavras do próprio Rilke: “A nossa tarefa consiste em impregnar essa terra, provisória e perecível, tão profundamente em nosso espírito, com tanta paixão e paciência que a sua essência ressuscite em nós o invisível.” (Rilke apud Blanchot, 1987, p. 138).
[…]»
***** Da PUC-SP [Pontifícia Universidade Católica de São Paulo]
Nota
Ao matreiro Tolentino, escondendo do leitor do Expresso que trasladou do brasileiro, escapou que em português europeu teria de ser «no nosso espírito».
E mesmo dando de barato que, no contexto da citação de Rilke, o conjuntivo «
ressuscite em nós o invisível» do Felizardo faz mais sentido do que o indicativo do «
ressuscita em nós o invisível» do Tolentino, ainda assim a ideia da ressurreição d'
o invisível continuava a soar um tudo-nada aberrante. Como não sei alemão [«
Unsere Aufgabe ist es, diese vorläufige, hinfällige Erde uns so tief, so leidend und leidenschaftlich einzuprägen, daß ihr Wesen in uns "unsichtbar" wieder aufersteht.» - Rainer Maria Rilke, 13.Nov.1925] e não tenho mais nada que fazer, guglei. E não é que no suplemento
"Vida literária" do Diário de Lisboa de 06.Jul.1961 já António Ramos Rosa, falando de Herberto Helder, citava a mesma passagem rilkeana, aqui, sim, com fraseado convincente?
«A nossa tarefa é impregnar esta terra provisória e perecível tão profundamente no nosso espírito, e com tanta paixão e paciência, que a sua essência ressuscite em nós invisível.»
Que lhe parece, senhor padre arcebispo cardeal, etc. e tal?