sexta-feira, 8 de maio de 2015

Ricardo Araújo Pereira

Se — lá está — o conhecesse apenas por isto, execrá-lo-ia.

Sou tão preconceituoso, céus!

A geração de Helena Matos e João Carlos Espada

«Reconhecemo-los à distância, mal aparecem no pequeno ecrã a comentar, nos jornais como escritores subalternos e nos postos oficiais onde o culto do arrivismo passa por razão de Estado: são os eternos ex-, os renegados da extrema-esquerda que renunciaram à utopia, os arrependidos de ideias, agora tão realistas por princípio que o seu realismo é uma nova ideologia, tão autoritária como a anterior. Eles constituem uma categoria, uma classe intelectual.
[…]
Eles, sim, constituem uma “geração”, palavra horrível para designar um coágulo de ideias colectivas, de gestos gregários e de camaradagens.
[…]
Tendo feito acentuadas viragens à direita, eles não se confundem no entanto com a velha direita: acumulam o que há de pior de um lado e de outro. Podem ter renegado tudo, podem ter feito um enorme esforço de reciclagem, podem estar treinados para triunfar no novo ambiente, mas há uma coisa de que não se libertam: as suas estruturas mentais e os seus métodos. Por isso é que são eternos ex-.
[…]
A personalidade destes ex-esquerdistas convertidos com devoção à nova ordem (não apenas política, também social, familiar e moral) é também uma estética e confirma-se num gosto por todos os valores seguros: pelo neo-classicismo kitsch; pelos escritores que “escrevem bem”; pelos cineastas que sabem contar histórias; pelos artistas que exibem o savoir-faire da tradição.»

Morte em precipitação oblíqua

Lia tudo na diagonal, até ao dia em que se desequilibrou, escorregou e se espalhou, inteiramente morto, ao comprido.
Em resumo, foi isso.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

TAP a um passinho da solução

Vale sempre a pena ouvir o comandante Hélder Santinhos, humanista, príncipe das letras e arcanjo do Bem, nem que seja por apenas 18 minutos:
«[…]
No nosso entender, mais importante que os númaros dos voos cancelados são as pessoas. A TAP preocupa-se muito com os númaros, nós preocupamo-nos com as pessoas.
[…]
É assim … Esses númaros acabam por ser muito adulterados pela forma de contabilização da TAP, quer seja porque há númaros que... 
[…]
Esta greve no fundo é o colorário de uma gestão ruinosa.
[…]»

Nada serena tanto como a lucidez e a boa gramática. Obrigado, comandante!
Só é pena que o nosso asado sindicalista não domine ainda o uso da tmese na conjugação pronominal reflexa do condicional de "permitir", "garantir" e que tais.  Quando dominar, livrará-nos de vez, pelos séculos dos séculos, do receio de qualquer risco que uma greve possa constituir. Isto, bem entendido, sem nunca perder de vista a complexidade dos grandes númaros. A prudência é a mãe da glória.

---
«Um cavalheiro americano com quem falei num voo da TAP de Nova Iorque para Lisboa *, especialista de aeronáutica e dono de empresas internacionais do sector, gabou o esforço de Fernando Pinto na penúria, e acrescentou que os pilotos portugueses são dos melhores do mundo mas que a companhia precisa urgentemente de injecção de capital.»

---
«Um especialista americano com quem falei e que representava um grupo interessado, capitais estrangeiros, era de opinião que o Estado deveria manter 51% da TAP, como companhia de interesse nacional. Estamos a falar de um capitalista americano que fez fortuna na aeronáutica.»

Bem que a doutora Clara poderia fazer-nos agora um favor, aliás, um enorme favor ao país. Aposto em como ficou com o número do tal cavalheiro  [ups, não era isto!]. Peça-lhe se pode vir cá com urgência — também pode ser pelo skype — dar uns bitaites à rapaziada do SPAC. Se não for esse especialista capitalista [bolas, também não era isto!] a ajudar, quem mais poderá socorrer os nossos pilotos no naufrágio do seu juízo?
Vá lá, Clarinha [não tá gira?], seja patriota.
____________________________________
* Lembram-se? Foi quando, dois parágrafos atrás, Clara Ferreira Alves acabara de, informar que «Para voar de um continente para o outro, há muito que deixei de usar a TAP».

O melhor candidato e a nóvoa dinâmica de mudança

«[…]
Por mim não tenho dúvidas. Sampaio da Nóvoa não vai cruzar os braços e vai ser o nosso futuro presidente da República. A minha mulher diria "Deus o proteja", mas eu, que não sou religioso, limito-me a pensar que vai ser eleito, como é tão necessário para Portugal.»

Desde a conversa com António José Teixeira na SIC Notícias, em 25.Jun.2011, passando pelo notável discurso no Centro Cultural de Belém, em 10.Jun.2012 [entre os três ou quatro melhores dos últimos 40 "discursos do 10 de Junho", a par — não o esquecerei — do de Jorge de Sena em 1977, na Guarda], que ando de olho no doutor António Sampaio da Nóvoa.

Tudo ouvido, tudo visto, que acho hoje de Sampaio da Nóvoa, na sua eterna barba de cinco dias?
Custa-me dizê-lo, tanto mais que se perfila para suceder, eleito pelo discernimento popular, ao insuperável penoso bípede que temos no palácio desde 2006: Sampaio da Nóvoa afigura-se-me um prolixo cagão culto, com um pensamento helicoidal aparentemente blindado à dúvida e à incerteza humanas.
Ná..., não me convence a aceleração com que afirma tudo.

Ainda há dias [i de 02.Mai.2015], Ana Sá Lopes quis saber:
«- É católico?»
Esperar-se-ia, para uma pergunta simples de duas palavras, uma resposta simples de no máximo, vá lá, até quatro palavras considerando a pontuação, do tipo «Não.», «Sim, sou.», «Não sou.», etc.  
Pois que respondeu o adivinhável futuro presidente de Portugal, país eminentemente católico, e decerto tendo isso em conta?
«Eu tinha uma relação profundíssima com a minha mãe. Já uma vez respondi assim: “Não sei responder a essa pergunta, mas a minha mãe é capaz de responder por mim.” Se ela estivesse cá para responder, seria capaz de responder melhor do que eu sou capaz. Tenho uma dimensão espiritual, religiosa, muito forte na minha vida, mas, como muitos de nós, sou-o à minha maneira. Ainda ontem, depois do anúncio da candidatura, a primeira pessoa a quem falei foi ao prior de Oeiras, que é uma pessoa por quem tenho uma consideração enorme, uma amizade enorme.»
95 palavras, pontuação excluída.*

«- Mas não consegue dizer que é católico?
- Não, não consigo dizer.»

Temos assim que a nóvoa dinâmica de mudança propugnada pelo brilhante académico nos 43 minutos [SIC Notícias, 30.Abr.2015] de conversa com a óptima Ana Lourenço, no dia seguinte ao da apresentação da sua candidatura**, não autoriza a quem se propõe imprimi-la respostas singelas e limpas a perguntas como:
- Prefere Super Bock?
- É contra o Acordo Ortográfico?
- Come a pele da alheira?

Já os religiosos dois, por ora, clips oficiais de candidatura têm uma música de fundo que mais soa a névoa merdíflua do que propriamente a incitamento. Antes o Rão Kyao... 
___________________________________________
* O quê?, foi verificar a minha contagem, leitor desconfiado!? OK, são 96; em rigor, cerca de 94.
** Aqui, o texto na íntegra, com itálicos em pose, para quem prefira ler ou não entenda língua gestual.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Mário Soares engana os leitores e patina confrangedoramente no ridículo

Que pena, doutor Mário Soares, que pena!

«[…] Na passada sexta-feira, em Aguiar da Beira, Passos Coelho estava a comer queijos - era o Dia do Trabalhador, note-se - e encontrou o seu amigo Dias Loureiro, que foi em tempos ministro da Administração Interna e que ganhou muito dinheiro, como, aliás, o actual Presidente da República, sem se saber bem como nem porquê. Foi um encontro entre amigos solidários, não só pelo interesse dos queijos, ao que dizem muito agradável. O elogio que Passos Coelho fez a Dias Loureiro, como empresário-modelo, é verdadeiramente indigno. […]»


Quanto ao "elogio indigno", morro de curiosidade por saber o que acha Mário Soares do elogio comovido que o biltre Loureiro, agora elogiado, fez em 30.Jun.2008 ao seu (de ambos, MS e DL) amigo José Sócrates, sendo este primeiro-ministro e o outro andando já a ganhar muito dinheiro sem se saber bem como nem porquê.

«[…] Felizmente que há duas grandes figuras moderadas e extremamente inteligentes, que têm uma visão do futuro que marca os seus e outros Estados. Refiro-me, como os meus leitores já perceberam, ao presidente norte-americano Barack Obama e ao Papa Francisco.
Barack Obama, a dois anos do fim do seu mandato e com a oposição permanente dos reacionários republicanos, tem vindo a desempenhar um papel extraordinário tendo em vista o restabelecimento de relações com Cuba, abrindo as portas aos dois Estados e oferecendo ao seu interlocutor uma excepcional oportunidade que está em marcha.
Quanto ao Papa Francisco, todos os dias nos fala invocando as dificuldades das boas causas e promovendo o diálogo e o entendimento entre as pessoas e as diferentes religiões.
A verdade, contudo, é que além das excelentes personalidades referidas e o papel que desempenham há, por outro lado, os responsáveis pelos mercados usurários que tão mal têm feito à humanidade, explorando desenfreadamente os recursos naturais, nomeadamente o petróleo.
É necessário e urgente que os geólogos e outros cientistas intervenham, impondo-se também o apoio dos políticos e dos governantes que queiram defender a Terra contra os mercados usurários.
É preciso combater os efeitos decorrentes das acções agressivas contra a natureza que favorecem fenómenos como o que ocorreu no Nepal, onde morreram até hoje cerca de sete mil pessoas, afectando mais de oito milhões de pessoas. […]»

O psitacismo com que, mais copiosamente desde Outubro passado, crónica a crónica, Mário Soares preenche todas as terças-feiras a página 8 do Diário de Notícias, começa a meter dó. Isto cheira-me a que sejam os três padres que jantam lá em casa [Vítor Melícias, Bento Domingues, Januário Ferreira] a ditar cada um seu parágrafo entre tragos dos capitosos néctares do Douro, Dão, Bairrada e Alentejo…
Mas sejamos justos. Se o DN oferece todas as segundas-feiras meia página à eloquência patareca do inenarrável Fernando Seara, nesse caso o "pai da democracia portuguesa" mereceria, mesmo levemente senil, um destacável inteiro todos os dias. É o mínimo a que faz jus o bom gosto dos 30 mil quinhentos e sessenta e cinco leitores do DN.

Tenho de dizer.
Nunca simpatizei com Mário Soares, mas votei sempre nele*.
O mesmo com José Sócrates. Não tenho, desde sempre, um pingo de simpatia pela sua pessoa, mas não só votei invariavelmente nele* como pugnei até ao fim, no meu convívio e neste estaminé, pela sua governação. Achava-o, desde que me lembro — e levo 45 anos de activa lembrança política  —, o primeiro-ministro de maior estaleca.
Hoje em dia, porém, mais do que uma pessoa desagradável acho-o uma personalidade monstruosa. E não, a maior nitidez do meu retrato do monstro não vem, por enquanto, da tecnicidade jurídica dos crimes de "corrupção" — longe e muito difícil de evidenciação —, "branqueamento de capitais" ou "fraude fiscal"; lá se chegará, ou não. O monstro que agora vejo em José Sócrates é espírito, é ectoplasma, é mau duende. Mora no que diz, como diz, no que tem escrito; está no lume alucinante com que sabe e parece conseguir enfeitiçar e abrasar os seus amigos, seguidores e apaniguados. **
Sim, acho José Sócrates um fabuloso artista, aldrabão, embora não desconheça que a mentira é uma banalidade, um, por assim dizer, elemento estribante de sobrevivência e civilização. Prezo incomparavelmente mais a honestidade.
Quem sabe, enfim, estes meus dois amigos tenham de facto visto e percebido o verdadeiro José Sócrates muito antes de mim. Oxalá estivesse eu agora enganado.
_________________________________________
* Anarca de inspiração e formação, reconheço-me sem esforço, céptica e cinicamente, um eleitor esquizofrénico.
** Esta extensa conversa de há ano e meio continua a dizer muito, e a não dizer, de José Sócrates.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Queijos e livros, afectos e afeições

. Aguiar da Beira, quinta-feira, 30 de Abril de 2015
«Manuel Dias Loureiro ... que cumprimento de uma forma muito amiga e muito especial, é um homem que é aqui de Aguiar da Beira, mas conheceu mundo — é um empresário bem-sucedido —, viu muitas coisas por este mundo fora e sabe, como algumas pessoas em Portugal sabem também, que se nós queremos vencer na vida, se nós queremos chegar longe, se queremos ter uma economia desenvolvida, pujante, temos de ser exigentes, metódicos. Cada dinheiro que é aplicado tem de render o suficiente para pagar a quem investiu, a quem forneceu esse financiamento, a todos aqueles que participam no processo produtivo.»

. Lisboa, segunda-feira, 30 de Junho de 2008
«Eu descobri um retrato que tem a ver com um homem de afectos e generoso. Um homem sensato, prudente mas optimista. Um homem corajoso e trabalhador. E depois um homem que tem qualidades de liderança.
[…]
O lado dos afectos foi dos que mais me emocionaram, o seu amor pela sua terra, Vilar de Maçada. Estão em Vilar de Maçada os valores que o amarram à vida.»

__________________________________________
* Em actividade desde 2010.
** Repare-se no consagrado artista que, à conversa com Dias Loureiro pelo minuto 0:25, também derramava afeição por ali...

Luís Marques Guedes, doutor

Curiosidade antiga e persistente é a que me suscita a licenciatura em Direito do ministro pinículo em epígrafe:
- Em que universidade a obteve?
- Em que ano?
- Com que classificação?
‘bora, jornalismo de pesquisa! Esta nem será difícil. Mas, adianto já, googlar não ajudará grande coisa: além deste rumor algo suspicaz, de 2007, um silêncio tumular.

Boa sorte e obrigado pelo esclarecimento. Há que tranquilizar o povo.

Amo a TAP

Só não acompanho Nuno Saraiva — "Isto não é sindicalismo, é terrorismo", DN, 03.Mai.2015 — quando diz: «a única coisa que o sindicato dos pilotos conseguiu foi isolar-se e colocar toda a gente, um país inteiro, a condenar esta greve, fazendo coro com todos aqueles que acham, por convicção e princípio ideológico, que nenhuma greve é legítima.»
Nem toda a gente. Por exemplo, o Partido Comunista Português, a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses - Intersindical Nacional e a Comissão de Trabalhadores da TAP, secular monólito comunistóide que, a par do Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos, assobia na Portela conforme se sopra na Soeiro Pereira Gomes, não só não condenam a greve como disfarçam mal a salivação de regozijo ante a desgraça iminente. Nisso, os comunistas variam pouco: quanto pior, melhor; o infortúnio é a sua levedura e a sua pulsão, lidam mal com a felicidade, o bem-estar parece tirar-lhes tesão. De resto, malta simpática, honesta, ordeira e trabalhadora. Mas não é fácil contrariar o que corre no sangue [se o ADN não estivesse tão metafórica e ridiculamente gasto, era mesmo ADN que eu diria].

Atente-se em como pelas 23:30 de sexta-feira passada, na RTP Informação, o coordenador da Comissão de Trabalhadores [CT] da TAP falava:
- Sobre a greve, como devem saber, já é histórico que a Comissão de Trabalhadores não toma partido em relação a nenhuma greve na TAP, por uma questão de respeito para com os signatários dessas greves.
Depois de proferida — como é que se diz em politiquês? — esta inverdade do tamanho dos Himalaias [sei do que falo] com descaramento não menor, riposta Sandra Felgueiras:
- Mas seguramente que neste momento que a empresa atravessa, um momento em que tivemos todos os representantes máximos do país a alertar para as consequências, do Presidente da República ao Primeiro-Ministro, passando por todos os ministros, Paulo Portas, Pires de Lima, até o próprio presidente da TAP, alertando para que o que pode estar aqui em causa é uma vaga de despedimentos ímpar da qual a TAP poderá não conseguir sequer reerguer-se, eu acredito que a Comissão de Trabalhadores, em relação a isto e a estes avisos lançados pela tutela, tenha algo a dizer…
Coordenador da CT:
Sim, claro que tem algo a dizer.
E desatou em deambulações conjunturais e históricas, decerto pertinentes, decerto respeitáveis, mas sem emitir o mínimo reparo, a menor preocupação com a inaudita e celerada aventura a que o SPAC dera início nesse 1 de Maio.
[…]
Sandra Felgueiras:
- E o pior negócio, por aquilo que vejo na sua lapela, é mesmo a privatização... Coordenador da CT:
- É precisamente a parte que nos preocupa.
Sandra Felgueiras:
- Não vos preocupa que uma greve com um potencial de gerar 70 milhões de prejuízos numa empresa que hoje não vale mais de 100 vos possa mandar para a rua?
Sem esboçar ou admitir um pixel de receio pelo futuro, o impávido homem da CT empreendeu por nova digressão histórico-política, decerto razoável, decerto atendível.
Como de costume, até à vitória final. Em gloriosa e irremediável asfixia.

Coisa em que os comunistas soem ser magníficos é na arrumação da mobília.

domingo, 3 de maio de 2015

Fronteiras e complicações da engrenagem

«[…]
Dentro de alguns anos, os historiadores julgar-nos-ão pelo que agora fizermos.
[…]
A suprema ironia é esta: no momento em que sabemos que todos os seres humanos vieram de África, é de África que não os deixamos vir.
[…]
O nosso espaço é a sua vida possível.
[…]
Uma sociedade tão rápida a destruir construções sociais naturais, como a família, mantém-se inabalável a defender construções sociais artificiais, como as fronteiras.
[…]
Não é um problema de vigilância ou de quotas de asilo. Trata-se de humanidade, de partilha. Se o capital não tem fronteiras, porque as têm seres humanos?
[…]»

Bem visto, bem dito. Mas provavelmente só até ao ponto em que o doutor Henrique, o padre Vaz Pinto e eu damos três voltas à chave do lado de dentro da nossa porta. Para dormirmos descansados no nosso espaço.
Ah, pois é. Se coabitar sem muros fosse simples e fácil…

Ia para dizer que faço parte da metade da humanidade que adora favas, mas de repente veio-me à ideia um martim moniz sudanês do sul maometano, com 20 mouros em fila atrás dele, a atravessar-se na soleira, e eu do lado de dentro a fazer força com as minhas filhas cristãs para trancar a porta. Amavelmente.
Sudanês, cigano, mendigo, duarte lima, tanto dá.
Enfim, humanidade, partilha.
Adoro favas.

Dia da Mãe

Nós devemos ter uma fé ainda mais forte…

Afinal, que merda de mãe divina é esta que desprotege os filhos que iam visitá-la?
Que raio de fé é esta?
Em que porcaria de deuses anda a humanidade fiada?

Enquanto isso, há que não subestimar a possibilidade de o doutor Mário Soares — que, como se sabe, não é religioso — nos trazer em próxima crónica no Diário de Notícias a real causa desta tragédia em Cernache: retaliação das leis da Física contra os mercados usurários.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Quercus, rãs e outros insectos

Sabia que estas lagoas são um «sítio ideal para quem gosta de observar nenúfares, ouvir as rãs e outros insectos»?

As coisas que uma pessoa aprende...

Sindicato de pilotos e trafulhice semântica

Texto integral do comunicado do SPAC lido pelas 20:00 de ontem por Hélder Santinhos, com a bandeira nacional em fundo.
«Boa noite.
Os pilotos lamentam terem sido obrigados, pelo Governo, pela TAP, a chegar à greve. Os pilotos e os trabalhadores da TAP não podem continuar reféns da gestão ruinosa da transportadora aérea e da falta de coragem política do Governo. O Governo vai ter de explicar aos portugueses e aos trabalhadores da TAP as ameaças que fez de colapso da transportadora aérea e, se as concretizar, quais as implicações dessa decisão para as contas públicas e para a economia nacional. A responsabilidade do estado actual da TAP não é dos trabalhadores. Não é clara a conduta desta administração na gestão de uma empresa tão importante para a economia nacional nem o silêncio do accionista Estado dando a entender a necessidade de encobrir decisões ruinosas. Os pilotos e os trabalhadores da TAP estão cansados de pagar por erros que não são seus. São os trabalhadores do grupo TAP quem mais tem contribuído para que a TAP continue a sobreviver e não aceitam por isso que o Governo faça mais concessões a um futuro investidor sem contrapartidas.
Em 23 de Dezembro, o Governo celeboru um acordo e em 16 de Janeiro apresentou ao país o caderno de encargos da privatização da TAP. Neste documento, o Governo não prevê nenhuma penalização para os investidores em caso de incumprimento dos acordos de empresa, o que torna o acordo de 23 de Dezembro inconsequente. Apesar desta evidência, o SPAC continua de boa-fé nas negociações com a TAP.
Ao fim de três meses, o SPAC confirmou que afinal as negociações eram na realidade um logro. A intenção do Governo e da TAP era mais uma vez iludir os pilotos e os portugueses criando um grave precedente que compromete a futura estabilidade social da empresa. Importa por isso salientar os fundamentos desta greve.
Primeiro, a continuidade do acordo de empresa da TAP e da PGA, nas condições expressas em Dezembro e com as disputas interpretativas resolvidas, para que o futuro investidor saiba exactamente os custos laborais do grupo TAP.
Vale a pena salientar que o transporte aéreo tem sido rentável ao longo dos anos mas essa rentabilidade continua a ser consumida sistematicamente pela brasileira VEM onde fizeram aumentos salariais de 6,5 % enquanto em Portugal reduzem os salários por imposição das medidas orçamentais.
Segundo, resolver o acordo de 1999. Na altura, perante a emergência em que a empresa se encontrava, os pilotos celebraram com o Governo e a TAP um contrato-promessa de acesso ao capital da empresa a privatizar entregando como contrapartida parte dos seus salários atribuídos em tribunal. É inaceitável que o governo o ignore.
Fica portanto claro que o que está em causa é o incumprimento de acordos e a imputação aos trabalhadores dos elevados custos da reestruturação do grupo TAP, através do sector privado, fugindo o Governo às suas responsabilidades.
A TAP é um tesouro que vai ser preservado. Acreditamos que o bom senso e a responsabilidade vão prevalecer e que será possível superar o radicalismo de governo e TAP.
Obrigado.»

Hélder Santinhos, ainda, respondendo a jornalistas presentes na sala:
A administração da TAP — aliás, é o que tem feito nos últimos anos — procura sempre iludir os pilotos fazendo concessões não simétricas para toda a classe e apenas beneficiando alguns em deterenimento [sic] de outros.
Cá estaremos para assumir as responsabilidades.

Enfim, comandante Hélder Santinhos, porta-voz da responsabilidade, do bom senso e da moderação, que a ganância jamais animará. Bem vistas as coisas, herói e filantropo, sem deterenimento doutras estimáveis qualidades.
- x - 
"Minha TAP, meu tesouro"

Acordo Ortográfico [90]

«[…]
Todo o processo de engendramento e implantação do Acordo Ortográfico de 1990 só tem paralelo nas experiências agrícolas de Lissenko: a ortografia, como o trigo duro, tem de se vergar às miragens de uma ideologia (que tem nome de “lusofonia”, mas é muito mais do que ela) e conformar-se aos desígnios de políticos e cientistas pioneiros, ditos linguistas, mas que são na verdade agentes de uma ciência politizada. Juntos, gritaram em coro, antes de perderem o pio: “A ortografia é a arte plástica do Estado”. Quem lê jornais, escritos públicos e documentos oficiais percebe que está instalada a anomalia ortográfica (em meia hora de televisão, no dia 25 de Abril, li dois “fatos” em vez de “factos”) e que a aplicação do AO90 é tão desastrosa e tão contrária aos efeitos pretendidos (temos agora três normas ortográficas no “espaço lusófono”) como a agricultura de Lissenko. E é já tão paródica como ela. O que é irritante é que toda a verdade de facto exige peremptoriamente ser reconhecida e recusa a discussão. Por isso é que os políticos com responsabilidade nesta matéria e o respectivo braço armado científico (os cientistas pioneiros do laboratório linguístico de onde saiu o AO90) recusam sair a público e discutir os resultados da sua bela obra: mostram-se às vezes irritados com o ruído da paródia. Mas apostam no silêncio, à espera que das intervenções genéticas no trigo duro nasça, se não cevada e centeio, pelo menos erva para forragens.»

Já agora...

«[...]
Como saltar do “órgão eréctil” para o AO? Fácil. Ao “órgão eréctil” foi-lhe capado o cê. Recordemos. As consoantes mudas são eliminadas quando não proferidas na pronúncia culta. No caso, o cê foi à vida, o que quer dizer que se alguém insistir em pronunciar “eréctil” isso significará que é um grandessíssimo bronco (a boa notícia é que, sendo bronco, não é necessariamente impotente). Estamos, pois, assim. Viva a fonética! Hipótese: em Portugal existe um grave problema de surdez. Ou isso, ou quem assinou o AO deve responder por crime de lesa-língua (as duas teses não se excluem entre si).
[…]
alguém, por amor de Deus, revogue o suicídio acelerado da língua. Sem esquecer que estamos a morrer orgulhosamente sós.»

«[…]
Obscuro é o Acordo. Nas motivações, no teor e nas consequências. As últimas são desastrosas! Nunca se viu tanta asneira junta. É “fato” para facto, “contato” para contacto, “impato” para impacto, “infecioso” para infeccioso, “batéria” para bactéria, “perfecionista” para perfeccionista... Seria fastidioso prosseguir. Dirão: isso são erros! Não constam do Acordo. Ah, pois é! Mas curioso mesmo é que ninguém os escrevesse antes do dito. Quanto ao teor, já os especialistas explicaram como a mítica unificação resultou num labirinto de variantes ao gosto do freguês e quão perverso é o critério da pronúncia culta (Coimbra? Porto? Funchal?). A parte fácil são as motivações: novos dicionários, prontuários, livros escolares e adaptações de clássicos dão dinheiro a muita gente (além dos instrumentos online).
[…]»

«[…]
A ideia de fazer um referendo sobre o Acordo Ortográfico é boa.
[…]
Votarei "não" com muito gosto e vontade de acabar com essa malfeitoria à comunidade dos portugueses e dos que falam português.»
José Pacheco Pereira, "Referendar o Acordo Ortográfico" | revista Sábado, 23.Abr.2015

«[…]
O presente título pode gerar certa ambiguidade que esclareço de imediato. Tivesse eu escrito "alto e pára o baile!" e o leitor perceberia logo que se tratava de uma ordem para desligar a música. Com o (des)Acordo Ortográfico, tanto lhe será permitido pensar isso como o oposto: bora pró baile!
[…]
uma reforma que decapita todas as consoantes mudas quer-me parecer coisa tão radical que nem no chamado 'período do terror' da Revolução Francesa, quando diariamente rolavam cabeças que era um disparate!
[…]
Ockham inventou um princípio que diz mais ou menos isto: havendo duas hipóteses igualmente válidas, escolhe-se a mais simples (na realidade, o que ele disse mesmo foi: pluralitas non est ponenda sine necessitate). Ora bem: se 'pára' se distinguia de 'para', simplificando a compreensão e a leitura, porquê complicar?
[…]
A falta que faz às vezes uma navalha de Ockham
Ana Cristina Leonardo, "Alto e para o baile!" | Expresso/E, 01.Mai.2015

Imagem que fala

«Entre o visível das artes figurativas e o dizível da poesia, há um espaço cheio de potencialidades onde se ergue, com enorme pujança, este livro de João Miguel Fernandes Jorge.
[…]
João Miguel Fernandes Jorge chega aqui ao mais elevado nível que alguma vez atingiu a sua poesia parcialmente ecfrástica (isto é, onde há um princípio, nunca exclusivo, de descrição das imagens).
[…]
o Eu apaga-se e é exclusivamente a imagem que fala, se aceitarmos como válida a ideia de que estes poemas têm origem no processo que consiste em submeter o visível ao regime do dizível; e não há arrebatamentos ou lugares de tensão concentrada, nem fogos-de-artifício de qualquer espécie, porque a música é contínua, subtil, em baixo tom, mas não monótona.
[…]
Este livro ajuda-nos a perceber um paradoxo que habita muita poesia portuguesa actual: com frequência ela evoca e reivindica o real, mas isso não obsta a que haja nela uma ausência de mundo, uma perda de cosmos. Ora, em Mirleos o horizonte alarga-se, o mundo expande-se.
[…]»