quarta-feira, 25 de julho de 2012

A jornalista Clara Ferreira Alves nem sempre é de fiar

Na crónica “É a falta de cultura, estúpido” *, de sábado passado - Expresso/Revista, 21.Jul.2012 - Clara Ferreira Alves profere o seguinte dislate, a meu ver muito grave e sem aparente desculpa:
«num tempo em que o partido comunista tinha uma elite intelectual e de resistência inspirada por um chefe que, aos 80 anos, quase cego, resolveu traduzir Shakespeare. Cunhal traduzindo o "Rei Lear" [...]».
Sucede que
1-  aos 80 anos, em 1993, Álvaro Cunhal [1913-2005] não estava quase cego coisa nenhuma; via lindamente; à maneira dele mas via. Aliás, é vê-lo aqui, em 1997, com 84 anos, ainda vivaço e de olhar aquilino, pronto a dizer as horas lidas no seu pulso esquerdo assim a preClara entrevistadora lhas perguntasse;
2-  a tradução em causa fê-la Cunhal, sim, mas por volta dos 40 anos, na cadeia. Viria a ser publicada em fascículos, sob pseudónimo, na década de 60 do século XX, já o tradutor escapara de Peniche e de Portugal. Nem a eventualidade de CFA se ter baralhado com  2002, ano em que a Caminho publicou uma 2.ª edição da obra, serve de desculpa ou atenuante, antes pelo contrário: nessa altura, Cunhal ia nos 89 anos.
Em suma, um imperdoável e clamoroso espalhanço de leviandade jornalística em que qualquer bom revisor, dos que dantes havia mas que os jornais entretanto dispensaram em nome duma poupança nas suas tesourarias inversamente proporcional ao desrespeito para com os leitores, poderia ter acudido à doutora Clara Ferreira Alves.

Mais diz a doutora Clara:
«John Carlin, o sul-africano autor do livro que foi adaptado ao cinema por Clint Eastwood, "Invictus", [...]»
Sucede que, para desgraça da cronista,
1- John Carlin é cidadão britânico, filho de mãe espanhola e de pai escocês, nascido em Londres em 1956 [curiosamente na mesma colheita de CFA];
2- o título do livro de John Carlin em que Clint Eastwood se baseou para fazer o “Invictus” é "Playing the Enemy: Nelson Mandela and the Game that Made a Nation".
Assim, a frase certa seria «John Carlin, o autor inglês do livro que foi adaptado ao cinema por Clint Eastwood, "Playing the Enemy: Nelson Mandela and the Game that Made a Nation", [...]».

Diz, a terminar, a doutora Clara Ferreira Alves:
«Como bem disse Vargas Ilosa, em vez de discutirmos ideias discutimos comida.»
e ainda:
«A gastronomia é uma nova filosofia. Ferran Adriá é o sucessor de Cervantes e de Ortega Y Gasset.»
Quanto ao acento no Adrià [grave é como pertence] e ao y maiúsculo no Ortega y Gasset, fiquem essas por conta de distracção simples ou de revisor burro supondo, sei lá, que Ortega tenha sido um espanhol e Gasset outro. [Por que raio me está a vir à lembrança o Valter Hugo Mãe?]
No que me custa fiar, embora sem condições de o poder taxativamente infirmar, é, dadas as inexactidões que precedem, no dito atribuído ao Vargas Llosa tal como CFA o reproduz. Não sei porquê, cheira-me a mais uma contrafacção adaptada e simplificada pelo ouvido ligeiro da jornalista. Com efeito, numa entrevista publicada em 13.Abr.2012 no El Cultural, suplemento semanal do El Mundo, achava o Nobel peruano:
Não cheira?

Outra passagem da pluma caprichosa em apreço:
«O artista trabalha para o 'mercado', tal como o jornalista, sujeito ao rating das audiências e dos comentários online.»
Com desempenhos destes, mais do que se justificaria um rebaixamento do trabalho jornalístico da doutora Clara Ferreira Alves de Qualidade média superior para Substancialmente arriscada. Não lhes parece?

Citando pela última vez Clara Ferreira Alves:
«quando digo nós digo o jornalismo na sua decadência e euforia suicidária [...]»
Quod erat demonstrandum.
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* Caso para dizer que, com este título inadvertidamente irónico e masoquista, julgando que se benzia a criatura partiu a testa.
De resto e na essência, uma boa e pertinente lauda de Clara Ferreira Alves.