quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Notícias da peste, da cadeia e da vida, enquanto Trump não tomba

«Aproveitar* para também, parece que é importante, dar uma boa notícia, apesar de tudo, e que tem a haver com o valor do R que tem estado a diminuir de forma sistemática.»


//
«Pôs-se em fuga perto das 11 da manhã. Aproveitou um momento de menor vigilância, então**, para saltar as barreiras que separam os reclusos das visitas. Este homem pôs-se então** em fuga e foi então** auxiliado. Terá sido auxiliado por uma mulher que o esperava no exterior do estabelecimento prisional. Ambos puseram-se em fuga. As forças de segurança estão então** no encalço destes dois indivíduos que estão em fuga depois de uma fuga do estabelecimento prisional de Sintra.»

//
«A vida é o que acontece enquanto fazemos outros planos.»
Suponho que pouca gente reconhecerá de imediato a voz de Inês Meneses, a do incontinente e insuportável não é? — locutora radiofónica "do regime", transformada numa espécie de Pedro Chagas Freitas*** da intelectualidade pernóstica contemporânea desde que aninhou com Tozé Brito, das autoridades musicais mais sobrevalorizadas e medíocres da galáxia —, e palpita-me que ainda menos pessoas topem ali uma citação de John Lennon [Life is what happens to you while you're busy making other plans. - "Beautiful boy (Darling boy)", 1980]. E não fecho o parágrafo sem apostar em que a República Portuguesa, promotora da fita, não pediu autorização nem muito menos pagou "royalties".
Se me engano, castigo merecido.
_________________________________________
* Replicante paradigmático do pior português verbal que se possa imaginar, dificilmente este médico Sales, serventuário discreto da propaganda ministerial, escaparia ao contágio da pestilência, sem antídoto nem imunidade, grassante por todos os púlpitos da comunicação pública [política, jornalismo, igreja, desporto...], que é a moda de abrir a frase declarativa pelo infinitivo impessoal. Já poucos falantes, que ainda têm alguma noção de decência linguística, dizem hoje em dia
«Em primeiro lugar, os meus cumprimentos...», «Obrigado pelo convite. Antes de responder à sua pergunta, deixe-me corrigir...», «Boa tarde a todos. Quero dizer antes de mais que...», «Antes dessa questão, esclareço que...», «Aproveito também para...», etc.,
em vez das horripilâncias
«Em primeiro lugar, cumprimentar...», «Obrigado pelo convite. Antes de responder à sua pergunta, corrigir...», «Boa tarde a todos. Dizer antes de mais que...», «Antes dessa questão, esclarecer que...», «Aproveitar também para...», etc.
Haja decoro. 


Disenteria de petulância fragmentária prefaciada pelo príncipe do xarope lacrimoso, Valter Hugo Mãe.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Xária ó *


«(...) Eu me encarregarei de lançar o terror no coração dos infiéis e vós batei-lhes nas nucas e nas juntas dos dedos.» - Sura VIII,12
«Ó Profeta, excita os crentes ao combate. Vinte homens firmes dos seus esmagarão duzentos infiéis. Cem porão mil em fuga, porque os infiéis nada compreendem.» - Sura VIII, 66
«(...) matai os idólatras onde os encontrardes, aprisionai-os, cercai-os e armai-lhes emboscadas para os prender. (...)» - Sura IX, 5
«Matai os que não crêem em Deus [Alá], nem no Dia derradeiro, que não considerem proibido o que Deus e o seu Profeta proibiram (...)» - Sura IX, 29
«Deus não dirigiria os que não crêem nos seus versículos. Esses terão um tormento cruel.» - Sura XVI,106    
«Na verdade os que ofendem Deus e o Seu Profeta serão amaldiçoados por Deus neste mundo. Ele preparou-lhes um suplício ignominioso.» - Sura XXXIII,57
«E quando vós encontrardes os que não crêem, devereis bater-lhes nas nucas, até chaciná-los, e apertai fortemente os laços!» - Sura XLVII, 4
«Na verdade, os que não crêem, de entre o povo do Livro, e os idólatras ficarão no fogo do Inferno; lá viverão para sempre. Esses são os piores dos seres criados!» - Sura XCVIII, 5
«Tais são os preceitos de Deus. Os que obedecem a Deus e ao seu Profeta irão para os jardins por onde os regatos correm. Aí morrerão eternamente e isto será a maior felicidade.» - Sura IV,17 
«O que desobedecer a Deus e ao seu Profeta e transgredir os preceitos de Deus será precipitado no fogo, onde viverá eternamente, entregue a castigo ignominioso.» - Sura IV, 18

Acordei hoje com a telefonia a falar de mais umas manobras do «radicalismo islâmico» [sic], desta vez em Viena.**
É sempre assim, obrigatoriamente assim: «radicalismo islâmico», «fundamentalismo islâmico», «extremismo islâmico», «terrorismo islâmico» ..., como se o Islão não fosse, per se, radicalismo, fundamentalismo, extremismo, terrorismo. Até quando continuaremos no ocidente de matriz intercultural educada, bondosa, igualitária, convivial, inclusiva, ecuménica, a edulcorar com um qualificativo pleonástico, açaimados pela inquisição do pensamento autorizado, a essência do mal para explicar os factos?
Ai de nós, pobres de nós!

Como se não bastasse, vem o Papa Francisco tentar persuadir a gentinha ignara de que «o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência. […]» - "Evangelii gaudium
Ainda agora, na "Fratelli tutti", Carta encíclica de 03.Out.2020 que fez vir-se de entusiasmo — orgasmo 1,  orgasmo 2 — o insigne hermeneuta Pedro Marques Lopes, aprecie-se o tom ternurento e reverencial com que Francisco refere o Grande Imã que visitou em Fevereiro de 2019, nos pontos 5, 29, 136, 192 e 285. Ponto 285: «Naquele encontro fraterno, que recordo jubilosamente, com o Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, declaramos – firmemente – que as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue.(...)»
Interrogo-me se estes santíssimos cavalheiros não estão mesmo a tomar-nos por imbecis distraídos.

Entretanto e cumprindo o guião da bovinidade política universal, presidente-arlequim, António Costa e Ferro Rodrigues não poderiam deixar de vir, lestos, repudiar e condenar veementemente o ataque*** 

Islamófobo me confesso. 
________________________________________________
** Altura em que o Boavista dava 3 secos ao Benfica, o que me fez quase crer, Alá me perdoe, que Deus é (mesmo) grande!...

*** Resta saber se, quanto a António Costa, o fez antes ou depois do dever diário de homenagear Mário Soares. Os despachos da Lusa são omissos quanto a isso. issozisso.
E você, visitante paciente, já cumpriu hoje o seu dever diário

PS
Como estou bem disposto, não me vou sem uns miminhos para certas feministas que conheço. Usam votar no BE, na Joacine, no PCP e na esquerda do PS, mas quanto à consideração em que o islamismo tem a mulher nem um pio. 
«Os homens são superiores às mulheres pelas qualidades com que Deus [Alá] os elevou acima delas (...)» - Sura IV, 38
«Dize às crentes que baixem os olhos e que observem a continência, que só deixem ver os ornamentos exteriores, que cubram os seus com véus, que só mostrem os ornamentos a seus maridos ou a seus pais, ou aos pais dos seus maridos, a seus filhos ou aos filhos de seus maridos, a seus irmãos ou aos escravos ou servos varões sem desejos carnais, ou às crianças que ainda não distingam os órgãos sexuais da mulher. Que elas não agitem os pés de maneira a revelarem os ornamentos que trazem ocultos. (...)» - Sura XXIV, 31
«Ó Profeta, dize às tuas esposas e às tuas filhas e às mulheres dos crentes que deixem cair até abaixo os véus exteriores. Será mais fácil assim não as reconhecer e não as ofender. (...)» - Sura XXXIII,59 
«As vossas mulheres são para vós campo cultivado; percorrei o vosso campo como quiserdes (...)» - Sura II, 223
«Aos que juram afastar-se das mulheres impõe-se um período de espera de quatro meses (...)» - Sura II, 226
«As repudiadas aguardarão que decorram três períodos de regras antes de voltarem a casar (...)» - Sura II, 228
«Conservareis a mulher com humanidade e repudiá-la-eis com generosidade. (...)» - Sura II, 229
«Se alguém repudia a sua esposa não a poderá retomar depois sem que ela tenha casado com outro marido, e este por sua vez a tenha também repudiado (...)» - Sura II, 230
«Quando repudiardes mulheres e chegar o momento de as mandar embora, devereis tratá-las com humanidade e com humanidade as despedir. (...)» -  Sura II, 231

Finalmente, um "Protocolo de higiene" para a 35.ª vaga da covid: 
«(...) lavai a cara e as mãos até aos cotovelos; esfregai as cabeças e os pés até aos calcanhares.» - Sura V, 8
«(...) se um de vós vier de lugar escuso ou se acabar de ter relações com mulheres, se não se encontrar água, tomareis areia fina e limpa e com ela esfregareis o rosto e as mãos. (...)» - Sura V, 9

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Mantra da lamentação

«Lamentamos mais 33 mortos.»
Em tempo
«Hoje lamentamos 40 vítimas mortais.»

A SIC subiu a parada: passou de lamentar com sujeito indeterminado — há a lamentar, lamentam-se ... — a lamentar ela própria os mortos por covid-19, apenas esses, assimilando bovinamente e sem aspas a retórica dolorida do governo carreada pelos despachos serviçais da Lusa do Nicolau.

Simplesmente lastimosos, para não lhes chamar, como António Guerreiro lhes chamou com as letras todas, estúpidos: 
«como é que gente certamente sensata e inteligente aceita passar por estúpida quando cumpre a sua tarefa profissional?»

Ficamos à espera do dia em que este jornalismo mimético comece, por exemplo, a lamentar os desgraçados, várias dezenas por ano, que morrem debaixo dos tractores com que trabalhavam e, já agora, do dia em que a propaganda de António Costa lhes dedique — acaso não merecem? — luto nacional.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

O «conscionalismo» democrático e o orgulho proléptico de António Costa

«As eleições regionais são sempre uma marca importante do conscionalismo democrático [...]
O PS orgulha-se muito do seu passado, do seu presente e do seu futuro [...]»

Ah valente!

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Covid-19 | Mortes a lamentar

«Hoje há a lamentar mais X mortes
Frase repetida diariamente como um estribilho em todos os noticiários televisivos*, desde o início da pandemia.
Quando não entoa hinos, o jornalismo televisivo recita elegias. A mais insistente deste há meses tem uma fórmula fixa que se exprime retoricamente através da fórmula “hoje há a lamentar”. O sujeito da lamentação é indefinido e podemos presumir que é colectivo. A fórmula diz que toda a morte é lamentável e não há ninguém que não a lamente. Mas porque se repete tal fórmula até ao ponto em que ela se esvaziou de qualquer tom lutuoso e se tornou apenas cómica? Em primeiro lugar, porque a linguagem da dramatização tornou-se um lugar-comum deste discurso jornalístico demagogicamente enfático nas palavras, nos sons e nas imagens; em segundo lugar, por obediência cega a uma “fraseologia” que precisava de ser satirizada por um Karl Kraus renascido, que começaria certamente por perguntar: como é que gente certamente sensata e inteligente aceita passar por estúpida quando cumpre a sua tarefa profissional?»
_________________________________________
* Para ser preciso e justo com as outras televisões, António Guerreiro deveria ter escrito «em todos os noticiários da SIC». Deixem-me remeter para o verbete "Surto de psitacismo na SIC com mortes a lamentar", de 11 de Agosto transacto.
E lá continuam, ridículos e dignos de dó, todos os pivôs da SIC todos os dias a toda a hora, no mantra diário da lamentação. Dois exemplos:
Ana Peneda Moreira, anteontem;

domingo, 6 de setembro de 2020

Rumo ao futuro,


No momento em que rabisco, chega ao fim a "Festa do Avante!" de 2020, com a actuação do conjunto de músicos mais medíocres e sobrevalorizados no hemisfério norte desde a invenção da guitarra eléctrica.  

«Não se faz a festa para garantir o privilégio ou ganhos financeiros*, como caluniosamente se insinua.»
Talvez por e para isso, insinuo agora eu calpluviosamente, os bilhetes foram postos à venda em finais de Novembro de 2019, com nove meses de antecedência. Preços

Vivam o churro, a bifana e a imperial!... Sem IVA

____________________________________
* Vivam a sinceridade e a transparência!

domingo, 23 de agosto de 2020

Yamandu Costa

Tem um canal no Youtube.
Canal, não; um oceano de dádiva e maravilhamento. Em que por horas sem fim pairo, flutuo, imirjo e me reergo.

Vive em Lisboa com a mulher, Elodie Bouny — aprecie-se como ela toca —, e os dois filhos, Benício e Horácio, desde Janeiro de 2020. Honra e privilégio nossos. Os deuses os abençoem por cá.
Por que espera o arlequim para uma nota de regozijo patriótico no sítio da presidência?
_______________________________
* Aprendi há muitos, muitos anos com Andrés Segovia que a boa madeira para guitarra até na árvore soa...

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Recapitulando

mui brevíssima história do tempo antes e depois de cristo, depois de almoço de arroz carolino, feijão catarino e atum tenório, antes do café*

alguém sabe como foi o princípio e como era no começo? eu também não.
de maneiras que umas pliocenas depois do big bang — advirto que só estou autorizado a contar a partir do ponto em que o stephen hawking não alcançava, excluindo portanto a kic 8462852  —, aquilo onde tocava o duke ellington e esses todos — big band, plúvio! —, vem o homem sapiente e aí distinguia-se fêmea de macho, lá em cima e cá em baixo, forte era mais forte do que fraco e fraco mais fraco do que forte e bonito menos feio do que feio e preto era menos claro do que branco e vice-versa reciprocamente e ao invés, de tal modo que o escravo mandava muito menos do que mandavam nele; vêm o moisés e o Maomé, a mulher estava proibida de ter alma e carta de condução, acaba-se a escravatura, vem o avião — ainda não? — ok, vem a bossa-nova — ainda não? porra — então, vem a pílula, a mulher começa a dar a comunhão na missa, que é uma pouca vergonha, entretanto o adol fodeu judiaria e ciganagem, as pessoas cá se continuaram entredevorando, algumas com fome, pobrezinhas, o padre borga gravou uns discos, o mantorras escreveu um livro, os americanos persistiam em matar e morrer que se fartavam, os japoneses também deram neles, o zé dos bigodes idem aspas — o átila não é dessa altura? — ah ok, era o pol pot, não contando cataclismos naturais tipo sismos, vulcões, tsunamis, mao tsé tunga neles, aluimentos, ciclones, covides e colaterais, o que nos vale é a greta, a thunberg e o buraco propriamente dito**vê lá se arrumas essa linha do tempo e não te esqueças da parte em que saem de cena os dinossauros e entram os camafeus da páscoa mal encarados e mudos como penedos —; quem, os moai? sim, que os das pirâmides eram mais especialidade do arqui medes quanto? o tamanho conta?; mas esses não são para aqui chamados, além de que não se lhes conhecem queixas; agora dizem que aquilo de stonehenge era cemitério, e há monstro no lago ou não?, ah pois claro, e o yeti, o et, o bob proctor*** e o gustavo santos... o profeta até que foi um tipo porreiro, várias gajas para um homem, tareia nelas que o seguro morreu de velho; até que vieram a doutora fernanda câncio, que aditivou o engenheiro sócrates para a legislação fracturante, e a esgrouviada da isabel moreira — disseste esgrouviada? —, sim, esgrouviada, muito antes de o joão telmo ensinar que «nós escolhemos o sexo que queremos ser», ainda não havia joacine e pan não passava de onomatopeia,

porquê «orientação sexual» se todo o sexo é desorientação? 

e encaixaram na lei e na normalidade a igualdade das diferenças e escolhas livres tipo homem com homem no código civil adopção plena sucessão e tudo sem esquecer mulher com mulher no código civil co-adopção plena e irrestrita sucessão e tudo, que o direito à indignação e à diferença entre iguais, perdão, à igualdade na diferença, dizia eu que o direito a isso tudo é uma coisa muito linda, mormente quando estão em causa o interesse do povo em geral e o superior interesse da criança em particular e até se constou que esta problemática já estava claramente enunciada nos princípios mais elementares da patafísica, que estuda a identidade dos contrários, e a nossa sorte por enquanto é as e os lgbtqi+  e o be não terem ainda conseguido usurpar a ordem jurídica inteira incluindo as regras de trânsito na rua da constituição. — e que mal teria?, pergunto. — talvez pouco, respondo, e admito que tudo seria pior se a humanidade não tivesse entretanto inventado o palito, o corta-unhas, a borracha e o papel tissue, mas acho igualmente que não fica bem brincar com certos e determinados assuntos.
enfim, isto é apenas a história da civilização, que é quase-nada. o resto, que é quase-tudo, a começar pela descoberta do dinheiro, do acorde de sétima diminuta e da compreensão inteligível dos factos, sem esquecer o papel da doutora joana mortágua na felicidade da engrenagem porque ela é fufa e o mundo ela vai mudar, o resto, dizia, é a história do absurdo, se não o próprio absurdo. 
- e cafezinho, vai desejar? 
- não, obrigadinho. pode trazer a continha.
__________________________________________________________
* homenagem a todas e a todos as que e os que — se o ridículo matasse... — arrematam tudo em minúsculas. vi-me porém forçado a abrir uma excepção [as excepções costumam abrir-se] naquele M do profeta e sei que não é necessário um link para fatwa; os meus cerca de oito leitores são cultos, assim fosse eu.

** sai um homem do buraco e passa o resto da vida a tentar de todas as maneiras reentrar nele...

*** nas imediações da proctologia, que trata do olho do cu e logradouros.

prometo, na próxima, não falar tanto de sexo.

se calhar deus existe. quase três minutos de feitiço.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Surto de psitacismo na SIC com mortes a lamentar

Em notícias de mortes costuma-se dizer, sem qualquer declinação sentimental do jornalista, o que me parece bem,
Naufrágio com três mortes... Sete mortos na explosão... Um morto em combate... Nove mortos no tiroteio...  Vinte e cinco mortos no descarrilamento...  Três mil mortos de gripe... Várias mortes com causas desconhecidas... Outras tantas por falência múltipla de órgãos..., etc.,
já que, como informou Jorge de Sena, directamente de Itália em 01.Abr.1961, «de morte natural nunca ninguém morreu».
Era assim até à vinda da pandemia, governava há quatro anos e meio a propaganda mais assanhada de que na democracia há memória, rebocada pelo brâmane do tempo novo.
Sucede que a retórica do ministério determinou que todas as mortes por covid-19 fossem institucional e invariavelmente lamentadas, e a moléstia pegou-se de tal maneira que nem os pivôs da SIC escaparam, desatando todos a lamentá-las também.

Amostra fresca. 
Governo do PS
Jamília Madeira, secretária de Estado Adjunta e da Saúde- Infelizmente, cabe-nos também lamentar a perda de mais uma vida [ela diz pèrda*] para esta doença...**  05.Ago.2020
António Sales, secretário de Estado da Saúde, que começa sempre pelo canónico peçonhento «Boa tarde a todas e a todos»- Temos ainda um total de 1746 óbitos que muito lamentamos.**  07.Ago.2020
António Sales, secretário de Estado da Saúde [mudou de gravata]- Temos ainda um acumulado de 1759 óbitos que muito lamentamos.**  10.Ago.2020
Veremos como amanhã irá falar Marta Temido, ministra [Em tempo]: Adicionalmente, importa referir que se verificaram três óbitos que se lamentam.**  12.Ago.2020

SIC do Balsemão
Ana Patrícia Carvalho- No entanto, há a lamentar mais uma vítima mortal...  05.Ago.2020
Miguel Ribeiro- Há, como disse, a lamentar quatro mortes...  08.Ago.2020
Ana Freitas- A lamentar, mortes há duas, hoje...  11.Ago.2020
Ana Freitas, não fosse termo-nos esquecido- E há, então, mais duas mortes a lamentar.  11.Ago.2020
Rosa Oliveira Pinto- Há também a lamentar duas vítimas mortais.  11.Ago.2020
Rodrigo Guedes de Carvalho- Há a lamentar mais duas mortes...  11.Ago.2020

Por que estranha e selectiva discriminação não se lamentam na SIC as mortes de todas as etiologias?
Ridículos.
Jornalismo servil, mimético, lamentável.
______________________________

**  Importa referir adicionalmente que o senhor secretário de Estado é o único que lamenta «muito». A Jamília e a própria Marta apenas lamentam, assim se comprovando — sempre desconfiei disso — que os homens são muito mais sensíveis do que as mulheres.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Com a ajuda de Deus

Rezo para que com a ajuda de Deus...
//
Mãe- Só quero ir-me embora para um lugar em que não haja política, armas e religião.

Não sei imaginar que coisas mais horríveis aconteceriam — que seria de nós e do mundo? — sem a permanente ajuda de Deus e a obstinada persistência do Papa a pedir-Lha*.
_______________________________________
* Francisco reza pelo Líbano
Francisco reza pelo fim da pandemia
Francisco reza pelo Sudão do Sul
Francisco reza pelo Congo
Francisco reza pela Nigéria
Francisco reza pela Síria 
Francisco reza pelo Brasil
Francisco reza pela Nicarágua
Francisco reza pelo México
Francisco reza por Michael Schumacher 
Francisco reza pelo fim dos incêndios na Amazónia
Francisco reza pelos que sofrem com os incêndios na Austrália
Francisco reza pelas vítimas do incêndio de Pedrógão Grande
Francisco reza pelas vítimas dos incêndios na Grécia
Francisco reza pela catedral de Notre Dame ardida
Francisco reza pelas vítimas das inundações na Índia
Francisco reza pelas vítimas das inundações na Austrália
Francisco reza pelas vítimas das inundações no Irão
Francisco reza pelas vítimas do desabamento da ponte em Génova
Francisco reza pelas vítimas do terramoto em Zagreb
Francisco reza pelas vítimas do terramoto no México
Francisco reza pelas vítimas do terramoto na Itália
Francisco reza pelas vítimas do avião abatido no Sinai
Francisco reza pelas vítimas da queda do avião da Chapecoense
Francisco reza pelas vítimas da queda do avião no Egipto
Francisco reza pelas vítimas da queda do avião no Cazaquistão
Francisco reza pelas vítimas da queda do avião da Malaysian Airlines
Francisco reza pelas vítimas dos atentados na Nova Zelândia
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Mogadíscio
Francisco reza pelas vítimas do atentado ao Charlie Hebdo
Francisco reza pelas vítimas dos atentados de Paris
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Copenhaga
Francisco reza pelas vítimas do atentado de San Bernardino
Francisco reza pelas vítimas do atentado de Charleston
Francisco reza pelas vítimas dos atentados em Ancara
Francisco reza pelas vítimas do atentado de Berlim
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Nice
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Istambul
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Uagadugu
Francisco reza pelas vítimas dos atentados no Cairo
Francisco reza pelas vítimas dos atentados de Londres 
Francisco reza pelas vítimas dos atentados de Bruxelas
Francisco reza pelas vítimas dos atentados em Jacarta
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Orlando
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Cabul
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Teerão
Francisco reza pelas vítimas do atentado no Quebec
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Manchester
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Nova Iorque
Francisco reza pelas vítimas do atentado em São Petersburgo
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Estrasburgo
Francisco reza pelas vítimas do atentado em Christchurch
Francisco reza pelas vítimas do atentado no Sri Lanka
Francisco reza pelas vítimas dos atentados em Darfur
Etc., que estou sem fôlego.

Isto do papa o tempo todo a rezar pelas vítimas de merdas de que nem o Sócrates, o Salgado, o Berardo e o Rui Pinto juntos conseguiriam ter culpa já cansa e chateia um bocadinho. Porque não vai ele, em vez de rezar tanto, ralhar à séria com o Barbudo Caprichoso, Criador do zingarelho cósmico, Omnipotente, Omnisciente, Ubíquo e infinitamente Bom, e pedir-Lhe satisfações? Ele, Francisco, que é tu cá tu lá com Ele; chamá-Lo à razão, admoestá-Lo, aplicar-Lhe uns calduços, sei lá.

Perdoe-me ainda, leitor paciente, por repristinar o Plúvio de 2015:
«[...] compungida compunção pungente do costume com que o papa Francisco — que com siderante bondade [eufemismo de miopia comovedora?] não consegue achar violência no Alcorão* — virá à sua varanda de Roma pedir mais umas atençõezinhas a Deus, Nosso Senhor, Todo-Poderoso, Justo, Providencial e Infinitamente Bom, o mesmo Deus abraâmico sob cuja invocação com outras alcunhas, mais propriamente Alá-cunhas, se vai intensificando a matança ante a bovinidade atenciosa de um Ocidente bem-educado, compreensivo, multicultural e inclusor. [...]»

* Papa Francisco, 24.Nov.2013: «[…] Frente a episódios de fundamentalismo violento que nos preocupam, o afecto pelos verdadeiros crentes do Islão deve levar-nos a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência. […]»
Exortação apostólica "Evangelii gaudium" ["A alegria do Evangelho"] 

domingo, 9 de agosto de 2020

José Jorge* / Júlio José**

José Jorge Letria, acerca de Luís Filipe Costa [18.Mar.1936-21.Jul.2020]: «[...] Era sereno, exigente e sem vaidade. Nunca ninguém o ouviu dizer que descobriu pessoas e as lançou, porque não quis fazer da qualidade dos outros a sua coroa de glória. [...]»
 
Céu Neves, jornalista, conversa com Júlio Isidro, comunicador.
CN- Há alguém a quem não dirija a palavra?
JI- Para ser muito sincero, há só uma pessoa a quem não falo e jamais falarei, e falei muito. Foi um dos meus melhores amigos.
CN- Claro que não vai dizer o nome.
JI- Não.
...
CN- Gostaria que me explicasse algumas expressões suas. «Ouver».***
JI- Porque os meus programas são para ser vistos e ouvidos.

- Afinal, Plúvio, que insinuais?
- Nada. Ocorreu-me tão-só que Júlio Isidro, que não sei se continua amigo de JJL, é quem mais costuma gabar-se, como nesta entrevista ao DN, de ter descoberto e lançado gente para a ribalta. 
________________________________________

*** «Ouver», de Júlio Isidro?
Não afianço que tenha sido José Duarte, do jazz, a cunhar a pertinente e engraçada aglutinação, mas que lha ouvi — ouvi e vi — séculos antes de ao Júlio Isidro, ai isso ouvi.
Com o abono, à mão de um guglanço sumário, de Nuno PachecoFrancisco Sena Santos ou Ricardo António Alves, atrevo-me a dizer que a expressão pertence a José Duarte.

Bernard-Henri Lévy

«[...] Este príncipe da moralina, nem de esquerda nem de direita, é sobretudo conhecido pelas suas camisas — sempre de cor branca, sempre de botões abertos na parte superior, e com colarinhos cheios de requinte. [...]»

//

«[...] Quando a fauna autóctone de oráculos freelance dispostos a ser periodicamente consultados sobre os Assuntos não chega para responder às necessidades, e é necessário recorrer à importação, Bernard-Henri Lévy continua a ser a melhor escolha possível. Um intermediário atarefado entre o mundo das ideias e o mundo da acção, Lévy percorre incessantemente o planeta à procura de coisas que possam simbolizar outras coisas, de preferência após a sua intervenção directa.
[...]
Se há algum Assunto a exigir comentário, Lévy aparece de rompante, em menos tempo do que aquele que é preciso para abotoar correctamente uma camisa. Nada neste mundo consegue intrometer-se no espaço precioso entre os Assuntos e a opinião de BHL - excepto alguns microfones e câmaras de televisão.
[...]»

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Necessidades básicas em Beirute

Hélder Silva- Deixe-me perguntar-lhe. Produtos para necessidades básicas, neste momento, há em Beirute? Falo de alimentos, água potável, medicamentos*... Ou faltam?
Rita Dieb- Para ser sincera, Hélder, [...] penso que não há nenhuma família libanesa que não tenha tentado fazer um mini-aprovisionamento de alimentos e medicamentos*...
____________________________________

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Iliteracia sofisticada

«Conteúdos com garantia de qualidade.
Rigor . Credibilidade . Experiência»

«O grande objectivo é dar notoriedade, dar visibilidade; contar as histórias das empresas; história no sentido positivo. O nosso objectivo é ajudá-los a valorizar essa comunicação e a projectar essa comunicação. Se a empresa quiser ter um relatório de contas que seja bastante apelativo, não só para os seus accionistas mas público em geral, por exemplo uma empresa cotada — e há várias empresas cotadas a fazerem relatórios de contas —, acaba por ser uma peça de comunicação só por si, uma peça bonita e que fica posteridade. A empresa se quiser veincular a sua comunicação nas nossas plataformas, poder fazê-lo tamém, e essa é uma grande vantagem, não é?* Portanto, não é só fazer uma peça de comunicação digital que fica algures na web, na internet, mas é algo que possa ser veinculada através das nossas marcas da SIC e tamém do Expresso.»

«O Atelier Impresa é a mais recente oferta do grupo. Tem como missão fazer de uma simples história uma história de sucesso.»

Saberá esta gente o que diz?

relatório e contas
veicular  -  vincular
___________________________
* Logo se verá.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Jornalismo

O Estado, detendo a maioria do capital, 50,14%, é quem mais ordena.
Os que mais mandam a seguir — olha que melros — são a Global Media Group [TSF, JN, DN... - Daniel Proença de Carvalho, Afonso Camões, família Oliveira, socratolatria prístina intensiva, Fernanda Câncio, Pedro Marques Lopes, Valupi...] com 23,36% e a Impresa [SIC, Expresso - família Balsemão], com 22,35%.
O resto, migalhitas pouco relevantes.

Pelo que tenho penosamente observado, na Lusa pratica-se um jornalismo entre o geralmente servil ao interesse tácito do governo — nesta altura, seria difícil arranjar melhor garante disso do que a suma eminência da cartilagineidade plumitiva do burgo, o dúctil Nicolau —, o inócuo e, aqui e ali, o jornalismo indigente.

Por exemplo, a Lusa despachou anteontem esta notícia de carácter religioso com o bombástico e enganoso título
«Coreia do Norte anuncia consagração de Pyongyang a Nossa Senhora de Fátima»,
ilustração paradigmática da sobredita indigência.  Digam-me se não é de bradar aos céus, minha nossa senhora!
Mas não menos chocante foi, para mim, a acriticidade mular com que uma dúzia de órgãos de comunicação social, tidos por respeitáveis, replicaram, sem tugir, a disparatada manchete tal qual a Lusa a pariu, com a Coreia do Norte no sujeito da frase.

Isto está um pesadelo e ... Plúvio, bem que escusavas de ser tão enfática e gordurosamente verboso.