quarta-feira, 19 de março de 2014

Esterco em Ré menor e a justa reabilitação de um papagaio de papel*

Em 1981, os bolivianos Los Kjarkas gravaram "Llorando se fué", composição de Ulises Hermosa [1954-1992] e do seu irmão mais velho, respeitável médico, Gonzalo [1950-], que viria a tornar-se um êxito planetário, de La Paz à Bobadela, incluindo Tóquio, sucessiva e alambadamente interpretada por, entre outros, o porto-riquenho Wilkins, 1984a brasileira Márcia Ferreira, 1986, a brasileira Yvete Sangalo, 2005 ou a norte-americana Jennifer Lopez, 2011. Mas quem haveria de estrelar o sucesso, sem alterar a tonalidade, foi a formação franco-brasileira Kaoma, em1989, pela voz de Loalwa Braz. Os Kaoma alambadazaram-se sem autorização dos autores e por isso foram judicialmente obrigados a indemnizá-los.
Letra original:
"Llorando se fué"
Llorando se fué
Y me dejó solo sin su amor
Llorando se fué
Y me dejó solo sin su amor
Solo estará, recordando este amor
Que el tiempo no puede borrar
Solo estará recordando este amor
Que el tiempo no puede borrar
La recuerdo hoy
Y en mi pecho no existe rencor
La recuerdo hoy
Y en mi pecho no existe rencor
Llorando estará, recordando el amor
Que un día no supo cuidar
Llorando estará recordando el amor
Que un día no supo cuidar

Versão brasileira:
"Chorando se foi" ou "Lambada" [pelos Kaoma]
Chorando se foi quem um dia só me fez chorar
Chorando se foi quem um dia só me fez chorar
Chorando estará ao lembrar de um amor
Que um dia não soube cuidar
Chorando estará ao lembrar de um amor
Que um dia não soube cuidar
A recordação vai estar com ele aonde for 
A recordação vai estar pra sempre aonde eu for 
Dança sol e mar guardarei no olhar 
O amor faz perder encontar 
Lambando estarei ao lembrar que este amor 
Por um dia um instante foi rei 
A recordação vai estar com ele aonde for 
A recordação vai estar pra sempre aonde eu for 
Chorando estará ao lembrar de um amor
Que um dia não soube cuidar 
Canção riso e dor melodia de amor 
Um momento que fica no ar

Tudo no mundo vinha correndo mais ou menos bem, tirando o desterro das tartarugas para a Ásia, eis que, na noite de sábado para domingo passados, se dá aquela calamidade no Convento do Beato: uma tal Suzy, rainha do Carnaval da Figueira da Foz, aparece a cantar, mais desafinada do que um autoclismo destemperado, a composição de — letra e música, diz ele, e provavelmente já as registou na Sociedade Portuguesa de Autores — um tal Emanuel, sumo pontífice do pimba, que dá pelo volitivo título de "Quero ser tua", com o seguinte desenvolvimento ontológico:
Em minhas asas eu quero levar-te ao céu
E em meu nu beijar-te tudo o que é meu
Eu quero ser o teu cupido da paixão
Eu quero ser a dona do teu coração
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua como o sol do seu brilhar
Eu quero ser tua como o rio é do seu mar
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua como o mel do teu beijar
Eu quero ser tua, eu nasci para te amar
Eu quero ser a luz que guia o teu caminho
Quero levar-te o doce mundo do carinho
Quero banhar-me no teu corpo de prazer
E saciar a minha sede de te ter
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua como o sol do seu brilhar
Eu quero ser tua como o rio é do seu mar 
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua como o mel do teu beijar 
Eu quero ser tua, eu nasci para te amar
Eu quero ser tua, oh, tua!!!!!
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua como o sol do seu brilhar 
Eu quero ser tua como o rio é do seu mar 
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua como o mel do teu beijar
Eu quero ser tua, eu nasci para te amar

Para nossa grande vergonha e com falta dela, a RTP prepara-se para levar este esterco a Copenhaga em 06 de Maio próximo, sob o estandarte de Portugal.
Não bastasse a indigência do conteúdo e da interpretação, com coreografia apopléctica, sucede que a melodia dos versos assinalados a azul é decalque descarado da melodia — o Ré menor boliviano mantém-se — correspondente aos versos que também assinalei no original em espanhol e na versão brasileira; para não falar dos motivos orquestrais igualmente mimetizados.
36 anos depois do memorável serão de 22 de Abril de 1978 no Palácio dos Congressos em Paris, vejo-me forçado a admitir o que nem nos momentos mais complacentes do discernimento julgaria possível: comparado com "Quero ser tua", "Dai Li Dou" — letra de Carlos Quintas, música de Vítor Mamede —, pelos Gemini num Fá maior afinado e honesto, merece reintegração no ramo sacro do repertório clássico.
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