terça-feira, 24 de setembro de 2019

Aprendo e rio com Rogério Casanova

«[...]
O prólogo consistiu também em directos de viaturas a chegar a sítios. "Rui Rio... chega aqui ao Pavilhão do Conhecimento... vem no carro da frente... e no banco de trás." Emergindo do banco de trás do carro da frente, Rio foi confrontado com um enxame de microfones. "Doutor, sente-se preparado para este debate decisivo?" "Decisivo?", protestou, afagando o crânio de Yorick que trazia debaixo do braço. "Decisivo para mim é um dia quando eu morrer, isso é que é decisivo!" António Costa chegou poucos minutos depois, numa charrete ambientalmente neutra, transportada por oito assessores que usavam os braços livres para abanar caudas de faisão.
Já no estúdio, decorado com runas, triângulos e outros símbolos secretos dos Illuminati, os três moderadores elencaram sistematicamente os temas essenciais ("é um tema essencial, a questão da educação") e os motivos pelos quais esses temas essenciais não seriam de todo aprofundados ("não podemos abordar aqui todos os tópicos").
"Considera estes quatro anos uma oportunidade perdida?", perguntaram a Rio, que respondeu com uma sucessão de perguntas retóricas: "Julgas tu, Horácio, que o grande Alexandre, depois de enterrado, se parecesse com Yorick? O imperial César morto e em pó tornado, pode a fenda vedar ao vento irado?"
[...]»

Obrigado, grande Casanova.

sábado, 21 de setembro de 2019

Superlativo absoluto da bovinidade geral

«Qual dos seguintes países não pertence ao continente americano?
Argentina - Hungria - Brasil - Canadá»
O concorrente, antigo director de uma escola profissional, responde «Hungria», o apresentador — moço talentoso e versátil que cola milhões de portugueses, perdão, de portuguesas e de portugueses no televisor de serviço público — redargúi, feliz, «A resposta está obviamente certíssima!» e o anfiteatro irrompe num estentóreo e jubiloso aplauso.
Fiquei a lucubrar no que não aconteceria se a resposta estivesse simplesmente certa...  
200 euros.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Clima - covanês e ecopaliativos

Pelo que sei de Paulo Tunhas [cunhe-se-lhe o mérito na descoberta do covanês] e de António Guerreiro, os caldos filosóficos em que se movem não poderiam ser mais antipódicos.
É por isso que com certa surpresa — uma vez sem exemplo? — acho afinidade em prosas de ontem e de hoje, dum e doutro. Ou será que também António Guerreiro fala covanês sem que me dê conta?

«[...]
Seria preciso o génio de Cole Porter para dar uma ideia, mesmo que ténue, da variedade de pessoas que falam covanês. António Guterres, nas Nações Unidas, fá-lo. O Santo Padre fá-lo. A jovem Greta, no Oceano, fá-lo. Cientistas políticos fazem-no. Artistas aos bandos fazem-no. E cantam: vamos fazê-lo, vamos cantar a emergência. Fernando Alves, na TSF, fá-lo. Donas de casa sentimentais fazem-no. As mais selectas escolas fazem-no. Universitários educados fazem-no. Sociólogos prevenidos fazem-no. E cantam: vamos fazê-lo, vamos cantar a emergência. Catarina e Mariana fazem-no. Marcelo, o Presidente, fá-lo. Heloísa Apolónia fá-lo. O homem do PAN, de olhos fechados, fá-lo. Até Costa e Rio, quando precisam, o fazem. E cantam a letra toda, como os pequineses do Ritz.
A diferença para com Cole Porter, é claro, é que ele falava do que sabia e do que a humanidade sabia, ao passo que os adeptos do covanês contemporâneo, exactamente por este ser uma tradução selvagem de um problema complexo, não sabem, regra geral, do que estão a falar. Nem isso, de resto, é muito importante. O “Frango à Covan” tinha um objecto real, mas o seu nome nada significava. A sua função não era essa. Era soar de uma forma simples. No mundo das ideias, “emergência climática” é um seu perfeito análogo. A mesma ausência de sentido convivendo com um objecto real, o problema da saúde do nosso planeta. E, no seu sem-sentido, impedindo uma verdadeira atenção ao problema. É algo que acontece muitas vezes, nos mais diversos domínios: a gritaria insana vela o objecto que aparentemente a despertou.
[...]»

//
«[...]
Curioso, e até divertido, é ver como nos vão sendo ministrados todos os dias ecopaliativos. Dizem-nos: viaja o menos possível de avião, vai para a escola ou para o emprego de bicicleta, bebe só água da torneira, reutiliza os sacos plásticos, não deixes a torneira aberta enquanto lavas os dentes, toma atenção a todos os teus gestos quotidianos, torna-te um herói da salvação do planeta (como se o planeta estivesse interessado nos nossos esforços e não continuasse a existir depois de nós, tal como já existia antes de nós). Tudo isto não passa de formas de exorcismo e de recalcamento do medo, ao mesmo tempo que cria a ilusão de que estamos a responder à urgência.
Se olharmos com atenção e utilizarmos o bom senso (nem é preciso muita ciência) facilmente concluímos que muito pouco se faz porque era preciso virar os nossos modos de vida de pernas para o ar para se fazer alguma coisa eficaz (se ainda há tempo para isso porque obviamente não se pára de um dia para o outro um processo que começou há séculos). Não é que devamos continuar a agir como sempre agimos, mas todas estas ideias de boa vontade que surgem todos os dias como injunções acabam por esconder a questão política essencial.
Na verdade, passámos em pouco tempo de uma política com pouquíssima ecologia a uma ecologia de boa vontade à qual falta política. E essa falta torna vãs todas as boas intenções. O que vemos é que continua a ser difícil declinar essas duas palavras — ecologia e política — sob a forma de uma ecopolítica digna desse nome. Uma ecopolítica à altura dos desafios com que estamos confrontados terá de ser capaz de mostrar que as situações ecológicas, políticas, sociais, económicas, institucionais, tecnológicas e psíquicas estão em total conexão umas com as outras. Sem agir sobre todas estas dimensões, o “impasse planetário” mantém-se. Por isso é que são tão ingénuos os regulamentos avulsos e o pretenso “regresso à natureza” de tonalidade romântica.
Se já estamos a viver em pleno “perigo absoluto”, como afiançam até os cientistas colapsólogos e os catastrofistas esclarecidos, então só podemos concluir que não saímos ainda da imobilidade nem se vislumbra que iremos sair. A culpa é também das nossas representações das catástrofes: pensamos num acontecimento colossal (a Terra submetida a uma terrível operação que tanto pode ser vista como a aniquilação total como a sublime “obra de arte total” *), que interrompe abruptamente o curso do mundo e da História.
[...]»
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Presidentes porreirinhos

«[...]
Marcelo veio introduzir ao mais alto nível um equívoco na sociedade portuguesa.
Ele faz passar a ideia de uma grande proximidade com as pessoas, ouve-as, abraça-as, tira fotos, promete fazer alguma coisa por elas dentro dos seus poderes.
É a maneira de ser de Marcelo, que gosta de ser amado, mas é também uma estratégia de afirmação.
Uns cultivam uma relação de distância com o povo, outros de proximidade.
[...]
Mário Soares também se fazia muito amigo do povo, deixava que as peixeiras o beijassem, elas achavam que o Presidente as adorava - e no fim, quando chegava ao hotel, Soares ia directo à casa de banho para se lavar e mudar de fato.*
[...]
Para que o adorem, Marcelo transmite às pessoas a ideia de que é genuinamente amigo delas - e essa ideia é falsa.
[...]»
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* Por falar no defunto, a caríssima leitora não me diga que ainda não cumpriu hoje o seu dever diário...
Nem parece seu.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Bem

Mantendo o que disse uma vez sobre Jorge Calado — «é quase sempre muito bom a dizer bem das coisas e melhora sempre que diz mal delas» —, sensibiliza-me o incenso entusiasmado que este mundividente, admirável e discreto colunista do Expresso* derrama em "Os grandes teutões", de 14.Set.2019. A tal ponto que me deixa invejoso dos sortudos que foram à Gulbenkian nos passados dias 7 e 8 assistir a interpretações de Beethoven, Bruckner, Mahler e Strauss pela Gustav Mahler Jugendorchester, «a melhor orquestra jovem do mundo», dirigida por Herbert Blomstedt, «um músico devoto que não ensaia ao sábado», com participação do barítono Christian Gerhaher, «o mais inteligente e completo cantor da actualidade».
«[...] Impressionante a maneira como aos 92 anos o maestro controla uma orquestra de cem jovens (incluindo 8 portugueses), sem batuta nem partitura [...] Os resultados atingiram o miraculoso. [...] Ver uma centena de jovens no palco (dois terços dos quais, jovens mulheres!) a fazer música com uma alegria e um sorriso estampado na cara, dirigidos por um nonagenário ímpar, é inspirador! [...] Nunca ouvi melhor nem tão bom [...] Um final empolgante com os músicos abraçados e aos beijos, e os espectadores, afortunados e felizes. [...]
Que pena a lotação não estar esgotada (mas os portugueses preferem fazer figura na praia) [...]»
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* Por exemplo, experimente o leitor visitar a exposição do National September 11 Memorial Museum — Jorge Calado, "77 minutos que mudaram o mundo" | Expresso/Atual, 28.Jun.2014 — e diga-me se arranjava melhor cicerone.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Conjuntivo danado

«Pode ser que na segunda ronda bónus a coisa corra ainda melhor e consiguemos os dois jokers.»

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

«Nomeadamente e contrariamente, publicamente e praticamente,

Paulo Gonçalves vai ter direito a defender-se em local próprio como todos os cidadões».

«e vamos seguir aquilo que é a sua ideologia de trabalho*. Mas tem de ser alguém que pelo menos os adeptos do Benfica e nós consígamos olhar para esse treinador e que véijamos competência.»

«Estes jogadores, para mim, neste momento, são os mais importantes. Há-dem vir outros, há-dem.»

José Calado é um príncipe da comunicação e, céus, a competência que dali irradia!
Caso para dizer: calado, serias um poeta.
E viva o Benfica.

cidadãos  |  consigamos  |  vejamos  |  hão-de
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* Já Jorge Jesus é mais filosofia.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Acudam à Capicua ...

... e algo mais.

A doutora Ana Matos Fernandes, capaz entre capazes, de incubadora trotskista, sob o nome artístico de Capicua gorgoleja por aí umas rimas aparentadas a música, ensopadas de activismo, e escreve na Visão umas redacçõezinhas quinzenais em que nos últimos tempos vem dando conta das alegrias e arrelias que foi estar prenha e tem sido tratar do bebé que pariu vai para sete meses, fazendo disso uma aventura exclusiva, única e transcendente. Nada de novo, afinal, a não ser que o Romeu mama e às vezes bolsa (sic):
«ter um bebé que se engasga muito ou bolsa demasiado» - 05.Set.2019
«quando bolsa consecutivamente todos os fatinhos e babetes lavados.» - 30.Mai.2019
Uma alma caridosa que ensine à criatura que o bebé bolça.

«Porque raio vêm agora estes esganiçados» - 25.Jul.2019


Mas quem me esmagou mesmo foi Albano Jerónimo, protagonista de A Herdade: 
«Gosto de pensar em mim como algo que está ao serviço de alguém, para comunicar algo que é superior a mim.» - Visão, 05.Set.2019
Depois admirem-se com as salas às moscas.
Aqui para nós, «algo» é uma coisa horrenda. Em forma de assim, remataria Alexandre O'Neill.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Sinais dos tempos

Venho do tempo em que na consulta de clínica geral o médico conversava comigo, me observava os olhos, mandava desapertar o cinto, abrir a boca e a camisa, avaliava o pulso, auscultava, palpava, dava umas marteladinhas nos joelhos, espreitava os ouvidos e o nariz.
Pertenço ao tempo em que os médicos, em geral, olham mais para o ecrã do que para mim, falam quase nada e raramente me tocam, cheios de pressa ... "Au suivant!"
Fico decepcionado e não me parece bom sinal.
Calhou ler no mesmo fôlego os artigos que se seguem. Estou com o Henrique Raposo e com a Helena Matos.
Ciente do relativo desajuste de contextos, não resisto à evocação de Abel Salazar: «O médico que só sabe de Medicina nem de Medicina sabe».

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Tosquices*

A doutora Sara Belo Luís, subdirectora da Visão, põe na boca do doutor António Mega Ferreira, entrevistado na edição de 29.Ago.2019, a seguinte afirmação:
«Lucca, uma pequena cidade da Toscânia, com a sua torre, é absolutamente deslumbrante.»
Toscana, doutora Sara, cidade da Toscana!
De resto, custa-me crer em que o rato Mega, italianófilo de primeira, tenha pronunciado calinada tão tosca.

A despropósito, está a apetecer-me meter com o sportinguista socialista acordita Francisco Seixas da Costa, papa-poleiros apessoado e bem-falante, escriba de múltiplos poisos, bom garfo, que acompanho com regularidade e com quem por vezes concordo. O emérito embaixador termina assim o verbete de ontem no seu "duas ou três coisas": «[...] É esta afabilidade, esta forma aberta de estar com as pessoas, que me agrada em Fernando Mendes. É isso também que me leva a congratular-me que o “Preço Certo” possa continuar a ser o lugar geométrico onde, ao final da tarde, um certo Portugal se junte para passar uma hora divertida, fora das preocupações da vida, unido por alegrias simples e inócuas. Fazer as pessoas felizes é também serviço público. [...]».
1- Como se pode defender assim um dos mais notórios, antigos e persistentes programas de cloroformização da inteligência colectiva?
2- Não digo que Seixas da Costa devesse realçar, entre os inquestionáveis atributos de simpatia do apresentador, a consabida lagartice de ambos, mas parece-me feio que não tenha refrescado junto dos leitores do blogue a sua condição, nada desinteressada neste caso, de membro do Conselho Geral Independente da RTP. Curial, não?
3- Que merda de português é aquele de se levar a congratular-se? Um de duas: que me leva a congratular ou que leva a congratular-me.
A despeito do prestígio paroquial e da consideração em que se tem na escrita, a gramática de Seixas da Costa deixa a desejar. Exemplos ao acaso: escreve com acento gráfico espúrio palavras como raínha ou ladaínha; acentua sempre e indevidamente o juíz; grafa as formas do verbo desfrutar com calamitoso dis: disfruta, disfrutam, disfrute; trata impropriamente Israel no feminino e entorse no masculino; inoquidade?; enebriado?; «um dos nóveis governantes»; «talvez nos devêssemos perguntar-se por que razão» [doutor Seixas da Costa, por amor da santa!]; inventou e abusa do infringimento sob caução de um dicionário brasileiro, chegando por tal ousadia a travar-se de razões com o irritado doutor António Borges de Carvalho.

Já agora e por fim, negrito meu,
«A meio da tarde de ontem, num livraria em Vila Real, comprei o livro “O Negociador”, uma longa entrevista da jornalista Bárbara Reis ao embaixador Fernando Neves. Agora, pela madrugada, lidas atentamente as suas 430 páginas, em cerca de quatro horas, dou comigo em “balanços”. [...]»
Não quererá o prodigioso diplomata explicar-nos, à plebe inepta, como conseguiu ele ler atentamente este cartapácio de 432 páginas em cerca de não mais do que 240 minutos?
Como se não bastassem as provas de que o Criador foi pouco equânime na distribuição das faculdades. 
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* Não está nos dicionários, mas dá-me jeito à prosa. Se o doutor Francisco Seixas da Costa pôde no infringimento, porque não hei-de poder na tosquice?

Caro freguês, se não clicou lá em cima n' «o rato Mega» não sabe o que perdeu... Obrigado, João Pedro George. Grande trabalho.

domingo, 1 de setembro de 2019

E a Estónia?

A dado ponto do seu "Fraco consolo" de ontem, ilustrado por "Le Ballon" (1899), de Félix Vallotton (1865-1925), escreve o excelente Pedro Mexia:
«[...] Em "Le Ballon", uma menina (mas pode ser um rapaz, vestido à filho-família de 1899) corre atrás de uma bola ou de um balão, à beira-rio, como se estivesse a fugir da sombra ominosa de uma árvore gigantesca que não vemos, enquanto ao fundo duas figuras adultas, de pé, parecem alheadas do que possa acontecer à criança. [...]»

Queira, leitor paciente, observar a seguinte passagem de "As Crianças na Arte", belo filme-documentário realizado por Jérome-Cécil Auffret, 2016, a que ontem à tarde assisti na RTP 2. 

Ele há ou não coincidências do camandro?
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Na mesma peça, diz o jornalista Tiago Soares — bebeu aqui — que em 2017 «92 pessoas em Portugal morreram prematuramente devido ao barulho». Com o próprio Bergoglio a exigir «Quiero lío!», a Filomena Cautela e todos os beócios da diversão neste país a urrarem a toda a hora «Façam barulho!», não admira tanta morte. Ainda assim, gostava de perceber na certidão de óbito de cada um dos referidos 92 desgraçados por que relevante motivo e com que idade a ceifeira os levou. Barulho? Cheira-me a fervor estatístico-sanitário embrionado nas modernas universidades do conhecimento ultra-especializado.
É c'mós 16 mortos das trotinetas. 

Mas não resta dúvida: morre-se muito.

sábado, 31 de agosto de 2019

«Boas notícias», os tomates

«O início de Setembro vai trazer boas notícias com as temperaturas a manterem-se altas».
CMtv, notícias, 31.Ago.2019  

«[...] O inferno de uns é o paraíso dos outros. Para os que procuram o paraíso do sol e do céu azul, sem constrangimentos, este clima é o “bom tempo”, como dizem os mensageiros desta monotonia meteorológica. O “bom tempo” serve na perfeição a economia actual, o turismo, a indústria do lazer. O homem da cidade vive numa ficção climática para crianças e já não sabe quando e quanto deve chover. Ele acha, aliás, que nunca devia chover nem fazer frio. E que o céu devia ser azul para sempre. Ao serviço do homem da cidade, da sua ignorância e irresponsabilidade nesta matéria, estão os jornais, a televisão, a rádio, a publicidade, toda a informação, os poderes públicos, o poder político. Todas estas vozes — unânimes — o persuadiram de que um mundo feliz é aquele em que nem uma gota de água cai do céu e nem uma nuvem o escurece para vir perturbar os momentos de lazer ou dificultar a chegada ao emprego. [...]»

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Desorientação sexual e coisas do género

«[...] Devido a essa considerável variação da preferência sexual encontrada entre pessoas que dizem ter sexo com outros do mesmo sexo, os cientistas afirmam “com confiança” que não há nenhum gene gay ou outro factor genético que determina por si só a orientação sexual de uma pessoa. [...]
No site do estudo, os cientistas justificam os motivos que os levaram a realizar este trabalho: usar informação genética para compreender melhor as pessoas que fazem sexo com as do mesmo sexo ou desmistificar estudos anteriores. “Os nossos resultados não devem ser interpretados de maneira a que insinuem que as experiências dos indivíduos LGBTQ são ‘erradas’ ou ‘perturbadas’. No fundo, este estudo dá-nos mais uma prova de que a diversidade do comportamento sexual é uma parte natural da variação humana como um todo.” [...]»
Teresa Serafim, "Ao fim de anos de discussão, viu-se que não há um gene gay"
//
«[...] a ciência (e não a “ideologia”) encarregou-se de multiplicar as excepções e de descobrir processos susceptíveis de intensidades variáveis, modulações, mais do que divisões, no que diz respeito às pertenças sexuais (deveríamos antes utilizar um neologismo: “sexuadas”). Para a consideração de que há variações de intensidade, mais do que limites estanques (quando visivelmente transpostos eram considerados aberrações), começou por ter que se considerar — a ciência assim o obrigou — a distinção entre sexo genital e sexo genético. E quando se tornou necessário descer cada vez mais ao nível genético para descobrir a linha intransponível entre os géneros, até se descobriu que havia indivíduos XX machos e indivíduos XY fêmeas. É certo que são excepções, mas elas adquiriram um valor estratégico suficiente para destruir as antigas evidências na separação dos géneros (os quais coincidiam sem hesitação com as características fixas da pertença sexual) e para contrariar a suposta universalidade da divisão categorial binária. [...]»
António Guerreiro, "Ideologia do género, dizem eles"

Público, 30.Ago.2019

domingo, 25 de agosto de 2019

Revista de imprensa ...

... antes de que azede, que nos tempos que correm — et pour cause — ontem já é pré-história.

«Embora não hajam evidências científicas que corroborem a afirmativa, o facto é que os dislates somam e seguem [...] hoje em dia há que ter muito cuidado com o que se escreve.»
Quod erat demonstrandum. 

Afonso de Melo, cronista prolífico entre os melhores prosadores nos jornais portugueses, na linha de Ferreira Fernandes:
«Kappkadavu é um lugar desinteressante, quanto muito um ponto de passagem para quem demanda Mahé»

«Edward Kennedy, um dos senadores que mais tempo teve na câmara alta norte-americana»
Palavras não eram tidas, perdão, ditas,
«Tive quase para lhe dizer que era piloto»

O quase sempre magnífico Álvaro Domingues, no Público de 04.Ago.2019, volta à "Rotunda dos Trabalhadores do Campo", na EN10 em Samora Correia, onde estivera em 03.Ago.2016 no Correio do Porto, e autoplagia-se. Resta escolher a melhor versão.
Se, caro leitor, acha que exagero no apreço por Álvaro Domingues, experimente estas 34 "Metamorfoses". E não diga que vai daqui. Irrita-me um bocadinho que AD nunca diga onde tira as fotografias, mas não se pode ter tudo.

«'O ócio é o trabalho do poeta', dizia Sophia»
A propósito,
«O ócio é o trabalho do poeta. A frase é de Sophia de Mello Breyner e Nuno Artur Silva concorda em absoluto com ela.»
«A Sophia de Mello Breyner dizia que o ócio é o trabalho do poeta»
Nuno Artur Silva em entrevista ao Expresso/Economia de 24.Fev.2018 [extracto]
Escaldado de citações apócrifas, deixa cá ver se Sophia dizia aquilo.
«O Goethe dizia “O ócio é o trabalho do poeta”. Também é preciso dizer que a maior parte dos escritores têm uma mulher que lhes trata de tudo – da comida, dos filhos, da casa, das compras, das limpezas.»
Sophia de Mello Breyner Andresen, em entrevista à revista Vida Mundial de 31.Mai.1989
Nunca fiando, toca a confirmar se o alemão disse mesmo aquilo, quando e onde. Cá está: no 4.º acto de "O cavaleiro da mão de ferro" ("Goetz von Berlichingen" ), versão definitiva, 1773:
- Ai de mim! Escrever é um ócio trabalhoso, e isso enfurece-me. [Ach! Schreiben ist geschäftiger Müßiggang, es kommt mir sauer an.]
Ou seja, Sophia o que dizia era que Goethe dizia uma coisa que afinal não era bem como Sophia reproduzia; e o doutor Nuno não passa de um citador trambiqueiro relapso *.

Rogério Casanova, fabuloso, diz que viu e ouviu o cantor Toy a dizer:
«nada substitui aquilo que somos enquanto âmago de essência.»
Despertou-se-me logo o auge da culminância.
E não é que o próprio e fabuloso Rogério «caíu na esparrela» d' "Os índices dos níveis da cadência da normalidade"?

«Sendo que entre os cristãos/católicos não praticantes a esmagadora maioria (67% e 64%) se dizem favoráveis a essas duas ditas "fracturas"»
Ciente de como fcancio se excita em público nos seus assuntos — o seu contrato com a MEO, cãezinhos e gatos, José Sócrates, polícias, jovens da Cova da Moura**, Ministério Público, paneleiragem, fufedo e coisas do género, canábis, hagiografia dos sacrossantos defuntos Paulo Cunha e Silva e "Manel" Reis, Igreja Católica e o Dom de Dom Manuel Clemente, habitação na baixa lisboeta... —, quero supor com que adjectivo ajaezaria ela maiorias na casa dos 90%, se na casa dos 60% as reputa de esmagadoras. Mastodônticas? Ultragalácticas? Como diria o seu muito apreciado — «Conanzinho, és óptimo, vai por mim» —  e excelso músico, esmaga, Fernanda!

«Hoje, já com um só jogo, a supertaça será entregue amanhã»
«Jaime Martins, residente em Cheira, localidade de Penacova, queixa-se há vários anos do cheiro nauseabundo da Estação de Tratamento de Águas Residuais do concelho»

«A galeria encontra-se instalada na casa Andresen, "onde Sophia passou uma parte muito importante da sua criancice e juventude"»
Infância, doutor Nuno, infância e juventude. Ou meninice, vá.

«A realidade hoje é que se tratam de parceiros de negócios»

Bernardo Mendonça- Continuamos a ouvir frases como "Não sou racista, mas..."?
Francisca van Dunen- A disjuntiva dá sempre asneira.
Asneira, e da grossa, é a doutora Francisca, ministra da Justiça, tratar por disjuntiva uma adversativa.

Eportantodevodizernãotenhoamenordúvidaetc doutora Clara Ferreira Alves:
«Nas tênebras malcheirosas de um restaurante do Soho»
«Depois disto tudo, este senhor, Tomás Correia cujo perfil de ténebras aparece neste excelente texto jornalístico de investigação»
«E portanto, devo dizer — agora perdi-me com esta coisa das ténebras»
Trevas, doutora eportantodevodizernãotenhoamenordúvidaetc Clara Ferreira Alves, trevas! ***

«Talvez o PS e as outras forças democráticas quando lutaram nos dias lá atrás contra a unidade sindical nunca imaginassem que hoje teriam de lidar com sindicatos que encaram a luta do trabalhador como uma coisa de curto prazo.»

«Assim de repente, estou a ver demasiados entorses à lógica para ficar repousado. »

Faz-me pena António Guerreiro, o melhor, abandonado à sua sorte. Por exemplo, no Ípsilon de 09.Ago.2019. Que andam a fazer os revisores do Público?

«No seu curriculum consta que fundou a Green Project Awards em 2008 e em 2012 foi júri do Festival de Cannes Lion.»

«retrato retrógado»

«uma das razões porque gosto tanto dele»
«Não sei por que contar a verdade às pessoas se tornou utopia»
Porque, porque contar, nabos! Eu, Plúvio gabarola, que não perdi nenhuma e conservo todas as 1275 edições do JL, desde Março de 1981, estou em condições de afirmar que a revisão do jornal está mais desgraçada do que nunca, se é que alguém ainda ali trata disso.
Mas quem mais disparata é João Lisboa na frase: «ao aceitar registar em disco as sonoridades aleatórias, found, ambientais, mais públicas ou mais privadas, porque optaram é tão só o exacto oposto do que Cage não se cansou de explicar» - Expresso/E, 24.Ago.2019
Por que optaram, professor João, sonoridades por que optaram. 

O defunto Alexandre Soares dos Santos talvez fizesse mais sentido nos DESAPARECIMENTOS do que na PUBlicidade. Mas o que me deixa a pensar é o «prevalecente».
Finalmente, uma querela literária. Das boas e picantes, negritos meus:
- «o recluso, de 40 anos, está actualmente detido em prisão preventiva por crimes de roubo e sequestro cometidos já este ano na zona de Santiago do Cacém. Mas há mais de 20 anos que é bem conhecido no sistema prisional. Já cumpriu duas penas por homicídio – foi condenado, em cúmulo jurídico, no início deste século, a mais de 20 anos de cadeia. A advogada, da zona de Lisboa e conhecida também pelas obras literárias já publicadas, foi obrigada a sair daquele espaço», ao ser apanhada dentro da cadeia de Setúbal a foder com o seu cliente.
- «fonte do Estabelecimento Prisional de Setúbal garante ao JN que se trata de uma solicitadora — e não de uma advogada, como noticiou um diário (porque não 'como noticiou o Correio da Manhã'? Obrigações da concorrência.) — contratada para tratar de assuntos familiares do recluso relacionados com uma herança. Além de solicitadora, a mulher também é autora de, pelo menos, um livro de poesia. E o recluso, com reputação de ser "bem-falante", tem alcunha de poeta: "Camões".»
Novo erro de arrumação. Então estas merdas não deveriam estar na secção de Cultura e Artes?
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* Nuno Artur Silva conversa com Eduardo Lourenço:
Eduardo Lourenço- O grande acontecimento da história de Espanha não foi feito por um espanhol. Foi feito pelo Colombo…
Nuno Artur Silva- O genovês…
EL- … o Colombo que está integrado muito nas aventuras começadas pelo Infante D. Henrique mas na verdade foi um golpe de acaso genial que inventou um novo mundo que criou um novo mundo…
NAS- O herói por acaso, como diz Fernando Pessoa.
EL- … herói por acaso...
Qual Fernando Pessoa qual carapuça, doutor Nuno!
«L'eroe vero è sempre eroe per sbaglio» («O verdadeiro herói é sempre herói por engano») - Umberto Eco, em "Perché ridono in quelle gabbie?" ("Porque riem nessas gaiolas?"), crónica publicada originalmente no jornal "la Reppublica" de 16.Abr.1982, integrada no livro "Sette anni di desiderio" ("Sete anos de desejo"), recolha de intervenções e artigos, de 1977 a 1983, na imprensa italiana. - Bompiani, 1983.

** Os pretinhos bons, os polícias maus e a palavra jovem
Fernanda Câncio [6 peças aqui - ou isto aqui], irmanada com Valentina Marcelino [14 peças aqui], ambas no Diário de Notícias, e Joana Gorjão Henriques no Público [18 peças aqui], a reboque do Bloco de Esquerda/SOS Racismo/Mamadou Ba e com inevitável unção do bonzo de Coimbra [minuto 01:45, eis São Boaventura imprecando São Bento em 12.Fev.2015] lá foram urdindo e fazendo vingar desde 2015, com persistente e manipulada rotulagem etária propícia à comoção das almas sensíveis, a saga dos sempre, sempre, mas sempre tratados por "seis jovens da Cova da Moura"; jamais "indivíduos", "pessoas", "cidadãos", "moradores", ou simplesmente "homens". Para que conste: Flávio, nascido em 1983; Celso, em 1983; Bruno, em 1991; Rui, em 1992; Paulo, em 1995; Miguel, em 1996. Referindo-se a Flávio Almada, senhor de 36 anos, comenta Fernanda Câncio com desvelo pedomaternal: «A brutalidade deste relato de um dos miúdos do caso Cova da Moura é impressionante» - Twitter, 22.Set.2018. Repare-se na candura antropológica [mães, grávidas, crianças a brincar...; de homens ou rapazolas façanhudos, nem uma sombra. Afinal, Cova da Moura é um idílio de inocência, remanso e doçura feminil] das sete ilustrações, escolhidas adrede para enfeitiçar leitores incautos, com que a jornalista Câncio documenta a reportagem de quatro páginas no DN de 15.Jul.2017. Sabidona.
De resto, em nenhuma passagem dos quilómetros de prosa jornalística das três inefáveis plumitivas — Fernanda, Valentina, Joana — me lembro de ter encontrado qualquer alusão ao facto, que dou por adquirido, de o jovem Bruno Lopes, o que desencadeou o caso da esquadra de Alfragide, levar no currículo sete condenações transitadas em julgado de 2008 a 2016 e ter a correr, em Setembro de 2017, 36 inquéritos-crime  [a partir do minuto 23:00]; vendo bem, um anjinho. Também "gostei" da cena, narrada por Joana Gorjão Henriques  no Público de 14.Jul.2017, em que três jovens foram detidos por agentes quando estavam a fazer música num estúdio. «Um dos jovens contou que tinha vindo à porta e depois de um curto diálogo foi agredido com uma bastonada, algemado e atirado para o chão e colocado na carrinha.» Deixem-me imaginar o "curto diálogo":
Jovem- Boa tarde, senhor agente. Como vai a vida? Muito trabalho?
Agente- Faz-se o que se deve e se pode. Uns dias mais tranquilos, outros nem tanto.
Jovem- Ossos do ofício, senhor agente. Temos de enfrentar as coisas com optimismo e calma.
Nisto e sem dúvida por isto, o agente saca do bastão, pumba no jovem, etc., etc.
Escreve Fernanda Câncio no lide da tal reportagem, sem aspas nem atribuição de autoria (Sérgio Godinho): «A sede de uma espera só se estanca na torrente.» Anoto a coincidência de, quando necessita de exibir alguma erudição literária, ser ao mesmo mantra — conhecerá outro? — que recorre António Costa, secretário-geral do Partido Socialista, primeiro-ministro. Já aqui falei disso.
Sem favor, considero Fernanda Câncio entre os jornalistas que mais bem redigem em Portugal, pese não saber como se escreve retaguarda [ela pensa que é rectaguarda, coisa que nem antes do teratológico AO1990 era]. Mas, depois da extensa e — santa ingenuidade minha! — tardia compreensão do conúbio com José Sócrates numa altura (2001-2011) em que eu apesar de tudo admirava Sócrates e votava no PS, partido que hoje tomo por caldeirão de incestuosa imundície, e acreditava na isenção/desinteresse pessoal do que a jornalista escrevia no DN, não posso deixar de achá-la, também, uma das personagens mais desonestas que conheço e sigo na comunicação social portuguesa. Não lhe perdoo aquilo com que me fez amiúde concordar e vez por outra entusiasmar [e não, não falo de figos]. A esta distância, torna-se-me até desafiante especular acerca da muito presumível influência desta codiciosa e esperta paladina das "causas fracturantes" no ideário e na materialização de políticas por parte da criatura horrenda e mendaz — repartiam o coração sem que isso lhe toldasse a deontologia ao defender-lhe o nome (veja-se, entre múltiplos exemplos, este desavergonhado "J'accuse") e a gabar-lhe dia sim, dia sim, a governação — que certo dia recomendou aos portugueses que não deixassem de ir ver «o filme que se chama Milk, presumo, e fala da biografia de um dos primeiros políticos assumidamente homossexuais».
Câncio, desonesta ... e nem sempre fiável. ****

*** A eportantodevodizernãotenhoamenordúvidaetc doutora Clara Ferreira Alves, cuja intervenção nos órgãos de comunicação social nos últimos 30 anos acompanho e conheço bem, e que tanto admiro na prosa como me encanita no geral, gorjeia invariavelmente disparates como demagògos / acòrdos / pâtético (com o a de acético) / pzeudo / obnóchios / falabilidade / pèrda (a rimar com merda) / èconoclastia / alèrgias (com o e de alertas) / um tòmo (referindo-se a volume impresso) / retrógado / ter morto / vão começar a haver movimentos ...
[demagôgos - acôrdos - pàtético - pçeudo - obnóksios - falibilidade - pêrda - iconoclastia - âlergias - um tômo - retrógrado - ter matado - vai começar a haver movimentos]
Por ser altiva e petulante, arrisca-se a cartas ao director como esta no Expresso de 03.Ago.2019.

**** Fernanda Câncio: «Tenho a mania do rigor. Não me passa.» - Twitter, 16.Dez.2017
«foi criada, em 1996, na sequência do horrível caso da decapitação no posto da GNR de Sacavém, a Inspecção-Geral da Administração Interna, para investigar casos de ilegalidade e de violência nas forças de segurança» - Fernanda Câncio, DN, 22.Jul.2018
Já agora,
Inês Pedrosa: «Houve um caso em 95 de um polícia que decapitou um cidadão numa esquadra, em Sacavém» - "O último apaga a luz", RTP 3, 25.Jan.2019
Há, portanto, que agregar as amiguinhas Fernanda e Inês [CCB, Lisboa, 08.Jun.2010], na contrafacção fervorosa da realidade, à desonestidade insigne de José Saramago e Clara Ferreira Alves.
Já em 31.Mar.2018 Ricardo Araújo Pereira molhara na fantasia o bico desonesto, trocando dessa vez Sacavém por Santarém: «Lembro-me de uma vez, numa esquadra em Santarém... Uma vez, numa esquadra de Santarém, eles serraram a cabeça de um desgraçado.» Lembra-se mesmo?  ***** 

«Comecemos por exemplo, já que falamos da esquerda, com uma frase célebre atribuída a Lenine: 'Proletários de todo o mundo, uni-vos.' Ser proletário, parece, é uma identidade, certo? E uma identidade que deve levar, de acordo com o apelo de Lenine, a que todos os que assim se identificam se unam para, claro, lutar pelos seus direitos.» - Fernanda Câncio, DN, 27.Jul.2019
Azar, doutora. A frase é do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, e nem é bem assim. «Proletários de todos os países, uni-vos!» Certo? Claro.

***** Sacavém, terça-feira, 07.Mai.1996 - «[...] Carlos Rosa, 25 anos, roubava para alimentar o vício da droga. Acabou apanhado pela GNR e levado ao comandante que lhe encostou o cano da arma à cabeça e lhe berrou mais uma vez ao ouvido para o intimidar. A pistola de José Santos fez fogo no calor do interrogatório e, enquanto Samuel omitiu o crime, Castelo Branco ajudou a esconder o cadáver – embrulhado num cobertor e levado de carro para um descampado na Quinta da Apelação. O sargento Santos usou uma faca de mato para cortar o magro pescoço de Carlos Rosa, até o decapitar. Deixou o cadáver coberto com ramos e levou a cabeça de volta para o posto onde, com uma chave de fendas, tentou tirar a bala comprometedora. Não reparou que a munição atravessou o crânio da vítima e se foi alojar numa porta de madeira. Horas depois, o sargento abandonou a cabeça em Chelas, Lisboa, atirou a faca ao rio Trancão e deitou o cobertor ao Tejo. O esforço foi em vão: a 16 de Maio, dez dias depois, um pastor encontrou o cadáver. [...]».
Insista-se, para desencanto do contrabando noticioso activista: ninguém decapitou um cidadão dentro da esquadra.

Apre!

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Duas, três milhas

Ele há coisas do camandro.

Ao início da madrugada de quinta-feira, 15 de Agosto de 2019, na RTP 2, o dono da mercearia para Philippe Gougler:
«[...] ausentavam-se do barco-mãe duas a três milhas para irem pescar à linha [...].»
"Inesquecíveis viagens de comboio", gravado em 2018 na Bacalhoaria Silva, em Lisboa. 

Ao início da tarde de quinta-feira, 15 de Agosto de 2019, na RTP 2, Álvaro Garrido para Fernando Rosas:
«[...] os pescadores afastavam-se do navio-mãe por vezes duas, três milhas [...]»
"História a história", gravado em 2014 no Museu Marítimo de Ílhavo.