terça-feira, 26 de novembro de 2019

117 meses depois, António Guerreiro volta a Veneza

«[...]
1. Tratava-se então de arranjar uma solução para a fragilidade desta construção humana plantada sobre as águas e sobre pântanos, onde cada obra de arquitectura foi sempre, ao mesmo tempo, obra de conquista de território, de superfície. Aqui, nunca houve terra firme: nenhum edifício pôde ser construído sem se construir também o solo.
[...]
2. Em oposição a este vazio cultural (apesar do presidente da Câmara ser um eminente filósofo: Massimo Cacciari), Mastinu lembra que nos anos 80 o arquitecto Vittorio Gregotti lançou a ideia de Veneza como a cidade da "nova modernidade". Pouco mais de uma década depois, em 1993, já outro nome importante da Escola de Arquitectura de Veneza, Manfredo Tafuri, substituía a visão utópica por um diagnóstico cruel: Veneza apresentava-se-lhe como um "cadáver em liquefacção diante dos nossos olhos". Citando esse texto, um dos mais ilustres habitantes actuais da cidade, o filósofo Giorgio Agamben, escreveu há dois anos que Veneza tinha passado à fase seguinte: já não a do cadáver, mas a do espectro, isto é, "a de um morto que surge inesperadamente, de preferência a horas nocturnas".
[...]
3. Caminha-se assim para uma cidade em que tudo é falso. Nem sequer já os gondolieri são de Veneza. O que não deixa de ser uma situação cómica, se pensarmos que há uns anos Cacciari queria exigir direitos, em nome da 'marca Veneza', pelas réplicas venezianas construídas em Las Vegas. Eis a ironia máxima da reversibilidade: Las Vegas que imita Veneza que imita Las Vegas.
[...]
4. Em meados de Janeiro, Veneza tinha vivido quase um mês seguido de acqua alta, situação inédita que pôs à prova a proverbial camona dos venezianos, isto é, aquela calma e lentidão que exaspera os que vêm de fora.
[...]» 

//
«[...]
1. esta cidade é uma prodigiosa construção humana plantada sobre as águas e sobre pântanos, onde cada obra de arquitectura foi sempre, ao mesmo tempo, obra de conquista de território, de superfície. Aqui, nunca houve terra firme: nenhum edifício pôde ser construído sem se construir também o solo.
[...]
4. Quando a cidade não ficava inundada com tanta frequência, por tanto tempo e a água não chegava a níveis tão elevados, o fenómeno da acqua alta não conseguia perturbar a proverbial camona dos venezianos, isto é, aquela calma e lentidão que exaspera os que vêm de fora.
[...]
3. Uma variante igualmente catastrófica de “Veneza está a afundar-se!” é “Veneza está a morrer!”. E este alerta já não se refere à acqua alta, mas ao excesso de turistas e à monocultura do turismo, que esvazia a cidade de habitantes e vida autêntica e a enche de fancaria e de falsidade. Nem sequer já os gondolieri são de Veneza. O que não deixa de ser uma situação cómica, se pensarmos que há uns anos o filósofo Massimo Cacciari, por duas vezes presidente da Câmara de Veneza, queria exigir direitos pelas réplicas venezianas construídas em Las Vegas. Ironia da reversibilidade: Las Vegas imitou Veneza que agora imita Las Vegas.
[...]
2. A obra grandiosa e veneranda é hoje o lugar por excelência da melancolia. Nos anos 80, o arquitecto Vittorio Gregotti quis que a cidade superasse a Stimmung mortal e melancólica de todas as mortes em Veneza (não apenas a de Thomas Mann e Visconti) e lançou a ideia de Veneza como a cidade da “nova modernidade”. Não teve grande sucesso: meia dúzia de anos depois, já outro nome importante da Escola de Arquitectura de Veneza, Manfredo Tafuri, renunciava às visões utópicas e entendia que a cidade, doente, tinha antes que ser diagnosticada. E o seu diagnóstico era sem remédio: os sintomas indicavam-lhe que a cidade era um “cadáver em liquefacção diante dos nossos olhos”. Diagnóstico acertado, confirmou o filósofo Giorgio Agamben alguns anos depois, quando habitava nela* e sentia que vivia “entre os espectros”. O espectro é um cadáver que passou a ter uma vida póstuma e fantasmática.»
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* Não sei se perdoe a António Guerreiro ter-nos deixado sem saber onde vive actualmente Giorgio Agamben.

Sara atirou o filho ao lixo

Até ao momento li cerca de 48 artigos acerca do crime em epígrafe; mais bem dito, acerca do crime em título li até ao momento cerca de 48 artigos.
É munido de tal autoridade que assevero aos meus amáveis leitores, isto é, a@s m@s amáveis leitor@s, perdão!, ax mx amáveis leitorx, ou seja, ax@s m@xs amáveis leitorx@s, por outras palavras, x@x@ @xx@@x amáveis @@x@x@xx@x e os tomates a 7, que o melhor texto é este:

Subscrevo inteiramente, o que inclui a parte triste do presidente-arlequim e a patética parte da ministra preta.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

José Mário Branco [Porto, 25.Mai.1942 - Lisboa, 19.Nov.2019], talentoso filho dum seminarista

Nem sempre estou de acordo comigo. Mas hoje quero reiterar com ênfase o que o Plúvio aqui escreveu em 2011:

«[...]
O meu pai fez o seminário todo. Até há uma história engraçada. A do meu avô paterno que não conheci por essa razão. A minha avó era uma beata do caraças, ele era republicano e ateu militante, daqueles "bigodaças" da viragem do século. A senhora tanto sarrazinou o homem que o obrigou a pôr o meu pai, que era o filho mais velho, no seminário de Tui, nos Franciscanos da Galiza. O meu avô, às tantas, perdeu a paciência e disse: Queres o teu filho no seminário? Está bem. Foi levá-lo e, na viagem de regresso, matou-se com um tiro na cabeça. O meu pai soube disso — estamos a falar de um puto de oito anos —, mas fez o curso todo porque na altura havia essa coisa medieval de o seminário dar acesso a um curso superior à borla.
[...]»

«[...]
O talento é uma forma de competência das condições adversas da ignorância. O talento normalmente é uma forma inata... não foi estudado nem construído, e essa forma de incompetência é uma vantagem incrível. Tem de haver um pathos, uma densidade emocional...
[...]»

«[...]
Nunca fui político, fui para a política por ser um criador artístico para quem a liberdade é fundamental na criação. O acto criativo é um acto de liberdade. A folha está em branco e o microfone está à espera de ouvir alguma coisa. A ausência de canção é a página em branco. Então, eu ponho lá o que quiser. Ora, isto implica ser livre. Estar descondicionado. O Courbet tem aquele quadro espantoso que se chama “A Origem do Mundo com uma mulher deitada, de pernas abertas e o sexo em grande plano. Há uma carta dele ao Ministro da Cultura francês da época que lhe deu a Legião de Honra, a condecoração mais alta. Na carta, ele diz que não quer receber de uma maneira muito simples e educada, separando a sua relação do poder.
[...]» 

«[...]
Tudo o que consta do arquivo está disponível de forma gratuita*. Há muito tempo que eu tenho esta convicção — com a reacção das pessoas às canções e aos discos, comecei a dar conta de que eu não sou dono. Pensando mais filosoficamente, sou contra a própria noção de direito de autor. Claro que eu recebo direitos de autor, actualmente é a parte mais importante do meu ganha-pão, mas eu aceito isso como uma forma defeituosa, um mal menor, de a comunidade a que eu pertenço me dizer: Eh, pá, porreiro, é giro tu trabalhares nisso e nós queremos que tu continues. Recebo todas as semanas dezenas de pedidos de utilização da minha obra para espectáculos, para publicações, para todo o género de coisas. E a minha resposta é sempre a mesma: Façam o que quiserem, não tenho nada a ver com isso. Nunca usei nem usarei o direito de autor para condicionar a criatividade e a criação alheia. Nunca.
[...]»

Maravilha em Dó maior.
Feminismo do bom em 1972.
[Atente-se no fabuloso e despojado arranjo das cordas. Curiosidade da 'ficha técnica': lá estava Manuel Jorge Veloso, despenhado há seis dias do maldito hífen** como hoje José Mário Branco. ***]

Nota
Nunca me encantou o lado missionário-prosélito-comunistóide de JMB, que não era pouco nele. Os deuses lhe perdoem, e a mim.
Isto, por exemplo, em defesa e louvor do facínora Cesare Battisti, autor confesso de quatro assassínios recondenado agora pela justiça italiana a prisão perpétua, é um inenarrável horror coral. Esta gente — Aldina Duarte, Camané, João Gil, Paulo de Carvalho, Amélia Muge, Tim... — não tem vergonha? O adjectivo «solidário» na boca destes tropas das causas faz-me erisipela.

«Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários. Compositor popular, artista de variedades, aprendiz de feiticeiro. Sou José Mário Branco, 76 anos, do Porto; muito mais vivo que morto. [...]
Em 1958, eu tinha 16 anos, era profundamente crente. ... Saltei directo de uma igreja para a outra.»
JMB, no documentário "Inquietação" (54 minutos) | RTP Memória, 07.Dez.2018
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sábado, 16 de novembro de 2019

Incluindo o casamento pela Igreja e o rezar escorreito, tudo em Joacine soa a contrabando ideológico recauchutado

Declaração prévia
Eu, Plúvio, incapaz de me pensar, bem como à sociedade a que pertenço, fora do paternalismo colonialista em que o Estado Novo me formatou a história, o quotidiano, a imaginação e o desejo, declaro-me farto até ao vómito de tanta «responsabilidade cidadã» e de tanta «linguagem do ódio».
Vamos a isto.

Um dos textos em que nos últimos tempos me pareceu, linha a linha, exemplo a exemplo, ressumar maior e mais objectiva desonestidade foi o da prosélita professora Susana Peralta,  "A gaguez de Joacine e a pequenez do nosso espaço público", no Público de 08.Nov.2019.
No Público de ontem, 15.Nov.2019, Bárbara Reis, não deixando de me surpreender, vem estribar com argumentação poderosa a minha repulsa de uma semana atrás: "Churchill e Joe Biden são gagos? A ideologia pode cegar".
Ai cega, cega!

Não separe o homem o que Deus uniu... Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco... 
«[...] Joacine é divorciada e tem uma filha de três anos, Anaís Leonor. Primeiro, casou-se na conservatória com o ex-marido. Depois casou pela Igreja. 'Para irritação das minhas amigas feministas, digo que preciso de alguma incoerência na minha vida' [...] Ainda hoje, se rezar uma ave-maria, como fez à nossa frente, as palavras saem-lhe escorreitas sem qualquer tipo de hesitações. Não sabe explicar porquê mas não gagueja quando reza.»
- Octávio Lousada Oliveira/Sílvia Caneco, "A mulher que até os colegas de partido irrita" | Visão, 14.Nov.2019
Caso para sugerir que, em vez de falar, ó mulher, reze no hemiciclo! 

Joacine e o ódio
«[...] Nunca respondi com ódio a comentários de ódio, nem com ansiedade, nem com raiva, às vezes até sou irónica. O que verdadeiramente me incomoda são estes artigos mascarados de análises. Houve um ordinário que até meteu a minha gaguez no artigo, e era um indivíduo que eu respeitava*. Isto é incitamento ao ódio. É abrir a torneira da intolerância, do racismo, da xenofobia, da discriminação. A ironia é que muitas destas pessoas são antifascistas. [...]»
- Joacine Katar Moreira entrevistada por Carolina Reis, "Há intelectuais a legitimar o ódio" | Expresso, 09.Nov.2019 
Sorte a de Ferreira Fernandes em não ser mimoseado com «um fascista ordinário». Esteve por um triz.

Joacine e o amor
«[...] Eu iniciaria** ... Eu iria iniciar** ...  Política sem amor é comércio. [...]»
Apetece informar a amorosa doutora Joacine de que «O amor é de outras leis». Desde logo, na lei fundamental da República Portuguesa não ocorre senão uma muito sumida vez, a quatro artigos do fim [alínea b) do n.º 1 do artigo 293.º], na «amortização da dívida pública».  

«[...] os insultos que se sucedem, desde então, mostram que muitos são incapazes de se pensar e à sua sociedade fora do paternalismo colonialista em que o Estado Novo formatou história e quotidiano, imaginação e desejo. [...]
Xs signatárixs***, de vários quadrantes da vida cultural, social, académica e política, declaram solidariedade com a deputada Joacine Katar Moreira e apelam ao sentido de responsabilidade cidadã dos portugueses e das instituições públicas, para que não deixem impor-se a linguagem do ódio e da desconfiança onde deve apenas haver lugar para a vigilância crítica, o debate aberto e a vontade de ir mais longe na construção de um futuro melhor para todxs***
No momento desta publicação, ia em 314 signatários, arcanjos do costume mobilizados contra o Mal, entre os quais, mais do que previsivelmente, "Susana Peralta - professora de economia" e, obrigatoriamente, Boaventura de Sousa Santos, Mamadou Ba e Flávio Almada, um dos seis gentis «jovens da Cova da Moura»

Quase a despropósito,
«[...] O que acontece é que se tornou uma obrigação comercial, e de marketing, que todos os cantores, escritores, misses, influencers e demais figuras públicas, tenham de fazer uma declaração sobre o apocalipse e a maneira de nos salvarmos todos e sermos boas pessoas.
Daqui a um ano não há cantor, actriz, ou parvinho, que não seja vegetariano, devoto de Santa Greta, apaixonado pela "sustentabilidade", a favor da mudança de género, especialista em ozono, devorador de tofu, praticante de biodança e amigo das iguanas.
A banalização do mal é um dos horrores da nossa história – mas a "banalização do bem" desvaloriza-nos a todos.»
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* Ferreira Fernandes, "À espera de Joacine, a deputada" | DN, 02.Nov.2019

** Apesar de novato nestas lides, o duende político de Joacine Katar Moreira pede meças à retórica gelatinosa, como a de Marcelo Rebelo de Sousa ou de Luís Marques Mendes. Imbatíveis no modo condicional, enunciam como quem pega de cernelha: nunca dizem, diriam; nunca vão, iriam. [A propósito, Victor Bandarra, "A epidemia dos narizes de cera" | CM, 10.Nov.2019] No mais — e tenho procurado escalpelizar as intervenções públicas (textos, entrevistas, discursos) da lusoguineense —, Joacine Katar Moreira não passa de uma actriz política de pacotilha, não menos demagoga nem mais respeitável do que o doutor André Ventura, replicadora de bovinidades ultragastas e, pior, gárgula escorrente de repertório autoritário, arrogante e moralista. Por exemplo, reparo que nunca gagueja em «obviamente», advérbio que lhe é muito caro.

*** Sic. Se o ridículo matasse...

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Música

Lua
Como é possível não nos comovermos ante estes nove minutos e picos de tão prodigiosa, imprevisível e delicada beleza?
Não sei descrever a minha experiência senão próxima do êxtase.
Até onde este favorito dos deuses vai reinventar os caminhos da harmonia?
Ou me engano muito ou Jacob Collier marcará o século XXI. Pelas melhores razões. Com infinita pena não estarei cá para confirmar; mas podem sempre enviar-me um etéreo-mail...
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Tão gratificante ver ali, entre os violinos (segunda, da esquerda para a direita), Susan Collier, a mãe; ditosa mãe que tal filho pôs no mundo em 02.Ago.1994.
E a voz da nossa Maro [Mariana Secca], céus!?

domingo, 3 de novembro de 2019

Novilíngua assustada

Vejamos:
  • "Grupo de 20 maoris, em excursão pela Europa, esgotou as pastilhas de mebocaína nas farmácias de Aveiro"
  • "Grupo de 20 vândalos britânicos embriagados entornou 100 caixotes do lixo em Albufeira"
  • "Grupo de 20 índios incendiou a embaixada de Portugal"
  • "Grupo de 20 maometanos radicalizados escavacou os crucifixos da Sé de Lisboa"*
  • "Grupo de 20 mamadubás, infiltrado por uma maviosa joacine, passou a noite em vigília de oração e louvor aos pés da estátua do Padre António Vieira"
  • "Bombeiros de Borba** Agredidos - Grupo de 20 pessoas partiu o vidro das instalações e forçou entrada"
  • "Grupo de 20 paralíticos berberes esvoaçou esta manhã nos céus do Gerês"
  • "Grupo de 20 rosamotas enfurecidas atacou com gás mostarda o dono e o gerente de uma cervejaria"*** 
Dos oito títulos noticiosos supra só não se entende inteiramente o de Borba, recorrente ao longo do dia de ontem nos oráculos da TVI24. Ouvi com atenção o testemunho de três dos quatro voluntários que estavam de serviço na madrugada do ataque; escutei atentamente o ministro Cabrita; acompanhei vigilante a vó zofe da jornalista da TVI. Fui dormir sem que no discurso de ninguém surgisse a palavra indispensável à compreensão cabal da refrega alentejana. 
Esta manhã, depois de pôr em dia António GuerreiroÁlvaro Domingues, Pedro Mexia,  Ana Cristina Leonardo, Jorge Calado, Afonso de MeloAntónio Araújo, João Lopes, Maria do Rosário Pedreira e Rogério Casanova, **** fui à procura no infecto Correio da Manhã — onde escrevem, entre outros, José Rentes de Carvalho, Rui Zink, Rui Pereira, Francisco José Viegas, José Jorge Letria, Fernando Ilharco, Maria Filomena Mónica, Marcos Perestrello, Mário Nogueira, António Rego, Adolfo Luxúria Canibal, João Pereira Coutinho, Joana Amaral Dias, Eduardo Cintra Torres..., mas jamais os imaculados impolutos assépticos Daniel Oliveira, Valupi, Inês Pedrosa ou Pedro Marques Lopes —, a ver se relatava o sucedido de maneira verosímil e entendível. Mas tá quieto, ó preto. Quando nem o CM elucida a notícia, qualquer coisa séria se passa. A mim cheira-me a proibição dos médicos.
Não conformado, prossegui na demanda. Nada difícil, de resto: ao primeiro toque no Campanário, fez-se-me a luz de que suspeitava.

Concluindo, moro num país onde os mastins da irreplegível Censura Moral Pretoriana do Politicamente Correcto são prontamente açulados contra quem ouse pensar, dizer ou escrever em público coisa tão simples, compreensível e objectiva como, por exemplo, «Grupo de 20 ciganos partiu o vidro das instalações e forçou a entrada».
Estamos fodidos. Não que os ciganos não sejam pessoas antes do mais, que são; mas também são nobre e garbosamente ciganos, e isso às vezes pode contar muito num jornal, nas declarações dum ministro, na boca dum bombeiro ou num rodapé da televisão.

Tentarei no verbete seguinte mostrar que, apesar de tudo, a humanidade não está irremediavelmente perdida. 
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* Soam-me bem os bês de bombeiros de borba.
** Esta até a activista ateia anticonfessional, salvo quanto a São Manel, Fernanda Câncio publicaria, com prazer e sem espinhas, tanto mais que mora perto.
*** Para que aprendam a não vender apenas Super Bock.
**** Se isto não é Plúvio a gabar-se, que xaropada de neimedroping é esta?

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Para lamentar [1]

«Parlamento - Do francês parlement, de parler, falar, originário do latim parabolare, falar. Origem etimológica da expressão (dizia-se da conversa dos monges nos claustros depois das refeições principais; diz-se do discurso que se faz em público numa assembleia) [...]»
- "Repertório Português de Ciência Política", de José Adelino Maltez

Assim, se este modo de intervir no parlamento não é uma aberração, é o quê?
Como se não bastasse a sintaxe defeituosa; constando, no entanto, que a deputada se doutorou no ISCTE

Apetece pensar que ao Rui Tavares, que ultimamente se revelou, para minha já aqui admitida decepção, um político oportunista do piorio, é bem capaz de lhe morar lá no fundo um refinado e alternado sadomasoquista. Com efeito, RT e o seu partido parecem comprazer-se no espectáculo grotesco e penoso a que sujeitam a rapariga.
Afinal e como diria o insigne conceptualista português Toy, «nada substitui aquilo que somos enquanto âmago de essência.» 

Já agora, não me inibo de achar que Joacine Katar Moreira está para a cidadania como Nelson Évora ou Pedro Pichardo estão para o triplo-salto lusitano.
Portugal (ainda) é uma terra de oportunidades. Bem hajam os forasteiros que com honradez as almejam e granjeiam.

E não, nada me anima contra a deficiência. Respeito-a. Eu mesmo sou filho de um deficiente, nada garantindo sequer a minha sanidade.

domingo, 27 de outubro de 2019

Horror e pornografia

O antigo cauteleiro, comunitário por antonomásia, não esconde o horror com que encara a próxima eventual aquisição da TVI pela Cofina, como se a SIC, em que é comentarista residente, e a TVI, cuja salubridade tanto o aflige agora, não vicejassem também, a par e a reboque da CMTV que ambas mimetizam — olha o "share" —,  na indústria da alienação e imbecilização colectivas [Cristina Ferreira, crime, novela, bola, Cristina Ferreira, 760760760 ligue já!*, bola, calcitrin, crime, Cristina Ferreira, bola, novela, bola, crime, 760760760 ligue já!*, Cristina Ferreira, moscambilha]:

«[...] O silêncio sepulcral sobre este negócio diz tudo sobre o poder da Cofina e a cobardia e a apatia de uma comunidade inteira. [...]
Será que o medo de uma primeira página do Correio da Manhã ou de um alerta CM os faz esquecer dos seus deveres para a comunidade? A perspectiva de ter a equipa da Cofina a gerir um canal de televisão com a dimensão da TVI é um evidente assunto político. [...]
Só há uma explicação plausível para o silêncio ensurdecedor dos vários actores políticos sobre este negócio: cobardia. Como também só há uma explicação para a apatia da comunidade, que aliás consome os produtos CM e consumirá cada vez mais: desconhecimento das consequências que este negócio trará para a nossa liberdade e para a nossa democracia. O problema é que quando descobrir será demasiado tarde.»

Meu santinho Nuno Artur,
não sejas também cobarde.
antes de que seja tarde.

Entretanto e em directo, assistira-se no serão de quinta-feira, 24 de Outubro, a oito minutos de rara e pornográfica indigência televisiva. Foi quando, no final do "Eixo do Mal", cinco ex-"assalariados" de Nuno Artur Silva, doravante do sobrinho André — Aurélio Gomes e Daniel Oliveira no Canal Q e no "Eixo do Mal"/SIC; Luís Pedro Nunes no "Inimigo Público", Canal Q e no "Eixo do Mal"; Clara Ferreira Alves e Pedro Marques Lopes no "Eixo do Mal" —, desataram num uníssono e inaudito coro de desagravo e louvor do amigo patrão:
O comunitário- Temos esta campanha absolutamente nojenta contra esta pessoa. ... Onde é que aqui há questões éticas? Onde é que aqui se pode acusar seja lá do que for?
Clara- Eu secundo o que disse o Pedro, evidentemente, e provavelmente o que vai dizer o Luís Pedro...
Daniel- Posso pôr aqui as minhas mãos no fogo...
Aurélio- Muito bem!

Também me enojei. Esta gente não se enxerga?

A palavra a João Quadros, que saberá do que fala,** comentando a cena:
«[...] Ahahah. Foi quem [Nuno Artur Silva] lhes arranjou o tacho [aos do "Eixo do Mal"] e o Nuno foi para a RTP depois de uns jantares em casa da Clara com o Poiares Maduro. [...]
O Pedro Marques Lopes, que eu conheço desde puto, andou atrás de mim para lhe apresentar o Nuno - “Porque queria ser conhecido”. O gajo é podre de rico. Herdou do pai que era dono do Pão de Açúcar, etc.** [...]
O Nuno pôs o gajo [Luís Pedro Nunes] a director do "Inimigo Público". [...]
O mais giro é que fui atacado quando o Nuno Artur Silva foi para a RTP e disse que já não tinha nada a ver com as Produções Fictícias. Agora anunciam que ele vendeu as PF esta semana. [...]
Este é o gajo  por detrás do poder. O advogado é chefe dos GOL maçons. Ex-ministro da Cultura. Foi sócio das PF - Pinto Ribeiro, marido da Anabela Mota Ribeiro. Número um do GOL [Grande Oriente Lusitano]. Por isso o Artur é maçon.»
Falando-se de NAS nos últimos nove minutos do "Irritações" de 15.Jan.2015, na SIC Radical, João Quadros desalinha dos quatro compinchas [por exemplo, José de Pina, Conheço o Nuno desde os 16 anos ...]:
«... A gestão das coisas que eu conheço do Nuno é muito má. Das pessoas, etc. ... uma coutada onde só alguns entram, dos amigos e de quem não é contra ele ... Odeio coutadas ...», contando coisas sombrias das Produções Fictícias.
43:00-52:00   

Mais: "João Quadros a insultar Nuno Artur Silva, administrador da RTP"

Fátima Rolo Duarte, 24.Fev.2018: O Nuno Artur Silva mexe-se, mergulha em apneia e a cavalo no peculiar universo das cabalas. [...] Porra, 3 vezes Porra. Este é o pequenino Portugal que me irrita como o caraças.»

Finalmente, Eduardo Cintra Torres: «[...] E há Artur Silva, o eterno pedinchão de subsídios, contratos e tachos. [...] Tudo legal. Tal como a sua ministra, pode recomprar no dia em que sair do governo. Controlando o orçamento da Cultura, já há vermes arrastando-se para o Palácio da Ajuda. [...]»
"De familygate a businessgate" | CM, 27.Out.2019
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Já me esquecia do 800 500 900.
** Enganou-se no Pão de Açúcar. Era o INÔ. E podia ter referido o BPN/Sociedade Lusa de Negócios.

sábado, 26 de outubro de 2019

Não confundam o futuro, bolas!

António Costa, Primeiro-Ministro, pelo meio dia de hoje, no Palácio da Ajuda:
«O futuro não começa amanhã. O futuro é já agora, é já hoje.»

Então o futuro não tinha começado em 25 de Abril de 2008 no Palácio de São Bento, foda-se?
«O futuro começa agora.»
Aníbal Cavaco Silva

Em que ficamos, afinal?
«A hora ainda muda este domingo. No futuro logo se vê.»
JN, 26.Out.2019

Enfim.
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Mãos à obra.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Para os devidos efeitos,

ao Eremita - Vasco M. Barreto -, com admiração.

Muito obrigado pelo seu escrito que me inquietou na parte das «insinuações a roçar a calúnia».

Ser, como sou, pela inversão do ónus da prova na suspeita de enriquecimento ilícito nada tem de extravagante. Muito séria e qualificada gente o propugna, é coisa comum na ordem jurídica de vários Estados de direito democrático.
Jamais me passaria pela cabeça insinuar que o pouco ou muito dinheiro de Pedro Marques Lopes lhe tenha chegado à posse por caminhos de ilicitude; não sei nem é da minha conta de que modo enriqueceu, se enriqueceu. É, citando o próprio falando de si, um ex- «merceeiro, gasolineiro, cauteleiro, bancário» com fortuna? Vive com «desafogo financeiro» como, segundo o Vasco, consta ser «mais ou menos público»? Parabéns, bom proveito lhe faça.
Não conheço nenhum rico em Portugal que morra de amores pela inversão do ónus. PML tem-na repelido. Está no seu direito e repito: «Ele lá saberá» porque a repele.
Relendo com serenidade o que escrevi, admito que deveria ter anteposto o «cardo de fúria» ao conjunto, por igual e não apenas a um, dos cavalos de batalha por que PML  tão ardorosamente vem combatendo em prol da sanidade da Justiça:
- pela absoluta presunção de inocência;
- pelo absoluto segredo de justiça;
- absolutamente contra a delação premiada;
- absolutamente contra a inversão do ónus da prova. *
Reconheço que não fui feliz na ênfase do último.

Quanto a AV, escrevi e mantenho, «conviria conhecer um pouco melhor, começando talvez pelas competências, currículo escolar e profissional, o agora deputado André Ventura antes de excretar, com a voz iluminada pela ignorância, os lugares-comuns e os estereótipos do susto fascista.» E depois incluí o Vasco M. Barreto num pequenino rol exemplificativo de opinantes no espaço público que, quero crer que por informação deficitária, não conhecerão a personagem com a extensão e a profundidade requeridas a tipificação ideológica fundamentada. Dele disse o Vasco, perdão, o Eremita, 20.Jul.2017, «André Ventura não será um racista mas um oportunista, um cínico, um manipulador, enfim, um populista.». De facto, não sei de que alguma vez lhe tenha posto penas de fascista. Peço-lhe por isso, e pelo excesso, desculpa.**

Também continuarei a ler o OURIQ com prazer. E enorme proveito da minha literacia. Apesar de tudo.

Bobadela, 22 de Outubro de 2019, dia de S. João Paulo II, Papa***, Dia Internacional da Gaguês. Em próximas edições, conto ver no Borda D' Água «feriado em Grândola ... e no Livre».
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* Pedro Marques Lopes não passa sem «absolutamente».
** Isto hoje é cá um ordálio para o Plúvio... Há dias assim.
*** Dos sete Papas em que vou, o de que menos gostei.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Tavares, Ventura, Saraiva, Tolentino e o mais

Faz três semanas, penitenciei-me por em Maio passado ter votado no doutor Rui Tavares para Estrasburgo. Lembrar isso ainda me envergonha. 
O historiador Rui Tavares, que por também tocar trombone e a mulher flauta e saxofone me suscitava vaga simpatia, revelou-se-me na recente campanha das legislativas, com Joacine Katar Moreira no andor, um pantomineiro tão cínico, oportunista e demagogo como qualquer pantomineiro cínico, oportunista e demagogo usa ser. O topete eleiçoeiro de RT culminou no "Acabou-se a sorte", em que no Público de 09.Out.2019 se queixa, calimero sem dinheiro para outdoors, e esperneia e dispara contra o dr. Pedro Passos Coelho, presuntivo pai político do professor doutor André Claro Amaral Ventura, sem nunca lhe mencionar o nome — isso não lhe fica bem, ó Rui Tavares —, que ao ser eleito, tão democraticamente como a sua criatura Joacine, já agora com mais 10654 votos globais do que o Livre obteve, vai encharcar de peçonha o Palácio de S. Bento e trazer o apocalipse à República Portuguesa. 
Pego nestes nacos:
«[...] Mas agora apareceu um fala-barato um bocadinho mais organizado — ou, nas palavras de um dos seus antecessores mais azarados e azedos*, “um oportunista levado ao colo pela comunicação social, cheio de dinheiro, com outdoors em todo o país”, e eis que a extrema-direita entra no parlamento português. [...]
Chama-se Pedro Passos Coelho. Foi primeiro-ministro do nosso país e presidente do PSD. Foi ele quem chamou um então advogado e comentador desportivo para ser candidato do seu partido à Câmara de Loures nas últimas autárquicas. [...]»
Será da minha presbiopia mas não me lembro de nenhum outro partido como o Livre, para não falar da própria pessoa de RT, com os sucessivos resultados pífios nas eleições em que se envolveu, que no último lustro, desde a fundação, tenha tido e continue a ter tanto colo na comunicação social (RTP, SIC, TVI, Canal Q, Público, Diário de Notícias, Expresso...), não falando da matilha urbanoesquerdóide de plumitivos invariavelmente baptizados no Lux Frágil que em todas as redes o apaparicam e promovem. Pelo amor da santa, senhor doutor! Tenha decoro.
E para que conste, ilustre historiador, «então advogado» coisa nenhuma: André Ventura, jurista mas não, sequer «então» (2017), advogado. Limitou-se a um estágio em advocacia, em 2006/2007, sem seguimento profissional.**

É em tal entendimento que subscrevo, palavra por palavra, o que José António Saraiva escreve no Sol de ontem, 19.Out.2019, "A gaguês como arma política", acerca de Rui Tavares e da candidatura da doutora Joacine Katar Moreira.
De resto, quero que o doutor Rui Tavares se foda. E continuarei, como sempre, atento ao que ele, e todos os outros, fazem, escrevem, dizem.

Por falar em Joacine, dei-me ao exercício estóico de escutar os 27 minutos sem gaguejos — aleluia! — do chorrilho de banalidades com que, em 4 de Outubro corrente, no Auditório Camões, em Lisboa, ela encerrou a campanha, «unidos e unidas naquilo que nos une, todos e todas», rematado com a quinta-essência da hinologia contemporânea, "O sem precedente", pelo Fado Bicha
André e. Teodósio, paneleiro estimável de que falei "Na morte de um taberneiro bem sucedido", chamou aos tais 27 minutos, com ponto de exclamação e sem pagar multa,
Ó Teodósio, pá, que conheces tu de discursos, de história, ou de política em Portugal? Que sabes tu de Portugal?
Ora coteja aí a Joacine com, por exemplo, um ao calhas, Jorge de Sena na Guarda, no "10 de Junho" de 1977. Que tal?
Lê, pá, sai do palco e vai ler, que no «século XXII» — em que a tua Joacine, foi ela que o proclamou, vai ser deputada — ainda não há nada que se aprenda.***
______________________________________________
* Outro de que Rui Tavares, arrogante e mal-criado, também não diz o nome:

** Não gosto nem gasto de André Ventura, conto tê-lo dado a entender aqui. Conheço-o razoavelmente pelas publicações na imprensa; cruzámo-nos uma vez, nas autárquicas de 2017, numa tarde em que andou na Bobadela-Loures a apregoar-se. Ripostei o passou-bem que, simpático e delicado, pediu autorização para me dar — «Posso cumprimentá-lo?» —, e disse-lhe «Obrigado.» pelas duas esferográficas de caca que me ofereceu com a inscrição «primeiro Loures». Votei CDU, relembro. Pelo clarinete. Mas não vá o prestígio do Plúvio ter acabado de cair na desonra, declaro já por minha honra que não senti necessidade de lavar as mãos a seguir.
Enfim, conviria conhecer um pouco melhor, começando talvez pelas competências, currículo escolar e profissional, o agora deputado André Ventura antes de excretar, com a voz iluminada pela ignorância, os lugares-comuns e os estereótipos do susto fascista.
Quero crer em que a alguns desses não ou mal informados [ocorrem-me, além de Rui Tavares, Ricardo Araújo Pereira***, Daniel Oliveira, Isabel Moreira, Joana Gorjão Henriques, Vasco M. Barreto, Pedro Marques Lopes, Inês Pedrosa, Carmo Afonso, Ana Matos Pires...] causará surpresa, por exemplo, a ligação de André Ventura ao inefável, escorregadio e ubíquo José Tolentino Mendonça**** ou certos aspectos pouco conhecidos da sua vida e do seu pensamento.

*** Mas deixem-me, por 22 segundos, imaginar o século XXII de Rui Tavares e de Joacine Katar Moreira. Uma sociedade 100% inclusiva em que os anósmicos fabricarão perfumes, os disgeusíacos chefiarão as cozinhas e escolherão os vinhos, só a bicheza e o fufedo procriarão, todos os amblíopes serão neurocirurgiões, os amputados tocarão guitarra e praticarão pentatlo moderno...; e, claro, um parlamento 100% inclusivo: 230 deputados exclusivamente afrodescendentes, boémios, sino-ameríndios, esquimós, monhés e algarvios. Nessa altura o hino nacional será "O-SEM-PRECEDENTE". Isto, se entretanto os netos de Cristina Ferreira não tiverem revogado a Constituição e reconfigurado as fronteiras.   

**** Então não é que o Ricardo esteve com a Joacine no matrimónio da Bárbara, catequista dela***** [vê-se no que deu a catequese: activista radical, feminista radical, antifascista radical, anti-racista radical, pró-LGBTuvwxyz radical, preta radical, ruitavarista radical, gaga radical] ... celebrado por quem, por quem? O Tolentino, tinha de ser. Isto anda tudo ligado:
«[...]
- Ó mãe, como é que nunca nos disseste que a Joacine é gaga?
Joacine Katar Moreira: uma activista negra a caminho do Parlamento?
- Como é que vocês sabem?
- Esteve no Ricardo.
“No Ricardo” é o programa Gente Que não Sabe Estar, por onde passaram tantos candidatos e políticos nos últimos tempos para conversar com Ricardo Araújo Pereira, na TVI.
- Que engraçado! A Joacine e o Ricardo nem sabem que já se tinham cruzado antes na vida, foi no nosso casamento... Sabiam que o padre Tolentino vai ser ordenado cardeal? 
- Ó mãe, isso agora não interessa nada! Como é que nunca nos disseste que é gaga?
A pergunta intriga-me. O que lhes terei dito sobre a então candidata do Livre, hoje deputada eleita à Assembleia da República? Conheci-a há mais de 20 anos, era ela adolescente e dei-lhe catequese. Quando a vi nos cartazes, comentei-o com os meus filhos e disse-lhes que então Joacine tinha longas tranças e que já era alta e bonita como é agora. Mantém os mesmos olhos curiosos, mas também desafiadores.
[...]»
O Tolentino tem cá uns groupies — Assunção Cristas,  Laurinda Alves,  Maria João Avillez,  André Ventura ... —  que não sei se diga, se conte. 

***** [Cinco asteriscos, caralho!******]  Com esta é que a Fernanda Câncio, laica e ateia radical militante, se passa; logo ela que ama com efusão a Joacine. Mas como também adora o Conan, a coisa pode ser que se componha.

****** Isto é, apre!

Foi assim.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Público - 18 sentidos e uma sentida, com rodapé

Como por aqui às vezes confesso, engalinho e uso dar um passo atrás de reserva ou desconfiança ante expressões ou afirmações como «falando honestamente», «para lhe ser sincero», «meus sentidos pêsames», «sentida tristeza», «muitos parabéns», «honestidade intelectual», «tenho a consciência tranquila» e quejandos. Os advérbios e os adjectivos soam-me a candonga mental.
Por exemplo, no Público de anteontem, 16 de Outubro, ao fundo da página 18, em que se noticiam prémios de jornalismo e eleições na Ordem dos Enfermeiros, chama-nos a atenção um destaque de aparência poética, sem qualquer indicação de "Publicidade" ou contextualização, que reza assim:

«HOMENAGEM
Patricia KERVIEL & Etienne GUILLÉ
Eminentes cientistas e investigadores franceses, deixaram este plano de realidade.
Pelo seu grandioso legado, pelo contributo dado à humanidade com a descoberta da Ciência dos 18 Sentidos e da Linguagem Quântica da Vida e pelo muito que nos ensinaram, nunca serão esquecidos. Ficarão eternamente nos nossos corações.

O Movimento de Pensamento
da Linguagem Quântica da Vida
presta-lhes uma sentida homenagem.»

Nestas circunstâncias, fico sempre a imaginar como seria a prestação solene e pública de uma homenagem não sentida.

Mas não é só nem principalmente por causa da «sentida homenagem» que venho agora.
Dando de barato que o Público, que leio sem falhas desde o número 1, de 05.Mar.1990, é jornal minimamente asseado, comecei por sentir que «Eminentes cientistas e investigadores» seria coisa para a secção "Ciência" e não para a "Sociedade" que é onde meteram a homenagem. Mas mal li «Ciência dos 18 Sentidos» cheirou-me a esturro exotérico e comecei a achar, uma vez mais, que este diário, que não tem páginas de "Relax" como o circunspecto JN ou de "Convívio" como o sensacionalista CM, dois que também assino*, deveria ser mais prudente em pôr à vista, sem qualquer precaução, pornografias destas.
Patricia Kerviel e, perdão, & Etienne Guillé não me diziam nada. Guglei. Fica o essencial para o meu leitor que tem sempre coisas mais edificantes para fazer.
Étienne Guillé [1937-2018] era este cientista guru de seita seviciante.
Patrice Kerviel [? -2008], filha e discípula de Guillé, figura tutelar do movimento "La Grande Mutation", morreu de cancro na mama, tendo recusado tratamentos convencionais — da, como eles alcunham, medicina alopática —, para, cito, «preservar o seu ser celeste». História mais pormenorizada, aqui. No decénio de 90 do século passado, a 'madame' Kerviel andara por cá com o marido a evangelizar:
«[...] 2 - O apoio didáctico à leitura alquímica da obra de Étienne tem sido dado, em Portugal, por Patrice Kerviel, sua filha e mais fiel transmissora do seu pensamento, e Jean Noel Kerviel, o casal que, desde há cinco anos, realiza regularmente em Lisboa seminários sobre Radiestesia e Alquimia. Esse trabalho de transmitir informação sobre o método iniciático de Étienne Guillé tem sido coadjuvado, através dos chamados "seminários intercalares", por alguns portugueses, nomeadamente Maria Correia Pinto (a primeira pessoa que em Portugal descobriu Étienne), Manuel Fernandes, Afonso Lopes Vieira e José Carlos Alverca.
Face à complexidade da abordagem realizada por Étienne, é urgente, no entanto, que sejam criados Grupos de Estudo para afinar e aprofundar o imenso trabalho que a obra de Étienne reclama. E, mais tarde, será necessário que surjam grupos de 'recherche', tantas vezes sugeridos por Patrice Kerviel, a mais fiel intérprete do método iniciático criado por Étienne Guillé. [...]»
Talvez dê para perceber quem terá pago ao Público a sentida homenagem.

Vale-nos que o Público num dia acolhe aquilo e no dia seguinte, ontem, traz decoro às coisas, desta vez, bem, na secção "Ciência":

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Público desmazelado
- André Gonçalves Pereira morreu em 09.Set.2019. Decorrridos 40 dias, continua a pontificar no Conselho Consultivo do jornal, decerto aconselhando e consultando agora  a partir do seu assento etéreo.

- Desde Março de 2013 que o magnífico António Guerreiro está no Público: todas as sextas-feiras, numa coluna que inicialmente se chamava "Estação Meteorológica" e agora se chama, desde Outubro de 2018, "Acção paralela" / "Livro de recitações"; isto, a par de entrevistas, recensões e peças ensaísticas esparsas. Sucede que a gente vai à lista de autores, organizada por ordem alfabética, e António Guerreiro nicles. Em 31.Mai.2017, numa visita às instalações do Público em Lisboa/Alcântara, interpelei directa e pessoalmente o David Dinis, na altura director, quanto a esta lacuna. Ficou muito admirado e disse-me que ia ver do assunto. Até hoje.

- No tal módulo "Autores", cada um deles é apresentado, em regra, numa ficha, mais ou menos sumária, de modo geral redigida pelo próprio. O problema é que raramente cuidam das datas que marcam os seus trajectos e, como a ficha também não tem data de edição, multiplicam-se anacronismos disparatados aos olhos do leitor que consulta a informação e a toma naturalmente por correcta e actualizada no momento da consulta. O caso de Miguel Esteves Cardoso é paradigmático da falta de cuidado. Escreve ele:
«[...] Eu sou uma pessoa feliz, apaixonada pela Maria João, com quem vivo há quase 13 anos. [...]» Assim posto, ficará a viver com a mulher perpetuamente há quase 13 anos. Acontece que MEC casou com Maria João Pinheiro em 2000. Pelo que coabitam há pelo menos 19 anos. Está na cara que o texto de apresentação foi escrito por alturas de 2013. Etc.
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* Quero contrariar com afinco gente como Daniel Oliveira, Pedro Marques Lopes, Valupi ou a doutora Câncio: aprende-se muito nos esgotos a céu aberto e nos caixotes do lixo. Pobre de mim, quão mais ignaro e enganado continuaria se ignorasse o que estes urbanos progressistas repudiam.
A propósito, preparo-me para brevemente desmontar aqui, argumentando com provas copiosas da competência cultural e linguística do bicho, um dos mais sonantes embustes no comentarismo na comunicação social portuguesa: Pedro Marques Lopes.
Fâmulo lombricóide de Jorge Nuno Pinto da Costa, amigo querido, tardio — Parabéns, pois, querido Pedro, do prosador exímio Ferreira Fernandes, inquilino no colo de Fernanda Câncio, opinante global avençado pela Global Media Group, pelas Produções Fictícias e pela SIC, «ex-merceeiro, ex-cauteleiro, ex-gasolineiro, ex-bancário, ex-funcionário de telecomunicações, consultor, empresário, gestor, jurista, colunista, comentador, pai e tripeiro em regime de exclusividade», descodificando  e trocando por miúdos conforme informação dispersa na internet, filho de Domingos Marques Lopes [antigo Secretário da Mesa da Assembleia Geral da SLN, antigo Presidente do Conselho de Administração da Sociedade Imobiliária da Fábrica do Gelo, SA, no universo de Oliveira e Costa/BPN, fundador e antigo accionista maioritário da rede de supermercados Inô, adquirida em 1993 pela Jerónimo Martins, antigo Presidente do Conselho de Administração da Casa da Sorte, etc.], dele diz o Eremita, 14.Out.2019, que «mais ou menos público é o desafogo financeiro da sua família.» E se é o doutor Vasco Barreto a dizê-lo, pouco espantará se o doutor Pedro Marques Lopes tiver gastado em 1999 a quantia de 436.450,00 euros numa moradia unifamiliar de 350 m2 na Quinta do Peru. É obra! Por estas e outras, espanta-me um pouco menos que um dos horrores que mais atormentam Pedro Marques Lopes na justiça — Eu tenho medo... —, a par das ofensas à presunção de inocência, da violação do segredo de justiça (praticada sempre pelo Ministério Público, jamais pelos advogados ou por outros sujeitos processuais) e da "delação premiada"**, é a ideia de algum dia vir a ser acolhida por cá a inversão do ónus da prova no enriquecimento sem causa. Sempre que lhe falam nisso vislumbra-se um cardo de fúria a emergir-lhe na careca. Ele lá saberá; mas calhando, eu é que estou alucinado.
Em tempo: leia-se, por favor, isto.

** Quando Margarida Balseiro Lopes, que Pedro Marques Lopes tanto gabou no Eixo do Mal e no DN a propósito do discurso da deputada e líder da JSD na Assembleia da República em 25 de Abril de 2018, veio propor a consagração jurídica da delação premiada, veja-se como PML logo reagiu.

sábado, 12 de outubro de 2019

Tabuada do 4

Às 00h19 de 07.Out.2019, a estação pública televisiva informava:
- O PAN conseguiu um grupo parlamentar; quadriplicou o resultado de 2015.
Soou-me a descomedimento de jornalismo quadriplicante, qualquer coisa ali não bateria certo. Por isso, montei-me na máquina do tempo — bocse, em português vernáculo — e fui confirmar. A RTP não se enganara. Momentos antes, no jardim do Palácio Pimenta, em Lisboa, André Lourenço e Silva, licenciado em Engenharia Civil pelo Instituto Superior de Engenharia de Coimbra, capataz do PAN [Pessoas-Animais-Natureza], tinha acabado de proclamar, letra por letra:

Pensando bem, donde me vinha a estranheza? Acaso, não é este o país em que toda a gente, gente de prestigiantes e consagradas qualificações — doutor Eurico Brilhante Dias, doutor Pedro Passos Coelho, doutor Daniel Oliveira, doutor Rodrigo Moita de Deus, jornais como o Público ou o Diário de Notícias —, quadriplica? Não dera já o próprio Plúvio conta disso?
Já a doutora Teresa Caeiro quadriplicava prisões, por coincidência frente-a-frente com o acima referido brilhante doutor Eurico; Daniel Oliveira, sim, o mesmo doutor Daniel, mestre em jornalismo, com estes pergaminhos escolares, voltou a quadriplicar nos «apoios e coisas deste género»; para não falar do multímodo bem-falante pomposo e apessoado doutor João Gobern que «do ponto de vista privado deveria quadriplicar» [Antena 1, 10.Fev.2018, minuto 43:35] ...

Enfim, pouco sobra com que me espante nesta terra de tanto asno quadrípede.**

Dobro, triplo, quádruplo, quíntuplo...
_____________________________________
* E não, engenheiro André, o seu grupo parlamentar, três mulheres e um homem,  não é «o único em que os homens estão em minoria»; o CDS elegeu três mulheres e dois homens.
A despropósito, ó doutor Pitta, porque não nomeia os quatro eleitos «assumidamente» paneleiros e as três eleitas «assumidamente» fufas? Não entendo e irrita-me essa meia caixinha. Assim, nunca saberemos se a Joana Mortágua conta.

** Por via das dúvidas...

sábado, 5 de outubro de 2019

Luís Lopes, comentador de atletismo

Gosto de atletismo.
O mundial de 2019 decorre em Doha.
Luís Lopes, o melhor comentador de atletismo do universo, sorte nossa, é quem comenta na RTP. Sigamo-lo, por exemplo, na jornada de ontem, 04 de Outubro. É ou não um manancial generoso de conhecimento? 
No que toca a Luís Lopes [Lisboa, 14.Out.1955, licenciado em Direito], repristino e reforço os verbetes aqui publicados em 10.Ago.2012 e em 22.Ago.2016.

Não fecho o rabisco sem uma brincadeira que agora me ocorreu, à moda — pobre de mim — do Dalai Lima*, avalanche magistral e insuperável de trocadilhismo polissémico inteligente e culto**:

Atletismo incontornável
Nos 100 e nos 200 metros planos, nos 100 e nos 110 metros barreiras, não há volta a dar.
__________________________________

** E se fosses menos palavroso, ó Plúvio?